Os sinais dos tempos foram tomados por João XXIII e pelo Concílio Vaticano II em dois sentidos diferentes, nem sempre bem distinguidos. A relação entre os dois permanece bastante indefinida. Em primeiro lugar os sinais dos tempos referem-se a acontecimentos e situações da sociedade ocidental contemporânea, ou seja, às mudanças ocorridas na sociedade. Como e porque essas mudanças podem ser sinais ? é o que examinaremos logo. Em segundo lugar há uma referencia a Mt 16,4, ou seja aos sinais escatológicos, sinais da presença do reino de Deus neste mundo. Os textos como os discursos do Papa tendem a associar os dois sentidos, com o se a mudanças da sociedade tivessem um sentido escatológico. Como isso seria possível ? Como foi psicologicamente possível associar s dois sentidos, ou seja, reconhecer em mudanças sociais sinais do reino de Deus ?

Parece que naquele tempo isso não foi problema. Não prestaram atenção a uma possível distância entre os dois conceitos. Hoje em dia é justamente isso que nos parece ser problema. Naquele tempo interpretaram os sinais dos tempos no sentido de que a Igreja devia abandonar o sonho de cristandade e adaptar-se à nova sociedade. Mas porque teria que se adaptar à nova sociedade ? O que parecia não fazer problema, faz problema para nós.

Quanto à intenção geral do Concílio quando usa a palavra sinal dos tempos não há hesitação possível. O Concílio queria reconhecer que existe a história, que a Igreja está na história, que os tempos da cristandade já passaram e que a Igreja deve abrir-se para a modernidade. Durante séculos a Igreja condenou a modernidade na esperança de rever um dia a cristandade. Hoje em dia está na hora de reconhecer a realidade: existe um novo mundo. Este sentido global está muito claro2.

O que não satisfaz plenamente, é a teologia usada para exprimir essa opção.Porque apelar para o conceito bíblico de “sinal dos tempos”? Os sinais dos tempos referem-se à escatologia. Estaria dentro da escatologia cristã a aceitação e adaptação da Igreja à modernidade ? Em que sentido ?

O conceito de sinal é variado. Podemos destacar dois pólos diferentes nos seus significados..

O primeiro sentido de sinal é alarma, advertência: dar sinal é chamar a atenção, mostrar a presença de uma realidade não percebida, mas importante.

Este sentido estava nos discursos de Papa que lançaram o tema. Os sinais eram situações, fatos, estruturas que mostram uma mudança no mundo, que importa levar em conta porque poderia haver um perigo; esta nova realidade exige uma resposta.

Claro está que a introdução do conceito de sinal supõe implicitamente que a Igreja pode mudar e que as mudanças na Igreja podem ser justificadas por mudanças no mundo. estas mudanças podem estar relacionadas com as mudanças no mundo. Pois até então a idéia dominante era que a Igreja não muda e permanece insensível às mudanças do mundo. Que ela deve se fechar em si mesma para não ser contaminada e não ser tentada de mudar também.

Quais foram esses sinais dos tempos ? o que foi que constitui uma alarma, um apelo a prestar atenção e até a mudar de rumo ? Não se explicita, mas pelo processo podemos imaginar. O que é sinal é que a Igreja perdeu a liderança da cristandade. Que a sociedade não se submete mais à direção da Igreja. Claro está que fazia tempo que isso era manifesto. Já desde o século XVI, mas os monarcas católicos somente mantinham as formas. Eram muito religiosos e praticavam uma política totalmente não cristã sob um revestimento excessivamente religioso. O clero aceitava porque contava com a aliança com os reis para controlar a sociedade ou para manter a ilusão de que a cristandade ainda existia. Veio a Revolução Francesa que foi interpretada como uma turbulência passageira que não podia durar. Era só agüentar, permanecer firme e tudo voltaria à normalidade. A Igreja iria reconquistar o seu poder. Foi a idéia do século XIX. Vaticano II veio para tirar essas ilusões. A cristandade não voltaria e era necessário conviver com a modernidade.

