logo teologia nordwste

Eduardo Hoornaert.

 

O Pai Nosso é a oração mais conhecida e mais famosa da tradição cristã. Desde os inícios do movimento de Jesus, funciona como declaração de identidade cristã. Mas temos de considerar, antes de fazer qualquer comentário, que o próprio Jesus de Nazaré, logo antes de ensinar essa oração a seus discípulos, fez uma advertência que o Evangelho de Mateus expressou nas seguintes palavras: quando vocês rezam, evitem a verborreia! Seu Pai conhece suas necessidades antes mesmo que vocês as tenham formulado (Mt 6, 7-8). Com isso, ele já predefiniu a oração do Pai Nosso: não tem de ser interpretada como uma petição, embora se apresente na forma de pedidos: ‘que seu nome (Deus) seja santificado’; ‘que seu reino venha’; ‘que sua vontade seja feita assim na terra como no céu’; ‘que recebamos (do Pai) o pão nosso de cada dia’, ‘que nossas dívidas sejam perdoadas’ e ‘que não sejamos induzidos em tentação, mas livrados do malvado’. Pois o Pai conhece nossas necessidades antes mesmo que as tenhamos formulado. Como entender, então, a oração que Jesus ensinou a seus discípulos? Qual é seu sentido? Eis o que me proponho considerar aqui.

 

1. Como entender um texto escrito tantos séculos atrás?

 

Possuímos hoje duas versões escritas do Pai Nosso, uma no Evangelho de Mateus (6, 9-13) e outra, mais breve, no Evangelho de Lucas (11, 2-4). Ambas redigidas em grego, embora a maioria dos exegetas hoje concorde em dizer que deve ter circulado, no emergente movimento de Jesus, antes mesmo da redação dos evangelhos (escritos entre os anos 70 e 100 dC), uma versão aramaica da oração. Os exegetas afirmam que essa oração original continha os primeiros quatro ditos (formulados como pedidos), que acabei de citar acima, precedidos por uma invocação a Deus sob o termo aramaico ‘aba’ (que significa ‘pai’). Pode-se aventar, com boas razões, que os primeiros ouvintes, de língua aramaica, entenderam sem problemas o que Jesus estava dizendo. Isso não é nosso caso. Vivemos a uma enorme distância de Jesus, tanto em termos de tempo como em termos de espaço e cultura. Além disso, ao longo dos dois mil anos de história cristã se acumularam as mais variadas interpretações do texto, dentro dos mais diversos contextos. Tudo isso dificulta nossa leitura do Pai Nosso. Surge, pois, uma questão preliminar: de que modo nós estamos em condições de captar, por meio da leitura, o sentido dessas palavras, pronunciadas por Jesus de Nazaré?

 

2. O princípio do contexto.

 

Aqui temos um recurso que ultimamente nos foi aferido pelos filósofos linguistas, que não se cansam em nos dizer que sem contextualização não há como entender um texto. Uma orientação que, à primeira vista, parece simples, mas não é tão fácil como parece. Estamos acostumados a pensar que o discurso é uma construção de palavras, como a casa é uma construção de tijolos. As palavras seriam os tijolos de um discurso. Mas os linguistas insistem: a palavra em si, a rigor, não significa nada. Palavras, na realidade, funcionam como peças num jogo de xadrez. Isolada, a palavra é como a peça do xadrez que, posta ao lado do tabuleiro, nada significa. Só ganha significado no momento em que ocupa seu lugar estratégico no tabuleiro. O que dá sentido à palavra é seu funcionamento dentro de um jogo de interação, de (in)comunicação. A palavra só funciona dentro de uma sentença, que, por sua vez, só tem sentido quando situada em seu contexto mais amplo. Pensar que a palavra em si seja capaz de ‘captar’ uma determinada realidade, é abrir campo para abusos. Quando o enunciador de uma sentença tem a intenção de confundir seus destinatários, ele baralha palavras, emite meias-verdades, mal-entendidos, que podem atuar como feitiços e seduzir os destinatários. É o que acontece com a TV nos nossos dias. Os que costumam assistir à TV passam a andar, no universo dos sentidos na vida e na sociedade, para cá e para lá, que nem baratas tontas num labirinto, do qual não conseguem sair.

