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CLAMORES E RESISTÊNCIAS ATUAIS



Francisco de Aquino Júnior1



A celebração dos 50 anos da Conferência de Medellín tem sido uma ocasião privilegiada para revisitar seus textos, explicitar sua importância histórica e, sobretudo, para reafirmar e atualizar crítica e criativamente seu legado teológico-pastoral.

Sobre Medellín se disse e se escreveu muitas coisas importantes que nem é preciso nem é possível repetir aqui2. Não há dúvida de que Medellín foi o “maior evento eclesial na história da Igreja da América Latina e do Caribe”3 e que “representa um momento decisivo na história da Igreja em nosso continente”4: “Nascida no impulso do Concílio, estava destinada a marcar um antes e um depois na vida da Igreja deste continente”5. Como bem afirmava a presidência do CELAM na apresentação da versão oficial do Documento Final, Medellín foi “um autêntico pentecostes para a Igreja da América Latina” e marca um “novo período” na vida de nossa Igreja: um “período marcado por uma profunda renovação espiritual, por generosa caridade pastoral e por uma autêntica sensibilidade social”6.

Mas há um ponto fundamental e determinante ao qual é preciso voltar sempre, sem o qual não se pode compreender a importância eclesial e social de Medellín e sobre o qual nunca se diz o bastante: a centralidade dos pobres na Igreja. A novidade e o impacto de Medellín na América Latina e, mesmo, no conjunto da Igreja estão radicalmente vinculados ao que, sobretudo a partir de Puebla, convencionou-se chamar “opção preferencial pelos pobres” e que Aparecida caracteriza como “uma das peculiaridades que marca a fisionomia da Igreja latino-americana e caribenha”7.

E é sobre este ponto que vamos refletir. Primeiro, mostrando como é o ponto mais fundamental e mais determinante de Medellín. Segundo, tratando de sua atualidade ou de como ele se configura hoje a partir dos clamores e das resistências dos pobres e marginalizados em nosso continente. Desta forma, Medellín aparece não como um evento passado a ser deixado no passado ou, na melhor das hipóteses, nos arquivos e nos livros de história, mas como algo plenamente atual que nos interpela e nos obriga a um processo crítico-criativo de sua atualização histórica.



I – CENTRALIDADE DOS POBRES NA IGREJA

É verdade que não se pode entender Medellín sem o Vaticano II. Ela foi pensada e gestada como recepção do Concílio na América Latina. Nesse sentido, ela é filha e fruto do Concílio e pressupõe todo processo (complexo e conflitivo) de renovação teológico-pastoral desenvolvido e desencadeado neste acontecimento que marcou decisivamente a vida de nossa Igreja. Mas não se trata de uma tradução ou aplicação mecânica do Concílio na Igreja latino-americana (se é que isso é possível...). Trata-se, antes e mais radicalmente, de um processo de recepção criativa8, no qual o dinamismo eclesial desencadeado pelo Concílio vai sendo assumido e se tornando realidade no contexto específico de um continente marcado por profundas desigualdades sociais e por um processo crescente de tomada de consciência do caráter injusto dessa situação e de organização e luta por sua superação e/ou transformação.

Esse processo de recepção criativa se dá fundamentalmente a partir de uma inserção da Igreja na realidade latino-americana e de um compromisso com os pobres e marginalizados e suas lutas por libertação. Isso significa dizer que a recepção do Concílio entre nós se dá (1) a partir da intuição e do projeto original de João XXIII de diálogo da Igreja com o mundo que encontrou sua melhor expressão na Constituição Pastoral Gaudium et Spes e sua teologia dos “sinais dos tempos” e (2) de sua concretização histórica em termos de opção pelos pobres. São as duas características mais importantes e mais determinantes do processo de recepção do Concílio na América Latina que convém examinar com mais atenção.



1. Inserção na realidade latino-americana

Vários autores têm chamado atenção para a importância fundamental e decisiva da Constituição Pastoral Gaudium et Spes e sua (insipiente, mas fecunda) teologia dos “sinais dos tempos” na Conferência de Medellín e em todo o processo de recepção do Concílio na América Latina9. Nas palavras de Victor Codina: “La novedad genial de Medellín fue la de abordar la eclesiologia del Vaticano II no desde Lumen Gentium, como hicieron gran parte de los obispos y teólogos europeos del postconcilio”10, “sino de la Gaudium et Spes y de la teologia de los signos de los tempos, que constituye la originalidad mayor del Vaticano II y de lo que Juan XXIII deseaba del Concílio”11.

Isso já aparece claramente no tema da conferência: “Presença da Igreja na atual transformação da América Latina”. É afirmado com muita clareza na introdução do Documento Final: começa afirmando que “a Igreja latino-americana, reunida na II Conferência Geral de seu Episcopado, situou no centro de sua atenção o homem deste continente que vive um momento decisivo de seu processo histórico” e, com isso, “não se acha ‘desviada’, mas ‘voltou-se’ para o homem, consciente de ‘para conhecer Deus é necessário conhecer o homem’”; fala do “momento histórico” vivido na América Latina (anseio de emancipação e de libertação) e o interpreta como um “evidente signo do Espírito”; e termina reafirmando que toda “reflexão [da conferência] orientou-se para a busca de forma de presença mais intensa e renovada da Igreja na atual transformação da América Latina à luz do Concílio Vaticano II”12. E, não por acaso, a primeira parte do documento está dedicada à problemática da promoção humana (justiça, paz, família e demografia, educação, juventude).

Mas assumir o Concílio a partir da Gaudium et Spes e da teologia dos “sinais dos tempos” é uma possibilidade e uma opção nada evidentes nem tranquilas. Tanto é verdade que não foi esse o caminho tomado pela maioria das Igrejas (uma possibilidade entre outras) e que todas as grandes controvérsias eclesiais pós-concílio estão ligadas à essa problemática (caráter conflitivo dessa opção)13.

