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Perspectivas teológico-pastorais

 

Francisco de Aquino Júnior1

 

É uma feliz coincidência poder celebrar este ano os 50 anos da Conferência de Medellín e os 5 anos de ministério pastoral de Francisco como bispo de Roma. Essa coincidência cronológica adquire particular relevância pela sintonia teológico-pastoral entre ambos e pelo caráter de recepção/atualização da tradição Vaticano II – Medellín que caracteriza o ministério pastoral de Francisco e permite compreender melhor a atuação de Francisco e a atualidade de Medellín.

Certamente, pode-se falar muitas coisas sobre Medellín e sobre Francisco, bem como sobre a relação entre ambos e com o conjunto da Igreja. E tudo isso vai depender muito da perspectiva de quem fala. Nossa reflexão se situa no movimento de renovação eclesial que se desenvolveu na América Latina a partir do Concílio Vaticano II e sua recepção na Conferência de Medellín e que se convencionou chamar Igreja da libertação ou Igreja dos pobres. Deste lugar eclesial, destacaremos a importância de Medellín e de Francisco para a Igreja e para a sociedade, retomaremos em linhas gerais sua perspectiva teológico-pastoral fundamental e indicaremos alguns dos principais desafios com os quais a Igreja é confrontada e desafiada hoje em sua ação evangelizadora.

 

1 Importância de Medellín e de Francisco na Igreja e na sociedade

Alguém poderia dizer que Medellín é apenas uma das cinco conferências do CELAM e que Francisco é apenas mais um dos bispos de Roma. Têm sua importância como as demais conferências e os demais bispos de Roma, mas nada de extraordinário. Mas esse tipo de análise abstrata e superficial que mal consegue ofuscar seus interesses ideológicos não capta a especificidade, a densidade e a relevância dos acontecimentos históricos nem do ponto de vista social nem do ponto de vista teológico-pastoral. Nem todo acontecimento tem a mesma importância histórica, no sentido de intervir ou mesmo alterar o dinamismo eclesial e/ou social em curso. Aliás, a tendência normal, sobretudo por parte das instituições e de suas instâncias de governo, é manter, com pequenos ajustes, o status quo. Raramente acontece algo que impacta de tal modo o ritmo da vida a ponto de marcar um antes e um depois. E isso que vale para o conjunto da sociedade, vale de modo particular para a Igreja. Mas a história é farta de acontecimentos que impactaram de tal modo a Igreja e a sociedade, alterando ritmos e rumos e desencadeando processos, que não podem ser tomados simplesmente como mais um entre tantos. Seja do ponto de vista social (revolução tecnológica, guerra, forma de poder e de governo, ideologia etc.), seja do ponto de vista teológico (Êxodo, Jesus Cristo, comunidades cristãs, movimentos de renovação eclesial etc.).

O Concílio Vaticano II2 é, sem dúvida nenhuma, um desses acontecimentos que marcaram um antes e um depois na vida da Igreja. É um acontecimento eclesial e, enquanto tal, só pode ser compreendido dentro da tradição eclesial. Neste sentido, não se pode falar de radical ruptura ou descontinuidade. Mas é um acontecimento que provoca rupturas e desencadeia novos processos e, assim, marca uma nova etapa na vida da Igreja. Neste sentido, não pode ser tomado como absoluta continuidade como se tudo continuasse como antes ou como se não tivesse acontecido nada de novo.

Certamente, pode-se enfatizar mais os aspectos de continuidade ou de ruptura (conflito de interpretação), pode-se tomá-lo como “ponto de chegada” ou como novo “ponto de partida” e pode-se frear ou alargar seus horizontes e seus processos de renovação (dinamismo teológico-pastoral). Mas não há como negar sua novidade e sua importância decisiva na vida da Igreja. João Paulo II, por exemplo, fala do Concílio Vaticano II como um “acontecimento providencial”, reconhece que ele marca “uma nova etapa na vida da Igreja”3 e afirma que “nele se encontra uma bússola segura para nos orientar no caminho do século que começa”4. E Francisco fala do Concílio Vaticano II como “uma atualização, uma releitura do Evangelho na perspectiva da cultura contemporânea”, diz que ele “produziu um movimento irreversível de renovação que provém do Evangelho” e que “agora é preciso ir em frente”5.

Algo semelhante se pode dizer da conferência de Medellín6. Ela marca uma nova etapa na Igreja latino-americana e até mesmo no conjunto da Igreja. Segundo Clodovis Boff, o “fruto maior” de Medellín “foi ter dado à luz a Igreja latino-americana como latino-americana”. Seus documentos “representam o ‘ato de fundação’ da Igreja da América Latina a partir e em função de seus povos e de suas culturas”. Eles “constituem a ‘carta magna’ da Igreja do Continente”7. Nas palavras de Carlos Palácio, “Medellín foi a transposição da perspectiva do Concílio e de suas intuições ao contexto específico do continente latino-americano. Sem o Concílio, não teria existido Medellín, mas Medellín não teria sido Medellín sem o esforço corajoso de repensar o acontecimento conciliar a partir da realidade de pobreza e de injustiça que caracterizava a América Latina”8. Com esta conferência, diz Ramirez, “nossa Igreja começa a adquirir personalidade eclesial” e “começa a aportar, a partir do surgimento de uma consciência profética, uma grande riqueza à Igreja universal”9.

