José Comblin

 Nosso ponto de partida ser a distinção entre religião e evangelho. O cristianismo não é originalmente uma religião e Jesus não fundou nenhuma religião. Mais tarde os cristãs fundaram a religião cristã, criação humana e não divina.

 

A religião é produto da cultura humana. Há uma grande variedade de religiões e todas possuem uma estrutura semelhante embora sejam diversas na sua expressão exterior. Todas contem uma mitologia, um culto e uma classe dedicada a seu exercício. Nisso a religião cristã não é diferente das demais. Ela também é uma criação humana, produto de diversas culturas. A religião é uma realidade básica da existência humana. Apresenta as questões do sentido da vida nesta terra, o problema dos valores, o lugar do ser humano no universo e o problema da salvação deste mundo de todos seus males.

 

 

 

A religião foi muito estudada pela antropologia religiosa, pela sociologia religiosa, pela psicologia religiosa, pela história das religiões. Tudo isso ilustra também a religiãocristã. Por ser criação humana, a religião cristã mudou e pode ainda mudar no futuro, conforme os caminhos da história. Este é inclusive um dos grandes desafios da hora presente, porque a religião cristã está esgotada e não oferece resposta à orientação da cultura atual, exceto alguns restos do passado.

 

O evangelho de Jesus não é uma religião. Jesus não fundou nenhuma religião, não proclamou uma doutrina religiosa ou uma mitologia, nenhum discurso sobre Deus, não fundou nenhum culto e não fundou nenhuma classe clerical. Jesus proclamou e inaugurou o reino de Deus na terra. O Reino de Deus não é nenhum reino religioso, é uma renovação de toda a humanidade, realização que muda o sentido da história humana, abrindo uma nova época, a última. É uma mensagem para toda a humanidade, em todas as culturas e religiões. Se poderia dizer que é uma mensagem e uma história com meta política.

 

Uma vez que os seres humanos não podem viver sem religião, os discípulos de Cristo durante 2000 anos construíram uma religião que foi como o revestimento da mensagem cristã, com o risco de transforma o cristianismo numa religião. O revestimento religioso pode ocultar a mensagem do evangelho ou pode conduzir a essa mensagem conforme a evolução da história. Em muitos casos a religião ocultou o evangelho. Os cristãos enunciaram uma doutrina que utilizou muitos elementos do judaísmo ou das religiões não cristãs nem judaicas, criaram um culto com a mesma inspiração e criaram um sistema jurídico que enquadra uma instituição muito complexa.

 

Podemos dizer que a historia do cristianismo é a historia de uma tensão ou de um conflito entre religião e evangelho, entre uma tendência humana que necessita a religião e as vozes ou vidas dos que queriam viver segundo o evangelho.

 

As religiões são conservadores e creem num mundo permanente no qual tudo recebe uma explicação religiosa. A religião muda inconscientemente porem resiste diante de qualquer solicitação de mudança voluntária. Muitos cristãos e estruturas cristãs lutam sem sabe-lo contra o evangelho. Há algo de verdade no que dizia Charles Maurras, ateu francês do século XX, quando dizia que felicitava a religião romana por ter tirado do cristianismo todo o veneno do evangelho. É um tanto exagerado porem sugestivo.

 

O evangelho é mudança, movimento, liberdade. Não pode aceitar o mundo que está aí, porque tem que transformá-lo. O evangelho é conflito entre ricos e pobres. É opção entre ricos e pobres. Na religião ricos e pobres são parte e uma harmonia geral. São assim porque tem que ser assim, ainda que os ricos tenham que ajudar os pobres sem mudar essa estrutura criada por Deus e pelos substitutos de Deus. A religião quer paz, ainda que seja pela aliança com os poderosos. O evangelho supõe o conflito.

 

A tarefa da teologia é mostra a distinção, buscar o que é o evangelho e tudo o que se agregou e pode ou deve ser mudado para ser fiel ao evangelho. É libertar o evangelho da religião. A religião é boa se ajuda a buscar o evangelho e não a esquecê-lo sob o revestimento religioso. É uma necessidade humana porem tem que ser investigada e corrigida.