No Brasil a ilusão de refazer uma nova cristandade era visível demais. Quando se realizou com o advento da República em 1889 a separação do Estado e da Igreja, os bispos e o clero não entenderam esta situação como um convite para mudar. Não viram um sinal, ou viram um sinal de que não se podia mudar nem se deixar levar pela onda de mudanças. Era necessário resistir e esperar que essa nova sociedade baseada na República morresse por si mesmo, destruída pela sua própria corrupção .Se a Igreja tinha perdido o domínio do mundo, esta era uma situação transitória, passageira, como as perseguições do Império romano e que a resistência prepararia a Igreja para novas glórias.Esta era a teoria dominante.

 

Num segundo sentido o sinal dos tempos mostra o rumo a seguir, mostra as mudanças necessárias João XXIII tomava os sinais dos tempos também e talvez sobretudo nesse sentido. Pois, para ele havia no mundo atual, ou seja, na modernidade, elementos positivos. As mudanças sociais não eram puramente negativas. Era necessário olhar para o mundo com mais otimismo, o que era, para ele, com mais objetividade.

Somente a consideração do mundo moderno não constitui por si mesma um sinal no sentido de João XXIII. Porque ela pode levar exatamente à atitude contrária. Desde a Revolução francesa todos os seus predecessores tinham considerado o mundo moderno como o inimigo e a tentação. Também a consideração da diminuição do poder da Igreja não era em si mesma um sinal porque esta diminuição também podia receber outras interpretações. Era uma Igreja oprimida, reduzida a um pequeno resto, mas esse resto tinha as promessas de grandeza futura. Era assim que se interpretava em certos ambientes conservadores depois da Revolução francesa

Seguindo a linha de João XXIII a maioria conciliar procurou reconhecer os elementos positivos da modernidade. Reconheceu as mudanças do mundo moderno e deu um julgamento favorável aos seus projetos e a muitas das suas realizações, embora chamasse também a atenção para os problemas que ainda não foram resolvidos ou lamentando o pouco espaço que deixam para a Igreja.

Gaudium et Spes faz um elenco das mudanças da modernidade. Não se trata de uma exposição científica, sociológica, mas era a enumeração sem pretensão científica dos aspetos mais visíveis.: ciência e racionalidade científica, desenvolvimento econômico, transformação social, direitos humanos, tudo visto numa apresentação otimista que correspondia à visão do mundo que predominava na democracia cristã daquela época.

Gaudium et Spes era um documento redigido dentro do ambiente da democracia cristã Era a aceitação das liberdades liberais e da democracia, proposta do Estado de bem-estar, ou seja de um capitalismo temperado pelas leis sociais impostas por uma maioria social-democrata e democrata cristã na Europa. Estava claro que esse modelo era o modelo que se queria difundir nos países atrasados a que ainda na tinham chegado a isso, Espanha, Portugal. Estava implícito que as lutas de classe poderiam ser superadas pelo Estado de Bem-estar.

Tudo aquilo correspondia ao olhar dos líderes do episcopado “progressista”da Europa ocidental. Ora, era exatamente nessa sociedade que as Igrejas estavam perdendo poder. Nem tanto a maioria conciliar admitia explicita ou implicitamente que o problema era a inadaptação da Igreja a essa situação de modernidade temperada. Por isso essa situação do mundo ocidental era um sinal Era um sinal de que alguma coisa não andava bem na Igreja e que a solução estaria numa adaptação melhor a sociedade moderna, reconhecendo muitos dos seus valores.

Os conservadores entendiam que todos os problemas vinham do mundo e que o mal estava no mundo e por isso havia que lutar contra o mundo atual. Eles podiam invocar como argumento que as dificuldades da Igreja se produziam justamente nos países que tinham aceito a modernidade. Onde a Igreja tinha permanecido fiel à cristandade como na Espanha ou Portugal, quase todos os habitantes eram ainda fiéis à prática de todos os mandamentos da Igreja católica. Porém o partido dominante que era o da Europa do Norte achava que o mal estava na Igreja que não estava adaptada. Este entendia que a situação do mundo moderno que provoca problemas para a Igreja era um sinal de alarma, e era também um sinal indicativo do rumo a ser tomado: entrar nos valores da modernidade e colaborar com ela.