Se é verdade que a Gaudium et Spes, como disse o cardeal Gabriel-Marie Garrone, relator final do texto, ao apresenta-lo para a aprovação da assembleia conciliar, era o “único esquema querido formalmente por João XXIII”14 e isso se pode comprovar sem dificuldades no discurso inaugural do Concílio Gaudet Mater Ecclesia15, não é menos verdade que é um dos, senão o texto mais controverso do Concílio e sobretudo de seu processo de recepção eclesial: seja por sua novidade epistemológica, seja pela complexidade e imprecisão teológicas do conceito “sinal dos tempos”16, seja por seu otimismo excessivo em relação ao mundo moderno17.

Em sua obra famosa sobre a “luta pelo sentido” do Vaticano II, Massimo Faggioli afirma que a “relação entre Igreja e mundo” é “a questão central do Concílio” e que as controvérsias e divisões em torno dessa questão, sobretudo no pós-concílio, são ainda maiores e vão muito além da clássica divisão entre conservadores e progressistas durante o concílio, na medida em que atinge e divide, inclusive, a chamada ala progressista do Concílio entre o que, com Joseph Komonchak, denomina “tendência neoagostiniana” e “tendência neotomista”18.

Joseph Ratzinger, por exemplo, afirma que a Gaudium et Spes foi o documento “más difícil y tambien el de mayor éxito”, que, “en razón de su forma y de la orientación de sus afirmaciones, es el que más se aleja de la anterior historia de los concílios y permite percibir, por tanto, mejor que todos los restantes textos, la peculiar fisionomia del último concílio”, que foi “considerado como el auténtico testamento conciliar” e que “la penumbra que hasta ahora reina en torno a la cuestión del auténtico sentido del Vaticano II depende de estos diagnósticos y, por tanto, también de este documento”. No fundo, trata-se de saber se o Concílio deve ser interpretado a partir e em função do diálogo com o mundo (GS) ou das declarações dogmáticas sobre a Igreja e a revelação (LG, DV)19. Sem falar do excessivo otimismo em relação ao mundo moderno: “Si se desea emitir un diagnóstico global sobre este texto, podria decirse que significa (junto con los textos sobre la libertad religiosa y sobre las religiones mundiales) uma revisón del Syllabus de Pio IX, una espécie de Antisyllabus”20.

Mas as dificuldades e resistências com esse documento não são exclusivas de Ratzinger. São comuns a muitos bispos e teólogos, particularmente ao bloco alemão. Como bem mostrou Carlos Schickendantz, no contexto mais amplo da controvérsia franco-alemã, mesmo um Karl Rahner, ainda que com diferenças significativas, expressou muitas reservas a este documento, sobretudo no que diz respeito a seus pressupostos e suas implicações epistemológicas. Chegou, inclusive, a escrever um texto com observações críticas sobre o esquema da futura constituição pastoral que foi usado pelo cardeal Döpfiner e incluído como material conciliar21.

Em todo caso – e não obstante a complexidade da problemática, os debates teológicos acerca de suas imprecisões e indeterminações epistemológicas e conceituais e as reservas críticas em relação ao otimismo conciliar frente ao mundo moderno – esse foi o caminho tomado pela Igreja da América Latina em Medellín. Sua recepção do Concílio se deu em forma de abertura e inserção na realidade latino-americana.



2. Opção pelos pobres

Mas o propósito fundamental do Concílio de abertura ao mundo e discernimento dos “sinais dos tempos” assumido por Medellín adquire características muito peculiares na América Latina com repercussões enormes no conjunto da Igreja.

Nas palavras de Gustavo Gutiérrez, “discernir os sinais dos tempos conduz a Conferência de Medellín a olhar de frente para a realidade de um continente que vive ‘sob o signo do subdesenvolvimento’”, a considerar que “essa situação de pobreza é o maior desafio ao qual se deve fazer frente no anúncio do Evangelho nestas terras” e a convocar os cristãos a se “comprometerem na construção de uma sociedade justa sem marginalizados nem oprimidos”22.

Nas palavras de Victor Codina: “El escuchar y discernir los signos de los tempos en América Latina a la luz del evangelio conduce a una actitud de solidaridad con los pobres, en orden a un desarrollo y una promoción humana integral como fruto de su misión salvadora, ya que la salvación en América Latina abarca la liberación de todo el hombre, el paso de condiciones menos humana a más humanas, un desarrollo en el que el Pueblo sea sujeto”23.

E isso aparece claramente já na introdução do Documento Final ao interpretar os anseios e esforços por transformação, emancipação e libertação como um “evidente signo do Espírito que conduz a história dos homens e dos povos para sua vocação” ou como “presença de Deus que quer salvar o homem inteiro, alma e corpo” ou como antecipação escatológica da redenção/ressureição. Neste contexto se insere uma das afirmações mais importantes de Medellín e mais determinantes de todo dinamismo teológico-pastoral por ela inaugurado e/ou desencadeado: “Assim, como outrora Israel, o antigo povo, sentia a presença salvífica de Deus quando o libertava da opressão do Egito, quando o fazia atravessar o mar e o conduzia à conquista da terra prometida, assim também nós, novo povo de Deus, não podemos deixar de sentir seu passo que salva, quando se dá o ‘verdadeiro desenvolvimento que é, para cada um e para todos, a passagem de condições de vida menos humanas [carências materiais e morais, estruturas opressoras] para condições mais humanas [posse do necessário, conhecimentos, cultura, dignidade, espírito de pobreza, bem comum, paz, Deus, fé]’”24.

