Eduardo Hoornaert.

 

Escrever sobre o ato conjugal (e aqui uso a expressão num sentido biológico, sem conotações de ordem moral) é coisa delicada. Pois o sexo, que mexe com a vida da maioria dos indivíduos, fica por assim dizer ‘protegido’ por um sentimento de pudor, algo que se verifica em todos os povos e constitui um tabu que só pode ser rompido em determinadas circunstâncias. Em quase todas as sociedades humanas, pornografia e exibicionismo são rejeitados.  O ato conjugal não é para ser exibido ‘em cena’. Ele é ‘obsceno’ (do latim: ‘ob- ou ab-scaena’: ‘fora do palco’). É praticado em lugares ocultos ou quartos fechados. Mesmo assim, como está na origem da vida humana, ele merece uma consideração teológica, à qual pretendo aqui colaborar trazendo alguns elementos de ordem histórica.

1. Poucos teólogos abordam o ato conjugal em si.

Temos de cavar fundo na tradição cristã para encontrar uma abordagem do ato conjugal em si, despojada de considerações morais. É preciso voltar ao início do século III para encontrar o surpreendente Comentário ao Cântico dos Cânticos, da autoria do teólogo alexandrino Orígenes, um texto em que se afirma sem mais nem menos que Deus se revela no ato conjugal. Simplesmente, naturalmente.

Quando indagamos como Orígenes chega a falar desse modo, descobrimos que ele, como poucos, assimilou o modo de sentir dos escritores bíblicos. Orígenes é um incansável leitor da Bíblia, ele se move com desenvoltura em textos bíblicos, que comenta incansavelmente. Como costuma falar de improviso em comunidades de analfabetos e comenta os textos bíblicos com impressionante fluência e rapidez, seus amigos resolvem colocar à sua disposição diversos estenógrafos a anotar minuciosamente suas preciosas palavras, como testemunha um de seus discípulos mais entusiasmados, Gregório o Taumaturgo. Por isso seus escritos (ou anotações de suas falas feitas por copistas) enchem tantos volumes nas bibliotecas especializadas. Aí o curioso encontrará textos repetitivos e acúmulos de citações bíblicas. Ele ficará impressionado com o ritmo lento nas interpretações. Ler Orígenes é uma experiência, pois há pepitas de ouro escondidas no acúmulo das palavras.

2. Orígenes e a ‘leitura grega’ da Bíblia.

O valor histórico de Orígenes consiste principalmente no fato que ele toma distância diante da ‘leitura grega’ da Bíblia, que a partir do século III penetra poderosamente na tradição cristã e com o tempo se torna quase exclusiva entre os Padres da Igreja, que são os intelectuais cristãos do primeiro milênio.

Para entendermos o que significa essa ‘leitura grega’, temos de voltar ao ano 244 dC, quando aparece em Roma, proveniente de Alexandria, o filósofo Plotino (203-269 dC). Ele funda uma escola de ‘arte de viver’ na metrópole e alcança em poucos anos um renome extraordinário. É que Plotino introduz em Roma, e nos círculos intelectuais de todo o Império Romano, a ideia neoplatônica. Ele faz com que o pensamento de Platão sirva de resposta a um dos problemas básicos que atinge os habitantes das grandes cidades romanas: a falta de motivação para viver, o sentimento de vazio, o fechamento de cidadãos bem situados diante do universo escravo em que vivem imersos. O filósofo responde a esses problemas existenciais com uma arte de vida que ensina o amor por realidades espirituais. A purificação espiritual do amor acarreta o abandono do princípio do prazer. Plotino passa por cima de questões de ordem social. Em sua opinião, elas não podem perturbar a mente de quem deseja elevar a mente e contemplar as coisas espirituais. Para tanto, ele prega a ‘abjeção da carne’ (leia: abandono de questões sociais e corporais), e a ‘elevação do espírito’. Desprezar o ‘mundo’ e se comunicar com o ‘céu’, elevar-se da base corporal em direção ao universo espiritual. Essa ‘abjeção da carne’ atinge a compreensão do ser humano, implica na aversão ao mundo ‘material’, ou seja, ao mundo dos cinco sentidos do corpo, e a adesão ao mundo ‘espiritual’. Só ‘mortificando’ os sentidos do corpo, a pessoa consegue se libertar da ‘carne’ e chegar ao êxtase, que é considerada o ápice da realização humana. No êxtase, questões políticas, econômicas, sociais e sexuais desaparecem. Só aparece o drama entre a alma e Deus. Deus fala à ‘alma’ e esta responde. Os impulsos do corpo são negligenciados, toda atenção se dirige à contemplação perfeita do mundo ideal.

