Quando morreu dom Luciano Mendes de Almeida, levantou-se um clamor unânime, como poucas vezes sucedeu na história do Brasil: esse era um Santo !  O que é que se queria dizer com isso? O que pode significar “Santo” na época atual ?

Vou escrever a partir de minha experiência pessoal. Vou evocar os santos e as Santas, alguns e algumas, que conheci com uma suficiente amizade e intimidade para receber o impacto da sua personalidade.

 

Queria fazer uma observação prévia. Quando falamos em Santos, temos a tendência de evocar figuras de bispos, de sacerdotes, de religiosos ou religiosas. É exato : houve no século XX Santos e Santas dessas categorias. Mas não podemos perder de vista que ao lado desses poucos e poucas, houve milhares e provavelmente milhões de leigos que viveram a mesma santidade. Conheci alguns, um número bastante grande. Já que eles eram leigos e leigas permaneceram no anonimato. Também não tiveram oportunidade de realizar algumas obras ou de realizar alguns gestos que chamam a atenção A imensa maioria deles eram pobres, exatamente como Jesus anunciou no seu evangelho. Essa santidade que reconhecemos em dom Luciano e outros que vou lembrar, existe e foi vivida em milhares de latino-americanos pobres: pessoas muito simples, totalmente ausentes dos meios de comunicação. Tão humildes que jamais fizeram um gesto para chamar a atenção. Teriam sido espantados se se lhes havia dito que eram Santos.

Os santos bispos, sacerdotes, religiosos ou religiosas tiveram o privilégio de que os meios de comunicação se interessaram por eles. Porém  eles são uma pequena minoria numa grande multidão de peregrinos desconhecidos que viveram  a mesma vida evangélica com as mesmas qualidades humanas.. A santidade é excepcional, mas não é tão excepcional assim, como se pensa.

A cultura latino-americana tende a desprezar os pobres. Trata-os como se fossem ignorantes, incapazes de grandes sentimentos. Imaginam que somente a educação dada nas famílias ricas pode produzir a fineza das relações humanas. Porém, a cultura da classe superior produz muitos gestos e muitas palavras convencionais que podem perfeitamente estar vazios de conteúdo. Puros formalismos. Os pobres não têm formalismos, nem convenções. Não dizem palavras nem fazem gestos que não sejam sinceros. Encontramos em muitas pessoas pobres as mesmas qualidades humanas, a mesma inteligência espiritual, a mesma delicadeza de sentimentos, a mesma capacidade de intuição que encontramos nos nossos Santos conhecidos. A única diferença é que eles permanecem desconhecidos, salvo pelos seus mais íntimos parentes ou amigos. 

Com isso, não queria subestimar o valor desses Santos conhecidos. Pelo contrário. A maior prova de santidade esteve nisso que conseguiram ser santos apesar de ser bispos ou padres ou religiosos. Não se deixaram deformar pelo formalismo religioso que aprenderam no noviciado ou no seminário ou nas casas ditas de formação. Nas casas de formação muitas vezes os formandos recebem um modelo de formação para a santidade. Trata-se de um sistema convencional de atos religiosos ou de gestos e de pensamentos convencionais. Fazem-se exercícios de humildade, procura-se ter muita contrição por todas as falhas. Porém, a parábola do samaritano ainda vale. A religião oferece inúmeras possibilidades para não fazer, não agir com amor, não responder a uma exigência urgente.

É difícil reconhecer praticamente que ser religioso ou padre ou bispo não constitui nenhuma prova de santidade, que nem as ordenações nem as profissões religiosas aumentam o valor das pessoas. Pois, o sistema social dentro da sociedade católica cria um ambiente totalmente oposto. O ambiente eclesiástico manifesta atitudes de respeito e de veneração para com as figuras destacadas pelos sinais religiosos e pelo isolamento em que as regras o situam, Com isso é fácil para o padre ou o religioso pensar que é verdadeiro tudo aquilo que lhe dizem ou fazem. Ainda que para praticar a humildade, o sujeito negue tudo aquilo que o meio ambiente lhe transmite, alguma coisa penetra no subconsciente. 

Por isso, devemos estimar grandemente os bispos, padres ou religiosos que conseguiram ser semelhantes aos pobres e ser simplesmente humanos sem se lembrar da sua suposta “dignidade”. Na condição deles, não é tão fácil. Não é tão fácil ser simplesmente humano quando o sistema religioso reveste certos indivíduos de sinais de privilégios, ou de sinais de superioridade, como se fossem os intermediários natos entre Deus e os homens.