 

A teologia está a serviço do povo cristão ou ainda não cristão, para que conheça o verdadeiro evangelho e possa chegar à fé verdadeira e não a um sentimento religioso. Durante séculos a teologia esteve a serviço da instituição para defende-a das heresias ou dos inimigos da igreja. Assim, foi depois de Trento até o século XX e em muitas regiões foi até o Vaticano II. Foi apologética, arma intelectual no combate contra as igrejas reformadas e toda a modernidade, a serviço da hierarquia. De certo modo era uma arma dirigida contra os leigos para que não se deixassem seduzir pelos inimigos da Igreja. Até o Concilio de Trento a teologia era comentário a Bíblia., livre, aberta a todos, como trabalho intelectual gratuito. A Reforma partiu de teólogos e a partir daí a teologia esteve sob o controle estreito da hierarquia.

 

 

1. Deus

 

A maioria dos católicos entende pela palavra Deus uma ideia de Deus comum a toda a humanidade com formas diferentes. Deus seria um Deus cósmico. Está dentro do cosmos como seu criador ou organizador. É todo poderoso, eterno, omnisciente, capaz de castigar ou de recompensar, sensível às orações e sequioso por sacrifícios e doações É preciso pedir-lhe perdão e pagar esse perdão com vários serviços. E parte do universo no mais alto nível, sentado no céu de onde dirige o mundo inteiro. É o autor da ordem ou do que os seres humanos chamam de ordem do mundo e que na realidade é a desordem do mundo. Não quer que se mude essa ordem.

 

Acreditam que conhecem a Deus, mas não o conhecem. Conhecem apenas uma ideia comum a toda a humanidade sob muitas formas diferentes. Não conhecem a Deus porque a Deus ninguém jamais avistou e ninguém sabe o que ele é. Se acreditam que o conhecem, se equivocam e enganam aos demais.

 

 

2. A Revelação

 

Deus se deu a conhecer em Jesus Cristo. Anunciou essa revelação pelos profetas, porem não se revelou. Deu-se a conhecer na vida de Jesus. Jesus nos deu a conhecer por meio de palavras, discursos ou de doutrinas. Não fez nada disso. Nunca disse o que era o Pai de modo teórico. Nisso fez caducar qualquer discurso sobre Deus e qualquer teologia que são construções humanas. Supõe que esse discurso expressa o que Jesus quis dizer e não disse. Isso é um erro. Se não o disse, esse mesmo silêncio já é uma revelação.

 

A Palavra o a revelação de Deus se fez carne. Não disse homem, porque homem é uma categoria ambígua. O que é ser homem? A doutrina oficial da Igreja se inspira nas categorias gregas que utilizaram os grandes Concílios que falam de duas naturezas em Jesus: a divina e a humana. Jesus possuía uma natureza humana. Porém a palavranatureza no diz nada do que João quer dizer. Jesus era carne, o que significa uma vida humana com toda sua fragilidade, exposta a todos os acidentes do mundo material, uma vida cheia de esperanças, ilusões e desilusões, projetos, êxitos e fracassos, feita de alegria e tristeza, e que finalmente termina na morte. A carne é tudo isso e muito mais.

 

A Palavra se fez carne, ou seja, Deus se fez carne. Isto significa que Deus abandonou todo o seu poder e se fez frágil como qualquer ser humano. Ne sequer aceitou o que é poder na sociedade humana. Deus se fez pobre, leigo, sem dinheiro, sem poder político, sem poder cultural. Se fez um camponês da Galileia, província maldita pelos judeus fiéis à lei. Deus é frágil, conhece o sofrimento, a perseguição, a morte humilhante da cruz. O Pai não se separa nunca do Filho. Um está no outro.

 

Onde está a revelação de Deus? Está na vida de Jesus, primeiro no projeto global de sua vida. Jesus tinha um projeto bem definido que expôs em todas as suas ações e suas palavras. O projeto é uma mudança radical de toda a humanidade em vista de uma humanidade justa e fraterna. Neste projeto constam: a declaração de obsoleta da religião de Israel para voltar às promessas de Abraão; a polêmica contra as autoridades que querem manter o sistema judaico até o conflito final que desemboca na cruz. A crus é a conclusão final da luta contra os defensores da lei tradicional do judaísmo. Ademais, Jesus dá os sinais da nova humanidade pelo cuidado dos doentes, o privilégio dos dominados e as vitimas acusadas de serem pecadores, a escolha de um grupo de discípulos encarregados de comunicar o evangelho ao mundo inteiro. Os sinais de abertura aos pagãos e aos hereges samaritanos, a substituição da lei pela liberdade. Jesus quer uma humanidade livre. Paulo resume muito em quando define o cristianismo como um chamado à liberdade. O que Jesus realizou revela o Pai. Não podemos ler as páginas do evangelho fora do contem global que é o projeto de vida de Jesus.