Por ‘leitura grega da Bíblia’ se entende uma leitura bíblica a partir dos princípios filosóficos pregados por Plotino, ou seja, uma leitura que tome como pressuposto a oposição categórica entre o espiritual e o carnal, entre a ‘alma’ e o ‘corpo’ (no sentido dado a esses termos por Platão). Essa leitura tem, para muitos intelectuais cristãos, o charme da ‘modernidade’. Como fica ‘moderno’ falar grego, assim também seguir a espiritualidade ‘grega’. A doutrina de Plotino entusiasma, por exemplo, um dos colegas de Orígenes, Clemente de Alexandria, que parece não perceber a ação corrosiva da antropologia grega em relação ao pensamento cristão. Clemente passa a considerar o ‘corpo’ como sendo inferior à ‘alma’.

Orígenes é menos ingênuo. Ele compreende que o uso de termos platônicos como ‘psuchè’ (alma) e ‘sôma’ (corpo), podem levar a uma compreensão adulterada dos significados bíblicos. Acontece que esses termos já constam na tradicional tradução grega da Bíblia, chamada ‘Setenta’, realizada em Alexandria no século III aC (não num sentido platônico, é claro). Trata-se, pois, de interpretar corretamente os vocábulos hebraicos traduzidos em grego pela Setenta.  Orígenes percebe que a ‘nova teologia’, revestida do prestígio que desfruta a cultura helenística, despoja o cristianismo do que tem de mais precioso: a mensagem evangélica, resolutamente voltada para a transformação da sociedade em benefício dos mais fracos, ou seja, da ‘carne’. Embora não fique insensível diante de algumas ideias neoplatônicas emergentes que lhe parecem positivas, Orígenes defende com vigor a ideia de um Deus que ‘toma partido’, que se torna ‘carne’, um Deus comprometido com a sorte dos humildes e marginalizados. Ao contrário de Clemente, Orígenes não embarca na ideia de uma ‘espiritualização’ do mundo e, portanto, não adota a ideia neoplatônica da cesura entre o universo dos sentidos e o mundo das ideias.

3. O corpo é a morada de Deus.

Em sua obra ‘Contra Celso’, Orígenes discute com o filósofo romano Celso a seguinte questão: onde está Deus? Celso responde: no templo. É no templo que céu e terra se encontram, já que o mundo material é apenas um reflexo do mundo espiritual, divino. O sol, as estrelas, a lua, são reflexos de Deus. Na terra opaca, o templo, onde Deus mora, brilha na escuridão da matéria e reflete a luz divina. Orígenes, inspirado por Paulo, discorda. Ele afirma: Deus está no corpo. O corpo humano é ‘o templo do Espírito Santo’, o ‘tabernáculo santificado do Senhor’, o ‘membro do corpo de Cristo’. O cristão dispensa o templo, ‘feito pela mão do homem’ e vê Deus em seu próprio corpo. Aqui reencontramos o embate com o neo-platonismo. Quando Celso afirma que Deus mora no templo, ele se mostra influenciado pelas ideias gregas (platônicas) da espiritualização. O templo seria um lugar santo em meio a um mundo perverso. Orígenes, com a segurança que lhe proporcionam suas leituras bíblicas, se distancia das ideias gregas em circulação e constrói uma antropologia cristã baseada na tradição semita, tal qual vai expressa nos textos bíblicos.