 

Vou começar pelos bispos. Vou lembrar somente aqueles com os quais estive mais relacionado de tal modo que pude ver, sentir e como apalpar o seu modo de viver. 

Um sinal particular desses nossos Santos bispos foi que eles não somente se conheceram, mas se encontraram frequentemente, estiveram juntos em muitas reuniões informais para comparar as suas experiência e estimular-se uns aos outros. Cada um estava num país diferente, tinha o seu  temperamento,  tinha recebido uma formação  diferente, mas todos unidos no mesmo propósito, o que fez com que houvesse entre eles uma profunda comunhão atravessando todas as fronteiras. Daí esse paralelismo tão surpreendente  entre Igrejas de paises tão diferentes

Eles tiveram a oportunidade de expressar coletivamente o seu programa de vida. Foi na Conferência do CELAM em Medellín em  1968. As conclusões desta Conferência refletiram exatamente a inspiração e o compromisso comum a esse grupo de bispos. Sabiam que Medellín ia ser um marco importante na história da Igreja. Era a aplicação concreta de Vaticano II, bem mais concreta do que o próprio Concílio. Bem sabiam que a maioria do episcopado não estava preparada para entender as conclusões de Medellín. Mas estas conclusões eram justamente um programa de ação para converter esses bispos e com eles todos os agentes de pastoral que não entendiam

É bem sabido que o drama de Vaticano II foi que não foi capaz de entender o significado dos pobres na missão de Jesus. O cardeal Lercaro tinha avisado. Mas não foi ouvido. Um grupo de uns 100 bispos procurou convencer os seus colegas, mas não conseguiu. A maioria conciliar pensava que o importante era mudar a teologia, mostrar a necessidade de voltar ao evangelho. Mas ficaram nas abstrações. Não puderam entender que a opção de Jesus era estar sem poder nenhum, sem poder do dinheiro, sem o poder político, sem o poder da cultura. A Igreja tinha tido um imenso poder durante 1500 anos e era difícil perceber isso. O poder torna as pessoas cegas. Procuram salvar o seu poder e não se dão conta disso. A preocupação pelo poder esconde a existência dos pobres e o desafio  que eles representam. Torna-se predominante e as pessoas que estão numa instituição poderosa, não sabem que trabalham pelo poder. Justificam-se pensando que esse poder vai ajudar a evangelização. Adotam exatamente o caminho oposto ao caminho de Jesus e acham que são discípulos de Jesus.

Em Medellín foi diferente. Isto explica porque todos os setores conservadores fizeram tantas campanhas para desacreditar Medellín, para desacreditar a chamada teologia da libertação que foi acusada de presidir a conferência de Medellín. Fizeram campanhas para corrigir Medellin. Acharam que em Puebla poderiam ter corrigido ou apagado a mensagem de Medellín.. Afinal Puebla confirmou Medellin : muitos dos bispos de Medellín ainda estavam em Puebla e defenderam o que continuavam achando prioritário na Igreja latino-americana e na Igreja de todos os continentes.

Vale a pena lembrar alguns textos impactantes que se acham no parágrafo 14 : “”Pobreza da Igreja”. Jamais  na história uma assembléia episcopal tinha tomado por programa a pobreza da Igreja. Para os bispos aos quais  nos referimos, esse assunto da pobreza da Igreja devia será a grande virada depois de 15  séculos de cristandade rica e poderosa. Era o grande retorno ao evangelho, ao conteúdo concreto do evangelho,um retorno a Jesus na sua vida terrestre, aquela que foi a verdadeira revelação do Pai, a única.

“Os bispos queremos aproximar-nos cada vez mais com simplicidade e sincera fraternidade dos pobres, possibilitando-lhes um acesso acolhedor junto a nós”(9). “Devemos tornar mais aguda a consciência do dever de solidariedade para com os pobres. Esta  solidariedade significará fazer nossos seus problemas e lutas e saber falar por eles. Isto se concretizará na denúncia da injustiça e opressão na luta contra a intolerável situação em que se encontra freqüentes vezes o pobre”(10) “Desejamos que nossa morada e modo de vida sejam modestos,  nosso vestir simples e nossas obras e instituições funcionais, sem aparato, nem ostentação.”(12).”Queremos que nossa Igreja latino-americana esteja livre de amarras temporais, conveniências e prestígio ambíguo, “livre de espírito com relação aos vínculos da riqueza”(18; Paulo VI).

O que os nossos bispos queriam não era somente expor uma doutrina bonita sobre os pobres, mas pôr na prática .o que os textos dizem. Não queriam apenas expor idéias bonitas, mas comprometer-se e realmente mudar todo o modo de ser da Igreja no concreto da vida nos povos latino-americanos.Em Medellín expressaram o seu programa de santidade. Puseram-no na prática.