Esta posição era inspirada pelo evangelho, ou pelo desejo de recuperar o poder perdido na sociedade ocidental ? A Igreja dos bispos de Vaticano II queriam seguir o evangelho ou restituir à Igreja o poder perdido ? Não está tão claro. Podemos pensar que o próprio João XXIII estava mais inspirados por motivações evangélicas, mas não se pode afirmar a mesma coisa de todos os promotores da maioria conciliar. O problema é que estavam tão convencidos de que a causa da Igreja era a causa do evangelho e que promovendo a Igreja se anunciava o evangelho, que não estavam conscientes daquilo que os movia realmente.

Há uma suspeita muito forte de que a motivação da maioria conciliar era a mesma da minoria: era o triunfo da Igreja, era a salvação da Igreja e os dois partidos diferiam quanto ao método, mas a finalidade era a mesma.

Como se deve entender que as mudanças sociais foram interpretadas como sinal dos tempos, ou seja, como sinal escatológico, sinal do advento do reino de Deus ? Não foi a situação social e cultural em si mesma, a modernidade em si mesma, que pode ter valor de sinal escatológico. A modernidade não diz nada disso por si mesma. Ela existe simplesmente, e pode ser entendida de muitas maneiras diferentes ou simplesmente existir sem receber nenhuma interpretação.

O que foi que permitiu que a modernidade fosse vista como sinal dos tempos ? Pode ter sido uma luz evangélica, uma inspiração cristã. Mas, pode ter sido uma preocupação pelo futuro da Igreja . Nos textos conciliares não está claro. A fonte pode ter sido evangélica ou pode ter sido institucional, como um sinal para o instinto de sobrevivência da instituição. Todas as empresas, todas as instituições devem prestar atenção aos sinais de mudança que as obrigam a mudar os seus programas. Seria isso que teria acontecido, ou seria realmente uma inspiração evangélica ? O que complica a coisa é que a compreensão que os bispos tinham do evangelho era implícita, escondida, inconsciente e estavam todos acostumados a apresentar uma visão edificante dos seus projetos e das suas decisões para responder a uma exigência profissional. Não podemos confiar nos discursos públicos porque estes expressam a imagem que os bispos querem dar de si próprios em, virtude da posição social que ocupam. A sua preocupação permanente é o êxito da Igreja. O controle permanente e rigoroso de Roma sobre as Igrejas particulares dirige-se essencialmente a esse aspecto Nunca se pergunta a um bispo se se vive o evangelho na sua diocese, mas sempre quais são os resultados quantitativos.

Se tomamos os sinais dos tempos no sentido evangélico, ou seja, no sentido escatológico, em todas as épocas se manifestam os sinais dos tempos, ou seja os sinais da grande transformação do mundo do reino do diabo para o reino de Deus. Em cada época é preciso lembrar os sinais dos tempos e procurar interpretar os sinais para saber que fazer no tempo atual para que se realizem os tempos anunciados por Jesus. Esses sinais dos tempos não se referem especificamente à modernidade porque estão presentes em todos os tempos.

Parece que João XXIII usou a expressão sinal dos tempos nesse sentido evangélico ou escatológico, quando disse que agora era o tempo da misericórdia e não já das condenações, e quando disse que havia que adaptar as formas culturais, o revestimento cultural à nova cultura do mundo.Desta maneira ele relativizava todo o revestimento cultural que a Igreja tinha adquirido durante os séculos anteriores.

Por acaso, o Papa queria dizer que havia tempos em que era preciso condenar e que havia tempos em que se devia manter uma cultura em desacordo total com a cultura do país ? Não era bem assim. O seu discurso podia à primeira vista insinuar isso, mas está claro que na mente dele não era assim.Ele não aprovava os métodos de condenação em tempo nenhum.Em momento algum o evangelho permitia justificar a Inquisição, as lutas contra os hereges e assim por diante. Em momento algum o evangelho dizia que era preciso permanecer numa cultura fixa embora com o resultado de formar uma contra-cultura embutida na sociedade.

