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( do testemunho de Cezária, no final da Celebração, “olhando” para o arcebispo Dom Manoel Delson).

 

Hermínio Canova, 30/12/2017

 

O fato. Foi uma prolongada e densa celebração, uma Missa pelos 50 anos de vida sacerdotal de padre João Maria Cauchi, com a participação de todo o Povo de Deus de São Miguel de Taipu (PB) e de muitos amigos e amigas de fora, em 28 de Dezembro de 2017. Foi a conclusão da presença deste padre no Brasil, presença que durou 50 anos na região agreste da Paraíba, mais de 30 na paróquia de Sâo Miguel de Taipu. Pe. João Maria está se preparando para voltar à terra de origem na pequena ilha mediterrânea de Malta.

 

Contexto social e histórico. As marcas da escravidão sofrida por séculos pelo povo afro-descendente da região são ainda bem visíveis no rosto das pessoas desta comunidade e nas estruturas do município. O território do município de São Miguel é atravessado pelo rio Paráiba nas margens do qual os engenhos, utilizando o trabalho dos escravos, esmagaram, por séculos, a cana de açúcar, mas não “esmagaram” a fé e a cultura e não dobraram a resistência deste povo.

Hoje, São Miguel é ainda uma grande “senzala”, habitada por uma comunidade de pessoas simples, pobres, acolhedoras e que manifestam sua dignidade e nobreza nos encontros, nas festas religiosas, nas lutas pela vida e pela terra, e em numerosos gestos coletivos de solidariedade e de partilha. Esse ano, em Outubro, a comunidade cristã acolheu com carinho os romeiros da Romaria da Terra da CPT e depois, em Novembro, acolheu as paróquias do todo o Agreste no encontro bem festivo em homenagem a Cristo “Rei dos Pobres e dos Injustiçados” !

 

Os comentários. No final desta celebração do dia 28 de Dezembro, muitos se perguntaram e comentaram: “o que mostrou esta missa?” e “que missa bonita, todos participaram...” e “quando teremos uma outra missa como essa?” e “esta missa contou a nossa história ”.

 

Aprofundando um pouco. Na vivência e na com-vivência daquele dia e daquela celebração, como também nos depoimentos e no resgate histórico que foi feito com as apresentações e os símbolos, notamos como são evidentes as “marcas” do trabalho de formação de Pe. José Comblin, teólogo-profeta e missionário bem conhecido na região, e falecido em 2011; como também são evidentes as “marcas” da presença e atuação da Comissão Pastoral da Terra na região e especificamente neste município.

 

Naquele dia vimos os sinais da caminhada da Igreja na Base, Igreja dos Pobres latino-americana e aqui presente, Igreja comunitária, dos leigos e das leigas, dos animadores e animadoras das Comunidades do Povo de Deus. Chamou a atenção a presença de Cezária, de Edinaldo, de Maria José, de Miranda, de João Batista e de muitos outros e outras que “passaram” pelos cursos de formação missionária organizados por Comblin. Também notamos a presença e a colaboração, neste encontro celebrativo, dos e das jovens, alunos/as das Escolas de Formação Cristã Missionária da nossa região, fundadas pelo teólogo/missionário. Pe. João Maria sempre orientou e ajudou a muitos/as a participarem dos encontros de estudo e de formação cristã organizados por Comblin. Os frutos disso agora aparecem “maduros”.

 

As famílias dos Assentamentos não perderam a ocasião para agradecer a Pe. João Maria e à CPT pelo apoio na luta pelas terras.

A caminhada da Reforma Agrária custou angustias, sofrimentos, houve prisão de agricultores e agricultoras, perseguição e assassinato; mas a terra voltou ao povo. Acabou o domínio dos senhores dos engenhos; agora os senhores das terras são os trabalhadores organizados em Assentamentos, e “o dono da terra é Jesus” (como eles dizem e cantam)!

 

Pe. João Maria foi uma presença discreta, não fez grandes obras, não construiu prédios, não empreendeu grandes atividades; ele manifestou total apoio às lutas do povo, foi firme e fiel ao compromisso pastoral, testemunhou com sua vida e ação a preferência indiscutível de Deus para com os mais pobres. Valorizou o protagonismo dos homens e das mulheres, contribuiu nos encaminhamentos mas deixou a eles e a elas a iniciativa, promovendo assim sua autonomia. João deixa um povo livre e consciente do seu destino.

 

A casa do padre foi sempre lugar de acolhida para o povo, lugar de “pousada” para os pobres, casa de encontro e diálogo.

 

Na celebração, numa interessante apresentação, foi destacada a “participação” de Dom José Maria Pires nesta história. Bispo dos agricultores e da CPT, bispo quilombola, Dom José gostava de São Miguel de Taipu. Foi ele que em 1967 ordenou padre o jovem missionário de Malta chegado ao Brasil para trabalhar alguns anos..... “O meu bispo sempre foi Dom José”, afirma Pe. João. Dom José faleceu esse ano, no mês de Agosto e foi enterrado ou melhor “plantado” em nossa terra paraíbana.

 

A celebração convocou os jovens e as comunidades, os agricultores e as agricultoras dos Assentamentos com seus filhos e filhas, o povo da cidade e da periferia, o bispo diocesano, as irmãs religiosas inseridas no meio do povo, os padres amigos e comprometidos com este modelo pastoral de uma “Igreja pobre a serviço dos pobres” (papa Francisco).

 

A grande celebração do dia 28 foi memória e testemunho de uma longa caminhada de um Povo que, vindo da “grande tribulação”, é hoje exemplo de fé no Deus da libertação.