Alder Júlio Ferreira Calado

 

Após meses de encontros vivenciais da XII Semana Teológica Pe. José Comblin (XII STPJC), eis que teve lugar, anteontem, 25/09/2022, no Mosteiro de São Bento, em João Pessoa, a Sessão de Encerramento desta frutuosa experiência, acerca do que foi seu tema central: “Os pobres e o Pe. José Comblin nos ensinam a caminhar, no caminho de Jesus”, tema já refletido, durante as Jornadas Comunitárias, por meio de temas conexos.

 

Tendo em vista o tema geral desta XII STPJC, durante as Jornadas Comunitárias, já se havia deliberado sobre o convite ao Diácono Antônio Sebastião, da Arquidiocese de Olinda e Recife, para compartilhar a bela experiência popular e eclesial que anima: a tenda do Encontro, experiência surgida há mais de dois anos, e especial cuidado prestado ao povo da rua, especialmente durante a pandemia da Covid-19. Esta iniciativa, com efeito, tem muito a ver com a caminhada dos pobres e do Pe. José Comblin, que nos ensinam a caminhar com Jesus.

 

Às 8 horas da manhã começaram a chegar os primeiros participantes, acolhidos por João, em trabalho na portaria, naquele dia. Muita alegria se sentiu também com a chegada dos Diáconos Antônio Sebastião e Genival, vindos de Recife, para contribuírem nesta sessão de encerramento. 

 

Com a presença e participação de algumas dezenas de pessoas, representantes de Pastorais Sociais, de grupos e movimentos (CPT, CECAE, Centro de Formação JOsé Comblin, Kairós, coletivo feminista, representantes das comunidades de Café do Vento, Religiosos, alguns presbíteros, além dos organizadores e organizadoras da XII STPJC.

 

Pe. Hermínio Canova que coordenou os trabalhos, expressou as boas-vindas, ao tempo em que convidou os/as participantes a uma Oração inicial, seguindo passos do Ofício Divino das Comunidades. Jéssica e Pe. Hermínio tomaram a iniciativa da abertura deste momento, acompanhados pelos presentes, e com a contribuição do Diácono Genival, ao violão, foram executados cânticos da caminhada, a começar do “nossa alegria é saber que um dia”... Em seguida, foi proclamado o Evangelho do dia (Lc 16: 19-31) por Jéssica, o que foi seguido por algumas reflexões.

 

Coube ainda, ao Pe. Hermínio informar a programação da Sessão de Encerramento: após a oração, um relato e reflexão feitos por Elinaide  sobre as quatro Jornadas Comunitárias vivenciadas, como parte integrante da XII STPJC, em seguida, caberia a Elenilson Delmiro compartilhar traços significativos do legado do Pe. José Comblin. Em virtude de problema de saúde na família, Elenilson não pôde comparecer, tarefa que foi cumprida em parceria pelo Pe. Hermínio e por Alder Júlio. A partir das 10 horas, teve lugar a exposição feita pelo convidado Diácono Antônio Sebastião, relatando a frutuosa experiência da tenda do encontro, com moradores de rua de Recife. Após a exposição e debate do tema, a Sessão foi encerrada com um fraterno almoço oferecido aos participantes.

A seguir, tratamos de detalhar os principais passos vivenciados, durante esta Sessão.

Encerrada a oração, Pe. Hermínio Canova lembrou o histórico das Semanas Teológicas Pe. José Comblin, ora em sua XII edição, iniciativa de grupos de amigos e amigas de Comblin, em memória de seu legado. Recordou diversos temas trabalhados, ao longo dos 11 anos desde a páscoa de Comblin.

Por sua vez, Elinaide rememorou os trabalhos vivenciados, ao longo do ano, em Café do Vento (Sobrado - PB), enfatizando tratar-se de uma semana que se prolonga por vários meses. Conto-nos, também, que sua trajetória de participação em diversas experiências eclesiais, seja como membro de um grupo de teólogas feministas, seja como participante de coletivos, seja acompanhando a organização das mais recentes edições da STPJC. Fez questão de, ao rememorar a figura de Pe Comblin, evocar uma das pessoas que ele sempre teve como referência: a Irmã Agostinha Vieira de Melo, religiosa beneditina inserida no meio popular, grande biblista e cultivadora de experiências litúrgicas renovadoras. Irmã Agostinha, como poucos, mostrou conhecer profundamente a figura missionária do Pe. Comblin, havendo por bem encerrar sua participação, lendo um belíssimo poema da Irmã Agostinha, intitulado “Apressador de urgências”, texto que pode ser acessado no link da Teologia Nordeste.