                   Não poderia não começar com dom Helder. Por sinal dom Helder foi com dom Manuel Larrain aquele que pensou e articulou Medellín, e ainda teve um papel importante em Puebla. Dom Helder era uma personalidade dotada de tantas qualidades, de tantas capacidades, de  tantas facetas diversas que faziam dele um ser  humano de uma riqueza extraordinária. Dar-lhe o qualificativo de “santo” parece insuficiente. Era santo, mas era também tantas outras coisas. Teremos um dia uma grande biografia de dom Helder ?  Precisaríamos de um autor que tenha uma personalidade quase igual à personalidade dele para dar-nos um retrato fiel da sua vida. 

Dom Helder era dom Helder simplesmente. Foi o homem que deu a  fisionomia à Igreja no Brasil no século XX. Ele mesmo dizia que passou por conversões, que corresponderam às etapas da evolução da Igreja no Brasil.

Dom Helder era profundamente religioso, um verdadeiro místico. Tinha conservado e  desenvolvido o sentido místico tão comum no povo do Ceará. Com razão agradecia a Deus a graça de ter nascido cearense..Com certeza, isto teve muita influência na sua vida mística. Todos as noites da vida, levantou-se no meio da noite para passar horas em oração, meditação, escrevendo milhares de páginas de poesias-orações. Ainda não temos nenhum trabalho apresentando essa vida de oração de dom Helder. De todos esses bispos era o mais místico.

Mas ele não era um místico voando pelos ares longe deste mundo. Pelo contrário vivia permanentemente atento a tudo o que acontecia neste mundo. Queria saber de tudo, era de uma imensa curiosidade. Mas não queria apenas saber, queria saber para agir. Agia pessoalmente, mas sobretudo levava outros a agir. Estava muito consciente dos limites de um ser humano, mesmo tão rico como ele. Tinha uma intuição profunda das qualidades de outros e sabia detectar as pessoas capacitadas para realizar as  tarefas cuja necessidade percebia. Nunca lhe passou pela mente um pensamento de ciúme. Nunca deve ter tido o sentimento de que alguém lhe fazia sombra.

Estava sempre em estado de efervescência com muitos projetos na cabeça, com intuições novas, sempre à procura de novas iniciativas. No entanto, a qualquer momento sempre disponível, aberto, acolhedor. Ele mesmo abrindo a porta e dando ajuda aos mendigos que vinham bater na sua porta.

Poucos bispos foram tão atacados, denunciados, insultados, perseguidos como ele. Não foi somente nos tempos do regime militar. Não foi somente por parte dos poderes civis, mas dentro da própria Igreja, dentro mesmo da Cúria romana. Nunca perdeu a paz interna. Suportou tudo com paciência. Não se queixava, não criticava, não procurava justificar-se. Aliás, este é um traço comum a todos : não criticam ninguém, não falam mal daqueles que os acusam, caluniam, humilham, perseguem. Esta é a razão pela qual eu nunca serei santo. Critico demais. No fundo, dom Helder sabia muito bem a realidade e conhecia as pessoas, mas não queria responder pela crítica às criticas. As perseguições o faziam sofrer. Era visível, porque não conseguia esconder os sentimentos, mas ele fazia todo o possível para que nada se percebesse. 

Era visível que sofreu durante 15 anos vendo que o seu sucessor estava destruindo tudo o que tinha feito e procurava apagar a memória dele do povo do Recife. Nunca se queixou. Agüentou aquilo que foi um martírio de 15 anos. Aquilo foi heróico. Não lhe importava que fosse destruído o trabalho dele, mas que a opção pelos pobres tenha sido abandonada.

Disseram dele as piores coisas. Disseram que era vaidoso, comediante ou mesmo louco. Quem dizia isso eram membros do clero ou do episcopado. Ele era tão humilde, não tomava a palavra nas assembléias, ficava na sombra, nunca queria chamar a  atenção. Claro está que a sua personalidade chamava de tal modo a atenção que não podia ocultá-la. Afinal ele dava as orientações básicas. Mas ele fazia todo o possível para se esconder.e não tinha a menor preocupação pela sua própria  pessoa. Sempre estava com uma paixão, um projeto, uma idéia no coração e vivia projetando-se nesses projetos. Sem teimosia, sem vaidade, sem vontade de defender a sua opinião. Quando encontrava razões críticas, deixava imediatamente a sua iniciativa ,e já estava pensando em outra coisa.

