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AS FONTES ALIMENTADORAS DA MINHA VIDA MISSIONÁRIA E PRESBITERAL NOS CINQÜENTA ANOS DE CAMINHADA DO POVO DE DEUS NO NORDESTE DO BRASIL (1971 – 2021)

 

Frei Roberto Eufrásio de Oliveira

Fui contemporâneo de dois marcos históricos que tiveram fortes ressonâncias na vida da Igreja e em minha vida nesses cinqüenta anos: Concilio Ecumênico Vaticano II e a Ditadura Militar.

  1. O Concilio Ecumênico Vaticano II acontecido nos de 1962 – 1965 convocado pelo Papa João XXIII. Nesse evento os bispos do mundo inteiro tomaram consciência da necessidade de uma profunda mudança das estruturas da Igreja Católica para ser fiel a Jesus, aos Apóstolos e as comunidades primitivas e toda mudança na igreja exige a volta a Jesus de Nazaré e ao Evangelho do reino de Deus por isso o Papa João XXIII ao anunciar a convocação do Concilio fala de um novo Pentecostes, de uma ação fecunda do Espírito Santo.



Algumas decisões conciliares indicaram o começo destas mudanças:

  1. A Igreja como povo de Deus e neste povo de Deus estão situados os pobres. Povo que marcha na história.



  1. A CENTRALIDADE DA PALAVRA de Deus na vida da Igreja. Pois como afirma o Evangelho de João no seu prólogo “no principio existia a palavra e por ela tudo foi criado” e esta palavra é a luz iluminadora das pessoas e dos povos em nosso planeta terra. O serviço da palavra deve ser retomado por toda a Igreja.



  1. Os problemas da humanidade são assumidos pela missão da igreja em conseqüência da sua fé na Encarnação do Filho de Deus que assumiu a nossa humanidade para redimi-la. Toda a Igreja começou a entender que todas as dimensões da vida humana precisam ser assumidas pela ação evangelizadora da Igreja.

 

  1. A COLEGIALIDADE: o Bispo de Roma e os Bispos das diferentes conferências nacionais animados pelo Espírito de Deus assumem o ministério de dirigir o povo de Deus.



  1. AS ORDENS E CONGREGAÇÕES RELIGIOSAS também foram chamadas a voltar as suas origens, ao modo de vida de seus fundadores e fundadoras. Em 1968 aconteceu a conferencia de Medelín querendo ser uma aplicação do Concilio Vaticano II na Igreja da América Latina, eu entrei na vida franciscana em 1965 fazendo o noviciado no convento Sirinhaém – PE e com todos os noviços comecei a participar desse movimento de conversão a Jesus e as origens do franciscanismo. Fomos agraciados por Deus tendo a chance de ser interpelados pelo Espírito de Deus através do Concilio e das conferencias de Medelín, e na conferencia de Puebla (1979) os bispos afirmaram a opção pelos pobres da America Latina e por sua libertação integral. Algumas iniciativas foram ensaiadas através do programa de mudança por nós frades estudantes em Salvador.



  1. A PRIMEIRA INICIATIVA foi a criação de um grupo de estudo das fontes franciscanas dentro do convento, verificando como viveu Francisco de Assis e seus primeiros companheiros. Desse grupo de estudos brotaram duas experiências que abriram o caminho da vida franciscana no meio dos pobres. O mês de férias nos Alagados de Itapajipe de Salvador assumidos pelo Frei Ademir Almeida, Frei Helder e por Frei Roberto Eufrásio. Abrimos uma fraternidade no bairro Cosme de Farias, periferia de Salvador com a autorização dos frades formadores que determinaram o prazo de um ano apenas para nossa experiência. Éramos Frei Roberto Eufrásio, Frei Ademir de Almeida, Frei Arnulfo, Frei Léo e Frei Ranulfo (Frade Professo). Nesse período assumimos o trabalho para a nossa sustentação na parte da manhã e a tarde continuamos o estudo da teologia, no final de semana iniciamos a evangelização através do conhecimento da população deste bairro. Neste bairro Cosme de Farias já havia um trabalho pastoral de dois frades professos com as experiências das escolas capelas. Com esses meios o Espírito de Deus foi nos moldando para o serviço permanente da missão.