Dessa forma, Medellín assume a perspectiva fundamental do Vaticano II de abertura ao mundo e discernimento dos “sinais dos tempos” a partir dos pobres e seus anseios e lutas por libertação e, assim, retoma a intuição de João XXIII e de um grupo de padres conciliares de uma “Igreja dos pobres” e supera o eurocentrismo e o otimismo excessivo com a modernidade que caracterizam o Concílio.

Ao tratar os “sinais dos tempos” em termos de realidade social e, mais concretamente, em termos de transformação ou libertação25, Medellín retoma e desenvolve a intuição de João XXIII de uma “Igreja dos pobres”26. Essa intuição foi assumida por um grupo de padres conciliares que, embora exercendo uma pressão espiritual e profética significativa, permaneceu sempre à margem do Concílio e teve uma repercussão muito tímida nos documentos aprovados27. Mas esse grupo ajudou a recuperar e dar visibilidade ao que o Cardeal Lercaro de Bolonha denominou um aspecto “essencial e primordial” da revelação e da fé e pôs em marcha um processo de renovação da Igreja a partir de sua relação essencial com os pobres. E, não obstante as tensões e controvérsias cada vez mais intensas, esse será o ponto mais fundamental e mais determinante do processo de recepção do Concílio na América Latina a partir de Medellín. “Abertura ao mundo” e “sinais dos tempos” entre nós têm a ver fundamentalmente com o que, sobretudo a partir de Puebla, será formulado cada vez mais em termos de “opção preferencial pelos pobres”. Medellín vincula de tal modo “sinal dos tempos” e compromisso com os pobres que os pobres aparecerão cada vez mais como o “sinal dos tempos” por excelência28.

Certamente, há muitos sinais da presença de Deus no mundo e é preciso estar atento a eles e discerni-los. Mas, como diz Ignacio Ellacuria, “hay en cada tiempo uno que es el principal, a cuya luz deven discernirse e interpretarse todos los demás. Ese signo es siempre el pueblo históricamente crucificado, que junta a su permanencia la siempre distinta forma histórica de su crucifixión. Esse pueblo es la continuación histórica del siervo de Yahvé, al que el pecado del mundo sigue quitándole toda figura humana, al que los poderes de este mundo siguen despojando de todo, le siguen arrebatando hasta la vida, sobre todo la vida”29.

Essa redescoberta da centralidade dos pobres na Igreja, formulada em termos de “Igreja dos pobres” ou de “opção pelos pobres”, acabou revelando e superando limites e ambiguidades do próprio Concílio: “un Concílio universal, pero desde la perspectiva de los países ricos y de la llamada cultura occidental” (Ellacuría)30 e, por isso mesmo, um Concílio pouco profético (Comblin)31 e um Concílio que acabou nos legando “uma Igreja de classe média” (Aloísio Lorscheider)32.

Se o Concílio teve o mérito incalculável de descentrar a Igreja, de abri-la e lançá-la ao mundo, “no historicizó debidamente lo que era ese mundo, un mundo que debiera haber definido como un mundo de pecado e injustiça, en el cual las imensas mayorías de la humanidad padecen de miseria e injusticia”33. Não bastava abrir-se ao mundo. Era necessário determinar com maior clareza e precisão que mundo era esse (mundo estruturalmente injusto e opressor) e qual o lugar social da Igreja nesse mundo (mundo dos pobres e oprimidos)34. Aqui reside um dos maiores limites do Concílio. E aqui residem, indiscutivelmente, a força e a insuperabilidade de Medellín.

A Igreja que nasce em Medellín é verdadeiramente uma “Igreja dos pobres” 35: uma Igreja pobre, uma Igreja faz “opção pelos pobres”, uma Igreja que assume as causa dos pobres, uma Igreja de profetas e mártires que dão a vida pelos pobres, enfim, a Igreja de Jesus de Nazaré... E essa Igreja ganha novo impulso e vigor com o papa Francisco e seu empenho evangélico por uma “Igreja pobre e para os pobres” ou por uma “Igreja em saída para as periferias do mundo”.



II – CLAMORES E RESISTÊNCIAS ATUAIS

A característica mais importante e mais fundamental da Igreja que nasce em Medellín é sua inserção no mundo dos pobres e marginalizados. É verdade que muita coisa mudou de Medellín para cá. Tanto no que diz respeito à realidade social e eclesial, quanto no que diz respeito aos clamores e resistências dos pobres. E isso tem muitas implicações para a ação pastoral/evangelizadora da Igreja. Não no sentido dos pobres perderem a centralidade na Igreja (isso seria trair e renegar o Evangelho de Jesus Cristo!), mas na forma de inserção da Igreja no mundo dos pobres. Por essa razão, a Igreja precisa está muito atenta, em cada tempo e lugar, para escutar, perceber e discernir nos clamores e nas resistências dos pobres e marginalizados os sinais do Espírito do Senhor que “atua a partir de baixo”36. Nunca pode dar isso por suposto. A realidade é muito mais complexa e dinâmica do que parece.

Nesse sentido, mas sem nenhuma pretensão de exaustão e desenvolvimento, indicaremos a seguir alguns ecos e expressões de clamores e resistências atuais (antigos e novos) dos pobres e marginalizados.