Já no texto de apresentação do Documento Final de Medellín, a presidência do CELAM fala desta conferência como “um autêntico Pentecostes para a Igreja latino-americana” e afirma que com ela “começa para a Igreja da América Latina ‘um novo período de sua vida eclesiástica’ [...] marcado por uma profunda renovação da vida espiritual, por generosa caridade pastoral e por uma autêntica sensibilidade social”10.

E a mesma convicção aparece no testemunho de alguns dos bispos que marcaram decisivamente a caminhada da Igreja latino-americana pós-Medellín.

- Em relato escrito no final da conferência, Dom Helder Câmara, um de seus principais protagonistas, compara Medellín ao Concílio Vaticano II e afirma que “para a América Latina, as Conclusões desta Conferência – que aplicam ao nosso Continente as determinações do Concílio e, em nome do Concílio, nos levam a assumir, plenamente, nossa responsabilidade em face do momento histórico da América Latina – devem ter o mesmo sentido que para o mundo inteiro, devem ter os documentos conciliares”11.

- Segundo Dom Fragoso, Medellín ofereceu “a oportunidade, para o episcopado latino-americano e suas Igrejas, de repensar o Vaticano II dentro do contexto continental”. Foi “uma tentativa de olhar a Igreja desde o lugar social dos meios populares [...] e convocar os cristãos para uma ação pastoral transformadora”. Foi “um esforço de latino-americanizar o Concílio Vaticano II, uma busca de um rosto de Igreja mais encarnada e um pluralismo eclesial em gestação”. E conclui: “Por graça de Deus – o Espírito Santo ‘pairava’ sobre a conferência suscitando profecia e criatividade – foi dado um passo ‘oficial’ para uma evangelização ‘inculturada’, que não prioriza a reprodução da ‘cristandade’, mas abre para uma ‘Igreja popular’”12.

- Falando da “opção preferencial pelos pobres”, Dom Aloísio Lorscheider, que foi presidente do CELAM e um dos co-presidentes da conferência de Puebla, não hesita em afirmar que “nenhuma conferência, nem Puebla, nem muito menos Santo Domingo, ultrapassou Medellín, que foi um grande fato eclesial da América Latina e marcou também a Igreja fora deste continente. Influiu até no magistério geral da Igreja”13.

E não se trata, aqui, de acontecimentos meramente eclesiais sem relevância social. O processo de renovação eclesial desencadeado pelo Concílio Vaticano II e, sobretudo, pela conferência de Medellín tem uma importância social muito grande, na medida em que redefine a presença e atuação da Igreja na sociedade. Isso vale particularmente em relação ao continente latino-americano: seja pelo imaginário religioso que o caracteriza e pela importância da Igreja como força social; seja pelo impacto que a mudança de lugar social da Igreja produziu no continente. Basta recordar, aqui, a modo de exemplo, o que afirmava um documento elaborado nos anos 1980 por um grupo de assessores de Ronald Reagan para o Conselho Interamericano de Segurança dos Estados Unidos: “A política exterior dos EUA deve começar a enfrentar (e não simplesmente reagir posteriormente) a Teologia da Libertação, tal como é utilizada na América Latina pelo clero da ‘teologia da libertação’”14. Para não falar das centenas ou dos milhares de cristãos ameaçados, perseguidos, torturados e até martirizados por seu compromisso com os pobres na luta pela justiça.

Quanto à importância de Francisco15 na Igreja e na sociedade, ela tem a ver com a retomada e atualização desse dinamismo eclesial desacelerado ou mesmo reprimido nas últimas décadas. Se a Igreja do Vaticano II e de Medellín é uma Igreja encarnada na realidade e envolvida com os problemas da sociedade, uma Igreja-povo que se entende e se configura como sacramento de salvação/libertação no mundo; a Igreja das últimas décadas é marcada por um processo de involução eclesial: uma Igreja clerical e autocentrada, voltada para seus interesses institucionais (culto, doutrina, governo), indiferente aos grandes problemas da humanidade. Tornou-se comum falar, a partir da Europa, de “inverno eclesial”. Daqui do Nordeste do Brasil, onde inverno é chuva e chuva é benção, teríamos que falar de “seca eclesial”. Neste contexto, pode-se compreender melhor a importância de Francisco. Ele não apenas assume a atualiza o dinamismo eclesial conciliar-latino-americano, formulado em termos de “Igreja pobre para os pobres” ou “Igreja em saída para as periferias do mundo”, mas o faz em um contexto eclesial extremamente adverso. Não por acaso, Francisco tem encontrado tanta resistência na Igreja. E não pensemos apenas nas críticas abertas de pequenos grupos ultrarreacionários ou de alguns membros da cúpula da Igreja. A resistência pior e mais eficaz a ele é aquela que se dá silenciosamente em nossas dioceses, paróquias e comunidades: uma espécie de “cisma branco” em que não se faz critica aberta e até se tece elogios a ele e o cita (muito seletivamente), mas não se leva a sério ou mesmo se boicota na prática suas orientações pastorais. Mas não obstante toda essa resistência aberta ou sutil, Francisco se mantém evangelicamente firme e criativo nessa tradição e se torna cada vez mais uma das referências espirituais/humanitárias mais importantes de nosso tempo. E para além dos limites do cristianismo e das tradições religiosas.

Dito isto, é preciso ao menos indicar e esboçar em linhas gerais a perspectiva teológico-pastoral fundamental de Medellín assumida e atualizada por Francisco.