Então o que foi que o Papa pensava? Ele pensava que nestes tempos de mudança havia uma oportunidade para a Igreja voltar a viver o evangelho. Quis dizer que se tinha que aproveitar o momento de insegurança e de indefinição, esse momento em que a Igreja não estava segura de estar no caminho certo, para lembrar o evangelho de Jesus que é de misericórdia e de serviço aos homens, não de imposição. Mas está claro que como Papa ele não podia dizer isso nessa forma. Seria dizer que durante tempos a Igreja não tinha seguido caminho de Jesus. Nenhum Papa pode confessar isso.

Então, o que ele queria dizer, era que agora estava na hora de voltar ao evangelho de Jesus. Ele queria dizer que há momentos em que se abrem brechas quando algumas mudanças são possíveis e que o evangelho pode aproveitar esses momentos.. Há momento em que a instituição eclesiástica pode ser mais orientada pelo evangelho. Sabia que nem sempre é possível, mas que agora havia uma entrada possível para o evangelho.

Existem tais momentos. Tivemos no Brasil uma oportunidade perdida. Quando se fez a separação da Igreja e do Estado no advento da República (1889), a hierarquia ficou surpreendida e perplexa. Levantou a voz um missionário famoso, o padre Júlio Maria, o primeiro redentorista brasileiro. Julio Maria tinha sido um brilhante advogado quando aos 47 anos de idade se tornou religioso. Logo ele se impôs por ser um orador famoso e uma pessoa com grande prestígio na sociedade.O pe. Julio Maria escreveu e ensinou que esta separação da Igreja e do Estado era uma graça de Deus e um sinal: uma vez que a Igreja estava independente do Estado, ela devia reconhecer que os verdadeiros cristãos eram os pobres e devia orientar a sua ação para eles em lugar de esperar a sua salvação dos poderosos. Descobriu um sinal dos tempos.

Como se sabe os bispos nem sequer pensaram nisso e elaboraram um programa para reconquistar o poder perdido usando as ferramentas que a República oferecia ao todos os cidadãos.Não souberam descobrir os sinais dos tempos.

 

Os sinais dos tempos de Mt 16,3.

Tudo indica que João XXIII quis falar dos sinais dos tempos de Mt 16,3. Os tempos de que falava, não eram especificamente os tempos da modernidade, ou seja, o tipo cultural predominante na nossa época. Ele aludia em primeiro lugar aos os tempos escatológicos. Quis dizer que estamos nos tempos do advento do reino de Deus, reino de misericórdia e de apelo universal. Ao mesmo tempo achava que o momento histórico era oportuno para anunciar os sinais do reino de Deus. Porém o Papa não quis fazer a exegese do texto de Mt 16,3, o que não era o trabalho dele.

No entanto, é interessante procurar explicitar o que há nos sinais dos tempos dois quais Jesus quis falar.

O contexto é a luta das autoridades de Israel contra Jesus. Elas estão esperando a chega de um Messias que venha confirma-los no seu poder e nos seus privilégios.A denúncia de Jesus é que essas autoridades não sabem reconhecer os sinais dos tempos. De que tempos se trata ? Evidentemente dos tempos messiânicos. Fariseus e saduceus esperam o Messias, mas o Messias deles.

Jesus anuncia a chegada do reino de Deus. Ora, nesse reino não há mais lugar para fariseus ou saduceus, não haverá mais templo, nem lei, nem santidade adquirida humanamente. Os saduceus e fariseus entendem muito bem que Jesus anuncia um reino de Deus em que não há mais espaço para eles. Eles não poderiam governar esse reino de Deus. Por isso, não podem reconhecer os sinais: não podem aceitar esses tempos messiânicos e por isso se resistem a reconhecer os sinais.

Os sinais dos tempos mostram que o tempo dos fariseus e saduceus e de todo o seu sistema religioso já passou. Não há mais tempo para esse sistema que eles querem manter porque esse sistema lhes assegura o poder.

Jesus conhece dois tempos, radicalmente opostos. Há o tempo do sistema judaico e o tempo do reino de Deus. Jesus não entende que esses tempos novos já seriam o fim do mundo. Os tempos novos são os tempos que nos separam do fim do mundo e nos quais o caminho de Jesus substitui a lei da qual as autoridades de Israel fizeram um poder e um privilégio.

