(extratos do capítulo 11 – final)

 

 

Profetas não têm forças para construir uma nova sociedade. Mas a sua missão consistirá em despertar, fortalecer e animar os povos silenciados.

A resposta da hierarquia católica a essa situação é a chamada “doutrina social da Igreja”. O problema é que quase ninguém conhece essa doutrina, nem sequer entre os católicos e até no clero. Mesmo se todos conhecessem essa doutrina, constatariam que uma doutrina não é eficaz. Ainda que todos concordassem com essa doutrina, faltaria gente para pô-la na prática. Existe a doutrina social da Igreja. Está nas bibliotecas. Mas a impressão dominante é que o silencio da Igreja é impressionante. Não faltam documentos e declarações, mas não penetram no tecido social. (...)

 

O desafio consiste em despertar imensas multidões humanas para desafiar as forças dominantes e conseguir uma mudança. Quem vai fazer isso? As autoridades dizem que esse não é o problema da Igreja e que é a tarefa dos políticos.

(...)

Então quem vai sacudir os oprimidos e os excluídos? Qual será a força do evangelho na sociedade? Pode a Igreja contentar-se com o culto, como se a finalidade da encarnação do Filho de Deus fosse a organização de um culto? Se os cristãos não podem intervir na sociedade, deixam o espaço social para outras religiões ou outras ideologias. Fazem com que outros façam o que os cristãos não querem fazer, e o povo dos pobres buscará ajuda nesses outros movimentos.

Os evangelhos mostram o método. Jesus não enunciou uma doutrina, mas realizou atos significativos e de alto valor simbólico que denunciavam a mentira dos seus adversários e despertavam a esperança no povo. Com isso não derrubou imediatamente o Império romano. Mas desde então todos os movimentos revolucionários tiveram raízes na sua missão profética1.

.Os sinais dependem dos tempos e da cultura. Não estamos mais na cultura de Jesus. Quais são os sinais que podem hoje em dia denunciar a mentira dos grandes poderes econômicos de maneira que o povo possa entender?

Seria impossível derrubar a grandiosa máquina de poder de que dispõem as multinacionais e os sistemas financeiros que as ajudam acumulando um poder cada vez maior, com as mesmas armas deles. Mas é possível tirar-lhes toda credibilidade. Os poderes humanos são frágeis. A sua força vem da atitude dos dominados que acham que eles são inabaláveis. É preciso destruir essa credibilidade baseada na aceitação dos pobres.

 

Na história do século XX, Gandhi mostrou o caminho da profecia no seu tempo. Era hinduísta e não se achava cristão, mas era mais cristão de que pensava. Com razão, ele se perguntava porque os cristãos são os únicos que não entendem o evangelho.?

Gandhi não quis nenhuma força econômica, política ou cultural. Enfrentou o sistema colonial somente com as mãos, os pés e a boca. Ensinou como não aplicar leis injustas escolhendo alguns gestos característicos. Quando o sal era monopólio do poder colonial que tirava impostos da sua venda, Gandhi levou o povo a desobedecer, indo para a praia buscar o sal do mar. Se milhões de pessoas fazem isso, o poder está desacreditado. Era um ato simples que não custava nada.

Os seus jejuns foram celebres: mobilizavam multidões e o poder colonial devia negociar com ele. Não custavam nada.

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Uma doutrina social não se dirige para ninguém. Ninguém se sente aludido pelas declarações sobre os excessos do capitalismo, sobre a ética da propriedade e assim por diante. O próprio da profecia é que se dirige a pessoas ou instituições designadas pelo nome. Por isso a profecia incomoda. Incomoda porque suscita um despertar da consciência em muitos cidadãos e de modo particular entre muitos pobres.

A profecia fala em casos particulares sobre fatos particulares. O discurso da instituição enuncia princípios universais que são atingidos pelas pessoas que não tem nenhuma responsabilidade no caso.

Nenhuma instituição humana está numa segurança total. Todas têm os seus lados mais fracos por onde podem ser atacadas. Nem sequer as grandes multinacionais são inexpugnáveis. O problema é descobrir os lados mais fracos, as situações mais escandalosas.

Outras pessoas denunciam também os males provocados pelos poderosos. Não o fazem em nome da Igreja, em nome da fé cristã, mas em nome da sua consciência moral. O profeta fala em nome da Igreja, em nome do povo de Deus para ser fiel à sua missão. Ele foi enviado para dar uma boa nova aos pobres. A Igreja toda foi enviada para dar essa boa nova aos pobres. Mas quando não cumpre essa missão, o profeta levanta a voz.