 

2 Perspectiva teológico-pastoral de Medellín e Francisco

A importância e o impacto sócio-eclesiais de Medellín e de Francisco estão vinculados à perspectiva teológico-pastoral ou ao dinamismo eclesial em que se situam ou que assumem e desencadeiam. É a forma de compreender e dinamizar teológica e pastoralmente a Igreja e sua missão no mundo que impacta, abrindo perspectivas novas, mas também provocando tensões e reações.

E não se trata, aqui, de nenhum modismo teológico-pastoral – hoje, mais do que nunca, isso está fora de moda e não dá ibope. Pelo contrário. Trata-se de um esforço eclesial de maior fidelidade a Jesus Cristo e ao Evangelho do Reino que a Igreja deve anunciar com palavras e ações em todos os tempos e circunstâncias. Esta é a missão e a razão de ser da Igreja. Em função disso, tudo mais (costumes, estruturas, formulações etc.) é relativo. Daí o caráter de reforma permanente que caracteriza a Igreja16. Como afirma o Decreto Unitatis Redintegratio do Concílio Vaticano II sobre o ecumenismo: “Toda renovação da Igreja consiste numa fidelidade maior à própria vocação [...] A Igreja peregrina é chamada por Cristo a essa reforma perene. Dela necessita perpetuamente como instituição humana e terrena” (UR 6). E essa consciência aparece em vários textos do Concílio (Cf. UR 4; LG 8, 9, 15; GS 43).

Pois bem, Medellín e Francisco se inserem no processo de renovação eclesial assumido e/ou desencadeado pelo Concílio Vaticano II.

Uma das características mais importantes deste concílio foi o diálogo com o mundo moderno. Depois de séculos de confrontos, hostilizações e condenações, a Igreja se abre positivamente ao mundo moderno, discernindo e reconhecendo nele sinais da presença de Deus e procurando responder aos apelos de Deus aí presentes (Cf. GS 4, 11, 44; PO 9; UR 4; AA 14)17. Fez isto não apenas como estratégia de sobrevivência, mas, em última instância, em razão de sua própria identidade: Em virtude de seu caráter missionário, a Igreja só pode existir em solidariedade com o mundo. A referência e o serviço ao mundo são constitutivos da identidade da Igreja, cuja missão consiste em ser “sinal e instrumento” da salvação ou do reinado de Deus no mundo (Cf. LG 1, 5, 8, 9, 48; GS 42, 45; AD 1, 5; SC 5s). Mais que um problema de sensibilidade ou estratégia pastoral, trata-se aqui de um problema de ordem teológica. Está em jogo a própria identidade da Igreja. Enquanto presente no mundo e a serviço da salvação do mundo, a Igreja está constitutivamente referia ao mundo. Ela não pode se pensar e se configurar independentemente do mundo nem muito menos em oposição a ele. Enquanto lugar e destinatário da missão da Igreja, o mundo é um momento do processo mesmo em que essa missão (salvífica) se realiza. De modo que não há lugar para oposição entre Igreja e mundo (Cf. GS 43) e que a preocupação e o envolvimento com os problemas do mundo aparecem como algo constitutivo da missão da Igreja (Cf. GS 11, 42, 89).

Medellín foi pensada e convocada “com a finalidade de afinar a Igreja da América Latina com a teologia e a pastoral do Vaticano II e terminou dando um salto qualitativo para além da concepção centro-europeia desse Concílio”18. Não apenas recolheu e desenvolveu de modo coerente e consequente a riqueza e as potencialidades do Concílio na América latina, mas, ao fazê-lo, pôs em marcha um movimento teológico-pastoral que acabou revelando limites do próprio Concílio: “um Concílio universal, mas na perspectiva dos países ricos e da chamada cultura ocidental”19. Se o Concílio teve o mérito incalculável de descentrar a Igreja, de abri-la e lançá-la ao mundo, “não historicizou devidamente o que era esse mundo, um mundo que devia ter definido como um mundo de pecado e injustiça, no qual as imensas maiorias da humanidade padecem de miséria e injustiça”20. Não bastava abrir-se ao mundo. Era necessário determinar com maior clareza e precisão que mundo era esse (mundo estruturalmente injusto e opressor) e qual o lugar social da Igreja nesse mundo (mundo dos pobres e marginalizados). Aqui reside um dos maiores limites do Concílio e o mérito insuperável de Medellín.

Se o Concílio Vaticano II abriu a Igreja para o mundo, compreendendo-o e assumindo-o como lugar e destinatário de sua missão; Medellín concretizou melhor esse mundo e assumiu o mundo dos pobres e marginalizados como lugar e destinatário fundamentais de sua missão. Se o Concílio compreendeu a Igreja como sinal e instrumento de salvação no mundo; Medellín historicizou essa salvação em termos de libertação das mais diferentes formas de injustiça, opressão e marginalização. Se o Concílio produziu e/ou desencadeou uma teologia ilustrada, aberta e em diálogo com o mundo moderno (teologia moderna); Medellín produziu e/ou desencadeou uma teologia engajada nos processos de libertação (teologia da libertação).

