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DOM LIMA: HABEMUS PROPHETA NO SERTÃO DO PAJEÚ?

 

 

Antes, explico o título desse artigo. Poderia ser uma afirmação, mas o coloquei como interrogação. Na esperança viva de que seja mesmo uma afirmativa.

À frente da Diocese de Afogados da Ingazeira, na microrregião do Pajeú, no sertão pernambucano, desde final de 2003, Dom Limacedo Antônio, carinhosamente chamado de Dom Lima, vem com palavras firmes, a partir do Evangelho, e com gestos que nos suscitam essas reflexões.

Em seu histórico de vida estudantil e de Pastoral eclesial, suas posturas revelam compromisso com os mais desfavorecidos, com os empobrecidos por esse modelo capitalista de produção. Quando padre na Diocese de Nazaré, ordenado que foi em 2006, também em Pernambuco, atuou como vigário paroquial, pároco, assessor da Juventude do Meio Popular, assessor da Infância Missionária e das Comunidades Eclesiais de Base. Em 2008, o então sacerdote auxiliou a paróquia do Divino Espírito Santo, na cidade de Paudalho e foi nomeado Assessor Pastoral dos Catadores de material reciclável.

Para a conclusão de doutorado em Dogmática pela Universidade Pontifícia Gregoriana em Roma (2004-2007), unindo o mundo religioso e o mundo popular, defendeu a tese de dissertação que versa sobre Inculturação e Missão da Igreja no Brasil: Teologia e práxis a partir das Diretrizes Gerais da CNBB.

ordenado bispo em 10 de junho de 2028, em Nazaré da Mata, escolheu como lema episcopal a mensagem de união, de compromisso, de junção das realidades divina e humana: Verbum carum factum est. (O verbo de Deus se fez carne).

Pois bem! Nessa linha de formação intelectual e de Missão Pastoral. O Bispo de Afogados da Ingazeira trouxe, para esse sertão, a esperança de vermos uma Igreja profética, comprometida, encarnada nas realidades do povo, ainda tão sofrido. Trouxe mais: uma semelhança com aquele que foi o grande pastor desse povo por 40 anos (1962-2002) e que ganhou o titulo de Profeta do Sertão, Dom Francisco A. de Mesquita Filho, carinhosamente chamado de Dom Chico, falecido em 2006.

Mas, o que é essa profecia, essa Igreja profética?

Uma fala sobre.

 

1 – O que é ser Profeta?

 

Importa sabermos o que significa, na prática, ser profeta. Em rápidas pinceladas, traçaremos um perfil do que seja a profecia e mesmo o profeta.

Profecia está bem distante de adivinhação ou de previsão. Também não é premonição. Prever o futuro nada tem a ver com profecia e, principalmente, com a profecia bíblica vétero ou neo-testamentária.

O profeta é o que recebe o chamado de Deus. O que implica dizer que ninguém é profeta por conta própria. É Deus quem chama o Profeta. Essa é uma das características do Ser Profeta.

A missão do profeta se baseia em dois movimentos inseparáveis: anunciar e denunciar. Anunciar as maravilhas de Deus, Sua vontade, Seu projeto e denunciar as forças do anti-reino e seus asseclas. Se não há anúncio, não há profecia. Igualmente, se não há denúncia das forças do anti-Reino, não há profecia.

Assim como é o Profeta, em particular, deve ser a Igreja como um todo. Isso se ela quiser ser uma Igreja fiel a Jesus Cristo.

Uma característica é que o profeta é um homem da PALAVRA. A palavra profética é histórica, teológica, última, soberana, parcial, nova, escatológica. É uma palavra que se realiza na concretude Histórica, é Soberana porque é a palavra de Deus, é Parcial porque o nosso Deus é um Deus Parcial, dos pobres, não excludentemente, mas em primeiro lugar, é Nova porque trás o novo de Deus, é Última pelo fato de ser a última palavra de Deus e é Escatológica porque sobrevive à morte do Profeta.

Em geral, os profetas morrem por força do que se chama de anti-Reino. É o anti-Reino quem mata os profetas. E não poucos foram mortos pelas forças do anti-Reino. Mas a palavra profética sobrevive à morte do profeta e não raro, fala mais alto ainda. Disse Dom Pedro Casaldáliga, quando da morte do profeta dos oprimidos da América Latina, Dom Oscar Romero, em 24 de Março de 1980: “São Romero da América, ninguém fará calar tua última Homilia”.

Outra característica da profecia é o gesto. Todos os profetas – bíblicos e não bíblicos – foram homens que realizaram gestos que escandalizaram os bons costumes ou a tradição. Gestos que impressionaram. O gesto trás, em si, alguma coisa de radical e de novo. O profeta é levado a tomar atitudes que – aos olhos dos bons costumes e da fé – se constituem em escândalos. Pode-se dizer, ainda, que onde não há escândalo, ali não há profecia e, por conseguinte, não há Cristianismo. Nas palavras de Simeão, o próprio Jesus seria “sinal de contradição”.

Uma característica do gesto profético é que ele chega até à Desobediência de ordens superiores, quando essas ordens não condizem com a vontade de Jesus de Nazaré. Ele supõe uma desobediência eclesiástica e civil. Diz-nos o Padre José Comblin que “os Mártires ensinaram à Igreja o dever da desobediência”. E disse mais, José Comblin: “Os mártires da América Latina também libertaram a Igreja do medo e da covardia”.

