Francisco de Aquino Júnior

Doutor em teologia pela universidade de Münster/Alemanha;

professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP);

presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte – CE.

 

 

A Igreja da América Latina ajudou o conjunto da Igreja a redescobrir nas últimas décadas a centralidade dos pobres e marginalizados na revelação e na fé cristãs. Apesar das ponderações, das advertências, dos receios e das “precisões”, admite-se, em geral, que o cuidado dos pobres e marginalizados é constitutivo da fé cristã.

E essa consciência foi assumida de modo explícito inclusive pelo magistério da Igreja de Roma. Na Carta Encíclica Solicitudo rei sociales, 1987, João Paulo II fala da “opção ou [do] amor preferencial pelos pobres” como um dos temas e uma das orientações “repetidamente ventilados pelo Magistério nestes últimos anos” (SRS, 42). Na Carta Encíclica Deus caritas est, 2005, Bento XVI fala da caridade como um dos “âmbitos essenciais” da Igreja. Ela “pertence tanto à sua essência como o serviço dos sacramentos e o anúncio do Evangelho” (DCE, 22). E na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, 2013, Francisco afirma que “no coração de Deus, ocupam lugar preferencial os pobres” (EG, 197), que “esta preferência divina tem consequências na vida de fé de todos os cristãos” e que, “inspirada por tal preferência, a Igreja fez uma opção pelos pobres, entendida como uma ‘forma especial de primado da prática da caridade cristã, testemunhada por toda a tradição da Igreja’” (EG, 198).

Mas há uma tendência muito forte na Igreja a reduzir a opção pelos pobres ou o serviço da caridade à sua dimensão assistencial ou ao que se convencionou chamar “obras de misericórdia”: visitar doentes, idosos e encarcerados; distribuir alimentos e roupas; socorrer pessoas em suas necessidades imediatas e cotidianas etc. Sem dúvida, isso é necessário e é evangélico. Mas nem é suficiente nem esgota o serviço da caridade ou a opção pelos pobres na Igreja. Há também uma dimensão igualmente necessária e evangélica que diz respeito à organização da sociedade e à luta pela justiça, enquanto luta pela garantia de direitos dos pobres e marginalizados. É a dimensão socioestrutural da opção pelos pobres ou do serviço da caridade.

E é precisamente sobre esta dimensão que queremos tratar neste artigo. Primeiro, mostrando como a Igreja foi tomando consciência desta questão nas últimas décadas. Depois, explicitando em que consiste a dimensão estrutural e como se dá o processo de transformação da sociedade. Por fim, indicando as formas como a Igreja vive e dinamiza a dimensão socioestrutural da opção pelos pobres ou do serviço da caridade.

 

DESPERTAR ECLESIAL

A consciência explícita dessa problemática e desse desafio é relativamente recente na Igreja. Certamente, podemos encontrar indícios disso na Escritura e na Tradição da Igreja. Pensemos, por exemplo, na denúncia dos profetas contra a acumulação de riquezas, contra o salário não pago dos trabalhadores, contra a violação do direito das viúvas nos tribunais, contra a espoliação dos bens dos pequenos, contra um culto aliado à injustiça social e, sobretudo, em sua defesa radical do direito do pobre, do órfão, da viúva e do estrangeiro. Pensemos também nas reflexões sobre a destinação universal dos bens e sobre a política como arte do bem comum, desenvolvidas na Tradição da Igreja. Tudo isso é indício do que estamos chamando aqui de dimensão socioestrutural da caridade ou da opção pelos pobres.

Mas sua consciência explícita começa a se desenvolver na Europa no século XIX, no contexto da complexificação da sociedade (revolução industrial, revolução francesa, revolução científica) e do desenvolvimento das ciências sociais. Consolida-se a partir da Igreja da América Latina com as conferências episcopais de Medellin e Puebla e com as teologias da libertação. E, aos poucos, vai sendo assumida pelo conjunto da Igreja.