Afinal porque era tão criticado ? Era criticado porque se atrevia a pronunciar a palavra “justiça”. Ele mesmo sabia muito bem e ensinava isso aos  outros:que quem pronuncia a palavra “justiça” é comunista, anarquista, terrorista. Hoje em dia se diria que era membro da Al Qaeda. Mas hoje em dia, ninguém mais pronuncia a palavra justiça. Esta se tornou um tabu. Você pode dizer as maiores bobagens, mas se pronunciar a palavra “justiça” já é enviado do inferno, filho de Satanás. 

Ora um traço comum aos santos do século XX foi que não tinham medo de pronunciar a palavra “justiça” e por isso foram tratados como se fossem demônios.

Já que estamos falando de dom Helder, é preciso falar também de dom José Lamartine, que foi o seu bispo auxiliar e o homem da sua plena confiança. Dom Lamartine assumiu todas as tarefas administrativas para deixar plena liberdade a dom Helder e dom Helder tinha nele uma confiança absoluta. Dom Lamartine esteve sempre no segundo plano. Mas fazia isso com tanta simplicidade, tanta humildade e tanta dedicação que bem se pode pronunciar a palavra santo para ele. Sabia acolher, ajudar. Sempre prestativo, sempre disposto a servir. É difícil encontrar uma colaboração tão profunda e por conseguinte tão eficaz como essa.

Faz pouco morreu em João Pessoa dom Antonio Fragoso. A sua personalidade era forte. O seu compromisso com os pobres foi radical, intransigente. Não temia os conflitos . Não temia o isolamento ou a solidão. Passou a vida numa das diocese mais pobres do Nordeste. Basta dizer que um terço da população foi embora procurar condições de vida melhores. Essa parte do sertão é particularmente castigada pela seca. Dom Fragoso era feito para ser bispo de uma grande cidade. Tinha abertura intelectual, gosto pela liberdade, confiança nos leigos e relacionamento fraterno com  eles. Não era em nada autoritário, procurava relações sociais abertas e sinceras e teve muitos amigos fora do Brasil. No Brasil poucas pessoas tiveram a coragem de viajar até Crateús.

Foi o apostolo das comunidades eclesiais de base e da promoção dos leigos, numa região religiosamente muito conservadora. Porque o deixaram ali quando podia ter muito mais irradiação numa região mais desenvolvida culturalmente ? Nunca se queixou. Deu a Crateús uma certa celebridade porque fora dele não havia nada na diocese. Ficava com  orgulho de Crateús. Crateús era a diocese pobre, não somente porque os habitantes eram pobres, mas porque a Igreja também era pobre. O bispo morava numa casa muito modesta. Com a porta sempre aberta. A diocese era tão fiel ao modelo de Medellín, que atraiu colaboradores como o padre Alfredinho, que passou os últimos anos da vida e morreu em São Paulo no meio dos catadores de lixo.

Não vou falar daqueles que ainda estão no meio de nós. De dom Luciano já falei em outro escrito. Passemos para outro país: o Equador.

Durante mais de 20 anos estive pelo menos duas vezes por ano e as vezes três vezes em Riobamba ajudando dom Leônidas Proaño. Riobamba é a diocese da província de Chimborazo, no centro do altiplano equatoriano. A cidade está a 2.800 m. de altura, mas há comunidades indígenas que moram muito mais alto até os 4.000 m. A população da diocese era de indígenas a 80%. Dom Leonidas dedicou sua vida aos indígenas. De uma maneira radical, total, absoluta. Foi o defensor e o salvador dos indígenas em todos os momentos da sua vida. Não tinha vida pessoal. A sua vida eram as comun8idades indígenas.

Quando chegou à diocese os indígenas ainda eram tratados com o escravos, ou as vezes como animais. Para citar apenas um exemplo: : quando chegou o novo bispo, ele soube que a diocese tinha duas fazendas que eram administradas por um administrador que nunca dava contas para ninguém. Nunca um bispo tinha visitado as fazendas. Chegando à diocese mons. Proaño comunicou que iria visitar as fazendas. O administrador procurou impedi-lo, mas uma vez que o bispo insistiu, fugiu. Quando o bispo chegou, achou os instrumentos com os quais se torturavam os indígenas quando não trabalhavam o suficiente. Eram tratados como escravos. 