Tudo isso repercutiu imensamente no conjunto da Igreja. Não só a Igreja latino-americana foi profundamente marcada e enriquecida pelo processo de renovação eclesial desencadeado pelo Concílio. Também o conjunto da Igreja foi profundamente marcado e enriquecido pelo processo de renovação eclesial inaugurado por Medellín e formulado comumente nos termos opção preferencial pelos pobres - “uma das peculiaridades que marca a fisionomia da Igreja latino-americana e caribenha” (Aparecida, 391): O Sínodo dos bispos sobre “A justiça no mundo” (1971) e a Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi “Sobre a Evangelização no mundo contemporâneo” (1975) mostram claramente o impacto e a repercussão do acontecimento Medellín no conjunto da Igreja já na primeira metade da década de 1970; em sua Encíclica Sollicitudo rei socialis (1987), João Paulo II fala da “opção ou [do] amor preferencial pelos pobres” como um dos “temas” e uma das “orientações” repetidamente “ventilados pelo magistério nos últimos anos” (SRS 42); o Compêndio de Doutrina Social da Igreja (2004), fala da “opção preferencial pelos pobres” ao tratar dos princípios da Doutrina Social da Igreja, concretamente do princípio da “destinação universal dos bens”21; e Bento XVI reconheceu e afirmou explicitamente no discurso de abertura da Conferência de Aparecida (1997) que “a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com sua pobreza (cf. 2Cor 8,9)”22. Para não falar do impacto e da repercussão desse processo eclesial inaugurado por Medellín na prática pastoral, no magistério episcopal e na reflexão teológica nas mais diferentes regiões do planeta.

E todo esse processo ganha com Francisco renovado vigor e dinamismo eclesiais. Ao expressar seu profundo desejo de “uma Igreja pobre a para os pobres” e ao colocar os pobres e sofredores da terra no centro de suas preocupações e orientações pastorais, Francisco retoma e atualiza, a seu modo, a tradição eclesial que vem do Concílio e da Igreja latino-americana. Não seria exagerado afirmar que ele realiza uma síntese peculiar das intuições e orientações teológico-pastorais dessa tradição. Síntese, porque se trata, na verdade, de retomada e rearticulação das orientações fundamentais do Concílio e da caminhada eclesial latino-americana. Peculiar, pelo modo próprio de retomada e articulação, fruto, em boa medida, de sua experiência pastoral e que se materializa em seus gestos, discursos, acentos, prioridades, linguagem etc.

O Documento de Aparecida, do qual foi um dos redatores e que constitui uma de suas principais referências, pode ser tomado como um primeiro esboço dessa síntese. Mas ela encontra sua elaboração mais acabada, ainda que aberta e em processo de elaboração, na sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, com a qual quer “indicar caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos” (EG 1).

O núcleo de seu projeto de renovação eclesial pode ser formulado em termos de Igreja dos pobres ou Igreja em saída para as periferias do mundo. Trata-se de um profundo descentramento eclesial (Igreja em saída). Nisso, é muito fiel ao Concílio: a Igreja não existe para si, mas como “sinal e instrumento de salvação no mundo”. Mas não se trata de uma saída qualquer, para qualquer lugar ou com qualquer finalidade. Trata-se de uma saída para a humanidade sofredora e para ser sinal e mediação da misericórdia e da justiça de Deus para com ela (saída para as periferias). E nisso ele é muito fiel à caminhada da Igreja latino-americana em cujo centro está a “opção preferencial pelos pobres”. A intuição de fundo está formulada de modo muito simples, claro e direto no discurso que Francisco fez na periferia de Kangeme, em Nairobi – Quênia, no dia 27 de novembro de 2015: “O caminho de Jesus começou na periferia, vai dos pobres e com os pobres para todos”23.

Certamente, isso não esgota o mistério da Igreja e sua missão no mundo, mas constitui o coração ou o centro em torno e em função do qual tudo mais se articula: prioridades, estruturas, ministérios, linguagem etc. A razão última de ser da Igreja é ser “sinal e instrumento” ou “mediação” da salvação ou do reinado de Deus que tem nos pobres, marginalizados e sofredores do mundo sua medida e seu critério escatológicos (Cf. Lc 10, 25-37; Mt 25, 31-46). Aqui está o núcleo da reforma eclesial desencadeada por Medellín e retomada fiel e criativamente por Francisco.

 

3 Desafios teológico-pastorais

A partir dessa tradição eclesial Vaticano II – Medellín, retomada por Francisco, podemos indicar alguns dos principais desafios com os quais somos confrontamos em nossa missão evangelizadora no contexto atual da Igreja e da sociedade. E esses desafios dizem respeito tanto à compreensão e à configuração da Igreja e sua missão no mundo (eclesiologia), quanto aos apelos e às exigências que brotam de nossa situação histórica atual (sinais dos tempos).

 

3.1 Igreja e sua missão

Uma das grandes provocações que Medellín e Francisco nos fazem hoje diz respeito à compreensão e configuração da Igreja e sua missão. Conforme indicamos anteriormente, Medellín e Francisco se inserem no processo de renovação eclesial desencadeado pelo Concílio Vaticano II e sua recepção no contexto latino-americano. Trata-se de um dinamismo eclesial em que a Igreja se compreende e se configura como povo de Deus (comunidade com seus carismas e ministérios) a serviço do reinado de Deus neste mundo (que vai se tornando realidade na vida fraterna e no cuidado e compromisso com os pobres, marginalizados e sofredores). Isso desencadeou, não sem tensões e conflitos e sem ambiguidades, um processo de desclericalização (centralidade da comunidade e não do ministro ordenado, diversidade de carismas e ministérios) e de descentramento eclesial (centralidade do reinado de Deus e não da instituição) em que a Igreja foi recuperando sua verdadeira identidade de “sinal e instrumento” do reinado de Deus no mundo: sinal, na medida em que, como comunidade com seus carismas e ministérios, constitui-se em lugar no qual o reinado de Deus vai se tornando realidade na vida fraterna, no perdão, no poder-serviço, no cuidado dos pobres etc.; instrumento, na medida em que se coloca a serviço e em função do reinado de Deus no mundo que tem nas necessidades e nos direitos dos pobres e marginalizados sua medida e seu critério escatológicos. Está em jogo, portanto, um processo de renovação evangélica da Igreja que diz respeito tanto à sua estrutura social (comunidade: carismas e ministérios) quanto à sua missão no mundo (reinado de Deus).