 

Uma segunda característica da sociedade atual é o poder da mídia, e, sobretudo da TV. Já foi dito tantas vezes que o que a TV não mostra, não existe. A TV penetra em todas as casas. Cria uma rede de informações e de estímulos que unifica milhões ou bilhões de pessoas. A mídia não dá os fatos puros, mas sempre os fatos dentro de uma interpretação.. Não mostra tudo, mas mostra tudo o que é desejado pelo poder econômico. Desperta desejos comuns a todos, no fundo o desejo de participar numa sociedade de abundância de bens materiais, em progresso constante. Pois a TV e a mídia em geral estão a serviço do mercado. É uma forma extraordinária de publicidade. Qualquer novidade, qualquer bem material novo é imediatamente conhecido pelo mundo inteiro.

A TV leva as massas para um mundo de ficção. Apaga o mundo real e envolve as pessoas num mundo fictício que lhes parece mais real do que o real, O mudo da TV é mais atraente do que o mundo real. A ilusão vale mais do que a realidade.

Dentro dessa visão tudo o que é social ou comunitário desaparece. O próprio Estado ou poder político desaparece ou se transforma em espetáculo. Porém está presente a polícia que resolve todos os problemas. A polícia, a prisão dos criminosos, o castigo dos distribuidores de drogas, o descobrimento de todos os malfeitores fornecem a matéria principal do serviço de informação da TV. O social foi substituído pela polícia, poder onipresente e supostamente protetor do nosso mundo.

Este império da mídia e particularmente da TV oferece à religião boas oportunidades. Uma religião pode também levar as pessoas a um mundo fictício. Ela tem muitos meios para isso. Pode criar um mundo paralelo de paz, de alegria, de felicidade, de sentimentos de amor muito fortes, de emoções muito fortes. As religiões souberam aproveitar essas facilidades, e tiveram um grande sucesso.

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O profeta tem por missão mostrar a realidade, o mundo real, romper a paralisia mental que resulta da vivência num mundo de ficção. Claro está que isso exige dons muito especiais porque esse mundo dos sonhos é muito forte e responde a tantos desejos, fornece tantas felicidades.

O profeta precisa também da TV. Precisa forçar as portas. Precisa mostrar fatos com tanta força numa situação bem definida de tal modo que a TV não possa não mostrar a sua atuação. Não importa muito que fale bem ou fale mal. O que importa é que fale. Precisa fazer gestos que obriguem a TV a mostrá-los.

 

Uma terceira característica da atualidade é o domínio da economia. Toda a vida individual e social está cada vez mais subordinada à economia. O dinheiro é o valor supremo e quase único. A finalidade da vida humana individual e social é aumentar o dinheiro qualquer que seja oi método. Por isso tudo se torna objeto de comércio. Tudo entra no mercado. O ensino é mercado. A saúde é mercado. A aposentadoria é mercado. O mercado impõe as regras de conduta para todos. O Estado está a serviço do crescimento da economia e do aumento incessante do dinheiro, e não se importa em saber aonde vai esse dinheiro ou se o mercado favorece realmente a todos. A norma universal será a produção de dinheiro.

Entre duas atividades o nosso contemporâneo vai escolher aquela que dará mais dinheiro. Entre a produção de dois bens, é preciso saber qual será o bem que dá mais dinheiro. Se a produção de álcool para os carros norte-americanos produz mais lucro do que a produção de alimentos, precisa escolher a cana e deixar que o povo coma menos, porque os preços subiram. A economia manda.

As consequências desse sistema são o crescimento da desigualdade, a exclusão de milhões, que não conseguem entrar nessa competição pelo lucro maior, o esquecimento dos valores pessoais ou culturais. Na religião a consequência é o crescimento das religiões que sabem produzir dinheiro e o abandono de tudo aquilo que não dá lucro. Por exemplo, o estudo da Bíblia não dá lucro, mas o show religioso dá lucro.

 

O papel do profeta será denunciar essa inversão de valores, que coloca o dinheiro acima de Deus. Denuncia o desprezo pelos pobres, a indiferença da sociedade para com os derrotados da economia.

Aqui também será preciso escolher os fatos que mostram com mais evidência a realidade da primazia da economia e o sacrifício de todos os outros valores humanos. Precisa mostrar que no fundo de todo o sistema está a indiferença pela condição dos pobres, o contrário do evangelho.

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Em segundo lugar, o profeta vai exaltar todas as pessoas, os grupos, as instituições que agem para salvar o povo dos pobres, sem lucro, sem com isso ganhar dinheiro, sem criar capital. Muitas pessoas desempenham serviços gratuitos. São os que salvam a humanidade da autodestruição O profeta vai valorizar e mostrar toda a gratuidade que existe apesar das regras dominantes na sociedade atual. Essa gratuidade existe especialmente entre os próprios pobres que se ajudam mutuamente sem cobrar nada.