O bispo distribuiu a terra aos  indígenas. Naturalmente isto provocou a indignação de  todos os proprietários e donos de índios escravos. Mons. Proaño foi denunciado, acusado de todos os crimes. Os comerciantes da cidade que viviam da exploração do povo indígena também  estavam indignados. Mas dom Leonidas não recuou, continuou dedicando a sua missão aos indígenas. Na cidade construiu uma casa de acolhimento onde os indígenas que vinham vender a sua produção    poderiam tomar banho, usar sanitários e descansar da viagem. Naturalmente os índios não podiam freqüentar os lugares onde iam os brancos ou mestiços. Os indígenas chegavam à cidade e eram insultados, empurrados,  maltratados, roubados pelos que lhes compravam as suas mercadorias. Eram sujos, doentes, baixinhos, mal alimentados. Aos 30 anos as mulheres já não tinham mais dentes. Não tinham sandálias e desciam da montanha com os pés machucados carregando uma criança nas costas.

Mons. Proaño era  um homem  alto, mas de natureza tímida e calado salvo quando se tratava de defender os índios. Então levantava a voz e não permitia que indígenas fossem tratados como seres inferiores. Dedicou-se a conscientizar os indígenas. Repetia-lhes sem cessar que eles também  eram humanos , que eram também filhos e filhas de Deus,  que não podiam ser escravos, que deviam levantar a cabeça, reforças as suas comunidades e reivindicar os seus direitos. Organizava cursos de formação que lhes davam uma consciência nova.

Isso foi suficiente para que fosse acusado de ser o chefe de guerrilheiros e diziam que a casa de Santa Cruz, casa de retiros onde morava, era um centro de formação de guerrilha. Dom  Leonidas morava nessa casa de retiros  na extremidade da cidade. Tinha somente um quartinho semelhante ao quarto dos hóspedes. Não tinha nada mais. 

Para lembrar apenas um episódio da sua dedicação aos indígenas. Quando a diocese celebrou os seus 25 anos de episcopado em Riobamba, amigos de Alemanha mandaram-lhe um dinheiro dizendo que esse dinheiro devia servir unicamente ao banquete de celebração  do seu jubileu. Quando recebeu essa carta, ficou bastante preocupado. O que fazer com esse dinheiro?. Veio-lhe uma idéia: com  esse dinheiro ia convidar todos os indígenas que quisessem para celebrar com  ele e fazer um banquete com  eles. Naquele dia vieram quase 2000 indígenas. Todos receberam aquela comida que comiam nos seus dias de festas. Todas as pessoas da cidade tinham sido convidadas também. Mas não apareceu nenhum branco, nem mestiço. Ninguém da cidade queria estar com essa multidão de indígenas..Mas vieram alguns bispos amigos e o próprio cardeal de Quito. Todos comeram a mesma comida dos índios com os dedos como fazem os índios. Tive o prazer de estar presente também.

Já que estamos falando de mons. Proaño, quero evocar também a memória de Angelina que era uma missionária leiga catalã. Foi a secretaria dele, mas foi mais do que secretária. Foi com o a mãe que cuida do bispo como se fosse o seu filho. Era tão discreta, humilde, simples, sempre sorridente, calada, mas eficiente como boa catalã, dedicada aos indígenas como o bispo. Acompanhava-o nas suas viagens quase diárias pelas comunidades indígenas. Sem ela, ele não teria podido sobreviver a uma vida tão austera.

Quanto custa ser defensor dos índios.!. Um dia dom Leônidas perguntou ao cardeal Baggio porque em Roma  havia tanta hostilidade contra ele. Baggio simplesmente pegou na gravata dele e disse : “é isso monsenhor! “ Então, toda essa hostilidade, todas essas denuncias,  a visita apostólica,,tudo isso era por causa da gravata! Pobre gravata! Acho que usou as mesma durante 20 anos. Pois ele andava pobremente vestido. Tinha um paletó tão velho que acho que sempre conheci o mesmo. Encima tinha o poncho típico dos índios. Proaño tirou a gravata e nunca mais a usou, mas as campanhas não pararam com isso.

A luta perseverante de Proaño  não foi em vão. Os indígenas  aprenderam  a falar e a lutar. Aprenderam a defender os seus direitos. Formaram movimentos poderosos que tiveram já várias vezes uma força política decisiva. Depois da morte dele, vendo que a força dos indígenas estava crescendo, um latifundiário disse : “Tudo isso é culpa desse Proaño. Lamento uma coisa só : de não ter botado duas balas na  cabeça”. Já era tarde demais.