4. Basar e nefesh.

Na Bíblia hebraica, dois termos expressam a composição do ser humano: basar e nefesh. Dois termos a serem ser entendidos de forma correlata, pois expressam dinâmicas do corpo que funcionam em conjunto. O termo basar, que a Setenta traduz por ‘sarks’, a Vulgata (tradução latina) por ‘caro’ e as línguas modernas por ‘carne, chair, flesh, Fleisch’, cobre, em hebraico, um amplo leque de sentidos, como ‘corpo’, ‘pele’, ‘carne para consumo’, ‘consanguinidade’, ‘parentesco’. Contrariamente ao termo nefesh (que explico adiante), basar designa o mundo animal, especificamente o mundo humano. Nunca é aplicado a Deus. O termo acentua os aspectos frágeis, provisórios e vulneráveis da natureza humana, sujeita a doença, sofrimento, infortúnios e morte. Mas não emite julgamento negativo.

 

Minha carne é porventura de metal? (Jó 6, 12).

 

Ihwh trata a carne fraca com perdão e misericórdia:

 

Ele, tão amoroso,

 

Perdoa sua falta.

 

‘Eles não são senão carne,

 

Um sopro que passa’ (Sl 78, 38-39).

 

O basar existe unido ao nefesh, um termo que igualmente possui um amplo leque de significados: ‘vida, respiração, perfume, cheiro, desejo, força, vitalidade’. Expressa, em suma, o fator dinâmico da natureza humana. A Setenta traduz o termo por ‘psuchè’, a Vulgata por ‘anima’ e as línguas modernas por ‘alma, âme, soul, Seele’. Aqui estamos diante do ponto central a ser esclarecido, pois existe muita confusão na mente dos leitores da Bíblia em torno do termo ‘alma’. O que hoje entendemos por ‘alma’ nem sempre rende o sentido original semita de nefesh, que designa aspectos do ser humano não contemplados pelo termo basar, mas que não necessariamente são ‘espirituais’ no sentido que hoje damos a esse vocábulo. Principalmente, não existe dualismo entre os dois componentes: O ser humano é ao mesmo tempo basar e nefesh. Um fato que já descaminhou muitos teólogos consiste no fato que a Setenta traduz 700 vezes nefesh por ‘psuchè’ (entre 754 ocorrências na Bíblia). Se o leitor da Bíblia não prestar atenção, ele corre o perigo de, ao encontrar nos textos o termo ‘psuchè’ (alma), pensar logo na oposição entre espiritualidade e materialidade, corpo e alma, segundo os ditames da filosofia platônica. Em outras palavras: não se pode traduzir nefesh por ‘alma, âme, soul, Seele’, sem verificar com cuidado o sentido da frase bíblica em seu conjunto. O importante, para quem quer quiser ler a Bíblia corretamente nos dias de hoje, consiste em contextualizar, ou seja, em obedecer ao ‘princípio do contexto’. Nefesh pode significar garganta (órgão de fome e sede), canal de respiração, força de vida (quando Raquel morre, seu nefesh sai dela: Gn 36, 18), a respiração difícil da mulher em trabalhos de parto (Jr 4, 31), o desejo de pão ou uvas, o desejo sexual. Fome, sede, sofrimento, desejo (sexual e outro), respiração, alimentação, tudo é atribuído ao nefesh. Enfim, todo cuidado é pouco quando o leitor se depara com as palavras ‘alma’ e ‘corpo’. Pois nós não somos hebreus nem pertencemos à antiga cultura semita.

 

Deus, meu Deus,

 

É você que eu procuro.

 

Tenho sede de você.

 

Minha alma o espera

 

Sobre a terra seca,

 

Árida e seca (Sl 63, 2).

 

5. O ato conjugal no Cântico dos Cânticos.

 

A sinergia entre nefesh e dabar constitui a base da compreensão de um texto como o Cântico dos Cânticos, um texto atribuído ao Rei Salomão, que nos permite assistir a uma festa de casamento estilo hebraico, com danças e cantos, e que até hoje nos seduz por sua linguagem poética. Exala perfume, penetra nos sentidos aguçados pelo desejo sexual, nas angústias e expetativas do corpo namorado. Aqui, na breve apresentação desse texto, sigo o comentário feito pelo saudoso biblista Milton Schwantes, intitulado ‘Debaixo da Macieira’ e publicado em: Cântico dos Cânticos, Estudos Bíblicos, 40, Vozes, 1993.