 

Ao querer comentar o Pai Nosso, temos de ser claros nesse ponto. Precisamos averiguar cuidadosa e pacientemente como o texto transmitido se insere em seu devido contexto. O contexto em que o Pai Nosso foi enunciado nos abre o caminho para entendermos expressões como ‘nome de Deus’, ‘reino de Deus’, ‘vontade de Deus’, ‘pão de cada dia’, ‘dívida’, ‘tentação’, ‘livramento (do malvado)’. Por isso convido você a me acompanhar numa leitura do Pai Nosso, versículo por versículo, feito com o cuidado em situar as palavras dentro de seu devido contexto, na medida do possível. Seguiremos a versão do Evangelho de Mateus, capítulo 6, versículos 9 a 13, que cito aqui em extenso.

 

Eis como rezar:

v. 9. Pai nosso nos céus,

santificado seja seu nome,

v. 10. Venha seu Reino,

seja feita a sua vontade,

assim na terra como no céu.

v. 11. Dê-nos hoje nosso pão de cada dia.

v. 12. E perdoe-nos nossas dívidas,

como nós perdoamos a quem nos deve.

v. 13. E não nos ponha à prova,

mas livre-nos do malvado.

 

Um primeiro detalhe: você terá observado que escrevo aqui, traduzindo o versículo final, o termo ‘malvado’ e não ‘mal’ (como é costume). Eis o tipo de tradução que gostaria de discutir com você ao longo dos comentários que seguem.

 

3. Pai nosso nos céus,

 

Santificado seja seu nome.

A expressão é única, não consta alhures na Bíblia: Deus Pai (aba). Só Jesus fala em um Deus que é Pai. A novidade não consiste na expressão ‘aba’, que – ao que parece – era corriqueira na linguagem popular aramaica. O biblista Joaquim Jeremias mostrou que o termo era familiar na cultura judaica camponesa em tempos de Jesus. Uma expressão infantil. A novidade consiste em se relacionar com Deus como a criança se relaciona com seu pai. Vejamos a emocionante cena em Getsêmani: Afastando-se um pouco, ele caiu por terra. Ele rezou para que, se for possível, a hora passasse longe dele. ‘Aba, Pai, você pode tudo. Afaste de mim esse cálice. Mas não, não o que eu quero. O que você quer, você’ (Mc 14, 35-36). Aqui, Jesus se comporta como criança diante do ‘pai do céu’. Marcos, que escreve em grego, traduz por ‘patèr’ (‘pai’ em grego), um termo que ele encontra nas Cartas de Paulo (Rm 8, 15; Gl 4, 6). E desse modo passou para a tradição.

 

Deus Pai: fica difícil imaginar-se uma mutação de maiores consequências no imaginário religioso. Pois, se Deus é pai, nós todos e todas somos irmãos e irmãs. Pois a expressão ‘Deus Pai’ não é inócua, mas constitui um desafio para todos e todas que se dizem cristãos e cristãs. Somos nós mesmos que ‘santificamos o nome do Pai’ quando nos comportamos em irmãos e irmãs, não apenas quando pronunciamos as palavras piedosamente. A frase ‘santificado seja seu nome’ aparece como pedido, mas é um desafio.

 

4. Venha seu Reino,

Seja feita a sua vontade,

Assim sobre a terra como no céu.

 

Outro desafio que se apresenta sobre a forma de um pedido. A metáfora ‘Reino de Deus’ constitui mias uma novidade do discurso de Jesus de Nazaré (ao lado de ‘Deus Pai’ e do ‘perdão das dívidas’). Ela não é recorrente nos textos bíblicos e constitui mais uma novidade no vocabulário de Jesus, De grandes consequências. Na mente de Jesus, o Reino de Deus está em oposição ao Reino do Diabo. Para ele, Deus reina no céu, o Diabo na terra. Daí o pedido: ‘venha seu reino’. Pois o Reino de Deus, nos tempos que vivenciamos, não está na terra. A vontade de Deus não se realiza na terra. Como aparece o Reino de Deus na terra? A penitência, a conversão, o compromisso social e a oração podem colaborar, mas em última análise o Reino vem pelo poder de Deus. Lendo, em Mateus 11, 12, que Jesus diz que só os violentos conquistam o Reino de Deus, alguns teólogos têm insistido nos esforços humanos, eventualmente revoluções e movimentos políticos e/ou sociais. Mas os textos evangélicos não confirmam sem mais nem menos essa leitura. O que aparece claramente é que Jesus insiste no caráter ético da luta pelo Reino. Mas não se pode descartar a dimensão social e política. Enfim, aqui como em outros textos evangélicos, o que nos é transmitido não permite afirmações peremptórias. Quando não se tem certeza, há de se confessar a dúvida e partir para estudos mais aprimorados.