Este texto influi no pensamento de João XXIII. Ele também, anuncia o final de uma época com todo o seu conteúdo e o início de uma nova época. Essa nova época não é nova num sentido total. Ela tem a novidade de Jesus e do caminho dele. A nova época é o começo da época de Jesus. Não há sinal de que João XXIII tenha pensado no judaísmo dos adversários de Jesus ou tenha feito uma comparação entre este sistema e o sistema que predominava na Igreja católica. No entanto, ele anuncia tempos novos e estes tempos novos são justamente os tempos definidos por Jesus. Implicitamente havia na estrutura do seu pensamento essa analogia entre o sistema dos fdariseus e dos saduceus e o sistema católico dos últimos séculos.No entanto, ele não deve ter tido consciência explícita dessa analogia. Se tivesse tido consciência dela, não era conveniente que um Papa aludisse a isso num discurso oficial.

Tanto João XXIII como o Concílio repetem usque ad satietatem que a novidade que pretendem instalar não muda nada nas estruturas básicas da Igreja católica. Sempre evitam qualquer alusão a mudanças institucionais. E afirmam que toda a instituição deve permanecer imutável. Estava claro que o partido conservador era muito forte e intimidava os bispos e o próprio Papa . Nem o Papa, nem os bispos quiseram enfrentar esse partido.

Eles deram a impressão de que queriam convencer-se de que algumas mudanças superficiais na doutrina e mudanças nas relações pessoais poderiam dar resposta aos sinais dos tempos. O Concílio foi muito temeroso e muito tímido porque o partido conservador era muito forte, muito arrogante e muito pretensioso. A maioria achou que era preciso fazer-lhe inumeráveis concessões para que aceitassem algumas mudanças superficiais que não mudavam em nada às estruturas de poder na Igreja e não mudavam em nada a dominação total do clero sobre os leigos, ou seja o povo cristão.Os reformadores conseguiram muito menos do que pensavam. Assim mesmo foi um primeiro passo e um apoio dado a todos os que na Igreja buscavam um retorno ao evangelho de Jesus por cima de todo um aparelho burocrático acumulado durante séculos. Mas foi um passo ainda muito distante das esperanças do povo cristão.

 

 

Os textos conciliares sobre os sinais dos tempos.

Os textos conciliares sobre os sinais dos tempos permanecem muito ambíguos Os textos são Gaudium et Spes 4a, 11a, 44b; Presbyterorum Ordinis 9b; Unitatis Redintegratio 4a; Apostolicam Actuositatem 14c. O texto que parece ter orientado os outros, embora dois deles não digam expressamente sinais dos tempos, mas usam expressões equivalentes, é o texto de GS 4a.

O sentido fundamental é que os sinais dos tempos são o mundo atual, o mundo moderno, a nova situação do mundo, o conjunto dos fenômenos do mundo atual com as suas conquistas e os seus problemas. Os sinais são apresentados como se fossem fatos objetivos de um mundo situado fora da Igreja e pudessem ser considerados de modo objetivo. A luz da fé viria iluminar esse conjunto de dados de fato. Porque dar a um estudo sociológico o nome de sinais dos tempos ? Eles se transformam em sinais dos tempos provavelmente pelo olhar da fé que os julga. Como é que a fé pode julgar uma situação histórica, como se pudesse ter um olhar objetivo, olhando para o mundo situado fora dela ?

Com efeito, há algumas dificuldades. Em primeiro lugar, a descrição do mundo moderno não pode ser objetiva. Não podemos estar fora do mundo para poder olhar o mundo com olhos indiferentes. Estamos dentro do mundo e a Igreja também, todos os homens e mulheres. Por conseguinte todos julgam a partir da sua posição nessa história. Toda visão do mundo é subjetiva. Ora, a descrição feita do mundo moderno e dos seus problemas é a visão da burguesia européia, dos partidos democrata cristãos e social democratas. É a visão daqueles que fundamentalmente são solidários desse sistema. Sem se dar conta os bispos foram orientados ideologicamente pelo partido político dominante em Europa ocidental naquele tempo.Não perceberam que essa visão do mundo dada em Gaudium et Spes é ideológica, representa a convicção de determinado partido e não pode ter a pretensão a uma objetividade científica. Desta maneira os bispos não perceberam que estavam simplesmente legitimando o regime político da Europa ocidental. Não se interessavam pelo resto do mundo, nem pelas relações entre Europa ocidental e o resto do mundo, salvo de modo muito marginal e com uma projeção ocidental dessas relações.