O momento seguinte foi dedicado à lembrança de traços significativos de Pe Comblin:

  • Como um teólogo internacionalmente conhecido e admirado pelos seus cerca de 70 livros publicados mais de 400 artigos divulgados por relevantes revistas de Teologia Nacionais e internacionais;
  • Viveu como missionário itinerante, sempre no meio dos pobres, dos quais abraçou, defendeu e promoveu sua causa libertadora;
  • Como missionário itinerante, dedicou sua vida aos pobres, oprimidos e marginalizados de toda a América Latina;
  • Um de seus traços mais relevantes é o de Educador Popular que, sempre como fiel discípulo do Evangelho, empenhou-se em organizar e formar o povo dos pobres, por meio de múltiplas experiências educativas das quais uma dezena só no Nordeste brasileiro, desde a Teologia da Enxada, em 1969;
  • Sua fidelidade à causa libertadora dos pobres sempre com extraordinária liberdade profética, o tornou um verdadeiro revolucionário latino-americano tendo percorrido quase todos os países da América do Sul , grande parte da América Central e toda a América do Norte.

 

A TENDA DO ENCONTRO

 

A principal participação temática da XII STPJC coube ao convidado, o diácono Antônio Sebastião, que tratou de relatar sua experiência a um povo de rua, no centro da cidade de Recife. A experiência com os moradores de rua foi iniciada há cerca de 2 anos  e meio, em tempos de pandemia. Recém ordenado diácono permanente, Antônio Sebastião sentiu-se particularmente chamado a trabalhar junto com o povo dos pobres, desde um sinal que recebeu, logo após sua ordenação diaconal. Ao distribuir para os pobres a farta que havia sobrado da sua festa de ordenação diaconal, ele tratou de distribuir essa água em frente ao convento de São Francisco. A partir de então, percebeu a importância de corresponder à sua vocação diaconal, não tanto em paróquias, mas diretamente junto com o povo dos pobres, nas ruas, onde se concentram vítimas da dependência de drogas, pessoas que abandonaram ou foram expulsas de suas casas, pessoas que experimentam dramas psicológicos particulares, além de outras pessoas que, por distintos motivos, entendem optar por morar na rua, a exemplo de algumas pessoas portadoras de diploma universitário.

Em seguida, recorrendo a fartos registros fotográficos, o diácono tratou de relatar este trabalho, especialmente no bairro de Recife de Santo Amaro, mais precisamente, na ponte de Limoeiro, onde se encontra uma quantidade considerável de moradores de rua. Em conversa com os mesmos, ele trata de expressar seu desejo de instalar naquela localidade (na ponte) uma tenda, com o objetivo de assegurar condições mais favoráveis de acolhimento daquelas pessoas, além de melhor escutá-las, de convidá-las também para a oração, bem como de oferecer-lhes quentinhas, água e outras ofertas que o diácono Antônio Sebastião passava a receber de algumas entidades, que se tornaram parceiras fiéis desta experiência da tenda de encontro.

Entre as parcerias, das quais aquela experiência passava a receber quentinhas, merendas, água, além de contribuições para instalação de um ambiente mais propício ao trabalho, destacam-se pessoas generosas, o movimento dos profissionais cristãos (NPC), o próprio MST, que ofereceu, tantas vezes, comidas trazidas dos assentamentos. A partir desta parceria e destas ofertas, a tenda do encontro passa a ter uma presença de serviços fraternos, de modo mais constante, principalmente às sextas-feiras, quando é maior o número das pessoas de rua que se encontram sob a tenda do encontro para uma dinâmica preparada com a animação do diácono e de outras pessoas que vêm reforçar a coordenação desta experiência.