 

Na cama

 

Durante noites

 

Procurei por quem minha alma anseia.

 

O procurei

 

E não encontrei.

 

Vou me levantar, vou andar pela cidade,

 

Pelas ruas e praças

 

Procurarei por quem minha alma anseia.

 

O procurei

 

E não encontrei.

 

Encontrei os guardas

 

Os que fazem ronda na cidade.

 

Vocês viram por quem minha alma anseia? (Ct. 3, 1-3).

 

‘Minha alma’, ‘meu nefesh’. A energia vital que entra em ação ‘sob a macieira’.

 

Sob a macieira

 

Eu acordo (a namorada).

 

‘É aqui que sua mãe a concebeu

 

Que você recebeu a vida.

 

Aperta-me como selo sobre seu coração

 

Como selo sobre seu braço’.

 

O amor é forte como a morte

 

Paixão dura como as forças da terra.

 

Chamas, chamas de fogo,

 

Chamas de Ihwh.

 

Muita água não apagará o amor (Ct 8, 5-14. Leia o trecho 7, 10- 8, 15 por inteiro).

 ‘Chamas, chamas de fogo, chamas de Ihwh’. No orgasmo, Ihwh se revela (o termo não consta em nenhum outro tópico do Cântico). ‘Muita água não apagará’ as labaredas de Ihwh. A revelação de Deus, no momento culminante do ato conjugal, o torna transcendente.

 

6. A transcendência do ato conjugal.

 

Ao comentar o trecho do Cântico dos Cânticos acima citado, Orígenes escreve de forma lapidar: ‘Deus é eros’ (Theos eros estin). Difícil encontrar, nos séculos seguintes, uma afirmação parecida, o que não deixa de ser estranho, pois o teólogo alexandrino nada mais faz que expressar a lógica do ato conjugal. Se o corpo é a morada de Deus e se o nefesh provoca a atração entre homem e mulher, então convém dizer que Deus se manifesta no ato conjugal. O desejo humano, origem do ato conjugal, é o desejo de Deus. Aqui se supera a distinção neoplatôncia entre caridade (‘charis’, ‘agapé’) e amor erótico (‘eros’). Eros e agapè se abraçam no ato conjugal.

 

Essa interpretação do ato conjugal encontra no início boa aceitação entre os Padres da Igreja Jerônimo e Gregório de Nissa (ambos do século IV) (veja Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, Vozes, Petrópolis, 2002, 253). Mas em seguida as coisas mudam. Do século V por diante, os comentários patrísticos ao Cântico dos Cânticos costumam comparar o amor entre os dois namorados com o amor de Ihwh por Israel, o amor de Cristo pela Igreja, ou ainda o amor de Deus pela humanidade. Em outras palavras, esses comentários evitam de mencionar o teor tão manifestamente erótico do referido Cântico.

 

7. Declínio da teologia ocidental.

 

Esse medo da sexualidade, ao lado de outros sintomas, é sinal de uma decadência da teologia que se inicia no século V e se protela por aproximadamente um milênio. Não se entende mais a teologia dos grandes mestres:   Orígenes (século III), Ambrósio, Jerônimo (ambos do século IV) e Agostinho (século V).  O primeiro é condenado pela autoridade eclesiástica em 533; o segundo, que defendera a separação entre igreja e estado, é abandonado em 381, quando o cristianismo é declarado religião do estado romano; o livre ímpeto monástico do terceiro sofre os efeitos de uma progressiva institucionalização e burocratização do monaquismo; as ideias do último (Agostinho), um pensador complexo e revelador da complexidade humana, sofrem igualmente uma vulgarização, sendo que ele passa a ser apresentado como defensor de uma moral anti-sexual e de uma pastoral do medo. Com o ocaso do pensamento original desses quatro grandes nomes, a teologia penetra numa era de mesmices, citações ‘ex auctoritate’ e principalmente alinhamento com o poder pastoral vigente. Reina o princípio de obediência, como bem observou Spinoza:

 

O mais grave erro da teologia

 

foi ocultar a diferença

 

entre conhecer e obedecer,

 

fazendo-nos tomar

 

o princípio da obediência

 

como modelo do conhecimento (Tratado teológico-político, 1672).

