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Hermínio Canova

Da Teologia da Enxada à Teologia Feminista, na Região Nordeste: são 50 anos de caminhada e labor teológico.
Trata-se, aqui, da “10ª Semana Teológica Pe. José Comblin”, organizada pelo Grupo Comblin de João Pessoa, e com a participação ativa do Coletivo de Mulheres Feministas que atuam em diferentes organizações e realidades na capital paraibana.
Na Sessão de Encerramento desta Semana, convidamos a teóloga Irmã Ivone Gebara, para com ela enfrentarmos a pergunta: “por que e para que uma Teologia Feminista?”.
Na ocasião tentamos colocar a Semana Teológica em sintonia e em continuidade com uma fecunda caminhada do Povo de Deus que se desenvolveu aqui neste chão chamado de Regional Nordeste 2 da Igreja Católica, nestes últimos 50 anos (!).
Lembrar fatos e pessoas que compõem a história deste passado recente é o compromisso de nunca esquecer o passado vivido e deste fazer memória, sem saudosismo inocente e paralisante, mas para atuar melhor no tempo presente e enxergar novos horizontes.
Temos que apreender a lição da história e nos inspirar nos eventos impactantes e subversivos que aconteceram ao longo destes anos passados.
O que lembramos agora, e o que não lembramos, está registrado em relatórios e depoimentos guardados em nossos arquivos “quentes” e ainda palpitantes de vida, de indignação ou de esperança.
Então “as semanas teológicas pe. José Comblin” não nasceram por acaso, não nasceram do nada. Elas tem suas raízes lá atrás. Mas o que foi que aconteceu lá atrás?

 