Com relação à dinâmica, o diácono expôs um roteiro, pelo qual os moradores de rua são convidados a tomarem assento debaixo da tenda, e feito um fraterno acolhimento por parte dele, este os convida para alguns informes de interesse daquela comunidade, e para uma oração conjunta, feita respeitosamente em relação a pessoas de outras denominações e mesmo pessoas sem confissão de fé determinada. Várias pessoas são chamadas a darem seu testemunho e como passaram a viver na rua, quais as razões, como enfrentam os desafios do dia a dia, como se organizam para se defenderem dos riscos que a rua também oferece. Ao final do encontro, trata-se de partilhar quentinhas oferecidas pelas entidades parceiras, bem como água para os presentes.

Outro ponto relevante da fala do diácono diz respeito à reflexão teológica que esta experiência lhe tem proporcionado. Trazendo-nos uma série de indicações bíblicas vetero e neo testamentárias, o diácono Antônio Sebastião vai compartilhando com as pessoas presentes a fonte de onde bebe para a sua atuação diaconal. As citações bíblicas, principalmente as retiradas do Evangelho, mostram o essencial que a Boa Nova inspira a todos aqueles e aquelas que decidem entrar para o seguimento de Jesus: o amor ao próximo, principalmente aos pobres, o exercício da solidariedade com os necessitados, tal como bem inspira a parábola do bom samaritano, o serviço gratuito, a compaixão com os que sofrem, o exercício do diálogo, a rede de parcerias entre aqueles que se sentem comprometidos com a solidariedade aos sofridos.

Ao final de sua reflexão, o diácono convidou os participante da sessão de encerramento a compartilharem também seu sentimento àquela experiência. Vários comentários foram compartilhados, inclusive da parte de quem se sentia também chamada a(era uma religiosa franciscana) a entrar naquela experiência, no âmbito de João Pessoa e da região metropolitana. Acerca deste seu propósito, vários comentários dela foram feitos, no sentido de melhor entender e melhor se preparar para uma experiência, aqui nesta região. Outros também ousaram fazer sugestões: a de ampliar o alcance da tenda do encontro, no sentido de se fazer uma coordenação ecumênica, para além da iniciativa católica, de modo a acolher participantes outros, e até de ateus. Neste sentido, foram lembradas figuras missionárias e proféticas, a exemplo do Padre Alfredinho, da Irmã Dorothy, da Irmã Agostinha e de outros de quem e em quem se pode inspirar, nesta direção, de um serviço ecumênico, no atendimento e no exercício da solidariedade unto ao povo dos pobres.

Também o diácono que acompanhava o diácono Antônio Sebastião tratou de oferecer alguns cânticos da caminhada, acompanhando-os ao seu violão.

Ao final da sessão de encerramento, Pe Hermínio voltou a trazer alguns informes, a partir do site Teologia Nordeste, no qual se acham publicados artigos e outros materiais de interesse missionário e de reflexão teológica acerca das experiências feitas no Nordeste, feitas com inspiração em missionários tais como Padre Ibiapina, DOm Helder e Padre Comblin. Ao mesmo tempo, cuidou de informar o compromisso da editora Paulus de publicar a terceira versão completa do livro póstumo, escrito pelo Pe COmblin, intitulado o Espírito Santo e a tradição de Jesus, bem como a publicação do livro, de autoria de Eduardo Hoornaert, Alder Calado e Adauto Guedes, intitulado José Comblin, um guia de leitura, que já foi editado em versão eletrônica, pela editora da Universidade estadual da Paraíba, a qual também se comprometeu a publicar o mesmo livro em versão impressa nos próximos meses. Ainda informou aos presentes da organização da 3a Romaria da Terra, em homenagem ao centenário do padre José Comblin, a completar-se no próximo dia 23 de março de 2023. Romaria que vai acontecer, no Santuário de Santa Fé, onde, ao lado do túmulo do Padre Ibiapina, também se encontra plantado o profeta missionário José Comblin, que fez sua páscoa definitiva em 27 de março de 2011. Pe Hermínio tratou de convidar a todos os presentes a participarem da Romaria, no município de Solânea - PB.

O encontro foi encerrado com uma oração e um cântico, bem como um convite aos presentes para um almoço fraterno.

 

João Pessoa, 27 de setembro de 2023.