As empresas têm no seu orçamento de publicidade algumas obras de beneficência e contribuições para obras de caridade. Esta é uma ótima publicidade. Os pobres vão aproveitar essa forma de generosidade, mas ela não tem nada a ver como o evangelho. Esta forma de publicidade não muda em nada a estrutura da economia, mas tende a reforça-la.

O desafio criado pela mídia é como dar a conhecer o que realmente acontece, como comunicar a realidade verdadeiramente evangélica do agir gratuito às massa humanas que recebem as suas informações da TV? Seria evitar que as informações se transformem numa crônica policial. Será preciso passar pela TV. Como? Eis um dos maiores desafios da profecia do futuro. Precisa chegar a mostrar fatos tão fora do comum que a TV não possa não mostra-los.

 

O profeta não se opõe às novidades, hoje cada vez mais numerosas que transformam as condições da vida corporal ou mental. Reconhece na base das transformações da condição humana o efeito do avanço do espírito de liberdade e lembra que onde está a liberdade, aí está o Espírito de Deus. Reconhece a importância da participação da mensagem do evangelho e da ação de crenças cristãos na evolução da humanidade. Lembra que a conquista da liberdade é a mensagem básica do cristianismo já que essa força de liberdade entrou no mundo por ele. Inclusive contra Igreja várias vezes.

Reconhece a presença de Deus nesse imenso esforço da humanidade para uma humanização crescente. Não tem medo da evolução da humanidade. Sabe e professa que as forças de vida sempre estão presentes, em primeiro lugar entre os pobres. Por isso tem esperança e apela para essa força dos pobres apesar de todas as derrotas, refazendo a esperança quando as aparências do mundo parecem destruí-la.

O profeta aceita a evolução do mundo apesar de todos os seus defeitos. Se não confiasse no futuro da humanidade e no progresso da humanização, não abriria a boca inutilmente. Reconhece a força do Espírito de Deus que conduz a humanidade. Não se opõe nem à modernidade, na modernidade. Reconhece essa etapa nova da humanidade que foi o advento do pensamento científico que penetra todas as áreas do saber Não defende uma ,certa luta contra as ciências, que entrou na Igreja desde o século XVI para defender Aristóteles. Reconhece o valor extraordinário das invenções tecnológicas que tornaram a vida humana mais livre da dependência das condições naturais, mais livre corporalmente,, mais livre das doenças, mais capaz de agir no mundo. Não anuncia um retorno a uma vida rural tradicional. Não tem nostalgias do passado porque olha para o futuro. Reconhece o valor da emancipação das pessoas, numa sociedade de fraternidade dentro de estruturas sociais democráticas, sobretudo a emancipação das mulheres, das crianças, dos povos dominados. O profeta confia no trabalho de tantas gerações para melhorar a vida e glorifica esse trabalho realizado com muitos sofrimentos, cansaço e perseverança. Foi esse trabalho que construiu o mundo atual.

O profeta sabe que no mundo a Igreja não tem fama de confiar na humanidade. Ela tem fama de se situar na defensiva, sempre desconfiando das novidades. Esta fama foi formada a partir de tantas condenações emitidas pelos Papas desde a Revolução francesa e que continuam apesar de que João XXIII desejou que se pusesse fim à era das condenações. Quem não aceita a humanidade tal como é, não pode evangelizar porque a sua palavra não será aceita. O profeta pretende anunciar o evangelho dentro do mundo e por isso ama esse mundo.

O profeta denuncia a dominação que alguns exercem sobre os outros, desviando os inventores, os criadores culturais, os dirigentes sociais da sua missão colocando todo esse trabalho a serviço de ambições individuais. O problema cristão é o poder. Como se constrói o poder? Quem tem o poder e por que? Qual é a missão do poder?

 

A profecia é testemunho do evangelho para o mundo. Mas ela é inevitavelmente testemunho para a Igreja. Não haveria profetas se a Igreja realizasse a sua missão profética no mundo. Quando não a realiza, aparecem profetas individuais que a despertam, lhe lembram a sua missão de Igreja e abrem novos caminhos. Querem a conversão da Igreja e essa conversão consiste em passar da aceitação passiva da injustiça estabelecida, do desprezo pelos pobres, para um testemunho evangélico no mundo, pela palavra e pela ação.