O SEGUNDO EVENTO

  1. O golpe Militar acontecido no ano de 1964 e a implantação da Ditadura Militar no Brasil que dura até o ano de 1985. Este golpe foi articulado pelo estado Norte-Americano, pela elite conservadora da sociedade Brasileira e pelas forças armadas do Brasil com o objetivo de impedir o avanço dos movimentos sociais de transformação. A ação repressiva da ditadura atingiu todos os movimentos e entidades sociais e eclesiais: militantes da ação católica (ACB), a união nacional dos estudantes (UNE), ação católica operaria (ACO), as organizações sindicais, os jornalistas, cantores e escritores, os padres religiosos comprometidos com os ideais de mudança enfrentaram prisão e morte, torturas e desaparecimentos, houve também o exílio de governadores e lideranças políticas que levantaram a bandeira das mudanças sociais, culturais e econômicas. A Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil começou a acordar e a compreender os objetivos do golpe militar, alguns regionais começaram a reagir a ditadura assumindo posição critica contra o regime de força, através da publicação de alguns documentos, e eu estava em Salvador no estudo da teologia nos anos 1967 – 1970 o mosteiro de São Bento era o lugar do encontro dessas forças sociais democráticas e refugio dos que eram perseguidos, Dom Timóteo era então o Abade do mosteiro de São Bento, Frei Vitor participava desses encontros no mosteiro e comunicava aos estudantes de teologia o que estava acontecendo, então começamos a abrir os olhos para essa realidade política do Brasil.



AÇÕES ALIMENTADORAS DE MINHA VIDA MISSIONÁRIA E PRESBITERAL NA CAMINHADA DO POVO DE DEUS.

  1. O conhecimento e a Fé em Jesus de Nazaré, sua maneira de viver atento e apaixonado pelo Pai que o enviou e conhecimento de sua missão de anunciar o reino de Deus aos pobres e excluídos da Galiléia com profeta itinerante, salvaguardando sua liberdade diante das autoridades religiosas e políticos do judaísmo e dos representantes políticos do império romano, nos primeiros anos de vida missionária no sertão do baixo são Francisco Sergipano experimentei com Frei Juvenal Vieira Bonfim, com Frei Angelino Caio Feitosa e Frei Enoque Salvador de Melo este caminho aberto por Jesus e fui aprendendo o valor profundo da vida fraterna e da vida missionária itinerante. O anuncio do reino, da vida e da liberdade exigia que eu vivesse como Jesus a minha humanidade e aprendesse com ele a ser homem todo voltado para o pai e todo voltado para a construção do seu reino. Homem livre para o serviço de libertação dos pobres e livre diante dos dominadores dos pobres. Experimentei nas caminhadas a hospitalidade, a comensalidade de muitas famílias camponesas. Sentado a mesa com eles, comendo do mesmo pão, ouvindo as alegrias e os lamentos de suas vidas, experimentando momentos de convivência e conhecimento dos sinais de vida e de morte como aconteceu com Jesus e os discípulos nas estradas da Palestina na casa de Simão o leproso e em Betânia na casa de Marta, Maria e Lazaro e na Galileia na casa da sogra de Pedro. Em 1970, acolhidos por Dom José Brandão de Castro, bispo da diocese de Propriá iniciamos a nossa vida fraterna na rua da baixinha na cidade de Porto da Folha, todos nós passamos pelo mesmo processo de estudos das fontes franciscanas respondendo ao apelo do Concilio Vaticano II, Dom José Brandão de Castro era Missionário Redentorista, apoiador da evangelização das comunidades eclesiais de base e da luta pela reforma agrária. A partir dessa presença no meio do povo sertanejo e das povoações ribeirinhas do Rio São Francisco, fomos escutando o grito do Espírito de Deus através do grito dos trabalhadores das fazendas, dos povos indígenas e dos negros refugiados de Palmares. Aprendemos a valorizar o conhecimento e o resgate da história de dominação dos índios que moravam na Ilha de São Pedro e através do cultivo da memória despertamos neles a vontade de retomada de suas terras e do domínio do seu território.



  1. A segunda fonte alimentadora foi a vida de Francisco de Assis e dos movimentos de pobreza do século XIII, convocando a igreja rica e poderosa a voltar a Jesus de Nazaré, homem pobre e livre.