Um marco importante no surgimento da consciência da dimensão estrutural da fé é, não obstante suas ambiguidades e contradições, o chamado “catolicismo social” que se desenvolveu na Europa no contexto da revolução industrial e da situação da classe e do movimento operários nascentes. É neste contexto que se insere a Encíclica Rerum novarum do papa Leão XIII (1891) Sobre a condição dos operários. Tudo isso vai se desenvolvendo ao longo do século XX e ganha novo impulso, novas perspectivas e novas dimensões com o Concílio Vaticano II (1962-1965) e a Constituição Pastoral Gaudium et Spes sobre A Igreja no mundo de hoje (1965).

Contudo, é na Igreja da América Latina e a partir dela que essa consciência se torna mais explícita e é levada às últimas consequências, tanto em termos teológicos, quanto em termos pastorais.

A Conferência de Medellín (1968), por exemplo, já falava de “estruturas opressoras” (introdução), “estruturas injustas” (Justiça, I), “violência institucionalizada” (Paz, 2, II) e apontava para a necessidade de “novas e renovadas estruturas” (Justiça, II). E a Conferência de Puebla (1979) reconhece que a pobreza “não é uma etapa casual, mas sim o produto de determinadas situações e estruturas econômicas, sociais e políticas” (30) e chega a falar explicitamente de “dimensão social do pecado”, de “estruturas de pecado” ou de “pecado social” (28, 70, 73, 281, 282, 452, 487, 1258).

Além da percepção dessa dimensão estrutural da injustiça e de seu caráter pecaminoso, Medellín afirmava claramente que “criar uma ordem social justa, sem a qual a paz é ilusória, é uma tarefa eminentemente cristã” e que “a justiça e consequentemente a paz conquistam-se por uma ação dinâmica de conscientização e de organização dos setores populares, capaz de urgir os poderes públicos, muitas vezes, impotentes nos seus projetos sociais, sem o apoio popular” (Paz 2, II).

Essas intuições foram sendo aprofundadas e desenvolvidas na reflexão teológico-pastoral na América Latina e assumidas, em grande medida, pelo magistério romano para o conjunto da Igreja.

O Compêndio de Doutrina Social da Igreja, por exemplo, tratando dos “princípios da doutrina social da Igreja”, fala da “via da caridade” e, neste contexto, fala da “caridade social e política”: “A caridade social e política não se esgota nas relações entre as pessoas, mas se desdobra na rede em que tais relações se inserem, que é precisamente a comunidade social e política, e sobre esta intervém, visando ao bem possível para a comunidade no seu conjunto. Sob tantos aspectos, o próximo a ser amado se apresenta ‘em sociedade’, de sorte que amá-lo realmente, prover às suas necessidades ou à sua indigência pode significar algo de diferente do bem que lhes pode querer no plano puramente inter-individual: amá-lo no plano social significa, de acordo com as situações, valer-se das mediações sociais para melhorar sua vida ou remover os fatores sociais que causam a sua indigência. Sem dúvida alguma, é um ato de caridade a obra de misericórdia com que se responde aqui e agora a uma necessidade real e imperiosa do próximo, mas é um ato de caridade igualmente indispensável o empenho com vistas a organizar e estruturar a sociedade de modo que o próximo não venha a encontrar-se na miséria, sobretudo quando esta se torna a situação em que se debate um incomensurável número de pessoas e mesmo povos inteiros, situação esta que assume hoje as proporções de uma verdadeira e própria questão social mundial” (208).

E o papa Francisco tem insistido muito em que a opção pelos pobres “envolve tanto à cooperação para resolver as causas estruturais da pobreza e promover o desenvolvimento integral dos pobres, como os gestos mais simples e diários de solidariedade para com as misérias muito concretas que encontramos” (EG, 188); passa não só pelos gestos pessoais e comunitários de solidariedade, mas também pela luta pela transformação das estruturas da sociedade. “Embora ‘justa ordem da sociedade e do Estado seja dever central da política’, a Igreja ‘não pode nem deve ficar à margem na luta pela justiça” (EG, 183). E isso é urgente: “A necessidade de resolver os problemas estruturais da pobreza não pode esperar [...] Os planos de assistência, que acorrem a determinadas emergências, deveriam considerar-se como respostas provisórias. Enquanto não forem solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum. A desigualdade é a raiz dos males sociais” (EG, 202).

