João Batista Barbosa

O presente texto, na verdade, é um relatório de um encontro ocorrido no Sítio Café do Vento, aos 17 de setembro de 2017, com o objetivo de debater o texto base, intitulado INSTITUIÇÃO E CARISMA, À LUZ DA TRADIÇÃO DE JESUS, que faz parte das atividades referentes a VII SEMANA TEOLÓGICA PE. JOSÉ COMBLIN. O encontro intitulado de Jornada Comunitária, iniciou-se com um processo de apresentação, com um grupo formado por aproximadamente 20 pessoas de diferentes localidades.

Durante as reflexões, surgiram vários questionamentos/posicionamentos referentes a cada um dos parágrafos lidos relacionados com a vivência de cada um daqueles que se encontravam no espaço e das práticas/vivências de suas respectivas comunidades.

A primeira grande discussão estava relacionada com o termo “Teológica”. Para quem estava presente, a grande impressão seria que o “estudo de Deus” não poderia ser realizado por leigos sem formação. Contudo, logo foram aparecendo situações comunitárias que demonstravam exatamente o contrário.

Nas comunidades estão surgindo grupos de jovens que desenvolvem ações de dança e teatro, grupos de estudos bíblicos e de casais que estudam a Palavra. Assim, percebeu-se que a Teologia não estava tão distante de cada um desses grupos, que não estão alinhados com nenhum movimento da Igreja, ficando claro que as comunidades, principalmente, aquelas que existem no interior das paróquias, com uma grande diversidade, põe em prática a aproximação entre a Teologia e o povo.

Assim, a Teologia não pode se distanciar de povo de Deus, porque esse povo de Deus faz parte da própria Teologia. Importante lembrar que esse processo de aproximação se dar justamente com o Concílio Vaticano II e no Brasil pela ação dos padres que seguiam a orientação da Teologia da Libertação. Contudo, esses pressupostos de luta pela terra e por igualdade social perderam força dentro da igreja, minimizando argumentos de tão valiosa discussão.

Com a queda da atuação dos movimentos pastorais, das CEB e o definhamento da Teologia da Libertação, ressurge novas linhas conservadoras e reacionárias de pensamento, manifestadas principalmente, com o alarmante crescimento das diversas igrejas protestantes pelo país. Sem contar ainda que alguns setores católicos, apoiados por uma série de pensamentos políticos, estão surgindo e ganhando força por meio de meios de comunicação, e que conseguem a cada dia, ampliar sua “área” de atuação e alcançar um maior número de fieis.

Vemos ainda, nos últimos anos, que a Igreja Católica no Brasil assiste ao definhamento de sua influência e, no entanto, suas principais lideranças estão incapacitadas de responder aos inúmeros desafios que se apresentam em razão de suas concepções tradicionais e conservadoras, mais adequadas a um país rural e oligárquico, do que urbano e industrial (ou que ao menos passa por um rápido processo de modernização).

Diante do dilema entre pensamento conservador e renovador, discutiu-se a ideia de Igreja com aspectos carismáticos e estrutural. Assim, aproximar a teologia do povo, foi chamado pelo Padre José Comblim de Teologia da Enxada, que era uma formação humanística, onde os estudos eram conciliados com trabalho e com a aproximação aos sofrimentos do povo de Deus.

Diante dessa discussão, mais uma vez surgiu a questão da tradição estrutural da Igreja que chamamos de Instituição. Debateu-se que a instituição é formada por homens que estão alheios aos problemas dos mais pobres e das comunidades mais distantes e rurais. Percebemos que as mudanças nas estruturais institucionais não interessa a essas pessoas e que muitas vezes, além de não possuírem uma formação embasada na tradição de Jesus, se apegam a tradição do dinheiro e do poder.

Isso ocorre por exemplo, quando vemos poucos padres querendo assumir paróquias tidas como “pobres” ou que não estão em áreas abastadas. Comunidades de periferias são abandonas a própria sorte e seus coordenadores, maus formados, dificultando ainda mais a vida desse povo de Deus. Diante do abandono, esse povo esperançoso e de fé, aguardam palavras de conforto e de esperança. E é nesse povo que as denominações protestantes encontram “chão” para seu crescimento.

Reconhecemos a falta de padres para atuar em todas as comunidades, sendo esse um dos motivos para se discutir a ordenação diaconal de leigos casados para administrar essas comunidades, auxiliando os administradores paroquiais. Contudo, com o enorme tamanho do país, a ordenação diaconal não será o suficiente, uma vez que em áreas distantes da Amazônia, muitas localidades só têm “direito” a Comunhão uma vez por ano. E a Instituição deve também pensar nesses católicos e encontrar uma solução.