Renunciamos morar na casa paroquial situada na praça da Matriz Nossa Senhora da Conceição, na cidade de Porto da Folha. E escolhemos morar na rua da baixinha, na vizinhança de seu Chiquinho Moco, de prazeirinha, de Dona Pequena e do Professor Gilson. Nossa Fraternidade inserida se alimentava da oração e da meditação diárias do Evangelho, tinha uma caixa comum de despesas, o planejamento da evangelização nas ruas da cidade e nos povoados e povoações ribeirinhas do São Francisco. Nossa presença se estendeu aos municípios de Poço Redondo e Canindé, adotamos um dia mensal de oração em lugares ermos chamado por nós o dia do ermo. Nas mãos do Bispo redentorista Dom José Brandão de Castro, renovávamos nossos votos. Participávamos dos encontros e assembléias diocesanas e dos cursos e estudo dos documentos do Concilio Vaticano II, dos documentos do CELAM e da CNBB e do Regional Nordeste 3.



Do evangelho anunciado aos pobres foram nascendo as comunidades e começamos a formação dos animadores dessa comunidade despertamos os ministérios que foram reconhecidos oficialmente pelo Bispo diocesano



  1. Terceira fonte foi a Associação de missionários e missionárias do nordeste fundada em 1995 (AMINE). Através das assembléias anuais de estudo da conjuntura eclesial e política, através da partilha e aprofundamento das experiências missionárias, através de novos planejamentos de atividades missionárias e de uma manhã de espiritualidade que alimentava o nosso ânimo e nossa perseverança. Ajudados pelo historiador Eduardo Hoornat e pelo teólogo José Comblin fomos resgatando a história do missionário cearense do século XIX padre Antônio Pereira Ibiapina e o seu método missionário, sua dinâmica de estimular as formas coletivas de construir cacimbas, cemitérios para coléricos, as casas de caridade. Ele mesmo aprendeu com Jesus que a missão do reino de Deus visa transformar as pessoas e também as estruturas que impedem o povo de viver com autonomia e liberdade, ele entendeu que a missão procura dar respostas as necessidades vitais do povo missionado e que dura o tempo necessário para construir as ações coletivas. Com ele também aprendemos a importância da reconciliação e do perdão para criar a base necessária do trabalho coletivo nestes cinqüenta anos de missão no nordeste o espírito de Deus nos presenteou com esse testemunho missionário. Recordo ainda a preocupação do padre Ibiapina com a continuidade da missão. Por isso nossa associação definiu o ultimo dia da missão para convocar as pessoas tocadas pela palavra, pela caminhada, pela celebração a reunir-se para o roçado do Senhor, onde cada pessoa planta a sua semente como sinal de compromisso e de engajamento na caminhada da comunidade.



  1. Centro de Formação Missionária (CFM) em Serra Redonda – PB, e as Escolas de Formação Missionária presentes na Arquidiocese da Paraíba, na Diocese de Floresta – PE, na Diocese de Parnaíba – PI, na Barra e em Juazeiro da Bahia. Aprendemos com o padre José Comblin inspirador e animador dessas iniciativas a importância do planejamento bem feito e da preparação de homens e mulheres como continuadores da missão de Jesus em suas dioceses. Nesses serviços de formação encontrei razão para viver e trabalhar cuidando da formação dos continuadores dessa missão. Por que foi fundado o centro de formação missionária (CFM)<< Voltando do exílio padre José Comblin se encontrou com um grupo de missionários na Ilha de Itamaracá ainda sem o visto permanente neste encontro ele nos apresentou o resultado de uma pesquisa feita nos seminários maiores, 70% dos seminaristas entrevistados sobre a sua atividade primordial a ser assumida na sua vida de padre responderam que seria cuidar da paróquia, apenas 30% responderam que iam cuidar da evangelização, da formação de comunidades eclesiais ou de coordenação de pastorais sociais, diante desse resultado o padre Comblin fez a leitura dessa decisão e concluiu que a Igreja das comunidades que cuidam da evangelização só poderiam continuar preparando leigos para o serviço de evangelização, dessa conversa nasceram as propostas da fundação do Centro de Formação Missionária, fundação de cursos básicos para formação de animadores de comunidades e anos depois, com o apoio de vários Bispos do Nordeste, nasceu a Escola de Formação acima referida. Nessas escolas estou envolvido desde a sua origem como professor de História da Igreja e da celebração da palavra de Deus.



