A seu modo, José Comblin foi um profeta: qual não foi o privilegio de termos conhecido, ouvido, falado, tocado ou convivido nem que por algumas horas com este que de modo simples, despretensioso, discreto, porém com os arroubos do profeta expressou a mensagem de Jesus!

 

José Comblin nos deixou um extenso legado: 69 livros próprios, 4 publicações coletivas, 422 artigos publicados (incluindo algumas entrevistas). Relendo alguns de seus escritos de mais de 40 anos atrás percebemos uma atualidade impressionante. Por vezes, muita coisa de suas falas e seus escritos não foi bem compreendido, gerou reações de protesto, até de indignação. Mas na verdade, hoje já compreendemos algumas dessas coisas e há outras que daqui a 50, 100 anos ou até mais ainda, serão profundamente atuais.

 

José Comblin era um homem simples. Jamais queria fazer-se servir: ele mesmo arrumava sua cama, varria seu quarto, tirava poeira de suas estantes de livro, lavava as suas roupas e passava suas camisas. Se alguém quisesse fazê-lo, tinha que antecipar-se, pois ele não esperava para fazer as tarefas domésticas. Fazia o café da manhã e lavava a louça enquanto esteve em sua casa.

Comia o que lhe ofereciam: embora tivesse suas preferencias inclusive por suas origens européias, passou décadas comendo a comida nordestina do povo pobre. Mas ao receber visitas oferecia do bom e do melhor sem faltar o vinho e o aperitivo. Até, ia ao supermercado fazer as compras: dizia que era uma forma de acompanhar a realidade. Quando recebia convidados preparava a mesa com esmero, ajudava no que era preciso e ficava de prontidão com as portas abertas para receber os visitantes.

Quando podia usava o transporte coletivo ou alternativo. Andava pelas periferias em todos os lugares onde morou e o fez até poucos dias antes de sua morte. Nas suas andanças e caminhadas observava tudo: as pessoas, o que faziam, o que se passava na rua, as moradias, as plantas, os animais, a interação entre uns e outros, nenhum detalhe escapava ao seu olhar perspicaz.

Na sua maneira de vestir era muito simples: tinha apenas dois calçados - uma sandália e um sapato fechado para suas viagens aos lugares frios dentro e fora do país. Seu guarda roupa era muito simples e quando lhe perguntavam se podiam comprar um calçado, uma camisa ou calça ele respondia: prá quê, se já tenho, só posso usar um de cada vez...

Não podemos esquecer a sua veia de agricultor. Ao inserir-se no Nordeste e iniciar aquilo que se chamou a Teologia da Enxada (nome dado por Carlos Mesters) ele adotou a prática de trabalhar a terra a seu modo: plantar árvores. Em todos os lugares por onde passou plantou mudas das mais diversas árvores tanto frutíferas como nativas. Ele mesmo possuía todas as ferramentas necessárias: enxada, enxadeco, pá, ferro de cova, cavadeira, regador. Plantava e replantava. Muitas vezes as mudas não vingavam, ele tornava a plantar, e mais uma vez o fazia, assim como os pequenos agricultores. Dizem que plantou mais de duas mil árvores. E o fazia com extrema delicadeza, parecia conversar com as mudinhas, de ajoelhava sobre a terra, a ponto de pegar verminoses.

Nunca se viu ele reclamar de alguma coisa: comida, dormida, hospedagem, transporte, distancias, conforto, cansaço, dores. Nunca. Nisso consistia a sua humildade: acolher tudo como se apresentava.

Era um leitor inveterado. Andava com um livro sempre à mão e aproveitava todos os momentos. Pouco via TV, muito menos os noticiários que considerava limitadíssimos além de manipulados. Mas estava sempre atualizado sobre a realidade e os fatos.

Enfim, poderíamos passar horas descrevendo sua maneira simples, humilde, discreta, despretensiosa de ser. Recordamos um pouco de sua vida cotidiana porque sabemos que é a vida do profeta que dá autenticidade às suas palavras. E o seu testemunho fala mais do que todas as palavras.