Na Encíclica Laudato Si, fala explicitamente de “amor civil e político”: “O amor, cheio de pequenos gestos e cuidado mútuo, é também civil e político, manifestando-se em todas as ações que procuram construir um mundo melhor. O amor à sociedade e o compromisso pelo bem comum são uma forma eminente de caridade, que toca não só as relações entre indivíduos, mas também ‘as macro relações como relacionamentos sociais, econômicos, políticos’” (LS, 231). E, falando da “conversão ecológica”, adverte que “para se resolver uma situação tão complexa como esta que enfrenta o mundo atual, não basta que cada um seja melhor [...] Aos problemas sociais responde-se, não com a mera soma de bens individuais, mas com redes comunitárias: ‘As exigências desta obra serão tão grandes, que as possibilidades das iniciativas individuais e a cooperação dos particulares, formados de maneira individualista, não serão capazes de lhes dar resposta. Será necessária uma união de forças e uma unidade de contribuições. A conversão ecológica, que se requer para uma mudança duradoura, é também uma conversão comunitária” (LS, 219).

De modo que não se pode perder de vista a dimensão socioestrutural da opção pelos pobres. E para isto não basta a conversão do coração. É preciso insistir também na necessidade e urgência de transformação das estruturas da sociedade. O que exige uma melhor compreensão da problemática socioestrutural.

 

A PROBLEMÁTICA SOCIOESTRURAL

Não há muita dificuldade em compreender a dimensão assistencial da caridade ou da opção pelos pobres. É um fato que em nossas comunidades, em nosso país e no mundo inteiro muitas pessoas são marginalizadas e passam necessidade, carecendo até das condições materiais básicas de sobrevivência. E nós devemos fazer tudo que estiver ao nosso alcance para socorrê-las em suas necessidades cotidianas.

Acontece que a pobreza e a marginalização não são fatos isolados em nosso mundo. Não é apenas problema de alguns indivíduos que, por mera casualidade, circunstância ou “decisão” pessoal, encontram-se nessa situação. Certamente isso também existe: doença, catástrofe, crise familiar, desilusão amorosa, dependência química, comodismo etc. Mas isso vale para alguns casos isolados. Não explica o fenômeno massivo da pobreza e marginalização sociais em nosso mundo. Em última instância, esse fenômeno é fruto do modo mesmo de estruturação e organização da sociedade. Ele faz com que os bens e riquezas produzidos estejam concentrados nas mãos de uns poucos; faz com que amplos setores da sociedade sejam marginalizados em razão de sua cultura, de sua raça, de seu sexo, de sua orientação sexual, de sua idade, de sua deficiência física ou mental, de seus delitos etc.; e reduz a natureza a mero recurso econômico para acumulação ilimitada de riquezas, causando grandes desequilíbrios socioambientais e comprometendo inclusive o futuro da vida no planeta.

Por isso mesmo, uma caridade que se queira eficaz não pode se reduzir ao nível meramente assistencial, por mais que isso seja necessário. Precisa se enfrentar também com os mecanismos sociais que produzem essa situação. Para isso é importante compreender minimamente o processo de estruturação e organização da sociedade, bem como o modo de interferir nesse processo em vista da garantia dos direitos dos pobres e marginalizados. É o que faremos a seguir.

 

1. Estruturas da sociedade

Não vamos entrar aqui na discussão acerca da gênese da sociedade e de seu processo de estruturação, uma discussão importante e complexa na filosofia e nas ciências sociais. Partimos diretamente do fato de que nascemos e vivemos em uma sociedade concreta, organizada de uma forma bem determinada; e de que essa sociedade, organizada desta forma, condiciona e determina em grande medida, para o bem e/ou para o mal, a vida de todas as pessoas.

Certamente, esta sociedade foi organizada desta forma por pessoas e grupos muito concretos. Não é fruto do acaso nem é um dado natural. Não há nenhum determinismo aqui. Mas uma vez organizada desta forma, ela adquire certa autonomia em relação às pessoas e aos grupos concretos e passa a condicionar, possibilitando ou impossibilitando, a vida das pessoas e dos grupos.