 

5. Dê-nos hoje nosso pão de cada dia.

 

Aqui pisamos em terreno mais seguro. Um dos temas fundamentais do programa de Jesus, tal qual vai formulado em relação às populações camponesas da Galileia no Evangelho de Marcos, é o do pão de cada dia. Direcionado à vida cotidiana nas aldeias da Galileia (principalmente), esse programa trata da ‘Lei dos Pais’ (lei de Moisés) sem abordar questões de pureza e impureza, lembrar a obrigação de ‘subir’ ao Templo para as festas e pagar os impostos estipulados pelo referido Código, como fazem os sacerdotes. Nisso está a originalidade do programa de Jesus, que fala em pão, casa, filhos, sustento da família, idosos, produção agrícola, trabalho de cada dia. No Evangelho de Marcos, esse programa não tem a contundência que encontramos nos trechos dos Evangelhos de Mateus e Lucas retirados do Evangelho Q. Mesmo assim, o evangelista aborda temas como a preocupação com a família, as crianças, os vizinhos, a aldeia, o não querer ser maior que os outros, reagir contra o desejo de enriquecimento, estar sempre disposto a servir. Assentado no chão da vida, do discurso de Jesus não pode senão tocar diretamente a maior preocupação do povo aldeão: o pão de cada dia. No Evangelho de Marcos, nada menos que três capítulos são dedicados a esse tema (veja os capítulos 6 a 8 de Mc). Neles, a palavra ‘pães’ (sempre em plural) volta 17 vezes. O espectro da fome está nas entrelinhas. Fala-se o tempo todo emmuitos pães, pães para todos, pão de cada dia. Os pães conduzem Jesus para fora das fronteiras de Israel e fazem com que ele transgrede os regulamentos tradicionais de separação entre israelitas e gente de lábios impuros. Jesus se preocupa com a falta de pão, não com questões nacionalistas (separação entre israelitas e não israelitas). É por isso que aparecem, no Evangelho de Marcos, duas narrativas de multiplicação de pães. A repetição do milagre proclama uma lição básica do programa de Jesus: para que nunca falte pão, há necessidade de solidariedade entre todos, sem discriminação. Aqui não se fala em israelitas e não israelitas, mas em pessoas humanas. O pão é ‘transgressor’. No capítulo 6 do Evangelho de Marcos, Jesus multiplica pães para judeus e no capítulo 8 para não judeus. Osfilhos de Abraão têm de ceder diante da urgência do pão, pois todos necessitam de comida, israelitas e não israelitas. O Reino de Deus é pão compartilhado. Nem religião, nem cultura, raça ou nacionalidade, nada impede a passagem do pão. Quando, no final da narrativa sobre duas sucessivas multiplicações de pães, os discípulos estranham o comportamento transgressor de Jesus no Além Israel, ele fica nervoso: ‘vocês ainda não compreendem’? (Mc, 8, 21)

 

6. E perdoe-nos nossas dívidas,

 

como nós perdoamos a quem nos deve.

 

Há como duvidar se esse versículo tenha figurado na versão aramaica original do Pai Nosso. Parece antes uma reflexão em torno de questões concretas, suscitadas pelas impactantes enunciações do Pai Nosso; ‘seja santificado seu nome’, ‘venha seu Reino’, ‘seja feita sua vontade’, ‘dê-nos o pão’. Pode ser que tanto Jesus como seus discípulos tenham ficado tão impressionados pela calamitosa situação econômica da Galileia que resolveram incluir em sua oração um pedido para que cesse a exploração do povo por meio de impostos. Pede-se que Deus perdoe nossas dívidas. Se Deus perdoar, como podem as autoridades ainda cobrar? Pois é disso que se trata. O texto grego recorre aqui ao verbo ‘afièmi’, que tem um sentido técnico e significa ‘quitar uma dívida contraída, ‘perdoar uma dívida’, ou ainda ‘deixar de cobrar o reembolso de uma dívida contraída’, conforme atestam diversas ocorrências do termo em Mateus (Mt 4, 11 e 20; 6, 12; 8, 22; 9, 6; 18, 27). Trata-se, sim, de dívidas pecuniárias, trata-se de dinheiro.

