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Francisco de Aquino Júnior1

O nome Leonardo Boff está de tal modo vinculado à caminhada da Igreja latino-americana que não há como dissociar um do outro. Em certo sentido, tornou-se mesmo referência, símbolo, ícone dessa Igreja: seja como referência positiva de comunhão e identificação, seja como referência negativa de crítica e rejeição. De uma forma ou outra, esse nome está radicalmente ligado à Igreja da libertação...

Nasci nos anos 70 e comecei meu engajamento pastoral nos anos 80 no interior do Ceará. E, ainda como adolescente, comecei a ouvir falar dele como teólogo da libertação e ler alguns escritos seus em encontros pastorais. Era – juntamente com teólogos e pensadores como Manfredo Oliveira, Frei Betto, Marcelo Barros, Carlos Mesters, Jon Sobrino etc. e com bispos mais proféticos como Romero, Helder Câmara, Fragoso, Casaldáliga, Aloísio Lorscheider, Evaristo Arns etc. – uma das referências mais importantes na nossa caminhada de Igreja. Isso foi criando um vínculo espiritual-eclesial muito intenso com ele, mesmo sem conhecê-lo pessoalmente.

Nos anos 90, entrei no seminário e comecei o processo formativo para o ministério presbiteral com os estudos filosóficos e teológicos. Nesse período, tive a graça e a alegria de ouvi-lo várias vezes e de ler muitos de seus escritos. Na filosofia, em Fortaleza, estudamos alguns textos seus em antropologia filosófica (visão unitária do ser humano), em filosofia da natureza e metafísica (perspectiva ecológica). Nesse período, acompanhei com interesse sua virada/conversão ecológica e li bastante sua fecunda e intensa produção teo-eco-social, além de escritos anteriores de cunho mais diretamente teológico-pastoral. Na teologia, em Belo Horizonte, li e reli vários de seus escritos sobre diferentes áreas e/ou temas da teologia e sobre os grandes desafios do mundo atual para a sociedade e a Igreja. E, depois, como presbítero e professor de teologia, continuou sempre como uma referência importante para mim. Desde 2014, tenho podido desfrutar mais de perto de sua convivência, de sua sabedoria, de sua profunda espiritualidade e de sua amizade no grupo Emaús.

Poderia dizer muitas coisas sobre Leonardo Boff e sua importância na Igreja e na sociedade latino-americanas, particularmente no Brasil. Mas vou destacar apenas duas que considero muito importantes e que marcaram minha vida: sua importância como teológico e como profeta ou como teólogo-profeta da libertação.

Antes de tudo, sua importância como teólogo. E é assim que ele é conhecido: teólogo da libertação. Leonardo desponta nos anos 70 como um grande teólogo: vasta erudição, largueza de horizonte, capacidade criativa impressionante, fecunda e intensa produção. E isso é tanto mais relevante pelo contexto de renovação eclesial desencadeado pelo Concílio Vaticano II e sua recepção na América Latina a partir da Conferência de Medellín e pelo vazio e/ou dependência teológica da Europa que fazia de nossa Igreja uma “Igreja reflexo” mais que uma “Igreja fonte”, para usar a formulação clássica de Lima Vaz. A teologia de Leonardo se insere nesse processo de renovação eclesial num duplo sentido. Por um lado, ela é desenvolvida e alimentada nesse processo. Ele foi formado nesse contexto, estudou com grandes teólogos da Alemanha, assimilou os avanços da teologia nas últimas décadas, conheceu bem os novos movimentos teológicos na Europa, acompanhou de perto o processo de renovação eclesial desencadeado pelo Concílio. Por outro lado, tem um papel fundamental no processo de recepção do Concílio na América Latina que alarga enormemente os horizontes teológico-pastorais do próprio Concílio. Ele não apenas popularizou entre nós a teologia europeia mais progressista da época, sobretudo alemã. Mas fez isso num diálogo crítico-criativo muito intenso e fecundo com nossa realidade, marcada por profundas injustiças e desigualdades sociais e por um processo crescente de organização e luta populares. E, assim, contribuiu enormemente no processo de renovação teológica desencadeado pelo Concílio Vaticano II e pela Conferência de Medellín. Deu contribuições muito originais e fecundas em várias áreas e em vários temas da teologia: cristologia, trindade, eclesiologia, antropologia, sacramento, escatologia, espiritualidade, pneumatologia, pastoral etc. Pode-se não está de acordo com um ou outro ponto e/ou com uma ou outra formulação (nenhuma teologia é absoluta e Leonardo melhor que ninguém sabe disso e até pagou caro por isso), mas não há como negar sua importância fundamental em nossa teologia. E tanto no nível mais acadêmico, quanto no nível mais pastoral. Leonardo Boff é, sem dúvida, um dos maiores e mais importantes teólogos da América Latina.

Mas é um teólogo que faz teologia com uma característica muito peculiar e nada comum: profecia. É um teólogo-profeta. 1) Profeta no sentido de chamar atenção e insistir naquilo que constitui o coração da revelação e da fé judaico-cristãs – e, de alguma forma, de todas as grandes tradições espirituais da humanidade – que é a defesa do pobre, do órfão, da viúva e do estrangeiro ou aquilo que, a partir da América Latina, convencionou-se chamar “opção pelos pobres”. Essa é uma marca fundamental da teologia de Leonardo que o vincula radicalmente à tradição ou à raça dos profetas. 2) Profeta no sentido de exigir fidelidade institucional da Igreja ao Evangelho. Ela não só deve anunciar com palavras o Evangelho do Reino, mas deve testemunhá-lo ou sinalizá-lo com a própria vida: em relações fraternas, no exercício do poder como serviço, no despojamento de privilégios e na austeridade de vida, no compromisso com os pobres e marginalizados etc. E Leonardo tem insistido muito nisso na Igreja e, como os grandes profetas, tem pagado muito caro por isso: incompreensão, calúnia, difamação, perseguição, condenação, exclusão. 3) Profeta no sentido de largueza de horizonte que permite ver os dinamismos de morte em que estamos metidos, bem como as sementes ou os indícios/ensaios de “bem viver” que nos permitem vislumbrar e construir novas perspectivas e possibilidades de vida. Só um profeta é capaz de escutar no grito do pobre o grito da terra e só um profeta é capaz de captar as astúcias salvíficas do Espírito nos modos de vida tradicionais dos pequenos. 4) Por fim, profeta no sentido de ter um instinto espiritual muito aguçado para captar e discernir nos acontecimentos históricos, particularmente nos clamores e nas resistências dos pobres, as marcas e os gemidos do Espírito que nos advertem dos riscos de catástrofe e morte, que nos chamam à conversão e que nos comprometem com o projeto salvífico de Deus aqui e agora. E a teologia de Leonardo está cada vez mais centrada nisso: na obra criadora de Deus, no grito da terra e do pobre, nas buscas e nos ensaios de libertação pelo mundo afora. Diante disso, tudo mais é relativo. Ficar indiferente a isso ou relativizar isso em função de interesses institucionais, por mais importantes e necessários que sejam, é ofensa a Deus, é blasfêmia contra Deus, é pecado que clama ao céu.

Obrigado Leonardo, teólogo-profeta, irmão querido, por sua vida, por sua fé, por seu ministério, por sua fidelidade. Que sempre te acompanhe o grito dos pobres e da terra – a melhor e maior testemunha diante de Deus...

1 Doutor em teologia pela Westfälische Wilhelms-Universität Münster, Alemanha; professor de teologia na Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e na Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP); presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte – CE.