Sem se dar conta, o episcopado está impregnado pela visão da burguesia da sociedade capitalista, essencialmente da Europa ocidental.O Concílio adotou o olhar da burguesia do seu tempo. Dentro da descrição feita da sociedade contemporânea, já há um julgamento, já há um partido tomado. A descrição já inclui o julgamento e o programa de ação. A luz da fé não é mais necessária porque outra luz já julgou a sociedade. Pode-se dizer que depois do olhar vem a luz da fé. Mas esta já está prisioneira, já está orientada porque o julgamento já está no olhar. Disto os padres conciliares não fazem a menor idéia porque formam um clube isolado, imune ao pensamento e à crítica. Se tivessem oferecido o seu documento à crítica dos pensadores da época, teriam sido avisados e teriam percebido que eram porta-vozes de uma ideologia..

Em segundo lugar vem a segunda dificuldade que é correlativa da primeira. Qual é essa fé que vai julgar ? Qual é a luz que ela vai projetar ? Os padres conciliares parecem supor que a luz da fé é a opinião deles, ou o projeto deles, a forma como eles interpretam o cristianismo.Em todo caso não se oferece nenhuma explicação como se isso fosse evidente, como se todos soubessem o que é a fé que julga o mundo e quais são os princípios que orientam esse julgamento.

Alem disso, tudo sucede como se em cada elemento do problema social, a luz da fé pudesse projetar uma solução, ou seja resolver as contradições da sociedade moderna, ou pelo menos dar uma contribuição. Haveria uma luz que permite descobrir para cada elemento uma solução à contradição. Na prática isto não funciona. A Igreja não apresenta nada que seja original. Ela propõe o que os partidos democrata cristão e social democrata propõem.

Se se procura saber qual é o programa concreto que proclama Gaudium et Spes, precisa reconhecer que não traz nada de novo e repete o que todos dizem. A luz da fé não consegue dizer nada`que seja original ou possa oferecer ma orientação ao mundo moderno. A doutrina dos sinais dos tempos no concreto consiste em aceitar o mundo moderno. A Igreja renuncia ao plano de refazer a antiga cristandade,reconhece que já não há condições para isso e decide aceitar esta sociedade, inclusive legitimando o sistema democrático que prevalece na Europa ocidental. Ela repete o que constitui o que se chama de doutrina social da Igreja. Inconscientemente, ela se faz o auxiliar da burguesia ocidental.

Não podemos subestimar esse resultado. Pelo menos a hierarquia abandona o sonho de refazer uma cristandade. Estes documentos conciliares são ainda importantes nos nossos tempos, no final de um pontificado que fez todo o possível para refazer uma nova cristandade a partir dos recursos e dos instrumentos que oferece a própria modernidade. É o programa do Opus: usar a modernidade para refazer uma cristandade. Isto é o contrário daquilo que o Concílio pensou. Com o Concílio a Igreja devia deixar de condenar todas as novidades da modernidade que continua, e reconhecer tudo o que vale, ou seja, tomar uma atitude positiva, o contrário da posição romana neste pontificado. Por isso não é pouco o que o Concílio nos deixou. O que não tinha previsto é que tão cedo a Igreja voltaria aos seus projetos anteriores.

No Concílio houve um início de escuta do próprio mundo. O mundo que se escutou foi a burguesia européia daquele tempo, mas o fato de escutar já era um grande progresso.Também é preciso reconhecer que a burguesia daquele tempo não era tão feroz, tão dominadora, tão hipócrita e tão indiferente aos sofrimentos do mundo como a burguesia mundial atual.