  1. O Espírito de Deus presente no universo e que age na história humana conduziu Jesus a missão de anunciar o reino de Deus. Este mesmo espírito também me levou ao encontro dos desafios novos me aproximando de entidades, de movimentos sociais, pastorais sociais que já estão respondendo a desafios impostos pela concentração da terra, pela ação predatória das mineradoras e madeireiras, pela monocultura do agronegócio, pela construção de barragens e hidroelétricas que mudam os ritmos naturais da terra e dos rios expulsando do seu habitat a população ribeirinha, os povos indígenas e de comunidades quilombolas destruindo suas culturas e espaços ancestrais, além de promoverem o envenenamento das águas e da terra. Eu creio que estas Entidades, Movimentos e Pastorais Sociais nascem do Espírito criador que acolhe o grito da terra e o grito dos pobres em processo de extermínio. Este mesmo Espírito pede nossa resposta.





  1. O ministério pastoral dos Papas João XXIII, Paulo VI dos anos conciliares, a presença e a ação profética do Papa Francisco me levam a Jesus e ao Evangelho do reino da vida. Nesses cinqüenta anos animado pelo testemunho de vários bispos que não se submeteram a ditadura militar mas, como sentinelas de Deus se mantiveram no ofício de pastores defensores dos milhões de pobres espoliados pelos donos do mercado, lembro alguns desses testemunhos: Dom Antônio Fragoso, Dom Pedro Casaldáliga, Dom José Maria Pires, Dom José Brandão de Castro, Dom José Rodrigues, Dom Francisco Austregésilo, Dom Helder Camara, Dom Tomás Bauduino, o cardeal Arns e vários outros que assinaram o pacto das catacumbas em sinal de aliança com Jesus e com os pobres da America latina após o encerramento do Concilio Vaticano II em 1965. Através de Dom Tomas Bauduino e Dom Pedro Casaldáliga nasceu a Comissão pastoral da terra no centro-oeste do país como respostas ao desafio da concentração da terra, especialmente as terras públicas do Estado. Guardamos também à memória do testemunho do Padre Josimo Tavares, da Irmã Adelaide, de Margarida Maria Alves, de Chico Mendes, Santo Dias e do Cacique Marçal e de varias outras lideranças. Aprendi também a viver antenado com o movimento dos trabalhadores sem terra, o movimento das mulheres rurais, com o movimento dos pequenos agricultores, com as lideranças ativas dos novos sindicatos e com o instituto Caatinga que faz parte da ASA (Articulação do Semiárido) através de experiências concretas de convivência com o sertão nordestino.



  1. Aprofundando e meditando sobre a missão itinerante pelos sertões do Nordeste senti a necessidade de escrever os relatos das andanças e das atividades, dos encontros e das expressões de sabedoria do povo tenho escrito muitos fascículos utilizados nas semanas missionárias e nas escolas de formação de missionários. Além da edição do manual do missionário e da missionária e do livro “Uma experiência Missionária nos Sertões Nordestinos” editada pela editora Bagaço (PE).



 

Tudo isso implica sentar-se, unificar-se, aprofundar as razões profundas das ações feitas permanecendo no mesmo foco de imitador de Jesus de Nazaré e animado a cuidar e alimentar o primeiro amor Aquele que me amou primeiro tudo isso é dádiva do Espírito de Deus.



Com a convocação do Papa Francisco feita a toda a igreja através de seus encontros internacionais com os trabalhadores e do lançamento de sua carta “Laudato Si” a nossa missão se alargou e se ampliou, cuidar da casa comum, o planeta terra é nossa missão e faz parte da nossa fé na criação. Esta dimensão de cuidado com a casa comum a nossa associação (AMINE) já vinha desenvolvendo na sua prática nas semanas missionárias dedicando um dia ao cuidado com a ecologia integral. Nós cremos que a nossa missão é salvar as vidas humanas e salvar o planeta terra em que nós vivemos.











































Frei Roberto Eufrásio de Oliveira, OFMCap

Província do Nordeste do Brasil ( PRONEB)

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