Aos poucos, mas de maneira progressiva e intensa, esse processo foi sendo freado, controlado, alterado ou mesmo invertido nas últimas décadas. Foi se gestando um “novo” dinamismo eclesial, não só distinto, mas, sob muitos aspectos, até contrário ao dinamismo eclesial Vaticano II – Medellín. E tanto no que diz respeito à estrutura social da Igreja, cada vez mais centrada no ministro ordenado (clerizalização), quanto no que diz respeito à missão evangelizadora da Igreja, cada vez mais centrada na reprodução e nos interesses institucionais: culto, doutrina, governo, conquista de novos membros etc. (eclesiocentrismo). Não por acaso, nossas comunidades, organizações, paróquias e dioceses são cada vez mais indiferentes aos grandes problemas da sociedade. E não por acaso, os ministros ordenados são cada vez mais o centro em torno do qual giram a organização e a missão da Igreja.

Esse é um dos grandes desafios com os quais Francisco tem se confrontado e nos confrontado com firmeza e ousadia evangélicas. Tem reagido constantemente contra o clericalismo que é uma “deformação”, um “mal” e uma “peste”24, insistindo na estrutura sinodal da Igreja25 e na corresponsabilidade de todos na missão evangelizadora (Cf. EG 111-134). E tem alertado constantemente contra o “mundanismo espiritual” ou “doença espiritual” que é o “autocentramento” ou a “autoreferencialidade” eclesial (Cf. EG 93-97)26, recuperando a centralidade da misericórdia – “coração pulsante do Evangelho” (MV 12) e retomando o movimento de “saída para as periferias” (EG 20, 30, 59).

Levar a sério essa problemática é fundamental, inclusive, para o envolvimento da Igreja com os grandes problemas do mundo de hoje, pois, dependendo da compreensão que a Igreja tenha de si mesma e de sua missão, esses problemas serão tomados como próprios ou externos à sua missão evangelizadora.

 

3.2 Sinais dos tempos

Vinculado ao problema da compreensão e configuração da Igreja e sua missão no mundo estão os desafios de nossa hora histórica que devem ser enfrentados pelos crentes na força e no poder do Espírito (Gl 5, 25) com uma “fé ativada pelo amor” (Gl 5, 6) que vai fermentando a história com o dinamismo do reinado de Deus (1 Cor 4, 20) que tem nos pobres, marginalizados e sofredores sua medida e seu critério escatológicos (Lc 10, 25-37; Mt 25, 31-46). Está em jogo, aqui, a problemática da densidade teológica dos acontecimentos históricos, isto é, de sua dimensão savífico-espiritual.

O Concílio Vaticano II começou a se enfrentar com essa questão, reconhecendo nos acontecimentos históricos presença, sinais e apelos de Deus. É toda a problemática dos “sinais dos tempos” que foi apenas intuída e esboçada pelo Concílio (Cf. GS 4, 11, 44; PO 9; UR 4; AA 14). Medellín retomou essa intuição, concretizando-a nos processos históricos de libertação, nos quais reconhece “um evidente signo do Espírito que conduz a história dos homens e dos povos para a sua vocação” ou “a presença de Deus que quer salvar o homem inteiro, alma e corpo”27. E a teologia da libertação tem aqui um de seus pressupostos teológicos mais importantes. Ignacio Ellacuría, por exemplo, fala do “povo historicamente crucificado” como o “sinal dos tempos” mais importante, a partir do qual “se deve discernir e interpretar todos os demais”28. Mas isso nunca foi tranquilo e nunca conseguiu se impor na Igreja, superando o clássico dualismo “matéria X espirito” que adquiriu diversas expressões ao longo da história: humano X divino, liberdade X graça, natural X sobrenatural, imanência X transcendência etc. Por isso, sempre que a Igreja procura levar a sério os acontecimentos históricos, logo aparecem as suspeitas, acusações e condenações de “desvio” de sua missão evangelizadora como se se tratasse de algo estranho e que comprometesse sua missão específica. Foi assim com o Concílio Vaticano II. Foi assim com Medellín. É assim com a pastoral e a teologia da libertação. É assim com Francisco. E não se deve simplificar e relativizar essa questão como se fosso algo simples e evidente nem dá-la por pressuposta como se fosse algo tranquilo, resolvido e consensual na comunidade eclesial.

Em todo caso, aqui está uma das contribuições mais importantes e mais relevantes do dinamismo eclesial desencadeado pelo Concílio Vaticano II e sua recepção em Medellín. E isso tem sido retomado com vigor e criatividade por Francisco que, não só tem insistido em sua centralidade na missão da Igreja, mas tem concretizado isso em nosso atual contexto histórico, identificando os grandes problemas e desafios que se impõem à missão da Igreja e se constituem como uma verdadeira agenda teológico-pastoral: periferias sociais e existenciais; cuidado da casa comum, cultura da solidariedade, importância dos movimentos populares.