Igreja da Libertação.
Para evitar o risco de esquecer nomes e fatos relevantes, é bom afirmar que antes de tudo foi uma caminhada de todo o Povo de Deus. No meio dele, muitas pessoas se tornaram referências e representativas de organismos pastorais e de reflexão teológica. É isso que vamos destacar.
Certamente, Ivone Gebara, participante da semana teológica de 2020 aqui na Paraíba, foi e é ainda uma destas referências. Ela é de São Paulo, vive hoje em São Paulo, mas é também nordestina, pois viveu e trabalhou muitos anos nesta região. Foi aqui, a partir deste chão, que Ivone produziu muita teologia, sendo Ivone uma incansável trabalhadora do pensamento.
No começo deste período que consideramos (estes 50 anos) está, ao meu ver, uma experiência fundante de um novo modelo de Igreja e de um novo modo de fazer teologia; a experiência de viver a igreja e de fazer teologia “com a enxada na mão”. Foi a Teologia da Enxada, trabalho acompanhado por Comblin e outros e outras da teologia. Em outra ocasião seria importante se deter nesta experiência, pois foi a partir dela que fomos introduzidos em outras atividades e instituições de formação teológica, pastoral e missionária.
Lembramos os anos de 1970, de 1980 e o começo dos anos de 1990: eram tempos diferentes! Naquele período era CEB de todo lado, Grupos Bíblicos e Encontros de Irmãos em muitas comunidades, nas periferias e no campo. No nosso Regional, chamado de Nordeste 2, tínhamos a presença significativa e profética das PCIs –Pequenas Comunidades Inseridas, mulheres religiosas consagradas inseridas na vida do povo. Uma beleza de testemunho !
Naquele tempo se trabalhava com entusiasmo e criatividade. Com o mimeografo manual produzíamos roteiros, apostilhas, panfletos. As gráficas produziam cartazes coloridos com papel de luxo; mas o nosso material também saia com arte e beleza. Computadores e impressoras chegaram depois. E com este material produzido por nossas mãos, ajudávamos as comunidades nas atividades de formação e na participação das lutas sociais e da campanha pela democracia.
E quando se falava de teologia, se falava de Teologia da Enxada, depois de Teologia da Libertação. Com nossa experiências e lutas refletidas e meditadas à luz da Fé nos sentíamos produtores e colaboradores desta Teologia, na perspectiva libertadora.
Portanto, era uma experiência nova, de uma Igreja que começamos a defini-la como Igreja da Libertação ou Igreja dos Pobres, aqui no nosso Regional NE2. Era o modelo de Igreja pensado nos corredores do Concílio Vaticano II (1962-1965), assinado/firmado em papel naquele Pacto lá na Catacumba de Domitilla (1965) em Roma, modelo de Igreja assumido e confirmado nos documentos e nas opções de Medellin (1968) e Puebla (1979); modelo aplicado e vivenciado na América Latina e aqui no nosso Regional.
A partir dos anos de 1970, a irmã Ivone estava por aqui como protagonista desta caminhada. Ela morava em Olinda, depois em Camaragibe; incansável, andava com aquele carro/fusca dando carona aos pobres, às mulheres pobres da periferia de Camaragibe. Ivone ensinava no ITER (Instituto de Teologia) e era membro do DEPA (departamento de pesquisa e de assessoria pastoral) junto com Sebastião Armando Gameleira, Luís Carlos, Pe. Humberto Plummen, e outros e outras.
Estava por aqui também Eduardo Hoornaert, que ensinava história da Igreja na América Latina. Agora ele está na Bahia.
Estava por aqui a irmã Agostinha Vieira de Melo, religiosa beneditina, teóloga, mestra de espiritualidade e de liturgia, poetisa da caminhada.
Estava e está por aqui Adélia Carvalho, religiosa salesiana e artista da caminhada.
Estava por aqui José Comblin, missionário, teólogo e cidadão, como grande protagonista da caminhada.
Estava e está aqui hoje participando da semana teológica Alder Júlio Ferreira Calado, mestre e doutor em Educação Popular, estudioso das CEBs.
Acompanhando as atividades de formação missionária lembramos: João Batista Magalhães, Irmã Maria Emília, Raimundo Nonato e Mônica Muggler.
Dedicados às missões populares e às peregrinações foram os nossos amigos Frei Roberto Eufrásio e Artur Peregrino.
Acompanhando as CEBs lembramos aqui: Hermínia Boudens (dirige até hoje o Santuário das Comunidades, em Caruaru) e Pedro Aguiar.
Na formação bíblica/litúrgica/espiritualidade estavam René Guerre, Reginaldo Velozo e Marcelo Barros.
Como grande referência e apoio para os militantes camponeses lembramos Pe. José Servat (ACR), e para os militantes operários lembramos Pe. Romano Zufferly (ACO).
Vários bispos nos acompanhavam e nos incentivavam, sobretudo dom Helder Câmara e dom José Maria Pires.
Deveria lembrar muitos outros e muitas outras, que estiveram presentes como protagonistas nesta extraordinária caminhada.


Igreja na Base.
Mas foi no final dos anos de 1980 que este projeto da Igreja da Libertação e dos Pobres sofreu uma intervenção. O projeto foi barrado, interrompido; a sua organização foi desmontada peça por peça. Tinha chegado a ordem de fechar. Todos os setores da formação, da pastoral, dos direitos humanos e do labor teológico sofreram o impacto.
Mas nós continuamos. Nós ficamos. Ivone está aqui, virtualmente, mas está aqui. Muitos e muitas estão ainda aqui desde o começo; outros e outras se juntaram ao longo do caminhar.
Fecharam os caminhos existentes; nós abrimos outro caminho, talvez um caminho mais autônomo e mais leigo. Foi a experiência de uma nova articulação chamada de “Igreja na Base”. Houve muitos encontros de formação e assembleias como Igreja na Base; participavam pastorais sociais, Direitos Humanos, Formação Teológica, CEBs, PCIs, CEBI e outros grupos. Eram muitos leigos e muitas leigas, alguns padres e alguns bispos.
Esta experiência continua até hoje, com menos apoio, menos visível, um pouco dispersa em grupos menores. Pois a partir dos anos 90, os ventos sopraram fortes em outra direção.
Mas estamos aqui. As CEBs estão organizadas, as PCIs se encontram, a CPT luta, o CEBI lê a bíblia com os pobres, a Escola de Formação Missionária continua, a Teologia da Libertação e a Teologia Feminista estão vivas.
Como provocação, perguntávamos a Comblin: Pe Zé, cadê a teologia da libertação? Ele nos respondia: está lá escondida nas comunidades.