 

Mas é preciso falar de outra faceta muito forte: o seu amor aos pobres. Ao abraçar a América Latina, o Brasil e o Nordeste, com todo o seu conhecimento bíblico e teológico e a sua profunda espiritualidade, o amor aos pobres tomou conta de seu coração. Como grande estudioso, ele tinha um extenso conhecimento sobre os pobres, a pobreza, os mecanismos do empobrecimento. Logo buscava conhecer também as origens, a história, as etnias. Ele olhava para uma pessoa afrodescendente e dizia com acerto de que região da África ela descendia.

Ele estudava tudo o que se referia ao povo, mas, sobretudo, ele amou com força os pobres. Não uma massa anônima, mas rostos concretos, pessoas com nome e história. Ele admirava, contemplava, acolhia. E estes se sentiam à vontade com ele, conversavam, o visitavam, o abraçavam, faziam confidencias, pediam conselhos. Seu olhar luminoso e transparente nunca se desviou de ninguém. Até bandidos e traficantes batiam à sua porta e ele abria, os ouvia, atendia às suas necessidades. Estes mesmos manifestaram sua tristeza quando morreu o padre. Embora sendo renomado teólogo e escritor, sempre atendia imediatamente a quem o buscava, sem pressa, com toda atenção. Ele dizia que aos pobres era preciso devolver a autoestima, a autoconfiança, pois eles carregam dentro de si, um profundo sentimento de inferioridade, na maioria das vezes inconsciente. Daí a sua atenção, a sua delicadeza, o seu cuidado. Suas obras mais do que construções e prédios de tijolos, foram iniciativas de formação para o meio popular, lideranças do povo: sempre investiu mais nas pessoas do que nos prédios.

 

Em seus escritos e falas sempre recolhemos uma insistência repetida: A missão dos profetas consiste em lembrar a todos que a Igreja deveria ser dos pobres, lembrar aos pobres a sua dignidade, aos ricos o sentido dos bens materiais como serviço a todos.

Os profetas lembram que a Igreja é uma fraternidade e que os primeiros são os que servem... Que somente uma Igreja dos pobres terá capacidade e credibilidade para proclamar um reino de justiça neste mundo e para questionar a desordem estabelecida. Nisso residia a sua força e por isso o seu legado escrito não perde a sua atualidade, pois abraçar os pobres e sua causa será sempre um apelo presente e atual.

 

Em seus escritos e falas José Comblin sempre destacou aqueles que considerava profetas para o seu tempo. Ele nomeou pela primeira vez os Santos Padres da América Latina. Ele em escritos diversos percorre o caminho da Profecia na Igreja. Figuras inesquecíveis como Francisco de Assis, Domingos, Frei Bartolomeu de Las Casas. Francisco de Assis na sua experiência com o leproso vislumbrara que, no pobre, há alguém que os interpela e esse alguém vai muito além do próprio pobre. É um apelo que transforma a pessoa, dando uma nova orientação à sua vida.

Mais próximos na história citava: o Pacto das Catacumbas assinado em 1965 por 40 bispos que reafirmaram o compromisso com os pobres “Procuraremos viver segundo o modo ordinário de nossas populações no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo o que daí se segue”. Assim, Dom Oscar Romero em San Salvador, fez-se a voz dos sem voz, foi maltratado, torturado e acabou assassinado. Dom Henrique Angelelli, na Argentina, colocou-se ao lado dos operários e também foi assassinado. D. Juan Girardi, na Guatemala, condenou a repressão das Forças Armadas. D. Helder Câmara, no Brasil, fundou a CNBB, abraçou os pobres no nordeste, desafiou a ditadura, sofreu perseguição. D. Leônidas Proaño, no Equador, fez uma reforma agrária nas terras da diocese e deu apoio a todos os movimentos de promoção dos indígenas, pois estava convencido de que a Igreja tinha uma imensa dívida para com os índios e ele queria contribuir para pagar esta dívida.