1. Clamores dos pobres e marginalizados

Medellín nasce da escuta atenta do “surdo clamor” e do “grito que sobe do sofrimento” das maiorias pobres e marginalizadas de nosso continente37. E, sempre de novo, é preciso escutar esse “surdo clamor” e esse “grito que sobe do sofrimento”; clamor/grito ligado a distintas formas de injustiça, marginalização e indiferença.

a) Antes de tudo, a profunda desigualdade social que caracteriza nosso continente e nosso mundo: uma “injustiça que clama ao céu”38. Em Medellín, tornou-se comum falar de “estruturas injustas”, de “situação de injustiça”, de “violência institucionalizada”, bem como da necessidade e urgência de “mudança de estrutura”, de “novas e renovadas estruturas”, de uma “ordem social justa”. A palavra de ordem era: transformação da sociedade. E isso mobilizou amplos setores da Igreja e da sociedade. Hoje, curiosamente, muita gente tem escrúpulo de falar de transformação da sociedade, de transformação das estruturas. Amplos setores da esquerda, por razões as mais diversas, reduzindo a política à “arte do possível”, acabaram reduzindo a pauta política da esquerda, contentando-se com políticas sociais afirmativas (importantes e necessárias, sem dúvida!) e fortalecendo a tese de que não é possível nenhuma transformação mais profunda da sociedade39. Enquanto isso, e sob o domínio do “capital improdutivo”, a desigualdade social cresce assustadora e desenfreadamente: 0,7% da população mundial detém 40,6% da riqueza total do mundo, enquanto 73,2% detém apernas 2,4%; 1% da população tem mais riqueza do que 99% restante do planeta; 8 indivíduos detém a mesma riqueza que a metade mais pobres do mundo; entre 1988 e 2011, a renda dos 10% mais pobres aumentou cerca de US$ 65, enquanto a renda do 1% mais rico aumentou cerca de US$ 11.800, ou seja, 182 vezes mais40. E, nesse ponto, a situação de nossos países não é muito diferente, mesmo quando tenha havido melhorias significativas da qualidade de vida das populações pobres41.

b) Junto à desigualdade social, tão destacada em Medellín e apontada pelo papa Francisco como a “raiz dos males social”42, a Igreja latino-americana foi percebendo pouco a pouco, a partir das dores, dos gritos e das lutas de mulheres, indígenas, negros e pessoas LGBTs, outras formas de opressão, dominação, colonialismo e exclusão que, embora na maioria das vezes esteja associada à desigualdade socioeconômica, não se restringem a ela: o machismo/patriarcalismo que se materializa em diferentes formas de dominação, violência e marginalização e que está na raiz do crescente feminicídio que tem ceifado a vida de tantas mulheres; o etnocentrismo que provocou verdadeiros genocídios e etnocídios em nosso continente e que continua negando aos povos indígenas o direito a seus territórios e tratando suas culturas com seus modos de vida, com suas sabedorias e tradições religiosas como atraso, superstição e empecilho ao desenvolvimento e ao progresso; o racismo que escravizou e assassinou milhares de negros, que demonizou suas culturas e tradições religiosas, que os “libertou” das senzalas para viver na miséria e que, camuflado pela falsa democracia racial, continua marginalizando o povo negro a ponto de “ofender/diminuir alguém” ter se tornado em nossa cultura sinônimo de “tratar como negro” (denegrir); e a homofobia que tem causado tanto sofrimento interior, tanto preconceito e exclusão social e eclesial, tanta violência psíquica, espiritual, verbal e física e, cada vez mais, o assassinato cotidiano (com requintes de crueldade) a pessoas LGBTs.

c) A esses gritos foi se juntando cada vez mais o grito da natureza, espoliada e reduzida a recurso e/ou instrumento de acumulação de capital, com consequências drásticas para os pobres que vivem nas periferias e áreas de riscos e para as futuras gerações. Entre nós, na América Latina, Leonardo Boff tem ajudado muito no processo de consciência e mobilização socioambientais a partir da escuta do grito da terra. Sua contribuição mais importante e seu mérito maior nesse processo têm a ver com a percepção de que o grito da terra é inseparável do grito dos pobres e, vice-versa, que o grito dos pobres é inseparável do grito da terra. Ele tem ajudado a construir uma compreensão de ecologia que articula o grito da terra com o grito dos pobres. Aliás, esse é o título de sua obra mais importante sobre a problemática socioambiental: Ecologia: grito da terra, grito dos pobres43. Na mesma direção, um marco importante na escuta do grito da terra no grito do pobre foi a Encíclica Laudato Si’ do Papa Francisco Sobre o cuidado da casa comum em 201544. Criticando toda forma de “antropocentrismo despótico” (LS, 68) e de “biocentrismo” cínico (LS, 118), Francisco propõe uma ecologia integral que tem como um de seus eixos fundamentais “a relação intima entre os pobres e a fragilidade do planeta” (LS, 16). Dai sua insistência em que “uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres” (LS, 49, cf. 53, 117).

d) O recrudescimento da violência física direta, ligado a fatores de ordem econômica, social, cultural, psicológica e aliado ao poder do tráfico e ao crescimento do crime organizado, com índices alarmantes de assassinatos nas periferias de nossas cidades e entre as “chamadas” minorias sociais45, é um lamento/grito que a cada dia ecoa com mais força e intensidade no extermínio da juventude pobre e negra de nossas periferias, na dor e no choro desesperado das mães que veem seus filhos assassinados ou que têm que abandonar seus barracos por ordem do tráfico e/ou para não serem executados, no feminicidio, no assassinato de pessoas LGBTs, no desprezo social, nas políticas de higienização urbana, na violência policial e no assassinato da população em situação de rua (só na cidade de São Paulo, são cerca de 16 mil pessoas), dentre outros. É verdade que a violência é um fenômeno complexo que não pode ser simplificado e reduzido à agressão físico-direta. Oscar Romero e Ignacio Ellacuría, em contexto de guerra, chamaram atenção para as diferentes formas de violência, sua hierarquização e sua mútua implicação46. E a Campanha da Fraternidade da Igreja do Brasil em 2018 – Fraternidade e superação da violência – distinguiu três formas fundamentais de violência que se implicam mutuamente: violência direta, violência institucional e cultura da violência47. Por mais que a raiz da violência seja de ordem institucional-cultural, é em sua forma de agressão física que ela é mais direta e intensamente sentida e é ai que de modo mais imediato e desesperado ecoa o grito das vítimas48, em sua imensa maioria: pobres-negros-mulheres-jovens-LGBTs...