Vamos para o Chile. Houve uma época em que o Chile tinha um episcopado excepcional. Como escolher entre muitos candidatos ? Todos ficaram muito motivados pelo Padre Hurtado, hoje em dia canonizado. Padre Hurtado teve muita irradiação em muitas áreas, mas a mensagem principal da sua vida foi o encontro com os trabalhadores, principalmente a classe operária. O seu exemplo despertou muitas vocações. Houve uma plêiade de bispos voltados para as classes trabalhadoras. Eles sustentaram o Vicariato da Solidariedade de Santiago que foi fundado para dar aos familiares dos desaparecidos toda a assistência possível. Como não podia deixar de ser, os 90% dos familiares de desaparecidos pertenciam a famílias comunistas e socialistas. O vicariato teve extensões em várias dioceses do  interior. O fato de que a Igreja atendesse os comunistas e socialistas que estavam sofrendo injustamente, abriu os olhos. A partir desse momento começaram a enxergar a Igreja de outra maneira.

Mas é preciso escolher. Escolheria dom Fernando Ariztia e dom Enrique Alvear. Fernando Ariztía tinha sido vigário da paróquia da Légua no sul de Santiago que era o bairro mais agitado, mais violento e mais problemático de Santiago. Ali ele foi se desabrochando e descobriu  a classe  trabalhadora chilena. Foi bispo auxiliar de Santiago encarregado desse setor popular. Depois disso foi enviado como bispo em Copiapó. No momento do golpe de Pinochet, ele mesmo com o seu carrinho levou muitos dirigentes operários suspeitos para lugares mais seguros e lhes salvou a vida. Corria o perigo de ser preso e fuzilado , mas não perdeu essa oportunidade. 

Aqui se reproduziu o fenômeno de Antonio Fragoso. Dom Arízítía tinha tudo para ser bispo de uma cidade importante, industrial, intelectual. Foi enviado no deserto do Norte numa região árida, desértica em que, nos vales, trabalham pequenos mineiros. Era e ainda é uma região bem pobre, mas completamente isolada da vida nacional. Ele conquistou esse povo do deserto e quando morreu foi celebrado como um Santo.

Fernando Ariztía era de uma simpatia tão calorosa que se estendia às pessoas mais pobres com a mesma intensidade.Não havia como não responder a essa acolhida atenta. Os pobres adoravam-no. Estava sempre disponível para qualquer serviço que pudesse prestar. Não invocava pretextos falsos para fugir, como fazem tantas autoridades.

Dom Enrique Alvear foi bispo auxiliar de Talca, bispo de San Felipe e bispo auxiliar de Santiago.Teve que enfrentar os problemas do governo militar que no Chile foi muito repressivo. Era uma pessoa de pura simpatia também. Era sumamente piedoso, as vezes parecia um pouco ingênuo, mas houve outros santos dotados de um pouco de ingenuidade. Era incapaz de imaginar o mal. Sempre acolhedor, sempre disponível, sempre prestativo, com a porta aberta para todos os habitantes daquele setor Oeste de Santiago que é também muito popular. Ele é também venerado em Santiago e considerado santo.

Não podemos esquecer os mártires. Se foram mortos, não foi sem razão. A razão era sempre a mesma : assumir a causa do oprimidos, dos injustiçados, dos pobres. Conheci poucas vezes dom  Oscar Romero e não tive contato direto com ele. Mas ouvi muitas pessoas salvadorenhas dando o seu testemunho. Também já foram publicadas as homilias famosas pronunciadas na  catedral. Dom Oscar Romero era um homem integro e quando descobria uma verdade,não fugia, não se escondia. Assumiu essa verdade. Descobriu a realidade de El Salvador e como os dirigentes matavam todos os pobres que levantavam a cabeça ou tinham mais capacidade. Dom Oscar Romero era corajoso, fiel, comprometido, que quis assumir até o fim a defesa do seu povo oprimido. Não procurou salvar a própria vida. Seguiu o exemplo de Jesus e não durou mais do que ele: 3 anos. Ficou em San Salvador  na sua cidade quando todos insistiam para que fugisse para se proteger. Resistiu a todas as pressões. Sabia que estava só, mas sabia que estava com o seu povo.

Antes dele, houve o martírio de dom Enrique Angelelli, bispo de La Rioja (Argentina). Até o 4 de agosto de 2006, durante 30 anos jamais o episcopado reconheceu que foi morto em testemunho de Jesus Cristo. Sucede que no ano passado no aniversário da morte de Angelelli, o presidente Kirschner proclamou um dia de luto nacional para evocar a memória do  Angelelli e organizou também uma homenagem oficial na Casa Rosada. Então o cardeal de Buenos Aires foi a La Rioja no dia 4 de agosto para participar da cerimônia de memória da morte do bispo. Pode ser pura coincidência.