 

3.2.1 Periferias sociais e existenciais

Francisco tem insistido muito na necessidade e urgência de um processo de renovação eclesial através de um movimento permanente da “saída” (dinamismo missionário) para as “periferias” sociais e existenciais de nosso tempo (Evangelho do reinado de Deus as pobres, marginalizados e sofredores). Não se trata de uma “saída” qualquer, mas de uma “saída para as periferias” e uma saída para anunciar com palavras e ações a misericórdia de Deus que é o “coração pulsante do Evangelho” (MV 12). E quando fala de “periferias”, Francisco se refere tanto às “periferias sociais” (situações de pobreza, marginalização e injustiça as mais diversas), quanto de “periferias existenciais” (as mais diversas formas de sofrimento humano).

Medellín chamou atenção para a dimensão institucional/estrutural da pobreza, desigualdade e opressão na América Latina: Falou de “estruturas injustas”, de “violência institucional”, da necessidade de “novas e renovas estruturas” e desencadeou um dinamismo teológico-pastoral que levou a sério a dimensão sócio-transformadora da fé. Francisco retoma essa dimensão socioestrutural da pobreza e marginalização, mas a articula com a dimensão existencial do sofrimento humano. É preciso se enfrentar tanto com as estruturas que produzem pobreza, desigualdade e marginalização (compromisso com a transformação da sociedade), quanto com as situações existenciais de sofrimento (proximidade, consolo e alento às pessoas em seus sofrimentos). A opção pelos pobres tem tanto uma dimensão estrutural quanto uma dimensão existencial.

 

3.2.2 Cuidado da casa comum

Vinculada à problemática do sofrimento humano e como uma de suas dimensões fundamentais está a problemática ambiental que assume dimensões e proporções cada vez mais assustadoras. Neste contexto e em sintonia com o “movimento ecológico mundial”, Francisco convoca todas as pessoas, comunidades e instituições a ouvirem os gritos/clamores/gemidos da terra e dos pobres (Cf. LS 49, 53, 117) e lança um “convite urgente a renovar o diálogo sobre a maneira como estamos construindo o futuro do planeta” (LS 14).

Criticando toda forma de “antropocentrismo despótico” (LS 68) e de “biocentrismo” cínico (LS 118), Francisco propõe uma ecologia integral que tem como um de seus eixos fundamentais “a relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta” (LS 16). Daí sua insistência em que “uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres” (LS 49).

A Encíclica Laudato Si, uma das mais importantes e mais impactantes encíclicas sociais da Igreja, não apenas trata de um dos grandes problemas de nosso tempo (problema ambiental), mas aponta uma perspectiva nova de tratar esses problemas que cada vez mais se constituem como problemas socioambientais (ecologia integral). E isso alarga os horizontes da própria luta pela justiça e das formas ou dos meios de sua realização histórica.

 

3.2.3 Cultura da solidariedade

Francisco é particularmente sensível à dimensão cultural da vida, não em oposição à dimensão socioestrutural nem como forma sutil de evitar, por comodidade ou por cumplicidade, os conflitos aí implicados, mas por compreender que é aqui que se cultivam e se reproduzem os grandes valores e as grandes convicções que legitimam os dinamismos e as estruturas sociais e/ou que mobilizam forças e processos sociais para sua transformação. Ele tem insistido muito na urgência de uma “cultura da solidariedade”.

E solidariedade “significa muito mais do que alguns atos esporádicos de generosidade; supõe a criação de uma nova mentalidade que pense em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns” (EG 188) e que enfrente e supere a “cultura do descartável” (EG 53), o “ideal egoísta” e a “globalização da indiferença” que se desenvolveram e se impuseram em nosso mundo, tornando-nos “incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios” e desresponsabilizando-nos diante de suas necessidades e de seus sofrimentos (EG 54, 67). “A solidariedade é uma reação espontânea de quem reconhece a função social da propriedade e o destino universal dos bens”. Tem a ver com convicções e práticas. E é fundamental, inclusive, para a realização e a viabilidade de “outras transformações estruturais” na sociedade, pois “uma mudança nas estruturas, sem gerar novas convicções e atitudes, fará com que essas mesmas estruturas, mais cedo ou mais tarde, se tornem pesadas e ineficazes” (EG 189).

 

2.3.4 Importância dos movimentos populares

Por fim, Francisco tem insistido na importância fundamental dos movimentos populares no enfrentamento dos grandes problemas de nosso tempo e na construção de alternativas “a partir de baixo” que antecipem e desencadeiem processos de construção de um novo mundo. Seus encontros mundiais com representantes de movimentos populares (28/10/2014; 09/06/2015; 05/11/2016) revelam sua preocupação e seu interesse pelos grandes problemas socioambientais do mundo atual, bem como pelos sujeitos que se esforçam para mudar essa situação e se dedicam ao cuidado da casa comum e pelos processos sociais que eles suscitam e desenvolvem no mundo inteiro, mas revelam também sua percepção da densidade teológica ou do caráter espiritual dos problemas e das organizações e lutas populares.

Ao se referir aos movimentos populares nesses encontros29, afirma que eles têm “os pés na lama e as mãos na carne” e têm “cheiro” de “bairro, povo, luta”, que são portadores de uma “torrente de energia moral que nasce da integração dos excluídos na construção do destino comum”, que “expressam a necessidade urgente de revitalizar as nossas democracias”, que são “semeadores de mudança” – de “uma mudança redentora”, que com eles “sente-se o vento de promessa que reacende a esperança de um mundo melhor” e que eles são “como uma benção para a humanidade”. Daí sua importância fundamental na sociedade e para a própria missão da Igreja no mundo.