 

 

3. A Liberdade de Deus

 

A liberdade de Deus aparece, sobretudo, no abandono de todo poder. A vida de Jesus é sem poder, não se impõe, não condena, não obriga, programa que foi o de Dom Helder quando chegou em Recife: havia duas palavras proibidas: mandar e exigir. Jesus mostra o caminho andando como o faz. Vem abrir o caminho para uma humanidade livre. Nesse caminho não há nenhum poder. Atua livremente, sem medo, resiste às tentações de poder de Satanás, entra em conflito com todas as autoridades sem medo e com a maior audácia. Deus respeita a liberdade dos seres humanos e com isso lhes abre o caminho da liberdade para que sigam esse caminho. A cruz mostra o caminho da liberdade: melhor morrer que matar. Acredita na eficácia da morte porque sabe que Deus passa pelo caminho da liberdade sem dominação.  A força de Deus está no testemunho e no amor aos desprezados, pecadores, vitimas pobres em geral. Essas são suas forças. É um Deus muito diferente dos deuses imaginados pelas religiões, inclusive pela religião cristã.

 

A liberdade procede do amor e o amor procede da liberdade. Amar é tornar homens e mulheres livres ou mais livres. A liberdade consiste em amar. Para amar é necessário ser livre. Os seres humanos são prisioneiros de seu individualismo, da sua preocupação por si mesmos, que é o que impede o amor. Deus é amor porque torna outros livres. Nisso consiste seus amor. Ele é livre e quer que os seres humanos sejam livres também.

 

 

4. A libertação dos homens e das mulheres.

 

A história da humanidade é a historia da liberdade. Pois os seres humanos não nascem livres, nascem dentro de uma sociedade de dominação e exploração. Há homens e mulheres que dominam a outros e os submetem à sua vontade, a serviço de sua riqueza, de seus privilégios de seu poder. Há uma imensa massa de homens e mulheres dominados, explorados, excluídos para que outros possam dominar e crescer. Por isso, a história é uma luta constante e sempre repetida dos poderosos para impor sua dominação aos dominados e os dominados lutam ou buscam lutar para defender sua subsistência e conquistar alguma liberdade.

 

Todas as religiões oferecem uma imagem da humanidade como algo fixo, estável, positivo, globalmente imutável, criação de Deus. Querer mudar é estar contra Deus. A religião cristã ensinou isso pelo menos desde o 4º século e já antes. A religião não aceita outro conflito que não seja conflito das religiões. Para Jesus o conflito não é de religiões, é um conflito de duas classes: os dominadores e os dominados. Por isso Michel Henry, filósofo cristão contemporâneo pode dizer que o primeiro filósofo cristão foi Karl Marx. Os filósofos gregos foram filósofos do ser, da ordem do ser, tanto Platão como Aristóteles. Em lugar de ser bons servidores da teologia, afastaram do evangelho.

 

A dominação pessoa, grupal ou estrutural é o pecado que existe desde as origens da humanidade. Não é uma obrigação, porem todos os seres humanos contribuem para manter essas estruturas de dominação. É um pecado de todos e é o pecado do mundo que tem tal força na humanidade que os seres humanos não podem libertar-se dessa dominação, desse pecado por si mesmos. São vitimas do pecado e pecam por submissão ao pecado universal. Jesus vem libertar os seres humanos da escravidão do pecado. O poder é a grande tentação: em lugar de ser serviço se transforma em dominação. Por isso, Deus não manifesta nenhum poder porque renunciou a todo poder de dominação e imposição. Jesus está livre do pecado porque não domina, não aceita nenhuma forma de dominação.

 

5. O lugar dos pobres na libertação

 

Todas as religiões pregam que é preciso ajudar os pobres. A esmola é sumamente valorizada em todas as religiões. O evangelho diz outra coisa.