Essa foi a grande descoberta das ciências sociais no século XIX. Houve e há muita discussão em torno da compreensão da sociedade e da relação entre a sociedade e os indivíduos. Mas uma coisa é certa: a sociedade não é a mera soma dos indivíduos. Ela tem certa autonomia em relação aos indivíduos e interfere diretamente na vida das pessoas: ninguém escolhe nascer rico ou pobre; não é natural que a mulher seja subordinada ao homem (até na estrutura gramatical da língua), que o negro seja inferior ao branco (nas piadas, nos postos de trabalho, nos salários etc.), que determinadas pessoas e profissões sejam superiores a outras (médico X gari, catador X empresário etc.); que o Estado garanta toda infraestrutura de saneamento, transporte, segurança etc. nos bairros de classe média-alta e não nas favelas e periferias; que use o dinheiro público para construir infraestrutura para as empresas do agronegócio e destine apenas “bolsas” para a agricultura camponesa etc. Tudo isso é fruto do modo concreto como nossa sociedade está organizada.

De fato, nossa vida é muito mais condicionada e determinada pelas estruturas da sociedade do que parece. E de muitas formas: costumes, valores, regras, normas, leis, instituições, aparato policial etc. Quanto mais essa sociedade cresce e se complexifica, tanto mais cresce a interferência de seus mecanismos de organização e estruturação sociais na vida das pessoas e dos diversos grupos sociais.

Quando falamos de sociedade ou estruturas da sociedade, falamos da organização e estruturação de nossa vida coletiva. Seja no que diz respeito à produção e distribuição de bens e riquezas (economia); seja no que diz respeito às relações de poder em geral e à organização sócio-política da sociedade em particular (relações sociais e organização política); seja, ainda, no que diz respeito às mais diversas formas de justificação e legitimação dos interesses pessoais e grupais, bem como da manutenção ou transformação da ordem social vigente (cultura). Noutras palavras, falamos do conjunto de mecanismos que ordenam e regulamentam nossa vida coletiva: costumes, mentalidades, regras, normas, leis e instituições (econômicas, familiares, sexuais, sociais, educativas, religiosas, políticas, jurídicas, coercitivas etc.). Tudo isso condiciona enormemente a vida das pessoas e dos grupos. Para o bem e/ou mal.

É verdade que na maioria das vezes não nos damos conta desses mecanismos de organização e regulamentação sociais. Por isso mesmo a discussão acerca das estruturas da sociedade parece uma discussão abstrata e distante. É difícil tocar e agarrar as estruturas da sociedade. Mas não é difícil perceber, por exemplo, que alguns têm todas as condições e facilidades para produzir e/ou acumular riquezas, bem como para defender seus interesses, enquanto a grande maioria da população não dispõe dessas condições e facilidades; que os pobres pagam proporcionalmente mais imposto que os ricos; que o Estado financia a atividade econômica dos empresários e banqueiros (infraestrutura, subsídios fiscais, taxa de juros etc.); que garante toda infraestrutura urbana nos bairros de classe média-alta e não nas favelas e periferias; que certas profissões são bem reconhecidas e remuneradas e outras não; que muitas pessoas são oprimidas e marginalizadas por causa de sua cultura, de seu sexo, de sua orientação sexual, de sua idade etc.; que as leis são feitas pela elite para proteger seus interesses e que a “justiça” normalmente está do seu lado etc. E tudo isso se deve em grande medida ao modo concreto como nossa sociedade está organizada. A pobreza e a marginalização social não são uma casualidade nem uma fatalidade. São frutos de um modo injusto e desigual de organização de nossa vida coletiva. De modo que sua superação passa necessariamente pela transformação desse modo de organização da sociedade.

 

2. Transformação da sociedade

Não é fácil transformar as estruturas da sociedade. Não só porque elas estão institucionalizadas e mesmo legalizadas; mas porque tem gente que se beneficia com elas e reage com todos os meios contra qualquer tentativa de modificação e, sobretudo, de transformação da ordem social vigente. Sem falar que esses grupos que se beneficiam com a ordem social vigente controlam a atividade econômica, a organização política do Estado, a produção do conhecimento e a difusão das informações, exercendo um domínio inclusive sobre as vítimas dessa forma de organização da sociedade.