 

A modo de conclusão

Falamos da importância de Medellín e de Francisco na Igreja e na sociedade. Esboçamos sua perspectiva teológico-pastoral fundamental. Indicamos, a partir dessa perspectiva, alguns dos principais desafios com os quais somos confrontados atualmente em nossa missão evangelizadora. E queremos concluir chamando atenção para a complexidade do assumir esses desafios na comunidade eclesial, destacando três de seus aspectos ou dimensões fundamentais.

Em primeiro lugar, trata-se de um desafio teológico-pastoral, isto é, um desafio que diz respeito tanto ao modo concreto de viver a fé, organizar a comunidade eclesial e dinamizar a ação pastoral-evangelizadora (dimensão prática), quanto à reflexão teológica sobre a fé, a Igreja e sua missão no mundo (dimensão teórica).

Em segundo lugar, trata-se de um desafio estritamente teologal-teológico, isto é, um desafio práxico-teórico que diz respeito à identidade mais profunda da Igreja em estrutura social (comunidade com seus carismas e ministérios) e em sua missão fundamental (sinal e instrumento do reinado de Deus no mundo).

Em terceiro lugar, trata-se de um desafio muito complexo que não se resolve por decreto nem de uma hora para a outra. Exige paciência, determinação e criatividade. Implica um dinamismo em que o “tempo é superior ao espaço”, isto é, um dinamismo que se ocupa “mais com iniciar processos do que possuir espaços” (EG 223).

É verdade que o atual contexto eclesial e social não é nada favorável a esse dinamismo teológico-pastoral. Mas é verdade também que o Evangelho sempre encontrou resistências e oposições na Igreja e na sociedade. Entretanto, e paradoxalmente, é em meio às resistências e oposições que o Evangelho, sempre de novo, e a partir das galileias da vida, revela seu vigor e seu poder salvífico-libertador, constituindo-se como Boa Notícia para os pobres, marginalizados e sofredores e fermentando o mundo com o dinamismo do reinado de Deus. Que o Espírito de Jesus de Nazaré renove nossa Igreja em seu dinamismo de “saída para as periferias”.

 

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RESUMO

A celebração dos 50 anos da Conferência de Medellín (1968) coincide com os 5 anos de ministério pastoral do papa Francisco (2013). Essa coincidência cronológica é uma ocasião privilegiada para explicitar e destacar a coincidência teológico-pastoral entre ambos. Ela ajuda a compreender melhor tanto o processo de renovação eclesial desencadeado por Francisco, quanto a atualidade do dinamismo eclesial desencadeado por Medellín. O texto começa destacando a importância de Medellín e de Francisco na Igreja e na sociedade. Explicita a perspectiva teológico-pastoral fundamental de ambos. E indica, a partir dessa perspectiva, alguns dos principais desafios com os quais a Igreja é confrontada hoje em sua missão evangelizadora: desafios que dizem a respeito à compreensão e configuração da Igreja e sua missão (eclesiologia) e aos apelos e exigências que brotam de nossa situação histórica atual (sinais dos tempos).

 

PALAVRAS-CHAVE: Medellín; Francisco; Pobres; Saída; Periferias.

1 Doutor em teologia pela Westfälische Wilhelms-Universität Münster – Alemanha; professor de teologia na Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e na Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP); presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte – CE.

2 Cf. ALBERIGO, Guiseppe. Breve história do Concílio Vaticano II. Aparecida: Santuário, 2006; LORSCHEIDER, Aloísio et al. Vaticano II: 40 anos depois. São Paulo: Paulus, 2005; BRIGHENTI, Agenor – ARROYO, Francisco Merlos (orgs.). O Concílio Vaticano II: Batalha perdida ou esperança renovada? São Paulo: Paulinas, 2015; FEDERAÇÃO INTERNACIONAL DAS UNIVERSIDADES CATÓLICAS (org.). 50 anos após o Concílio Vaticano II: Teólogos do mundo inteiro deliberam. São Paulo: Paulinas, 2017.

3 JOÃO PAULO II. Carta Apostólica Tercio Millennio Adveniente: Sobre a preparação para o ano 2000. São Paulo: Paulinas, 1994, Nº 18.

4 JOÃO PAULO II. Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte. São Paulo: Paulinas, 2001, Nº 57.

5 FRANCISCO. Carta por ocasião do centenário da Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Católica Argentina. Disponível em:

https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/letters/2015/documents/papa-francesco_20150303_lettera-universita-cattolica-argentina.html

6 Cf. BEOZZO, José Oscar. A Igreja do Brasil de João XXIII a João Paulo II: De Medellín a Santo Domingo. Petrópolis: Vozes, 1994; BOFF, Clodovis. “A originalidade histórica de Medellín”. Convergência 317 (1998) p. 568-576; CALIMAN, Cleto. “A trinta anos de Medellín: uma nova consciência eclesial na América Latina”. Perspectiva Teológica 31 (1999) p. 163-180; SOUSA, Luis Alberto Gomes de. “A caminhada de Medellín a Puebla”. Perspectiva Teológica 31 (1999) p. 223-234; TEPEDINO, Ana Maria. “De Medellín a Aparecida: marcos, trajetórias, perspectivas da Igreja Latino-americana”. Atualidade Teológica 36 (2010) 376-394; GODOY, Manuel – AQUINO JÚNIOR, Francisco de. 50 anos de Medellín: Revisitando os textos, retomando o caminho. São Paulo: Paulinas, 2017.