e) Toda essa situação vem produzindo um processo de des-solidarização humana, corroendo de maneira intensa e progressiva os vínculos societários e gestando um modo de vida que o papa Francisco chamou em sua exortação apostólica A alegria do Evangelho49 “cultura do descartável” (EG 53), “ideal egoísta” ou “globalização da indiferença” que nos torna “incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios” (EG 54). Trata-se de um modo de vida centrado nos próprios interesses em que tudo, inclusive as pessoas, valem apenas e na medida em que nos são úteis e/ou nos causam algum prazer ou satisfação. Isso tem levado à indiferença ao sofrimento e aos dramas alheios, à banalização da vida humana, à naturalização e espetacularização midiática da violência, à indiferença ou mesmo ao apoio a práticas de linchamento coletivo e/ou extermínio de pessoas pela polícia ou por grupos paramilitares, à apologia à tortura e aos torturados, ao crescente apoio à pena de morte e à tese de que “bandido bom é bandido morto”, ao crescimento eleitoral de candidatos militares com políticas de segurança centradas no encarceramento e na execução de pessoas pobres etc. E se isso tem consequências para o conjunto da sociedade, repercute de maneira direta e dramática na vida dos pobres por sua situação de vulnerabilidade social e incapacidade de fazer valer seus direitos fundamentais. Basta pensar no que essa “indiferença” ou cumplicidade social significa para as populações pobres das periferias ou que vivem nas ruas de nossas cidades, para os encarcerados ou para os imigrantes que tentam ganhar a vida na Europa ou, mais perto de nós, nos EUA...



2. Resistências dos pobres e marginalizados

Dizíamos que Medellín nasce da escuta atenta do “surdo clamor” e do “grito que sobe do sofrimento” das maiorias pobres e marginalizadas de nosso continente. Escuta atenta que envolve, obriga e compromete. Daí que o dinamismo eclesial desencadeado por Medellín seja caracterizado radicalmente pela inserção no mundo dos pobres, pelo envolvimento com suas vidas e pelo compromisso com suas causas e suas lutas. Isso foi despertando e aguçando a sensibilidade da Igreja latino-americana para as mais diversas formas de resistência popular. E sempre de novo é preciso voltar a esse ponto: perceber e se envolver com o pulsar desesperado e criativo da vida nas diferentes formas de resistência e luta dos pobres e marginalizados.

a) Antes de tudo, a luta cotidiana pela sobrevivência. É a luta primeira e mais fundamental: a luta para viver, para continuar vivo. Uma verdadeira luta. Para muita gente, viver é uma luta e está vivo é uma conquista – um verdadeiro milagre. É preciso estar atento e perceber os caminhos e as formas que o povo encontra ou inventa para ganhar a vida e continuar vivendo: comer, morar, trabalhar, proteger-se, cuidar da saúde, criar os filhos, afirmar sua dignidade, defender seus direitos, ajudar os outros, festejar, viver a fé etc. Aquilo que Jon Sobrino chamava de “santidade primordial” ou “santidade do viver”: “El anhelo de vivir y sobrevivir en medio de grandes sufrimientos, la decisón y los trabajos por lograrlo, con ciratividad sin limites, con fortaleza, con constância, desafiando innumerables dificultades y obstáculos”50 e “junto al impulso del propio vivir, surge también la fuerza de solidaridad de unos con otros [...] la solidaridad más primaria”; é a “decisión primaria de viver y dar vida”51. Aquilo que o papa Francisco chama em sua Exortação Apostólica Gaudete et exsultate de santidade do dia-dia ou santidade ao “pé da porta”, presente “”nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir”52 etc. É aqui se enraízam e se nutrem as mais diversas formas de resistência e luta populares.

b) Em segundo lugar, o fortalecimento dos laços de solidariedade. Seja de modo mais espontâneo e pontual e até mesmo condicionado pela situação de necessidade comum: partilha entre vizinhos ou entre companheiros que vivem a mesma situação; cuidado dos doentes e das pessoas com necessidades especiais, indignação contra o preconceito e a violência, afetos, festa, partilha de vida etc. Seja pela afinidade familiar, comunitária, sexual, cultural e/ou afinidade no sofrimento. Seja em comunidades de fé, onde se alimenta a esperança e se encontra forças para enfrentar as dificuldades da vida na intimidade com o Senhor, na vida fraterna e no compromisso com os irmãos necessitados. Seja através de ONGs e/ou projetos sociais que reúnem pessoas, fortalecem os laços entre elas e, através de atividades lúdicas, artísticas, econômicas, sociais e religiosas, atendem a necessidades e direitos fundamentais, recuperam a autoestima das pessoas, liberam suas energias e capacidades criativas para sonhar e refazer a vida 53. Certamente, há muita ambiguidade em tudo isso – e onde não há ambiguidade? Mas essas formas e esses espaços de solidariedade, com todas as suas contradições, têm sido fonte de vida e de esperança para muita gente e, se potencializadas social e politicamente, podem fazer avançar muito na luta e na conquista de direitos.