 

O evangelho se dirige aos pobres porque eles são chamados a libertar a humanidade. Não dominam e por isso poder ser livres. Podem porque há alguns que fazem todo o possível para poder dominar também. Porem são muitos os que não aspiram a dominar e tratam de amar a seus próximo como o seus povo, com sua palavra, seu testemunho, suas ações coletivas na busca da liberdade. A libertação da humanidade não vem de cima para baixo, mas antes de baixo para cima.

 

Esta é a loucura de Deus da qual fala Paulo. Deus escolheu o mais fraco para destruir o poder dos mais fortes. Dos pobres nasce a nova humanidade, de todos os que não querem dominar e tratam de amar. Podem ser cristãos ou não, não importa. Podem ser ateus, porque o Espírito Santo vem para todos.

 

Os pobres encontram uma imensa resistência dos poderosos: passam pela cruz, porem tem a promessa da vitória da ressurreição.

 

O grande desafio é convencer os pobres de que tem a força do Espírito para seguir o caminho de Jesus e são capazes de construir um mundo novo ainda sem dinheiro, sem poder político, sem poder cultural. Pois os pobres tem uma consciência de sua impotência, de medo, de submissão aos grandes. A tarefa dos discípulos de Jesus será a de animar e convencer os pobres para que tenham fé. Pois a fé não consiste em aceitar uma doutrina universal válida para todo. Semelhante doutrina não move ninguém. Seria apenas a submissão a um sistema de conceitos. A fé é acreditar que eu sou capaz de seguir o caminho de Jesus e de construir um mundo novo pela força do Espírito, apesar de toda a minha pequenez. Sem dúvida, essa fé é muito difícil, mas a maioria dos católicos não tem fé. Aceitam todos os dogmas, mas não tem fé.

As Tarefas da Teologia

 

A principal tarefa e de certo modo única, é o estudo critico de toda a tradição cristã para retornar ao Evangelho. Trata-se de redescobrir o que realmente foi revelado na vida e na morte de Jesus. Não se trata de destruir a religião. Seria inútil porque os seres humanos necessitam uma religião e se a suprimimos, ela reaparece sob outras formas. O problema consiste em saber tudo o que nessa religião não é compreensível nem aceitável na nova cultura moderna que entra em todas as religiões. Será preciso buscar o que é realmente compreensível e significativo e pode ser um revestimento aceitável do evangelho. Vejamos os elementos da religião:

 

 

1. A doutrina ou a mitologia

 

Jesus não formulou nenhuma doutrina. Falou por meio de metáforas, narrações, parábolas, sentenças, conselhos, observações sobre a experiência do momento. Esse meio de expressão é popular, é o meio dos pobres. Se Deus expressou-se dessa forma, não o fez por distração ou por adaptação a uma suposta inferioridade intelectual dos pobres. Utilizou-a porque esse modo de expressão é menos rigoroso, menos impositivo, menos limitado Uma doutrina sempre está marcada por uma época, uma cultura limitada no tempo e no espaço. A linguagem metafórica conserva seu sentido entre muitas culturas. Carece da precisão que possuem os conceitos. Se Deus o fez assim é porque o escolheu como o meio de expressão mais adequado. Se essa linguagem não tem a precisão dos conceitos abstratos é porque Deus não queria essa precisão. As expressões de Jesus permitem várias interpretações e Deus o quis assim. Não quis que seus discípulos fossem prisioneiros de uma doutrina.

 

Mais tarde a Igreja definiu em forma de conceitos muitas vezes tirados da filosofia grega uma doutrina obrigatória. Impôs uma interpretação rígida do evangelho. Os dogmas foram sempre um fator de dúvidas, problemas, resistências porque nem todos aceitavam essa disciplina do pensamento que Jesus jamais impusera.