Mas dizer que não é fácil não significa dizer que é impossível. Assim como a sociedade foi organizada desta forma através da ação de pessoas e grupos sociais, ela pode ser modificada ou mesmo transformada através da ação de pessoas e grupos sociais. É verdade que é mais fácil manter a estrutura ou ordem social vigente que transformá-la; os costumes, as regras, as normas, as leis e as instituições tendem sempre a conservar a ordem vigente. E é verdade que nem todas as pessoas nem todos os grupos têm o mesmo poder de ação e intervenção sociais: as relações de poder são extremamente desiguais em nossa sociedade. Mas a história é farta de exemplos de grupos sociais subalternos (negros, mulheres, indígenas, camponeses, operários etc.) que através de sua organização e articulação com outros setores da sociedade foram capazes de intervir e alterar a ordem social vigente.

É que a subordinação também tem seus limites. Há momentos em que a necessidade se impõe com tal força que se transforma em indignação e revolta: quando a fome aperta, o povo saqueia o comércio; quando o salário atrasa, o povo faz greve; quando não há mais alternativa de trabalho e moradia, o povo ocupa terra no campo e na cidade; quando o governo não garante condições de vida no campo, o povo ocupa estradas e prédios públicos; quando não faz demarcação de terras indígenas e quilombolas, o povo faz por sua própria conta; e assim por diante.

Muitas vezes, essa indignação e revolta são como “fogo de palha”. Outras vezes, são como “fogo de monturo” e podem se constituir como força social capaz de afrontar e alterar a ordem social vigente. Essa alteração pode ser mais superficial ou mais profunda. Em todo caso, trata-se sempre de um processo e de um processo social.

 

a) Processo permanente

Antes de tudo, é preciso insistir no fato de que a transformação das estruturas da sociedade é algo processual e permanente. Não se muda a sociedade da noite para o dia a toque de mágica (imediatismo) nem de uma vez por todas (definitivamente). A mudança é um processo permanente.

Dizer que é um processo é dizer que vai se dando aos poucos, de acordo com força social acumulada e com as reais possibilidades com que se conta em cada momento. Não basta dizer que tem que mudar, é preciso dizer como mudar e, aqui, a questão se torna muito mais difícil e complexa. Até porque não se pode ignorar nem minimizar as forças de resistência e reação à transformação da ordem social vigente. Importa, em todo caso, 1) construir e fortalecer processos sociais os mais diversos de conquista de direitos; 2) articular o máximo possível esses diferentes processos sociais, acumulando força no enfrentamento da ordem social vigente; 3) e nunca desconectar as lutas e os processos concretos/locais do enfrentamento maior e mais complexo do sistema ou da ordem social vigente que produz injustiça social: local – global. O sistema se materializa e se torna palpável nas situações concretas de privilégio ou de exclusão social. E é aí que ele tem que ser atacado. Mas essas situações concretas são apenas uma expressão do sistema ou da ordem social vigente. De modo que o enfrentamento do sistema não se reduz nem se encerra em uma situação concreta de injustiça social.

Dizer que é um processo permanente é dizer nunca vai chegar ao fim. A história humana é um processo permanentemente aberto e em construção. Precisamos superar uma concepção simplista e determinista da história, segundo a qual a história caminha necessariamente para uma determinada direção e um dia vai chegar lá. Nenhum momento ou acontecimento histórico é definitivo nem perfeito. Sempre há o que fazer; sempre se pode avançar mais. A história é um processo permanente em construção. Tarefa nossa de cada dia, de toda a vida.