Vejamos alguns exemplos de gestos proféticos. Santo Ambrósio chegou a vender os cálices de ouro da Igreja – cálices doados por famílias importantes – para comprar comida para os refugiados. Em resposta às críticas, Santo Ambrósio respondeu que “os cálices vivos de Deus valem mais”. O próprio Jesus – profeta, sem dúvida (Lc, 24,19) – atacou o templo e os vendilhões. Comeu com samaritanos, o que era impensável para um Judeu. Dom Oscar Romero, após iniciar seu ministério profético, em El Salvador, fez dois gestos que escandalizaram os “bons Cristãos”:

1) - Pela primeira vez não assistiu, nem celebrou Missa pela posse do presidente de El Salvador .

2) – Não cedeu a Catedral para que o Núncio Apostólico e os governantes celebrassem o dia do Papa.

Dom Oscar Romero nada tinha contra o Papa. O fato é que os governantes de El Salvador estavam matando até seus padres.

Na Nicarágua Sandinista dos anos 80, em luta contra a ditadura de Somoza, a Igreja proibiu os Sacerdotes de apoiarem a Revolução Sandinista. Todos desobedeceram num gesto único na América Latina. A Revolução Sandinista tomou o poder dos Somoza na Nicarágua. E a participação dos padres foi de fundamental importância para a vitória do Sandinismo.

Por tudo isso, é-nos impossível acreditar numa Igreja que não é profética. Nem numa profecia que careça de gesto. O gesto é, talvez, o mais importante momento da vida profética, pois é ele quem faz do profeta um homem verdadeiro.

Sim! Porque há muitos falsos profetas. Eles existiram em tempos bíblicos e existem hoje. Eles não dizem o que Deus quer que seja dito. Dizem o que os outros querem ouvir. É isso não é profecia, logo, não é Cristianismo.

Uma Igreja que não é profética, que não anuncia as maravilhas de Deus e, ao mesmo tempo, não denuncia as forças do anti-Reino não é uma Igreja que se diga fiel a Jesus Cristo. Ela se torna infiel ao projeto do Pai que outro não é que instalar o Reino de Deus entre nós. Sem Anúncio não há o soerguimento do Reino de Deus. Sem denúncia não se destrói as estruturas do anti-Reino. E se um não é destruído, o outro não é erguido, porque são realidades duelísticas e excludentes.

Essa igreja não-profética empurra goela abaixo normas, códigos, preceitos morais, doutrinas. Tudo é, numa linguagem filosófica, acidental. O essencial fica à margem. Essa igreja centra-se em si mesma. Ela absolutiza-se a si mesma, se podemos nos expressar assim. E, com ela, arrasta um rebanho de fieis que findam por não conhecer o tesouro que é o cristianismo, a beleza que é a mensagem de Cristo.

 

2 – Dom Lima: Palavras e gestos:

 

Pois bem! Nessa linha de raciocínio e de visão eclesiológica e cristológica, Dom Lima trouxe uma palavra nova que vem escandalizando os tradicionais, os conservadores, os que tem mente fechada, os ditos “cristãos” que de cristãos nada têm.

Quando na cidade de Tabira, houve um triste homicídio com características de tortura de uma criança, o pequeno Artur e o posterior linchamento popular de um dos acusados, em Fevereiro de 2025, Dom Lima não titubeou. Veio à cidade para a Missa Dominical trazer uma mensagem de Paz para a comunidade que presenciou dois tristes eventos. Condenou os dois acontecimentos. Sua mensagem não foi aceita pelos “cristãos” que defendem o linchamento, a justiça pelas próprias mãos.

No caso do 08 de Janeiro, da invasão ao congresso e tudo o mais, Dom Lima não se manteve neutro. Mais recentemente, em Missa de Fim de Ano, defendeu a Democracia como um bem e a condenação dos que atentaram contra ela. Novamente as vozes do anti-Reino, que estão também dentro da Igreja, se levantaram contra o Bispo, que foi atacado em redes sociais. Dom Lima tem sido atacado, acusado de fazer política e não religião e tem sofrido toda sorte de impropérios que se dirigem à sua pessoa, por pessoas de dentro da Igreja e de fora dela. Tanto que Notas de Solidariedade foram feitas por vários setores civis e religiosos, em defesa de Dom Lima.

A perseguição é uma nota característica da verdadeira igreja fiel ao projeto de Jesus Cristo. Não há verdadeiro anúncio do evangelho se esse mesmo evangelho não provoca a realidade. Ao provocar a realidade, ele atrai, necessariamente, sobre si, a fúria dos que tem medo de se comprometer e se converter a Jesus Cristo.

Se a realidade do anti-Reino não reage, é porque as bases do Reino de Deus não foram erguidas e se não foram erguidas é porque não houve uma verdadeira evangelização e/ou cristianização.

Dom Lima mantem-se fiel ao Evangelho de Cristo ao assumir a defesa dos empobrecidos e dos menos favorecidos socialmente.

A Diocese de Afogados da Ingazeira vem enxergando, em seu novo pastor, uma voz cristã, um eco do Evangelho de Cristo. Coisa que não se via desde a renúncia de Dom Francisco, em 2002.

Temos um profeta no Sertão do Pajeú?

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