 

A tarefa da teologia será a de libertar o evangelho da rigidez do dogma. Terá que examinar criticamente todos os documentos do magistério. Desde Trento, os teólogos deram habitualmente uma interpretação maximalista dos dogmas. Necessitamos voltar a uma interpretação minimalista: o que é que o evangelho realmente exige? Ademais, os dogmas atuam historicamente pelo que não expressam Os 4 primeiros concílios concentram tudo nos conceitos de pessoa e natureza. Deixaram de lado a vida humana de Jesus. Por isso a vida humana de Jesus deixou de ser durante séculos motivo de reflexão dos cristãos. Tomás de Kempis pode escrever um livro sobre a Imitação de Cristo, sem nenhuma alusão à vida humana de Jesus. Que Cristo é esse? Os dogmas ocultaram a vida humana de Jesus durante muitos séculos. Em Trento não se falou da fé no sentido bíblico, mas de uma fé religiosa que não é cristã. Na sequencia foram séculos de falta de entendimento entre católicos e protestantes, o que podia ter sido evitado.

 

Os dogmas foram definidos por Papas ou bispos. Porem eles não representam necessariamente todo o povo cristão, como se o Espírito não estivesse também no povo. Houve concílios que dividiram profundamente e expulsaram da Igreja setores imensos: as Igrejas da Síria, do Egito e de todo o Oriente, sem falar dos protestantes. Dentro das assembléias, houve separações que não eram heresias. Por exemplo, no Vaticano I. Isso fragiliza as definições. Tudo isso é objeto da teologia.

 

Portanto a mesma teologia é suspeita à luz do evangelho e tem que examinar-se criticamente para ver se ajuda à compreensão do evangelho ou o oculta, o que aconteceu muitas vezes. Pois desde Trento a teologia provocou polemicas contra os protestantes e os modernos. Colocou-se a serviço a hierarquia. Não é essa a tarefa da teologia. Ela serve para ajudar o povo cristão a entender melhor o que diz o evangelho. Está a serviço do povo cristão e não de sua hierarquia.

 

 

2. O culto

 

Na religião a parte mais importante é o culto. No decorrer dos tempos, os cristãos foram construindo um imenso edifício litúrgico, muito rigoroso, muito determinado em todos os gestos e todas as palavras. Os ritos foram inspirados no Antigo Testamento, nasreligiões dos povos cristianizados. Chegou-se a definir que havia 7 sacramentos. Alémdisso há uma infinidade de bênçãos e demais atos de culto, mais popular ou mais letrado. Depois do Vaticano II houve algumas mudanças muito superficiais, porque o essencial permaneceu igual. A consequência é que muitos católicos abandonaram um culto que já não significa nada para eles. De fato é difícil entender de que modo essa liturgia se relaciona com a vida individual e social dos tempos presentes. A unção dos enfermos pouco se pratica... Pouquíssimos ainda praticam o sacramento da penitencia. Tudo teve significado quando foi introduzido no culto oficial. Porem muitos ritos se tornaram incompreensíveis. Quais seria os gestos e as palavras que seriam significativas para a nova geração? Em lugar de buscar o que exige a situação atual da humanidade, há grupos importantes em Roma que queriam voltar ao passado de Trento. Então seria a expulsão dadefinitiva da juventude. Queriam retornar ao latim. Por que não ao grego ou ao hebraico?

 

3. A organização

 

Todas as religiões criam uma instituição que tem como elemento básico os sacerdotes cuja missão consiste principalmente no culto. A religião cristã não podia escapar. Apareceu um clero que - sobretudo depois de Constantino - se separou socialmente do povo e formou uma casta com sua subcultura própria. Na realidade até Trento o clero criou muitos problemas, porem Trento logrou colocar em ordem e definir o clero tal qual subsiste hoje. O sistema é rigorosamente monárquico. Todos os poderes estão com o Papa e o Papa delega uma parte deles aos bispos e estes aos presbíteros e diáconos. Os problemas provocados pela situação atual do sistema monárquico e da separação entre clero e povo, dificulta a existência de uma verdadeira comunidade e são bem conhecidos, não é preciso repetir. É evidente que o sistema não funciona. A rejeição do clero é um dos motivos fundamentais do abandono da Igreja. Em outras Igrejas ditas históricas o problema é o mesmo.

 

Durante séculos os teólogos se dedicaram a explicar e justificar todos os elementos do sistema religioso. Os tempos mudaram. Tudo o que estava ligado à cultura tradicional perdeu o seu sentido e a sua legitimidade. A teologia deve colocar em contato o Evangelho e o mundo atual.