As comunidades rurais não tem dinheiro, mas tem muito amor e exemplos de fé e dedicação para serem dados. Geralmente, acolhem muito bem padres, missionários e evangelizadores, por não terem um padre por perto, sabem valorizar com muito carinho os enviados de Deus. Conta ainda que muitos lavradores se colocam numa condição de inferior ao saber do padre, uma vez que possui pouco estudo e que aprendeu desde muito cedo a respeitar a autoridade do padre.

Somando a essas dificuldades, a Igreja do campo e da cidade passa por um processo de envelhecimento. Seus bancos estão a cada dia, sendo ocupados por pessoas mais velhas, e isso traz grandes preocupações para o futuro da Igreja.

Dessa forma, é preciso reinventar as estruturas para acolher os novos desafios, por meio de revoluções. É preciso dar novos espaços para que a juventude se encontre no seio materno, ao mesmo tempo que dar espaço, que proponha formações, com intúito de despertar vocações e carismas. Assim, criaremos homens e mulheres “seguros” e com fé.

Nessa perspectiva de formação, a Igreja deve sair dos pés do Santíssimo e se apresentar ao Cristo que está nas ruas, sem casa, sem terra, sem amor. Precisamos demonstrar nosso amor a Deus, nos irmãos. Uma vez que é muito conveniente está dentro do templo, apenas contemplando enquanto os irmãos estão lá fora sofrendo as diversas formas de opressões do mundo moderno.

As pessoas formadas/instruídas, podem agir de diversas formas, inclusive, formando grupos de estudos bíblicos, conforme já vem acontecendo nas comunidades presentes, grupos de jovens direcionados a ação pastoral e evangelizadoras. Homens e mulheres que sejam missionários e agentes transformadores, que atuem não só pregando a espera de um “novo amanhã, mas contribuindo para a chegada de um ‘novo’ Sol, que que brilhe para todos”.

Diante das propostas desse novo homem/mulher missionário, destacou-se que muitos estão a cada dia mais longe da Igreja, motivados pela mídia, pelo surgimento de outras denominações cristãs, pelas inúmeras denúncias contra o clero, pela má formação sacerdotal e por dúvida e por medo. E concluiu-se que há outros modos de se aproximar dessas pessoas, “atuando em grupos que não falam de Deus, de religião ou de reza”, mas que demonstre respeito e amor. Dessa forma, levar Deus para esse povo.

Depois, foi levantada ainda questões relacionadas com o fundamentalismo religioso, que muitas vezes afasta as pessoas que não “aguentam” mais ouvir falar tanto de pecado e pecado e pecado. Fundamentalismo muitas vezes relacionado com as brigas pelo poder (poder aparecer, poder se apropriar da comunidade, do grupo, e até mesmo das pessoas). E nesse contexto, surge as forças sociais renovadoras que contestam essa relação e que se tornam a principal resistência a esse modelo de Instituição.

Concluímos então que é preciso parar de buscar o jovem e as pessoas a partir do “medo do pecado”. Não devemos pecar, mas não devemos viver pensando no pecado, mas sim, no amor. Devemos ir à Igreja e ser Igreja por amor, e não como condição para não ir para o inferno. Se for condicionante, infelizmente, nossos esforços serão completamente em vão.

A Igreja não tem dono, nem tem senhor da razão. É importante questionar até onde é saudável para a Instituição fundamentalismo em relação a Comunhão, as instituições e ao sacerdócio. Lembramos também que “nós também somos Igreja” e precisamos ser ouvidos.

A juventude pode ser a força “revolucionária” da Igreja e esta deve estar preparada para o novo/dinâmico/atraente e ser capaz de superar as barreiras que distanciam os pastores das ovelhas.

É importantíssimo que o individualismo seja superado dentro do Seio Materno e que os líderes/coordenadores passem a se enxergar como uma parte de um processo e não como um final. Vale ressaltar que Cristo “é a Cabeça da Igreja” e somente ele. Nós somos o corpo, membros e o troncos, e devemos ser humildes para aceitar essa verdade.

Refletimos ainda, a formação presbiteral para as mulheres consagradas das congregações religiosas foi destacada, uma vez que essas mulheres que vivem, muitas vezes, em estado de clausura, necessitam do corpo do Senhor como alimento, e muitas vezes, conventos e mosteiros não dispõe de tais serviçais do Senhor.

Por fim, é indiscutível que é preciso rever a formação curricular dos seminários. Devemos pensar em um Seminário mais social e humano, relacionado com o mundo do trabalho, da Igreja que passa fome, que sofre com a guerra e com a violência. Um seminário que retire o perfil “administrador” do sacerdote e ponha um perfil “pastor”, que “conheça suas ovelhas e que as ovelhas os reconheça”.

Sitio Café do Vento,