Hoje em dia a sociedade democrata cristã que o Com cílio conheceu esta’em via de desintegração e está substituída por uma sociedade globalizada em que ninguém controla os donos do dinheiro. A Igreja somente pode perceber que já não tem nenhuma força nesta nova sociedade. Ela pode ser utilizada pelos donos do poder, m as não pode influir. Já precisaria de outro Concílio para dizer o que a Igreja deve fazer numa sociedade que não lhe atribui nenhum valor.

 

Conclusão.

A título de conclusão, me seja permitido propor uma interpretação diferente dos sinais dos tempos. O que provoca desconfiança é que em Gaudium et Spes como no Concílio de modo geral, os pobres estão longe de ser reconhecidos como deveria ser em virtude do evangelho e do Novo Testamento em geral. O lugar central está ocupado pela modernidade, ou seja pelo desenvolvimento. Tudo sucedeu como se o conjunto do episcopado tivesse caído na armadilha da ideologia do desenvolvimento. Achavam que a pobreza era um acidente da evolução e que o desenvolvimento daria a solução.O problema da pobreza estava longe das preocupações, e somente uma pequena minoria procurou introduzir essa problemática, sem consegui-lo. A pequena minoria que estava preocupada por essa questão nunca conseguiu fazer penetrar a sua mensagem. Evidentemente não havia condição para isso.

O nosso ponto de partida é a questão da luz da fé. Se não se explicita o que é a luz da fé, não se chegará a nada e a fé vai simplesmente confirmar o sistema estabelecido complementando-o com piedosas exortações.

Ora a luz da fé consta claramente no Novo Testamento. A fé não consiste em aceitar intelectualmente verdades pontuais tiradas da Bíblia. A fé consiste em reconhecer o plano de Deus, o advento do reino de Deus.Trata-se de reconhecer a marcha do povo de Deus nos nossos tempos.

O reino de Deus não é uma situação nem uma instituição, é um movimento. Mais exatamente o reino de Deus é o movimento de libertação da dominação na qual seres humanos submetem outros seres humanos por meio de violência, engano, mentiras, etc. O advento do reino de Deus é uma luta contra forças humanas, instituições humanas que são opressoras.

Jesus enfrentou uma expressão básica de dominação que era a dominação religiosa. Uma casta de sacerdotes, doutores ou grandes proprietários estava dominando o povo mediante uma religião inventada`por eles e que se apresentava como a palavra de Deus. A vida de Jesus foi uma luta para libertar o seu povo do reino da mentira, da injustiça, da violência.Jesus vem tirar o véu, mostrar a mentira. Jesus não luta contra um pecado misterioso, escondido no recinto da consciência individual. Jesus luta contra um pecado que tem nomes e apelidos,muito`concreto, com instituições muito concretas: o templo, o sacerdócio,a lei.

O capitulo mais claro é o cap. 8 de s. João. Mas todos os evangelhos mostram essa luta de Jesus, e com ela a marcha do reinado de Deus. Na sua humanidade Jesus era um ser limitado e não podia enfrentar todas as opressões da história. Escolheu a mais significativa, a mais disfarçada., escondida que é a dominação religiosa. Esta é a mais perigosa porque invoca a autoridade de Deus.

Segundo Paulo, os tempos novos consistem na luta do Espírito contra a lei.Ele estabelece como lei da história o drama da luta entre o Espírito e a lei na morte e na ressurreição de Jesus. Jesus sendo criatura humana somente podia assumir uma pequena parte da luta entre o pecado e o reino de Deus, entre a mentira dos dominadores e a luta de emancipação dos dominados. Depois dele a mesma luta continua, mas as circunstâncias mudam e a dominação tem outras manifestações. Já não se trata de recomeçar literalmente a mesma coisa. Esse judaísmo denunciado por Paulo desapareceu naquela figura histórica, mas está presente n o mundo atual com outras formas. Mas hoje em dia há outra forma de dominação e destruição da vida , e há outras formas de combate contra esse pecado social, pecado do mundo, pecado até institucional.