Diante da atual evolução da sociedade humana, com a primazia da economia e do dinheiro, com a extraordinário desigualdade entre os povos e dentro dos povos, com o pensamento único divulgado por uma enorme concentração dos meios de comunicação em mãos de alguns poucos conjuntos financeiros, impressiona o silêncio da Igreja.2

Como explicar esse silêncio? As opiniões serão diversas. (...)

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O profeta tem um carisma especial na Igreja. No testemunho perante o mundo, ele está na frente. Ele é a pessoa que se expõe à reação de autoridades ou de poderes da sociedade humana. Ele o faz para despertar a Igreja, para que se comprometa num caso concreto altamente simbólico. O problema é escolher ou discernir o momento e o lugar.

A mensagem para a Igreja será uma mensagem de liberdade: não tenham medo! Tomem posições! Enfrentem os poderosos! Assim fizeram tantos profetas e na América latina, não faz tanto tempo. Essa mensagem será enviada sem arrogância, com humildade, com a consciência da própria imperfeição, mas com a convicção de que Deus chama para a liberdade.

A profecia sempre é um risco. Na medida em que o clero se burocratiza e se fecha num passado isento de problemas, ele tem medo do risco. A vida sacerdotal pode ser aquela que menos arrisca na vida. Também o cristão pode ser aquele que menos arrisca como cristão, porque evita qualquer possibilidade de conflito. Basta não pensar nada, não dizer nada e não fazer nada: estará em paz durante a vida toda. Seria a nova bem-aventurança: bem-aventurados os que não vivem, mas deixam a vida passar ao lado deles!

(...)

 

Não podemos dizer aos profetas qual é a mensagem, como, onde, quando. Tudo depende da iniciativa do Espírito. A profecia não virá do lado que esperamos.. Pois, não sabemos como o Espírito conduz a Igreja. Sabemos que não a conduz como o clero queria.

A nós, nos pertence aguardar, espiar, e escutar quando o Espírito falar por essas pessoas excepcionais que receberam um dom de luz superior. A nós, nos pertence escutar e seguir. Deus não fala a todos da mesma maneira. Há diversidade de dons na Igreja. Por conseguinte, sabemos que não podemos buscar simplesmente em nós mesmos a luz necessária. A luz virá por intermédio de outros.

A profecia nunca faltou na historia do cristianismo. Ás vezes ficou mais limitada a espaços mais estreitos, às vezes ressoou na Igreja inteira. Ás vezes foi mais eloquente, à as vezes mais discreta. Cada um dos profetas foi diferente dos outros. Não existe nenhum modelo uniforme imposto a todos.

Os profetas sempre apareceram como pessoas livres. Totalmente dedicados à sua missão, totalmente dedicados aos pobres, totalmente independentes de todos os poderes humanos. Foram perseguidos pelos poderosos da sociedade e às vezes pelas autoridades da Igreja. Quando foram martirizados, fizeram da sua morte um verdadeiro testemunho. A sua liberdade era a expressão mais clara da sua missão e do valor da mensagem que entregavam. Eram livres e, por isso, podiam falar a verdade, assumindo todos os riscos.

Hoje em dia é mais difícil ser livre. Há um pensamento único, um único modo de vida que se impõe a todos, ainda que os pobres não o possam alcançar. Há um controle social muito forte e milhares de regras de comportamento social obrigatório. Para pessoas de classe alta ou de classe média, a liberdade é mais difícil do que nunca. O estresse ameaça-os a todos. Ainda é nos pobres que se acha mais liberdade. Pois, o que faz a liberdade, não é o dinheiro, mas a recusa de toda entrega de si mesmo por dinheiro. O dinheiro é o que torna escravo, escravo do dinheiro.

Os profetas estão no meio de nós, jovens provavelmente, pois ainda não apareceram publicamente. Virão para tirar a Igreja da sua letargia. Pois, a Igreja ainda não sabe como se emancipar do poder do dinheiro que tudo invade. Este é o desafio: Jesus que tinha todos os títulos para ser rico, tornou-se pobre, realmente pobre e não como se fosse teatro. Esse é o fato que não podemos negar e que nos questiona sem cessar.

Eu estou no final da vida. Tive o privilégio de conhecer de perto e de participar da vida de grandes profetas e também de muitos pequenos, homens ou mulheres que não entraram na história. Desejo que muitos jovens possam fazer a mesma experiência.

 

1 A obra mais significativa é o livro de Friedrich Heer, Europäische Geistesgeschichte,Kohlhammer, Stuttgart, 1957.

 

2 Cf., por exemplo, Jean-Yves Calvez, Les silences de la doctrine sociale catholique, Les Éditions de l’Atelier, Paris, 1999. Desde então, o silêncio somente aumentou.