c) Em terceiro lugar, as lutas e organizações populares. Tanto em suas formas mais clássicas e institucionais: sindicatos, cooperativas, associações, organizações camponesas e operárias, greves, movimentos de massa, ocupações etc. Quanto em suas formas mais recentes mais ou menos pontuais e/ou espontâneas: novos sujeitos (indígenas, feministas, LGBTs, catadores de material reciclável, população de rua, estudantes, comunidades camponesas e das periferias urbanas etc.), novas formas de organização e mobilização (em torno de questões específicas e pontuais, articulação em redes, importância da emoção e do lúdico, sensibilidade a questões étnico-raciais e de gênero, redes sociais etc.) e novos horizontes utópicos que integrem melhor questões econômicas, ambientais, étnico-raciais, religiosas, de gênero etc. Essas lutas e organizações populares aprofundam os laços de solidariedade, alargam os horizontes da vida e dos direitos, qualificam as estratégias de luta, articulam, ampliam e fortalecem a força dos pequenos e sua capacidade de movimentar a sociedade para fazer valer seus direitos. Por isso mesmo, o papa Francisco em seus encontros mundiais com os movimentos populares54 insistiu tanto na importância desses movimentos para o processo de transformação da sociedade: são portadores de uma “torrente de energia moral”, “expressam a necessidade urgente de revitalizar nossas democracias”, são “semeadores da mudança” e do “vento de promessa que reacende a esperança de um mundo melhor”, enfim, são “como uma benção para a humanidade”.

d) Em quarto lugar, os partidos políticos de esquerda. É um tema complexo, conflitivo e delicado, sobretudo no contexto atual de crise mundial das esquerdas e das tensões e divisões em torno das experiências de governos populares na América Latina; um tema que divide a própria esquerda, os movimentos sociais, a Igreja dos pobres e os setores progressistas em geral; mas um tema que precisa ser enfrentado com criticidade e criatividade, uma vez que diz respeito à regulamentação política da sociedade e que isso tem enormes consequências na vida povo. Certamente, já não há espaço para idealismos ingênuos com relação às possibilidades reais de transformação da sociedade através de partidos e governos. As experiências recentes mostraram os limites institucionais e políticos de sua atuação. Tampouco há espaço para instrumentalização e aparelhamento dos movimentos e organizações populares por partidos e governos. Também, aqui, as experiências recentes mostraram as consequências trágicas dessa prática equivocada e donosa em muitos setores da esquerda. Mas isso não pode levar, em hipótese nenhuma, a uma espécie de indiferença partidária nem muito menos a um antipartidarismo que só favorece aos interesses das elites. Partidos e governos nem são suficientes nem podem tudo, mas são importantes e são necessários. E a conjuntura atual exige da esquerda autocrítica em relação às experiências de governo e ousadia e criatividade na formulação e viabilização de projetos e estratégias políticos populares, o que só será possível mediante unidade das esquerdas55 e disposição de construção e viabilização de um projeto político de esquerda, centrado na luta contra a desigualdade social e econômica, na justiça socioambiental e na soberania popular56.

e) Finalmente, em quinto lugar, a articulação continental e mundial das forças e organizações populares. Já existem muitas experiências nesse sentido: partidos, sindicatos, movimentos feministas, movimentos camponeses, movimentos indígenas, movimento dos catadores de material reciclável, movimento contra mineração, fórum social mundial etc. E, em tempos de globalização do capital e de expansão da lógica do mercado nas diversas dimensões e nos diferentes espaços da vida, é mais urgente ainda a globalização da solidariedade e da luta pela justiça. Se a globalização do mercado se faz a partir de cima e produz exclusão social, injustiça socioambiental e cultura da indiferença; a globalização da solidariedade se faz a partir de baixo e vai criando possibilidades de vida para os pobres e marginalizados, refazendo os vínculos sociais e criando uma cultura da solidariedade, centrada no bem comum e na justiça socioambiental. Nesse sentido, e mais do que nunca, é preciso e urgente fortalecer e ampliar os vínculos e as articulações entre as diversas forças populares em nível continental e mundial: partidos de esquerda, movimentos e organizações populares, Igreja dos pobres etc. Não podemos nos fechar em nossas regiões, em nossos movimentos e em nossas lutas. Até porque não estamos desconectados do mundo e o que acontece no local está muito mais determinado por fatores globais do que pode parecer. A injustiça é global e a luta contra a injustiça tem que ser também global. É claro que o global se materializa no local ou em situações particulares concretas e é ai que ele tem que ser enfrentado.



A MODO DE CONCLUSÃO

Falamos da importância da Constituição Pastoral Gaudium et Spes e de sua incipiente teologia dos “sinais dos tempos” no processo de recepção do Concílio Vaticano II em Medellín. Falamos de sua concretização em termos de inserção na realidade latino-americana e, mais concretamente, em termos de opção pelos pobres. E indicamos alguns ecos e/ou expressões atuais (antigos e novos) dos clamores e das resistências dos pobres e marginalizados em nosso continente – “sinal dos tempos” por excelência ao qual devemos estar muito atentos, com o qual devemos nos envolver e a serviço do qual devemos entregar nossas vidas.

A pergunta que não quer calar é até que ponto os pobres e marginalizados com seus clamores e suas resistências continuam sendo a preocupação maior de nossa Igreja. Se isso já não tranquilo em Medellín e foi se tornando cada vez mais controverso nas décadas de 70 e 80, hoje, não obstante a insistência profética do papa Francisco, parece algo estranho em nossa Igreja que tem coisas mais “importantes” (mais “religiosas”, mais “sagradas”, mais “espirituais”) para cuidar. Haveria que perguntar, inclusive, até que ponto os clamores e as resistências dos pobres e marginalizados estão no centro das preocupações e do quefazer teológicos na América Latina.

Em todo caso, e a modo de conclusão, queremos insistir com Medellín que “não basta refletir, conseguir mais clerividência e falar. É necessário agir. A hora atual não deixou de ser a hora da palavra, mas já se tornou, com dramática urgência, a hora da ação. Chegou o momento de inventar com imaginação criadora a ação que cabe realizar e que, principalmente, terá de ser levada a cabo com a audácia do Espírito e o equilíbrio de Deus”57.