A luz da fé mostra a presença atual da mesma luta de Jesus em cada momento da história. Ela não mostra simplesmente situações. Ela mostra a marcha do reino de Deus frente a inimigos tão fortes. Os sinais são as lutas dos pobres, excluídos, dominados. Pois ali está Deus. Ali está Jesus e se trata de descobrir ou reconhecer essa presença no nosso mundo. As forças dominantes negam a dominação, escondem a realidade, fazem discursos bonitos para justificar e consolidar a sua dominação. Jesus vem tirar essas máscaras e manifestar a verdade do mundo.

A luz da fé mostra o que há realmente, mas que as ciências, os meios de comunicação, os discursos dominantes querem negar ou esconder. Os sinais dos tempos mostram o que está acontecendo no mundo, mas que fica oculto porque os homens querem ocultá-lo, não porque seria um mistério. O pecado do mundo não é nenhum mistério: é muito visível para as vítimas, ainda que os privilegiados o neguem. Não se trata de descobrir o que está acontecendo de modo objetivo seguindo os discursos oficiais, como ainda faz Gaudium et Spes. A luz da fé é o que dissipa as trevas do pecado. Não dá a conhecer todos os mecanismos de funcionamento da sociedade, mas as motivações secretas que as estruturas querem esconder. O contrário da luz não é a ignorância, mas as trevas. A luz da fé não deve mostrar aos homens o que eles ignoram, mas revelar-lhes o que querem esconder.

Os sinais dos tempos eram os sinais da luta de libertação dos oprimidos naquela época. Deviam mostrar onde estava Cristo e onde estavam os adversários dele e onde se situava a luta. Deviam mostrar onde estavam os pobres, os excluídos, os oprimidos e onde estava o movimento de libertação do reino de Deus.Uma pequena minoria sabia que devia ser assim. Mas a imensa maioria nem sequer entendeu de que se tratava. Tinham uma visão exclusivamente religiosa do cristianismo e não tinham entendido o evangelho. Por isso, predominou entre eles uma visão otimista, ideológica do mundo, a visão da burguesia da Europa ocidental.

Que isto seja uma advertência para um eventual futuro Concílio. O que importa para Jesus não são os progressos científicos ou tecnológicos, as mudanças econômicas e sociais. O que o preocupa é a libertação dos oprimidos. Este assunto é hoje em dia mais atual do que nunca.

 

José Comblin

 

 

 

Sinais dos tempos 40 anos depois de Vaticano II

Resumo

 

Um primeiro sinal é o chamado “relativismo teológico”. Tanto nas ciências ditas exatas, como na filosofia, passamos por um período de extrema crítica dos sistemas que se apresentam como a verdade universal e definitiva. Ora, a teologia oficial aparece justamente como um desses sistemas de verdade absoluta que a cultura atual condena. Por trás desses sistemas de verdades absolutas, os críticos denunciam uma vontade de poder.Um segundo sinal está ligado ao primeiro. Há uma consciência cada vez mais viva de que todos os problemas da Igreja católica estão ligados ao clero como estrutura de poder.Um terceiro sinal é a ligação cada vez mais significativa entre o Vaticano e o sistema de poder mundial, o que tem por conseqüências “ os silêncios da doutrina social da Igreja”. O quarto sinal é a afirmação do pentecostalismo como o maior fenômeno religiosos da época. Por fim, termino com um desafio: a escolha entre duas opções : a opção da fixação nas estruturas estabelecidas como resistência às seduções de um mundo que se destrói a si mesmo, opção tomada em Roma desde a Revolução francesa e defendida pelo Opus Dei, ou a opção do risco, opção do diálogo com a humanidade atual tal como ela é, dando valor aos elementos positivos. Foi a opção de João XXIII.

 

1 Publicado em Concilium , ed. queriniana, 2005/4, p. 96-111.

 

2 O estudo mais completo sobre os sinais dos tempos em Vaticano II é de Clódovis Boff, Sinais dos tempos. Princípios de leitura, edições Loyola, São Paulo,1979. Os comentários esc`ritos logo depois do Concílio apresentam todos uma visão eufórica, que era expressão dos sentimentos vivifdos nos primeiros anos depois do Concílio.