Depois dele o bispo de San Nicolás, Ponce de Leon, foi morto em circunstâncias semelhantes : acidente provocado. Ele também era a voz dos oprimidos e denunciava a opressão organizada pelas forças armadas e policiais. Eram igualmente comprometidos com os pobres. Sabiam que pesava sobre eles uma ameaça de morte. Mas não desistiram.Não ficaram calados.

Finalmente outro bispo mártir apareceu na Guatemala. Mataram dom Juan Gerardi, que tinha sido bispo de La Verapaz e em, seguida de Quiche e finalmente bispo auxiliar de Guatemala. Assumiu a defesa dos indígenas durante todo o seu episcopado e sabemos que em Guatemala houve quase um genocídio. No final da vida foi o promotor do grande  relatório sobre as violações dos direitos humanos na Guatemala. Pouco tempo depois da publicação ele foi assassinado Como os outros, foi defensor dos oprimidos, que eram sobretudo indígenas. 

Todos esses mártires têm uma semelhança profunda: todos foram mortos porque defendiam os oprimidos, as vítimas inocentes assassinadas pelas forças armadas de seu país. Todos levantaram a voz e falaram alto. Foram mortos porque falaram. No Novo Testamento essa é a definição do martírio. Jesus também foi morto porque falou.

Não conheci esses bispos mártires, a não ser, um pouco, dom Oscar Romero. Mas como mártires não podiam não ser evocados. O povo conserva a memória deles e os venera. Um dia o seu martírio será reconhecido publicamente.

 

Estou chegando ao fim. Falta falar dos padres, dos religiosos e religiosas e do número infinito dos leigos. Somente evocarei a memória de dois sacerdotes que conheci com bastante intimidade e que viveram uma vida e uma irradiação de santidade. Um era chileno, o outro era equatoriano.

O chileno era Enrique Correa. Falavam dele como de “el huaso Correa”. El huaso é personagem clássica do folclore camponês no Chile.É como o vaqueiro do sertão nordestino, ou o gaúcho da pampa argentina ou do Rio Grande do Sul.. Enrique era o típico camponês. Ele era tão representativo desse camponês que o deram esse nome. Era vestido como os camponeses com o largo chapéu característico e o poncho também característico. Tinha toda a cultura camponesa e fazia todo o possível para aparecer assim .Quando chegava a uma casa do campo todos sorriam e abriam os braços : “Chegou el huaso Correa”.Os camponeses se sentiam identificados com ele e a sua chegada era uma festa. Sentiam  que com ele podiam falar de todos os seus problemas. Mais entusiasmadas ainda eram as camponesas porque ele as  tratava com muita consideração e muita gentileza. Ele estava feliz no meio desses camponeses pobres porque se sentia em casa. E  eles estavam felizes porque era um deles..Ele falava do jeito desse povo, conhecia todos os segredos da sua linguagem. Por isso, eles se reconheciam nele  Acho que um dos sinais de santidade é quando os pobres ficam felizes com a visita de alguém porque a sua personalidade dele ou dela  irradia felicidade.

Era da diocese de Talca e trabalhou a vida toda no campo, na parte rural da diocese do lado da costa, que era a parte mais tradicional e também mais pobre. Quando passava com a sua camioneta saudava todo o mundo  no caminho porque todos se iluminavam ao vê-lo.

Era muito simples, mas também muito “chistoso”. Os chilenos gostam de piadas e a conversa popular deles é feita sobretudo de piadas.Quando o huaso Correa chegava, não se falava das piadas mais salgadas, mas havia uma reserva suficiente de piadas que eram bem decentes. Era um homem alto,e forte parecia uma árvore velha e resistente a todos os ventos. Tinha uma cabeça muito prolongada que lhe dava um certo aspecto de cabeça de cavalo. A risada dele era como um trovão porque tinha uma voz forte. Foi-lhe entregue a tarefa de dar a preparação aos chamados “ministros”que eram como dirigentes das comunidades e também dos diáconos. Todos eles eram seus amigos.

Onde estava a santidade ? Com certeza num sentimento religioso muito profundo. Uma fé inabalável. Com certeza com uma simplicidade grande. Ele sabia que não era intelectual e não se preocupava com isso embora passasse horas lendo obras de teologia ou de espiritualidade. Mas era sobretudo essa dedicação total ao seu povo camponês .A felicidade de poder servir essa gente do campo. A todos prestava serviços e a camioneta dele teve muito trabalho..Poucas viagens havia em que não desse carona a pessoas que voltavam a pé para o seu povoado.. 