Sem dúvida nenhuma, o reinado de Deus vai se realizando na história na medida em que vamos vivendo e organizando nossa vida de acordo com a vontade de Deus manifestada em Jesus Cristo. Mas ele não se esgota em nenhuma situação concreta. Pelo contrário. Sua presença e realização históricas sempre provocam crise e alimentam na própria história um dinamismo de superação e transcendência. E tanto em relação às diversas circunstâncias ou situações particulares, quanto em relação ao conjunto da história em um determinado momento. Daí porque a esperança sempre renasce, fincando raízes muitas vezes no gelo do desengano. Nem sequer a morte é um limite intransponível. Ao ditado popular “a esperança é a última que morre”, nosso profeta poeta Casaldáliga costuma acrescentar que “se morrer ressuscita”, levando às últimas consequências, a partir da fé cristã, a abertura radical que caracteriza a história humana.

 

b) Processo social

Mas além de ser um processo permanente, a transformação das estruturas da sociedade é um processo social que se dá mediante a constituição de uma força social capaz de confrontar a ordem social vigente e capaz de alterá-la ou mesmo transformá-la. Nenhuma pessoa sozinha consegue transformar a sociedade. Certamente, todos os processos de transformação social são desenvolvidos a partir de pessoas concretas e por pessoas concretas. Mas só se realizam na medida em que essas pessoas concretas vão se articulando e se constituindo como força social: “a união faz a força”!

É que a sociedade tem certa autonomia em relação aos indivíduos, tem um dinamismo próprio que, mediante costumes, mentalidades, regras, normas, leis e instituições as mais diversas tende a estabilizar e conservar o dinamismo ou a ordem vigente. Transformar a sociedade ou as estruturas da sociedade é transformar esses mecanismos que organizam nossa vida coletiva de uma determinada forma e que, por favorecerem a certos setores da sociedade, são defendidos por eles a todo custo.

Basta ver que todas as conquistas sociais ao longo da história se deram mediante a mobilização, organização e luta de determinados setores da sociedade. Normalmente de setores prejudicados e marginalizados na sociedade, mesmo que com o apoio e a solidariedade de outras pessoas e grupos sociais. Às vezes isso leva muito tempo. Tanto tempo, que as gerações ou setores que alcançaram essas conquistas nem se dão conta do processo histórico que possibilitou essas conquistas; processo regado muitas vezes com sangue... São os mártires da caminhada... Quantos trabalhadores, quantos camponeses, quantos indígenas, quantos negros, quantas mulheres, quantos homossexuais etc. pagaram com a própria vida o preço da luta por seus direitos. Nenhuma luta é em vão; nenhum sangue derramado na luta é em vão. Sempre pode brotar e produzir frutos. É verdade que nem sempre quem semeia e quem rega é quem colhe; mas se alguém colhe é porque alguém semeou e regou.

Daí porque a transformação das estruturas da sociedade seja um processo e um processo social. Vai se dando aos poucos: uma pequena conquista abre possibilidades de novas conquistas e assim por diante. E vai se dando a partir da mobilização, organização e luta dos marginalizados e seus aliados: a união faz a força. É um processo social permanente. Tarefa nossa de cada dia, de toda a vida, de toda a história.

 

A DIMENSÃO SOCIOESTRUTRAL DA OPÇÃO PELOS POBRES

A dimensão socioestrutural da opção pelos pobres tem a ver precisamente com a participação e colaboração da Igreja nos processos de transformação das estruturas da sociedade – sempre a partir e em vista dos direitos dos pobres e marginalizados.

O engajamento da Igreja nos processos de transformação das estruturas da sociedade dá-se tanto através da atuação de cristãos em diversos movimentos e organizações sociais; quanto através de serviços, pastorais e organismos de apoio, acompanhamento e defesa de setores marginalizados e de suas lutas e organizações populares; quanto, ainda, pela tomada de posição da Igreja enquanto instituição e força social através de seus ministros e de seus organismos de animação e coordenação pastoral (bispos, conferências episcopais, coordenações e articulações pastorais etc.).

Convém, aqui, ao menos indicar essas diversas formas de participação da Igreja nos processos de transformação das estruturas da sociedade para que se possa compreender melhor a riqueza e a complexidade do dinamismo da pastoral social.