Importa assumir, hoje, com todas as consequências teóricas e práticas a centralidade dos pobres na Igreja: suas vidas, seus clamores, suas esperanças, suas resistências e suas lutas. E convém recordar e insistir com o papa Francisco que isso “não é uma tarefa mais, mas talvez a mais importante porque ‘os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho’”58. Em suas vidas e em suas mortes, como afirmava São Romero, está em jogo a glória de Deus neste mundo: “La gloria de Dios es el pobre que vive”59. Que vivamos dessa glória e para essa glória...

1 Doutor em teologia pela Westfälische Wilhelms-Universität de Münster, Alemanha; professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP); presbítero da diocese de Limoeiro do Norte – CE.

2 Cf. REB 48 (1988); BOFF, C. “A originalidade histórica de Medellín”. Convergência 317 (1998), p. 568-575; REB 58 (1998); Perspectiva Teológica XXXI/84 (1999); GUTIÉRREZ, G. “Atualidade de Medellín”. In: Conclusões da Conferência de Medellín – 1968: Trinta anos depois. Medellín ainda é atual? São Paulo: Paulinas, 2010, p. 237-252; CATÃO, F. “aos trinta anos de Medellín”. In: Conclusões da Conferência de Medellín – 1968: Trinta anos depois. Medellín ainda é atual? São Paulo: Paulinas, 2010, p. 253-284; GODOY, M. – AQUINO JÚNIOR, F. (org.). 50 anos de Medellín: Revisitando os textos, retomando o caminho. São Paulo: Paulinas, 2017; SOUSA, N. – SBARDELOTTI, E. (org.). Medellín: Memória, profetismo e esperança na América Latina. Petrópolis: Vozes, 2018; Perspectiva Teológica 50/1 (2018).

3 BEOZZO, J. O. “Prefácio”. In: SOUSA, N. – SBARDELOTTI, E. (org.). Medellín: Memória, profetismo e esperança na América Latina. Op. cit., p. 9-18, aqui p. 9.

4 FRANÇA MIRANDA, M. “A teologia de Medellín”. In: SOUSA, N. – SBARDELOTTI, E. (org.). Medellín: Memória, profetismo e esperança na América Latina. Op. cit., p. 41-52, aqui p. 42.

5 GUTIÉRREZ, G. “A atualidade de Medellín”. Op. cit., p. 237.

6 CELAM. Conclusões da Conferência de Medellín – 1968: Trinta anos depois. Medellín ainda é atual? São Paulo: Paulinas, 2010, p. 5-7, aqui p. 6.

7 CELAM. Documento de Aparecida. São Paulo: Paulinas, 2007, Nº 391.

8 Cf. CALIMANN, C. “A trinta anos de Medellín: Uma nova consciência eclesial na América Latina”. Perspectiva Teológica 84 (1999), p. 163-180, aqui p. 169-172; FAGGIOLI, M. Vaticano II: A luta pelo sentido. São Paulo: Paulinas, 2013, p. 86ss; VILLAS BOAS, A. – MARCHINI, W. L. “Medellín como recepção conciliar”. In: SOUSA, N. – SBARDELOTTI, E. (org.). Medellín: Memória, profetismo e esperança na América Latina. Op. cit., p. 110-121; PASSOS, J. D. “50 anos de Medellín: Carisma vivo na história em mudança”. In: SOUSA, N. – SBARDELOTTI, E. (org.). Medellín: Memória, profetismo e esperança na América Latina. Op. cit., p. 122-147.

9 Cf. GUTIÉRREZ, G. “A atualidade de Medellín”. Op. cit., p. 238-244; CODINA, V. “Las iglesias del continente 50 años después de Vaticano II: Cuestiones pendientes”. In: CONGRESO CONTINENTAL DE TEOLOGÍA (org.). 50 años del Vativano II: Análisis y perspectivas. Bogotá: Paulinas, 2013, p. 81-92, aqui 84s; CODINA, V. “Hacer teologia en medio de los pobres”. Revista Latinoamericana de Teología 102 (2017) p. 301-309, aqui p. 303; CODINA, V. “Las ponencias de Medellín”. Perspectiva Teológica 50 (2018) p. 59-76, aqui 65-67; COSTADOAT, J. “Hacia un nuevo concepto de revelación? La historia como ‘lugar teológico’ en la teología de la liberación”. In: AZGUY, V. R. – GARCÍA, D. – SCHICKENDANTZ, C. (eds.). Lugares e interpelaciones de Dios: Discernir los signos de los tempos. Santiago de Chile: Universidad Alberto Hurtado, 2017, p. 105-132, aqui p. 110-115; BEOZZO, J. O. “Prefácio”. Op. cit., p. 10.

10 CODINA, V. “Las ponencias de Medellín”. Op. cit., p. 65.

11 CODINA, V. “Hacer teologia en medio de los pobres”. Op. cit., p. 303.

12 CELAM. Conclusões da Conferência de Medellín. Op. cit., p. 37, 41.

13 Cf. ALBERIGO, G. Breve História do Concílio Vaticano II. Aparecida: Santuário, 2006, p. 179.

14 Cf. Apud PALACIO, C. “O legado da Gaudium et Spes. Riscos e exigências de uma nova ‘condição cristã’”. Perspectiva Teológica 27 (1995) p. 333-353, aqui p. 333, nota 2.

15 JOÃO XXIII. “Discurso do Papa João XXIII Gaudet Mater Ecclesia na abertura solene do Concílio”. In: VATICANO II: Mensagens, discursos e documentos. São Paulo: Paulinas, 2007, p. 27-35.