Deixou cadernos manuscritos em que comentou os momentos típicos da sua vida. Eram escritos  nos tempos de retiro. Ninguém sabia desses cadernos que foram descobertos depois da morte dele. Ainda não foram publicados. América latina é um continente oral. Já insisti muito, mas as editoras não se entusiasmam facilmente. Preferem publicar traduções de. Iivros europeus, sobretudo italianos. Pude ainda dirigir-lhe a palavra nos últimos momentos de consciência dois  dias antes da sua morte. Ele ainda escutava e procurei recordar-lhe  todas as maravilhas que tinha feito durante a vida para que saísse feliz deste mundo.

 Já que o estou evocando a  memória de Enrique, não quero deixar de mencionar também uma irmã dele Cristina, que ainda vive e que estava e ainda está tão ligada   espiritualmente. . Ela mora atualmente como eremita no meio do campo numa vida contemplativa  no final de uma vida totalmente dedicada ao povo do campo. Ela era exatamente igual ao irmão, tendo a mesma felicidade ,distribuindo felicidade ao redor dela.. Eles se entendiam profundamente como dizem de São Bento e Santa  Escolástica.  Mora numa casinha bem pobre a distância dos povoados numa parte um pouco elevada. Da suja casa ela pode ver a tumba do seu irmão a uma 20 km. no outro lado do rio. Eu não devia fala dos vivos, mas neste caso a união  era e ainda é tão forte que não se pode falar de um sem falar da outra.

O outro padre faleceu há pouco. Era José Gómez Izquierdo, de Guayaquil (Equador) Era de uma família importante. Estudou direito mas depois dos estudos resolveu entrar no seminário. Uma vez sacerdote, quis trabalhar nesses bairros tão miseráveis de Guayaquil. Também deu aulas na Universidade, mas o seu mundo era esse povo pobre de Guayaquil. São casas de madeira no meio de um terreno muito úmido. Guyaquil está ao lado do rio Guayas numa região em que chove muito. Os pobres vivem na lama. Não sei`se agora a situação melhorou, porque há alguns anos que não estive em  Guayaquil .Não creio que a situação tenha melhorado muito., porque os últimos governos não tiveram preocupações sociais.

O padre “Pepe” estava na sua paróquia popular sempre prestativo, sempre disponível e com um ar de felicidade que sabia transmitir. Estava muito ligado a mons.. Leonidas Proaño e com certa freqüência subia a serra para estar com ele. 

Tinha tantas qualidades que sempre me perguntei porque não o faziam bispo. Depois pensei: se fosse bispo logo estaria na frente do episcopado, porque não havia no episcopado nenhum outro  bispo com o mesmo desenvolvimento intelectual e cultural. Ninguém teria podido competir. Provavelmente eles temam isso. Também ele tinha amizades perigosas. Ser amigo de dom Leonidas Proaño era um perigo.

Conheci muitos outros que bem poderiam entrar na lista, mas não os conheci com a suficiente intimidade. Outros poderão dar testemunho.

O que seria comum a todos ? Eram pessoas felizes que tornavam os outros felizes, principalmente os pobres. Por sinal é muito mais complicado tornar os ricos felizes. É mais fácil com os pobres. Que não estão tão preocupados consigo mesmos.  

Os leigos são muitos, mas nem sempre tive oportunidade de uma intimidade grande. Já citei em outros artigos um leigo que conheci em Curicó Era alfaiate, pois naquele tempo ainda existia essa profissão. Era dirigente da sua comunidade.Sempre prestativo, sempre de porta aberta. A esposa e os filhos todos colaboravam. Tinha 10 filhos, todos felizes inclusive uma menina deficiente que não se movia com facilidade e tinha dificuldade para se expressar. Toda a comunidade era o reflexo da sua alegria, paz e solidariedade.. Era Germán Oyanedel. O próprio apelido mostrava que era descendente de indígenas, de origem mapuche como tantos chilenos. Don Germán tomou a iniciativa de sair da sua comunidade para fundar outra com  a ajuda da esposa dona Ema, que ainda vive. Morreu acidentalmente. Estava viajando de bicicleta e foi atropelado por um carro.

Termino aqui. Uma vez que a gente se lembra de tantas pessoas que viveram uma vida de santidade, a gente se pergunta : porque não eu ? Porque não fui capaz ? Talvez porque na vida é como na arte. Há alguns artistas que criam, e os outros olham e admiram. Sou daqueles que olham e admiram. Se Deus fez a humanidade assim, ele sabe o que fez. Não vai me reprovar por não ter sido o que não devia. Olhei e admirei !

 

José Comblin