Em primeiro lugar, o engajamento de milhares de cristãos nas mais diversas lutas sociais (terra, água, moradia, educação, saúde, liberdade política, igualdade racial e de gênero, justiça socioambiental etc.) e nas mais diversas organizações populares (sindicatos, associações, partidos, movimentos etc.). É impossível falar das lutas, organizações e conquistas populares na América Latina nas últimas décadas sem falar da participação dos cristãos e da contribuição da fé cristã nesses processos.

Em segundo lugar, a tomada de posição pública de Igrejas locais (através de seu bispo, de seu presbitério, de sua coordenação pastoral ou de seus serviços e organismos de pastoral social) em favor de comunidades, grupos ou setores injustiçados e marginalizados: trabalhadores em greve; ocupações de terra no campo e na cidade; comunidades atingidas por barragens e projetos do agro-hidro-negócio; menores, população de rua e encarcerados vítimas da violência policial; superfaturamento de obras públicas e corrupção eleitoral, dentre outros. São situações bem concretas que acontecem em lugares bem concretos e agridem pessoas bem concretas.

Em terceiro lugar, os diversos serviços, organismos e pastorais sociais criados na Igreja para acompanhar determinados grupos e setores sociais marginalizados e colaborar com suas lutas e organizações sociais: Centros de Direitos Humanos, Comissão Pastoral da Terra, Conselho Indigenista Missionário, Pastoral Operária, Serviço Pastoral dos Migrantes, Conselho Pastoral dos Pescadores, Pastoral dos Nómades, Pastoral Carcerária, Pastoral do Povo da Rua, Pastoral da Mulher Marginalizada, Pastoral Afro-Brasileira, Pastoral da AIDS, Pastoral da Criança, Pastoral do Menor, Pastoral da Pessoa Idosa, Comissão Brasileira de Justiça e Paz, Caritas etc.

Em quarto lugar, a tomada de posição da Igreja do Brasil como instituição frente a determinados acontecimentos, questões ou processos sociais. Seja através da CNBB ou de alguma de suas comissões ou de algum de seus regionais; seja através de organizações laicais ou de alguma pastoral social específica. Pensemos, por exemplo, nas denúncias de tortura na ditadura militar e no processo de redemocratização da sociedade brasileira; na defesa da reforma agrária e dos movimentos camponeses; na defesa dos povos indígenas e quilombolas e da demarcação de suas terras; nas críticas à política econômica neoliberal dos vários governos; na denúncia da corrupção política e no apoio a processos de reforma política.

Em quinto lugar, a promoção e participação em campanhas, eventos e processos de discussão e mobilização sociais os mais diversos em torno de direitos fundamentais negados ou de mecanismos que produzem injustiça. Pensemos, aqui, por exemplo, nas campanhas da fraternidade, nas semanas sociais, nos gritos dos excluídos, nos plebiscitos populares (dívida externa, ALCA, leilão da Vale, limite da propriedade, reforma política), nos projetos de lei contra a corrupção eleitoral e de reforma política, nas diversas articulações e mobilizações em nível nacional (indígenas, camponeses, mulheres, projeto popular etc.).

Por fim, em sexto lugar, as discussões, articulações e mobilizações em nível mundial dentro da Igreja e da Igreja com diversas forças sociais. Cabe mencionar, aqui, a discussão sobre o processo de globalização e seus mecanismos de exclusão social nas últimas encíclicas sociais e nos documentos do Pontifício Conselho Justiça e Paz; a participação de (grupos) cristãos e crentes de muitas religiões no Fórum Social Mundial e no fórum paralelo ou integrado teologia e libertação, bem como em outras organizações e mobilizações sociais em nível mundial; e a atuação profética do papa Francisco no cenário mundial (migração, fome, conflitos e guerras, mercado, injustiça socioambiental etc.), particularmente através da encíclica Louvado seja “Sobre o cuidado da casa comum” e dos encontros com os movimentos populares.

 

Importa fortalecer e intensificar a participação dos cristãos, das comunidades, das pastorais, dos movimentos, da vida religiosa, enfim, do conjunto da Igreja, ainda que de modos distintos, nos processos de transformação da sociedade – sempre na perspectiva da justiça do Reino que tem nos pobres e marginalizados seu critério e sua medida permanentes (Lc 10, 25-37; Mt 25, 31-46).