7 BOFF, Clodovis. “A originalidade histórica de Medellín”. Convergência 317 (1998) p. 568-576, aqui p. 568.

8 PALÁCIO, Carlos. “Trinta anos de teologia na América Latina: um depoimento”. In: SUSIN, Luis Carlos (org.). O mar se abriu: trinta anos de teologia na América Latina. São Paulo: Loyola, 2000, 51-64, aqui 53.

9 RAMÍREZ, Alberto. “’Medellín’ y el origen reciente de la vocación profética de nuestra Iglesia en America Latina”. Medellín 81 (1995) p. 45-70, aqui p. 70.

10 CELAM. “Apresentação”. In: Conclusões da Conferência de Medellín – 1968. Trinta anos depois, Medellín ainda é atual? São Paulo: Paulinas, 2010, p. 5-7, aqui p. 6.

11 CÂMARA, Dom Helder. Circulares pós-conciliares: De 25/26 de fevereiro de 1968 a 30/31de dezembro de 1968. Vol. IV, Tomo II. Recife, CEPE, 2013, p. 236.

12 DOM ANTONIO FRAGOSO. Apud. BEOZZO, José Oscar. “Medellín: seu contexto em 1968 e sua relevância 50 anos depois”. In: GODOY, Manuel – AQUINO JÚNIOR, Francisco de. 50 anos de Medellín: Revisitando os textos, retomando o caminho. São Paulo: Paulinas, 2017, p. 9-27, aqui p. 21.

13 O GRUPO. Mantenham as lâmpadas acesas: Revisitando o caminho, recriando a caminhada. Um diálogo de Aloísio Cardeal Lorscheider com O Grupo. Fortaleza: UFC, 2008, p. 77.

14 COMITÊ DE SANTA FÉ. “Documento secreto da política de Reagan para a América Latina”. Vozes 75/10 (1981) 755-756, aqui 755.

15 Cf. PASSOS, João Décio - SOARES, Afonso (orgs.). Francisco: Renasce a esperança. São Paulo: Paulinas, 2013; SILVA, José Maria (org.). Papa Francisco: Perspectivas e expectativas de um papado. Petrópolis: Vozes, 2014; SANCHES, Wagner Lopes – FIQUEIRA, Eulálio (orgs.). Uma Igreja de portas abertas: Nos caminhos do Papa Francisco. São Paulo: Paulinas, 2016; HUMMES, Claudio. Grandes metas do Papa Francisco. São Paulo: Paulus, 2017.

16 Cf. BARREIRO, Álvaro. “Povo santo e pecador”: A Igreja questionada e acreditada. São Paulo: Loyola, 1994, p. 113-135.

17 Cf. BOFF, Clodovis. Sinais dos tempos: Princípios de leitura. São Paulo: Loyola, 1979.

18 LIBANIO, João Batista. “Concílio Vaticano II: Os anos que se seguiram”. In: LORSCHEIDER, Aloísio [et al.]. Vaticano II: 40 anos depois. São Paulo: Paulus, 2005, p. 71-88, aqui p. 82.

19 ELLACURIA, Ignácio. “Pobres”. In: Escritos Teológicos II. San Salvador, UCA, 2000, p. 171-192, aqui p. 173.

20 ELLACURÍA, Ignácio. “El auténtico lugar social de la Iglesia”. In: Escritos Teológicos II. San Salvador, UCA, 2000, p. 439-451, aqui p. 449.

21 PONTIFICIO CONSELHO JUSTIÇA E PAZ. Compêndio de Doutrina Social da Igreja. São Paulo: Paulinas, 2011, Nº 182-184.

22 BENTO XVI. “Discurso Inaugural”. In: CELAM. Documento de Aparecida. São Paulo: Paulinas, 2007, p. 249-266, aqui p. 255.

23 FRANCISCO. “Visita ao bairro pobre de Kamgeme, Nairobi – Quênia: Discurso”. Disponível em: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/november/documents/papa-francesco_20151127_kenya-kangemi.html

24 Cf. FRANCISCO. Carta ao cardeal Marc Ouellet, Presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina. Disponível em: https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/letters/2016/documents/papa-francesco_20160319_pont-comm-america-latina.html; FRANCISCO. Diálogo com os jesuítas reunidos na 36ª Congregação Geral. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/562809-ter-coragem-e-audacia-profetica-a-integra-do-dialogo-do-papa-francisco-com-os-jesuitas-reunidos-na-36-congregacao-geral; FRANCISCO. Coletiva de imprensa no voo de volta de Fátima. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/567623-o-clericalismo-e-uma-peste-na-igreja-entrevista-com-o-papa-francisco-no-voo-de-volta-de-fatima.

25 Cf. PAPA FRANCISCO. Discurso na comemoração do cinquentenário da instituição do Sínodo dos Bispos. Disponível em: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/october/documents/papa-francesco_20151017_50-anniversario-sinodo.html

26 GAETA, Severino. Papa Francisco: A vida e os desafios. São Paulo: Paulus, 2013, p. 28, 42.

27 CELAM. Conclusões da Conferência de Medellín – 1968. Trinta anos depois, Medellín ainda é atual? São Paulo: Paulinas, 2010, p. 38s.

28 ELLACURIA, Ignacio. “Discernir ‘el signo’ de los tempos”. In: Escritos teológicos II. San Salvador: UCA, 2000, p. 133-135, aqui p. 34.

29 Cf. PAPA FRANCISCO. Discurso do Papa Francisco aos participantes do Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Brasília: CNBB, 2015; IDEM. Discurso do Papa Francisco no II Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Brasília: CNBB, 2015; IDEM. Discurso do Papa Francisco aos participantes do III Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Brasília: CNBB, 2016.