 

Pe. José Comblin.
Pe. José nos acompanhou e nos ajudou muito nesta caminhada, sempre com muita sabedoria e com jeito fraterno. Ele acompanhou a experiência pioneira da formação e estudo chamada de Teologia da Enxada (de 1969 a 1972). Depois organizou outra experiência inovadora, o Seminário Rural de Avarzeado, município de Pilões (PB), em 1981. “Fechada”, por ordens superiores, esta experiência formativa, Comblin, com o apoio de dom José Maria Pires, fundou o CFM (Centro de Formação Missionária), em Serra Redonda (PB), sendo que sua versão feminina foi criada em 1986, em Mogeiro. Daí seguiram-se outras fecundas experiências e organizações tais como o Curso da Árvore, a Fraternidade do Discípulo Amado, a Associação dos Missionários e Missionárias do Campo, a AMINE (Associação dos Missionários e Missionárias do Nordeste), a Associação dos Peregrinos e Peregrinas do Nordeste. Pe. Comblin se dedicou sobretudo às Escolas de Formação Missionária por ele fundadas em diferentes estados do Nordeste (seis ao todo) e que ao longo dos anos formou várias centenas de leigos e leigas atuando nas comunidades cristãs populares. Como bom pedagogo, Comblin deixou nestas Escolas, além de um rico conteúdo escrito, um precioso método de formação, de estudo e de vida. Conversávamos com ele sobre a necessidade que a formação fosse de caráter contínuo, formação permanente, formação para a vida e para a missão, formação a partir da realidade a ser transformada. A proposta de formação contemplava momentos fortes de convivência, de trabalho comunitário e de oração.
Lembramos Comblin como missionário de grande sensibilidade, destacado teólogo e cidadão atento e crítico. Em memória dele inventamos as Semanas Teológicas.

As Semanas Teológicas Pe. José Comblin.
A primeira Semana Teológica foi realizada em 2011. Em 27 de Março daquele ano aconteceu a páscoa de Pe. José; no túmulo dele em Santa Fé foi colocado o apelido “profeta da liberdade”.
Nas Semanas Teológicas estudamos temas significativos e relevantes para a Igreja e para a Sociedade, como: o Espírito Santo no mundo, o protagonismo da Juventude, a vocação e a missão dos Leigos e das Leigas, o problema ecológico, as migrações, e hoje o Feminismo. Ao longo destas semanas construímos até um “diálogo implícito” entre Comblin e o Papa Francisco, tendo notados grandes afinidades entre os dois, como a “saída” para a missão e a presença da Igreja no mundo.
Na realização das Semanas, nestes últimos anos, acertamos uma dinâmica que se mostrou fecunda, envolvendo grupos e comunidades da base. O Grupo Comblin escolhia um tema e produzia um texto com perguntas para que os diferentes grupos, do campo e da cidade, fizessem o estudo realizando Jornadas Comunitária em suas áreas, se preparando assim para a Sessão de Encerramento, como esta de hoje, quando a gente convidava uma pessoa mais qualificada para o aprofundamento do tema.
As “Semanas Teológicas Pe. José Comblin” carregam a memória deste teólogo, como também “bebem” do poço da sabedoria e da fé do Povo de Deus e da sua caminhada como Igreja dos Pobres e da Libertação, ao longo destes 50 anos.
1970-2020, são 50 anos de caminhada e de vivência eclesial. Falta aqui lembrar muitos outros fatos, muitas outras pessoas e organizações que participaram como protagonistas desta fecunda história, O período merece um aprofundamento e uma memória mais aprimorada do que esta.
Certamente esta caminhada de vida e de compromisso deixou marcas profundas em nossos corpos e em nossas almas, marcas que carregamos ainda hoje com infinita gratidão ao Paráclito de Deus.