Há personagens a quem a história não reserva o lugar que merecem. O Padre José Antonio Maria Ibiapina pode ser considerado um dos grandes esquecidos da história brasileira. Sacerdote de vocação tardia, pois começou seu trabalho pastoral aos 47 anos, após ter desenvolvido seu trabalho no campo da magistratura, conseguiu se adiantar um século às ideias que, depois, seriam elementos fundamentais de reflexão no Concílio Vaticano II.

 
Fonte: http://goo.gl/pRuQzY  

A reportagem é de Luis Miguel Modino, publicada por Religión Digital, 09-08-2015. A tradução é do Cepat.

Nascido em 1806, o Padre Ibiapina foi o primeiro a realizar um trabalho de transformação social no interior do Nordeste brasileiro, a partir da união entre fé e vida, podendo dizer que abandonou os luxos que acarretava o fato de trabalhar na Câmara dos Deputados para fazer opção pelos pobres, chegando a ser considerado por alguns estudiosos como um dos precursores da Teologia da Libertação. De fato, sua forma de atuar como missionário itinerante a serviço dos mais pobres, fora dos padrões estabelecidos, fez com que não fosse bem visto pela estrutura eclesiástica da época.

O trabalho realizado pelo sacerdote brasileiro será continuado mais tarde pelo Padre Cícero Romão Batista, o “santo” de Juazeiro do Norte, de quem se diz que quis ser sacerdote, assim como Ibiapina, vendo como este auxiliava seu pai, enfermo de cólera, no momento de sua morte, e Antônio Conselheiro, que conseguiu construir, emCanudos, uma cidade autossustentável, onde ninguém passava necessidade, numa época em que boa parte da população morria de fome, razão pela qual foi acusado de comunista pelo governo, que destruiu a cidade, matando os que ali viviam.

Para recordar e aprofundar a figura do Padre Ibiapina, aconteceu, de 5 a 8 de agosto, na cidade de Crato, estado do Ceará, o II Seminário Nacional Padre Ibiapina, organizado pela Universidade Regional do CaririDiocese de Crato e Secretaria de Cultura de Crato, comemorando, assim, o 150º aniversário de suas ações missionárias na região do Cariri Cearense.

A antropóloga Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros, professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, uma das palestrantes no Seminário, destaca na figura deIbiapina sua grande contribuição “não apenas na religião, como na saúde, educação e na arquitetura do Nordeste”. De fato, deve-se a ele a construção de inumeráveis casas de caridade, igrejas, locais onde eram atendidos os órfãos, hospitais, capelas, cemitérios, reservatórios de água nas casas, reservatórios... , assim como o fato de ter ensinado novas técnicas agrícolas aos moradores da região e defendido os direitos dos trabalhadores rurais, duramente explorados pelos patrões sem escrúpulos.

A professora define o sacerdote nordestino como “um dos maiores pensadores deste país, o homem que assumiu espontaneamente o trabalho de reeducar o povo do Sertão, completamente abandonado e desprezado pelos governantes”. Por isso, defende que “sua história precisa ser destacada neste país por ter sido um dos elementos mais importantes na civilização do Nordeste”.

Dom Fernando Panico, bispo de Crato, definiu o Padre Ibiapina, em sua intervenção noSeminário, como um grande missionário pelos caminhos secos, poeirentos e quentes do sertão (região semiárida do interior do nordeste brasileiro), onde alcançou grande fama em seu trabalho intelectual de evangelização, introdução da educação feminina, coisa inédita na região naquela época, assim como em seu trabalho de infraestrutura.

O bispo de Crato o define como um missionário diferente que, comovido pelas feridas da miséria humana, fazia-se presente na vida de penúria do povo, provocada pela falta de assistência social, fome, falta de água e a cólera. Em suas pregações fazia um chamado à conversão e ao fim do isolamento individualista, o que junto com suas numerosas obras de caridade o levou, na opinião de dom Panico, a tornar realidade o que um século depois será chamado de opção preferencial pelos pobres.

Podemos dizer que o zelo apostólico do Padre Ibiapina, no interior do Nordeste brasileiro, deixou grandes sinais, mais do que na organização da Igreja católica, na vida do povo pobre, sempre excluído, ignorado e esquecido pela sociedade e, muitas vezes, pela própria Igreja.