 

Jesus é movido por questões concretas que afligem o povo galileu. Estudos históricos mostram que há indícios de um crescente empobrecimento das populações rurais da Galileia a partir do início do século I dC e que essa situação que se agrava nos anos posteriores à morte de Jesus. Um empobrecimento em grande parte causado por um endividamento sempre mais constringente das populações camponesas. Cada vez que o camponês pretende iniciar um empreendimento, arrendar um terreno, comprar uma junta de bois, enfim, emprestar dinheiro para conseguir sustentar sua família, ele se mete em dificuldades. Pois esse camponês trabalha em terras, cujos proprietários moram não moram perto, mas nas cidades helenizadas (Séforis, Tiberias, Mágdala) ou mesmo no exterior (como é o caso das famílias de Sumos Sacerdotes, na maioria estrangeiras, que possuem as melhores terras da Palestina), O Templo também é um grande proprietário de terras, assim como a família de Herodes Antipas, sem esquecer a guarnição romana sediada em Jerusalém, ao lado do Templo, que também se sustenta comprando terras. Esses proprietários possuem um serviço coletivo de cobradores terceirizados (chamados ‘publicanos’ nos evangelhos), que se espalham pelas aldeias e nelas abrem seus guichês de cobrança de impostos (como se verifica nos evangelhos). Quando o camponês se mete em dívidas, aparece logo um cobrador, que exige pronto reembolso do dinheiro emprestado. Caso contrário, o camponês pode ir preso, pode apanhar e mesmo ser vendido como escravo (como Jesus lembra em Mt 18, 23-35) Um clima de apreensão se apodera do mundo camponês. A situação desemboca na desastrosa revolta dos anos 66-70 dC.

 

Hoje estamos em condições de compreender melhor as reais dimensões da injustiça reinante na Galileia de Jesus, pois escavações arqueológicas na região revelam que, ao lado da opulência das residências sacerdotais em cidades como Cafarnaum, Tiberias e outras, as aldeias rurais vivem no abandono. Os sacerdotes pregam a moral, falam em impostos, emdireitos de Ihwh, lembram que os 613 preceitos da lei têm de ser observados minuciosamente, principalmente os que dizem respeito ao ‘dom’, ou seja, à obrigação dedar a Deus o que é de Deus por meio de impostos a serem pagos ao Templo, sem, aparentemente, se dar conta que estão devorando os bens das viúvas.

 

Jesus sente o problema na pele. Ele compreende que só uma postura radicalmente ética é capaz de remediar a fundo os problemas. É dentro desse clima que ele ensina o Pai Nosso a seus discípulos, quando coloca a questão nos seguintes termos: se Deus perdoa as dívidas, nós não temos de fazer o mesmo? No Evangelho de Mateus (18, 23-35) há um texto que ilustra bem esse pensamento. Cito integralmente: O reino dos céus é o rei que convoca seus servidores na hora das contas. Ele apenas começa e um devedor já se apresenta. Sua dívida se eleva a dez mil talentos. (O evangelista carrega nas cores, pois essa soma é muito exagerada. Um talento é a soma de 6.000 denários, o equivalente a 6.000 salários de jornada. Multiplicando 6.000 por 10.000 se chega a 60 milhões de jornadas, um número impossível. O exagero aumenta a dramaticidade da narrativa). Como o homem não tem como pagar, o dono ordena vendê-lo como escravo e com ele sua mulher e seus filhos, além de todos os seus bens. Assim ele será reembolsado. O servidor se lança a seus pés. Ele o suplica: conceda-me um prazo e eu reembolsarei tudo! Emocionado, o dono despede o servidor e apaga sua dívida. Saindo, esse servidor se cruza com um outro que lhe deve cem denários. (O primeiro deve dez mil talentos e o segundo um talento divido por sessenta. Mas um exagero que aumenta a dramaticidade da narrativa). Ele o pega pela garganta: devolva-me o que me deve! Esse último se lança a seus pés e suplica ao seu credor: conceda-me um prazo e lhe reembolsarei tudo! Mas o primeiro servidor não aceita e o faz jogar na prisão até que ele pague o devido inteiramente. Os outros servidores ficam consternados. Eles procuram o dono e lhe contam em detalhes o que aconteceu. O dono chama o servidor e diz: seu coração é mau. Você me implorou e eu apaguei sua dívida. Você não teria de demonstrar a mesma indulgência em relação a seu colega? O dono fica muito irado. Ele entrega o servidor ao carrasco até que pague o devido. Meu Pai nos céus fará o mesmo com vocês se vocês não apagam de coração as dívidas de seus irmãos.

 

7. E não nos ponha à prova,

Mas livre-nos do malvado.