 

Embora faça referencia a figuras destacadas na Igreja, sempre lembrou e contava fatos que atestavam a existência de muitos pequenos profetas, homens e mulheres, anônimos, movidos pelo Espírito, porque Deus não abandona o seu povo. Mas para o mundo citava pessoas referenciais e divulgava particularmente o testemunho de Bispos da Igreja mostrando que mesmo sendo homens da instituição, é possível deixar-se guiar pelo Espírito Santo e transmitir a mais genuína Tradição de Jesus. E como homens da instituição, a sua postura de genuína liberdade cristã e o seu testemunho teriam especial repercussão. Nisso, aliás, estava a profecia.

Afirmava que a grande profecia é cuidar dos pobres. E sempre será. Esse é o apelo de Jesus, esse é o apelo sempre renovado através da história, esse é o apelo atual, essa é a insistência do Papa Francisco hoje. Cuidar dos pobres, dos frágeis, dos caídos. E hoje entre esses está o Planeta Terra, tão fragilizado. Apelo que se renova porque a tendência é melhorar de vida e acomodar-se entre os melhores. Mas José Comblin afirma que precisamos ver a cada época quem são os novos pobres. A sociedade, enquanto for capitalista, estará sempre produzindo novos pobres, novos excluídos, novos marginalizados.

 

Na sua coerência de vida, José Comblin foi levado pelo Espírito Santo a se preparar para a Grande Viagem (expressão que adotou de Dom Helder Câmara ao referir se á morte) à sombra de um profeta. Decidiu viver no sertão da Bahia, junto ao Frei Luiz Flávio Cappio, bispo da Diocese de Barra. A ele dedicou o seu último livro A Profecia: “... Fiel companheiro de São Francisco, Profeta do sertão nordestino, Defensor do povo do rio São Francisco”.

 

Hoje, em tempos do Papa Francisco, certamente José Comblin se sentiria contemplado com as suas posturas. Mas ciente e lúcido sobre o imenso desafio que significa uma reforma da Igreja. A instituição necessita de profetas, mas estes ficam muito além da instituição. Na sua função de Bispo de Roma responsável pela Igreja Universal o Papa faz o que pode, mas não pode mudar a Igreja. A mudança que todos os profetas desde a Bíblia e ao longo da história da Igreja propuseram parte de uma conversão pessoal. São pessoas que abraçam o Caminho e a mensagem de Jesus com radicalidade e dão testemunho. Isso é o que convence o mundo.

O próprio Comblin dizia: Para os nossos contemporâneos a única coisa que pode transformar a vida é o encontro com pessoas realmente evangélicas, realmente comprometidas de uma maneira convincente, de uma maneira forte, de uma maneira iluminadora, pessoas cuja vida é uma luz. Cuja vida ilumina. O que transmite o evangelho, não é a instituição, mas as pessoas que estão nessa instituição. A Igreja como instituição é o lugar situado no espaço e no tempo onde vivem os discípulos que são o corpo de Cristo, as pessoas nas quais residem as Pessoas divinas.

 

E, finalizando, não há outro movimento que não seja o de saída. O papel das lideranças em todos os níveis é empurrar nessa direção. Como ele dizia: O caminho que Jesus mostra situa-se neste mundo. Não é um caminho feito de atos religiosos, mas de atos realizados na vida de cada dia. Jesus não tira os discípulos do mundo, mas os envia para o mundo.

Assim, situava o profeta na história e na sociedade de cada tempo e lugar. O profeta surge diante das realidades que clamam, que oprimirem, que falseiam, realidades que ao olhar atento do profeta não admitem omissão. Hoje em dia o profeta é político no sentido de Jesus: critica os governantes que querem manter as estruturas estabelecidas que são injustas.

Jesus não enunciou uma doutrina, mas realizou atos significativos e de alto valor simbólico que denunciavam a mentira dos seus adversários e despertavam a esperança no povo. Com isso não derrubou imediatamente o Império romano. Mas desde então todos os movimentos revolucionários tiveram raízes na sua missão profética.

 

José Comblin, o seu legado continuará sendo força propulsora da Igreja de Jesus na medida em que nos provoca a seguir Jesus, na força do Espírito e na ternura do Pai, pelos caminhos do mundo, nas situações onde somos colocados por Deus.