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Francisco de Aquino Júnior

Professor da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP);

presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte – CE.



Uma das características mais importantes e mais impactantes da Igreja latino-americana é o compromisso com a justiça social e a participação nas lutas e organizações populares. Por isso mesmo nossa Igreja é conhecida como Igreja da libertação: Igreja comprometida e inserida nas lutas populares; Igreja regada com o sangue dos mártires da caminhada.

Em todos os cantos do Brasil há cristãos, comunidades, pastorais e movimentos eclesiais 1) engajados em lutas sociais (terra, água, moradia, educação, saúde, saneamento, ecologia, igualdade étnico-racial e de gênero etc.) e em organizações populares (sindicatos, associações, redes, movimentos etc.); 2) apoiando e fortalecendo a luta de comunidades, grupos ou setores marginalizados na sociedade (trabalhadores em greve, ocupações de terra, comunidades atingidas por grandes projetos dos agro-hidro-negócio, catadores de material reciclável e população em situação de rua etc.); 3) criando serviços, organismos e pastorais para acompanhar grupos e setores sociais marginalizados em suas lutas e organizações (pastorais sociais, centros de direitos humanos etc.); 4) promovendo e participando de campanhas, eventos e processos de discussão e mobilização em torno de direitos fundamentais negados ou de mecanismos que promovem injustiças (campanhas da fraternidades, grito dos excluídos, semanas sociais, plebiscitos populares, projetos de lei de iniciativa popular etc.) etc. Isso marca decisivamente nosso jeito de viver, celebrar e pensar a fé: nosso engajamento social, nossos cantos e nossas liturgias, nossos símbolos, nossa teologia.

Certamente a fé não se reduz à sua dimensão social nem a dimensão social da fé se reduz à participação nas lutas e organizações populares. A fé diz respeito a todas as dimensões da nossa vida. E a dimensão social da fé diz respeito tanto às relações interpessoais quanto à organização da sociedade. Mesmo a luta pela justiça e pela transformação da sociedade não se reduz à participação em lutas e organizações populares: passa também pela luta cotidiana pela sobrevivência e pela solidariedade com as causas populares.

Mas a fé tem uma dimensão social que diz respeito aos meios de organização da sociedade: costumes, mentalidades, normas, leis e instituições econômicas, políticas, jurídicas, militares, familiares etc. E, aqui, as organizações e lutas populares têm um papel fundamental na vivência na fé e na ação pastoral da Igreja:

Por um lado, elas denunciam e se enfrentam com as “estruturas de pecado” que continuam matando os filhos e filhas de Deus neste mundo, isto é, os mecanismos econômicos, políticos, jurídicos, culturais, religiosos etc. que negam as condições materiais de vida a grande parte da população, que oprimem e marginalizam amplos setores da sociedade e que legitimam as mais diferentes formas de injustiça, opressão e marginalização. Aquilo que desde Medellín (1968) e Puebla (1979) se convencionou chamar “estruturas de pecado”, “pecado estrutural” ou “pecado social”.

Por outro lado, elas se constituem como “mediação de salvação”, na medida em que buscam e ensaiam alternativas de vida e sobrevivência em meio à miséria, injustiça e marginalização, bem como novas formas e novos mecanismos de organização da sociedade que garantam a efetivação dos direitos dos setores empobrecidos e marginalizados, para além de sua afirmação formal. E isso independentemente de seu vínculo religioso e eclesial, da consciência do caráter salvífico de sua ação e dos limites e das ambiguidades dessa ação.

Trata-se, aqui, da denúncia e do enfrentamento do pecado em sua dimensão socioestrutural (pecado cristalizado e mediado em estruturas sociais), bem como da realização da salvação em sua dimensão socioestrutural, isto é, do esforço de organização da sociedade segundo o espírito evangélico que tem nas necessidades e nos direitos dos pobres e marginalizados seu critério e sua medida permanentes (mediação da salvação em estruturas sociais). A partir dessas lutas e organizações, o Espírito, que “escreve certo por linhas tortas”, continua agindo no mundo: salvando e recriando a vida pisada, ferida, destroçada...

É claro que elas não são puras nem perfeitas. São limitadas, ambíguas e contraditórias. Têm seus pecados: reducionismo, fechamento, autoritarismo, sectarismo, centralismo, personalismo, violência, corrupção, machismo, racismo, homofobia, antropocentrismo, desrespeito e agressão aos próprios companheiros, dentre outros. E precisam ser purificadas, alargadas e dinamizadas com a luz e a força do Evangelho. O reconhecimento de seu caráter salvífico-espiritual não pode ofuscar nem comprometer a necessidade de conversão e o chamado à mesma, inclusive para não comprometer ainda mais sua densidade espiritual.

E é claro também que elas não são a salvação ou o reinado de Deus sem mais e em sua plenitude como não o é nenhum processo histórico social ou eclesial. Mas são sinais e mediações históricos da salvação ou do reinado de Deus neste mundo. Sinais e mediações limitados, ambíguos e contraditórios, mas reais e verdadeiros.

Não por acaso, o papa Francisco fala dos movimentos e organizações populares como “uma benção para a humanidade”. E a razão disse está bem explicitada no Documento de Medellín: “assim como outrora Israel, o antigo Povo, sentia a presença salvífica de Deus quando o libertava da opressão do Egito, quando o fazia atravessar o mar e o conduzia à conquista da terra prometida, assim também nós, novo Povo de Deus, não podemos deixar de sentir seu passo que salva quando se dá o ‘verdadeiro desenvolvimento que é, para cada um e para todos, a passagem de condições de vida menos humanas para condições mais humanas’”.

De modo que a participação cristã nas lutas e organizações populares não se dá apesar da fé nem muito menos em prejuízo da fé. É uma exigência que brota da fé no Deus que libertou o povo da escravidão do Egito e que assumiu para si a causa do pobre, do órfão, da viúva e do estrangeiro, fazendo dessa mesma causa critério e medida de comunhão com Ele e de participação no banquete definitivo de seu reinado de fraternidade, justiça e paz – como indicam as parábolas do bom samaritano (Lc 10, 25-37) e do juízo final (Mt 25, 31-46).

Ficar indiferente ou, pior, opor-se às organizações populares em suas lutas pelos direitos dos pobres e marginalizados é opor-se ao próprio Deus que através de seu Espírito vai salvando e recriando a vida “a partir de baixo”. E atribuir a satanás o que é obra do Espírito de Deus (tudo que salva e recria a vida) é pecado que não tem perdão por ser em si mesmo recusa do Dom/Espírito de Deus que nos é dado (cf. Mc 3,29; Mt 12, 32; Lc 12, 10). Avancemos, pois, na fidelidade ao Deus dos pobres e aos pobres da terra em suas lutas por direitos e dignidade....