Não fica claro se, aqui, a boa tradução é ‘malvado’ (masculino) ou ‘mal’ (neutro), pois a palavra grega aparece no genitivo, o que permite as duas traduções. Mas, lido em contexto, fica claro que ‘malvado’ é a boa tradução. Pois Jesus, assim como personaliza o princípio do bem (Deus), personaliza igualmente o princípio do mal. Para ele, o mal tem rosto e nome: é Satanás, Belzebu, Diabo, Demônio. Jesus entende sua missão dentro do quadro cósmico da oposição entre Deus e Satanás. A situação do cosmos é a seguinte: Deus detém o poder no céu, Satanás manda na terra e no inferno. A principal obra de Jesus, segundo as narrativas evangélicas, consiste em combater incansavelmente o malvado e os efeitos malignos que ele causa nas pessoas (principalmente por meio de doenças). A instalação do Reino de Deus exige a expulsão do Diabo, ou seja, da cura das doenças. Já que Deus tomou a resolução de alargar seu Reino na terra, Jesus entende que sua missão consiste em praticar milagres, expulsar demônios e curar doentes. Jesus acredita que, quanto mais se alarga o círculo onde se praticam curas e exorcismos, ou seja, expulsões de demônios, mais se alarga o Reino de Deus. Os setenta discípulos são enviados para circular pelas aldeias, curando e expulsando demônios. A cura sempre vai acompanhada da expulsão do demônio. O mesmo vale para a marginalização social, a exploração, etc. Se os exorcismos, juntamente com as curas, ocupam o centro das narrativas acerca das atividades de Jesus nos evangelhos, é que ele acredita que Deus nele atua e que o Reino se estabelece na terra por meio de exorcismos e curas (Lc 11, 20). Daí a prece: não nos ponha à prova, mas livre-nos do malvado.

 

8. Qual a ideia predominante do Pai Nosso?

 

Há como resumir o Pai Nosso numa ideia abrangente? O que Jesus quer, afinal, ao ensinar essa oração a seus discípulos? Qual a ideia predominante? Com essa pergunta na mente, releio o texto de Mateus. Sublinho algumas palavras que me parecem indicar uma resposta:

Eis como rezar:

Nosso Pai nos céus,

Santificado seja seu nome,

Venha seu Reino,

Seja feita a sua vontade,

Tanto sobre a terra como no céu.

Dê-nos hoje nosso pão de cada dia.

E perdoe-nos nossas dívidas,

como nós perdoamos a quem nos deve.

E não nos ponha à prova,

Mas livre-nos do malvado (vv. 9-15)

 

Os termos que se referem a Deus (‘seu’, ‘sua’), aparecem três vezes, enquanto os que se referem aos discípulos (‘nosso’, ‘nós’, ‘nos’) vêm oito vezes. O discurso é direcionado à vida dos discípulos. Nesse sentido se realça a segunda parte do versículo 12: como nós perdoamos a quem nos deve.

 

A oração do Pai Nosso só funciona quando vai acompanhada por posturas concretas. Daí as frases curtas, incisivas, nervosas, exclamativas. Os discípulos têm de começar agorapara que ‘o Reino venha’, ‘seja feita a vontade de Deus’, ‘não caiamos em tentação’, ‘não falhemos’, ‘Deus nos livre do malvado’, ‘perdoemos as dívidas de nossos vizinhos’, ‘obtenhamos o pão que necessitamos’. Se vocês perdoam a seus semelhantes suas falhas, seu Pai nos céus fará o mesmo para vocês, reza o texto de Mateus que vem logo após o ensino do Pai Nosso.

 

Em vez de tecer altas considerações sobre Deus, Jesus descreve situações concretas de seu tempo, de seu povo. Ele não mexe com a tradição religiosa herdada, não discute o ‘ser’ de Deus, não faz ‘teologia’, não participa das discussões entre sacerdotes e letrados do Templo de Jerusalém, acerca da aliança no Sinai, do êxodo do Egito, da entrada na terra prometida, não aborda o tema da criação do mundo por Deus, da adoração e das alertas diante da veneração de outros deuses, das devoções e cumprimento de obrigações religiosas. Tudo isso ele deixa de lado. O que lhe interessa é saber o que a fé herdada possa significar na vida das pessoas. A tradição religiosa interessa a Jesus na medida em que constitui uma narrativa que motive as pessoas no sentido de viver de um modo evangélico.

 

Jesus não cria novas metáforas para falar em Deus, ele trabalha com as metáforas que encontra na cultura tradicional. Não elabora uma nova teologia, não se comporta em reformador religioso nem pensa em criar uma nova religião, não pretende alterar a tradição de Moisés. Seu objetivo é o comportamento fraternal entre os discípulos, ao ponto de perdoar não sete vezes, mas setenta vezes sete vezes.