É de se compreender que uma virada da grandeza de Medellín 1968 mexe com ideias desde muito enraizadas na tradição eclesial e fomenta questionamentos de fundo. Hoje, decorridos quase 50 anos após Medellín, aparecem, de forma mais ou menos explícita e clara, alguns questionamentos, dos quais resgato aqui três: a compreensão da pobreza; o ritualismo, o sacerdócio.

Quanto à compreensão da pobreza, há de se considerar que, por causa de longos séculos de falta de aprofundamento do tema, pelo menos na Igreja oficial, se perdeu aos poucos a compreensão bíblica da pobreza. A contundência com que os profetas de Israel condenaram a riqueza dificilmente encontra eco em textos da tradição cristã. Só dou uns exemplos:

Vocês que oprimem o povo com impostos sobre o trigo,

Vocês que constroem casas em pedras lavradas,

Eu sei a extensão de seus pecados! (Amós 5, 11-12).

 

Oh! Leis criminosas,

Legisladores sentados em seus escritórios

Para negar o direito aos fracos

Privar de seus direitos os que andam curvados,

Despojar a viúva

Espoliar o órfão.

O que vocês farão no dia da visita

E da catástrofe?

Vocês se jogarão nos braços de quem? (Isaías 10, 1-3).

 

Maldito quem constrói seu palácio sobe a injustiça

E seus apartamentos fora do direito!

Maldito quem mantém o vizinho na mão

E não lhe paga o salário! (Jeremias 21, 13).

 

Os profetas do antigo Israel se perguntam por que os pobres estão numa condição deplorável, e encontram a resposta: por causa dos impostos sobre o trigo, da concentração de terras e riquezas, de um poder judiciário injusto, da exploração de viúvas e órfãos, da construção de palácios ao lado dos casebres dos pobres, da falta de pagamento de um salário justo. Esse tom concreto e contundente costuma fazer falta nos textos dos Padres da Igreja, que são os intelectuais do primeiro milênio da tradição cristã. Cipriano fala em esmola, donativos, fundos financeiros para os pobres, generosidade; Basílio escreve que a pobreza é fruto do pecado e que o cristão tem de doar o supérfluo ao pobre; Ambrósio e Crisóstomo escrevem que pobre é quem não toca no ‘vil metal’; Agostinho sustenta que é pobre quem não deseja possuir nada e que pobreza é uma virtude, pois nos redime do pecado. Em geral, as reflexões dos Padres da Igreja perdem muito, quando comparadas com as dos antigos profetas. Não vão ao fundo da questão da pobreza, que é a injustiça, a exploração econômica e social. Nisso o contraste com os profetas de Israel antigo é flagrante, como fica claro numa frase de Helder Câmara:

Quando dou um pão a um pobre, me chamam de santo,

Quando pergunto por que ele é pobre, me chamam de comunista.


Os profetas de Israel se perguntam donde vem a pobreza, os Padres da Igreja não. Donde vem essa falha em suas reflexões? Há um aspecto a ser considerado: os Padres da Igreja praticam a chamada ‘leitura grega’ da Bíblia, ou seja, uma leitura influenciada pela filosofia grega, especificamente pelo pensamento platônico. Esses Padres, que escrevem na língua grega, traduzem os termos hebraicos ‘basar’ e ‘nefesh’, que definem a antropologia bíblica, por ‘corpo’ e ‘alma’. Na antropologia bíblica, o termo ‘basar’ acentua os aspectos frágeis, provisórios e vulneráveis do ser humano, sujeito a doença, sofrimento, infortúnios e morte. Não tem um sentido negativo. O termo ‘nefesh’, por sua parte, expressa o elemento dinâmico da pessoa humana. A melhor tradução de ‘nefesh’ talvez seja ‘vida’ e, na descrição do relacionamento com Deus, ‘desejo’. Esses termos formam um binômio, ou seja, devem ser entendidos de forma correlata, já que expressam dinâmicas do ser humano que funcionam em conjunto. A antropologia platônica, pelo contrário, estabelece um contraste muito forte entre ‘corpo’ (inferior) e ‘alma’ (superior). As traduções gregas da Bíblia (usadas pelos Padres da Igreja e posteriormente pelos teólogos) traduzem o termo hebraico ‘nefesh’ por ‘psuchè’, enquanto a Vulgata (tradução latina) traduz por ‘anima’ e as línguas modernas por ‘alma, âme, soul, Seele’. O resultado é que esse termo ganha um sentido platônico. Entra uma visão dualista acerca do ser humano, que passa a ser apresentado como um ‘composto’ de corpo e alma. Desse modo se instala uma confusão de longa duração na tradição de Jesus. Aparecem temas como ‘abjeção da carne’ (leia: o abandono de questões sociais), ‘elevação da alma’, comunicação da alma com o ‘céu’, ou simplesmente ‘espiritualidade’ em oposição à ‘materialidade’. Desvalorizam-se as informações provenientes dos cinco sentidos do corpo e fala-se em ‘mortificação’ desses sentidos do corpo, ou ainda em ‘desprezo pelo mundo’ (‘contemptus mundi’). Nessa linha, a pobreza é interpretada como sendo algo que atinge o corpo, não a alma. Diz-se que o pobre cristão é pobre no corpo, mas rico na alma.

Aqui se percebe a importância de Medellin. O tema da ‘opção pelo pobre’, cedo ou tarde, leva à redescobrimento do sentido bíblico da pobreza. A leitura bíblica da pobreza significa a volta aos profetas bíblicos, que declaram que o corpo pobre, em si (sem considerações morais), é um escândalo para Deus, uma situação intolerável, como aparece no Livro Jó, no profeta Sofonias e em muitos outros profetas. Não existe o dualismo ‘corpo-alma’ na teologia bíblica. Não há como dizer que a pessoa é ‘pobre no corpo e rica na alma’, ‘pobre em dinheiro e rico em Deus’. Como repete Dom Helder Câmara em numerosas declarações que você pode encontrar em suas Cartas Circulares, a pobreza dos corpos é a mais clara negação de Deus em nossas sociedades.

 

Eduardo Hoornaert