 

É a vitória da irrecusável penetração da ideologia neoplatônica na tradição cristã, que se inicia nas grandes cidades do Império Romano, como Alexandria, Constantinopla e Roma, e se alastra pelo mundo rural das aldeias por meio do sistema paroquial. Os teólogos não entendem mais o hebraico e deixam de interpretar as Escrituras segundo métodos linguísticos, como ainda faz Orígenes.  Há um empobrecimento intelectual generalizado, uma vulgarização que atinge setores sempre mais amplos do universo cristão. Não se compreende mais como o celibato pode conviver com uma visão positiva da sexualidade. Não se relaciona mais celibato com liberdade. Como nos lembra o historiador Peter Brown, ‘rejeitar a sexualidade não significa, nos primeiros tempos do cristianismo, simplesmente eliminar os impulsos sexuais. Significa a afirmação de uma liberdade fundamental tão intensa, um sentimento de identidade tão profundamente enraizado, que se evaporam as obrigações sociais e físicas normais que prendem a pessoa ao seu sexo’ (Brown, P., Corpo e Sociedade: o Homem, a Mulher e a Renúncia sexual no Início do Cristianismo, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1990, 149-150). Hoje fica claro que a decisão do II Concílio de Constantinopla, em 533, no sentido de condenar Orígenes, foi um equívoco. O exegeta minucioso, o intelectual honesto e rigoroso, o homem livre foi rejeitado em benefício de conveniências organizatórias.

 

9. ‘Minha mãe me concebeu no pecado’?

 

Será que tudo isso são águas passadas? Será que o atual desempenho dos casais na hora do encontro conjugal não tem mais nada a ver com essa história de repressão sexual no passado? Será que o versículo bíblico ‘minha mãe me concebeu no pecado’ (Salmo 51, 7) não ressoa mais no subconsciente dos casais de hoje? Na TV aparecem atrativos beijos midiáticos, mas só raras estatísticas mencionam o que costuma acontecer mesmo entre as quatro paredes do quarto do casal. O médico Drauzio Varella, cujo site você consegue facilmente na Internet, informa que estudos realizados pelo ProSex, Projeto de Sexualidade do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, permitem identificar três tipos principais de queixas relativas ao encontro conjugal, por parte de mulheres: falta de desejo, incapacidade de atingir o orgasmo e dor durante a relação.

 

Saber o que isso tem a ver com o modo em que o ato conjugal foi apresentado pela igreja durante séculos exigiria estudos aprofundados. Por enquanto vale dizer que o Salmo 51, que contém o fatídico versículo 7, que parece relacionar o ato conjugal com pecado, quando lido integralmente, oferece uma visão realista sobre esse tema. Nele se mostra que o ato conjugal pertence, como todos os atos humanos, à pecaminosidade que impregna o fazer humano e que a Bíblia indica pelo termo hebraico ‘hatta’t’ (pecado). O Salmo afirma que, tanto no individuo como na comunidade, a culpa é sempre uma possibilidade. Na profusão de termos sobre a culpabilidade humana (50 termos, no conjunto da Bíblia), o Salmo 51 recorre ao termo hatta´t, que pode ser traduzido por ‘falta’, ‘crime’, ‘ofensa’, ‘mal’ ou ‘pecado’. O hatta’t é um obstáculo aos planos de Ihwh com a humanidade, que pode se expressar de muitas formas, tanto no ato conjugal como em muitos outros atos.

 

Lave-me de minha falta

 

Purifica-me de todo crime.

 

A ofensa eu conheço bem,

 

Meu crime está sempre lá.

 

Pratiquei o mal diante de seus olhos.

 

Olha: nasci na falta,

 

Minha mãe me concebeu no pecado (Salmo 51, 4-7).