16 Cf. SCHICKENDANTZ, C. “Un nuevo capítulo de epistemologia teológico-pastoral: aportes a la compreensión de los signos de los tiempos”. Atualidade Teológica 58 (2018) p. 133-158; SCHICKENDANTZ, C. “Signo de los tempos. Articulación entre princípios teológicos y acontecimientos históricos”. In: AZGUY, V. R. – GARCÍA, D. – SCHICKENDANTZ, C. (eds.). Lugares e interpelaciones de Dios: Discernir los signos de los tempos. Santiago de Chile: Universidad Alberto Hurtado, 2017, p. 33-69.

17 Cf. RATZINGER, J. Teoría de los principios teológicos: Materiales para una teología fundamental. Barcelona: Herder, 1985, p. 439-472.

18 Cf. FAGGIOLI, M. Vaticano II: A luta pelo sentido. Op. cit., p. 102-131.

19 RATZINGER, J. Teoría de los principios teológicos. Op. cit., p. 453s.

20 RATZINGER, J. Teoría de los principios teológicos. Op. cit., p. 457.

21 Cf. SCHICKENDANTZ, C. “Un nuevo capítulo de epistemologia teológico-pastoral: aportes a la compreensión de los signos de los tiempos”. Op. cit., p. 133-148.

22 GUTIÉRREZ, G. “A atualidade de Medellín”. Op. cit., p. 245s.

23 CODINA, V. “Las ponencias de Medellín”. Op. cit., p. 67s

24 CELAM. Conclusões da Conferência de Medellín. Op. cit., p. 38-40.

25 Cf. CELAM. Conclusões da Conferência de Medellín. Op. cit., p. 116-124, Nº 13.

26 Cf. JOÃO XXIII. “Mensagem radiofônica a todos os fieis católicos, a um mês da abertura do Concílio”. In: VATICANO II: Mensagens, discursos e documentos. Op. cit., 20-26, aqui p. 26.

27 Cf. GAUTHIER, P. O concílio a Igreja dos pobres. Petrópolis: Vozes, 1967; GAUTHIER, P. O evangelho da justiça. Petrópolis: Vozes, 1969.

28 Convém recordar aqui com Jon Sobrino que “toda teologia se ha confrontado muy centralmente con el momento negativo de la existencia humana y de la historia de los seres humanos [pecado y culpa, condenación, muerte, enfermedad, esclavitud, sinsentido, pobreza, injusticia etc.] [...] Y confrontarse con esa negatividad le es esencial a la teologia, pues el mensage positivo de la fe que pretende elaborar no se comprende si no en relación a la negatividad [...] Eso há ocorrido, de hecho, en la história de la teologia. Lo que ha variado es la determincaión de cuál sea en un determinado momento la negatividad más central, aquella que mejor introduce, desde lo negativo, a la totalidad de la teologia [...] lo que hace la teologia de la liberación es determinar cuál es hoy la negatividad fundamental [...] el sufrimiento masivo, cruel, inusto y duradero producido por la pobreza en el Tercer Mundo” (SOBRINO, J. El principio-misericordia. Bajar de la cruz a los pueblos crucificados. Santander: Sal Terrae, 1992, p. 51s).

29 ELLACURÍA, I. “Discernir ‘el signo’ de los tempos”. In: Escritos Teológicos II. San Salvador: UCA, 2000, p. 133-135, aqui 134.

30 ELLACURIA, I. “Pobres”. In: Escritos Teológicos II. Op. cit., p. 171-192, aqui p. 173.

31 COMBLIN, J. A profecia na igreja. São Paulo: Paulus, 2009, p. 185s.

32 TURSI, C. – FRENCKEN, G. (orgs.). Mantenham as lâmpadas acesas: Revisitando o caminho, recriando a caminhada. Um diálogo de Aloísio Cardeal Lorscheider com O Grupo. Fortaleza: UFC, 2008, p. 142.

33 ELLACURÍA, I. “El auténtico lugar social de la Iglesia”. In: Escritos Teológicos II. Op. cit., p. 439-451, aqui p. 449.

34 Cf. BEOZZO, J. O. “Prefácio”. Op. cit., p. 10.

35 Cf. SOBRINO, J. Ressurreição da verdadeira Igreja. São Paulo: Loyola, 1982; BOFF, L. E a Igreja se fez povo. Eclesiogênese: A Igreja que nasce da fé do povo. Petrópolis: Vozes, 1991; AQUINO JÚNIOR, F. Igreja dos pobres. São Paulo: Paulinas, 2018.

36 Cf. CODINA, V. El Espírito del Señor actúa desde abajo. Maliaño: Sal Terrae, 2015.

37 Cf. CELAM. Conclusões da Conferência de Medellín. Op. cit., p. 195, Nº 2.

38 Cf. CELAM. Conclusões da Conferência de Medellín. Op. cit., p. 45, Nº 1.

39 Cf. SAFATLER, V. A esquerda que não teme dizer seu nome. São Paulo: Três estrelas, 2014.

40 Cf. DOWBOR, L. A era do capital improdutivo. São Paulo: Outras Palavras, 2017, p. 27ss.

42 PAPA FRANCISCO. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. São Paulo: Paulinas, Nº 202.

43 Cf. BOFF, L. Ecologia: grito da terra, grito dos pobres. Dignidade e direitos da Mãe Terra. Edição revisada e ampliada. Petrópolis: Vozes, 2015

44 Cf. PAPA FRANCISCO. Carta Encíclica Laudato si’ Sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015; MURAD, A. – TAVARES, S. (Org.). Cuidar da casa comum: Chaves de leitura teológicas e pastorais da Laudato Si’. São Paulo: Paulinas, 2016.

45 Para o caso específico do Brasil, ver o Atlas da Violência 2018. Disponível em: http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/relatorio_institucional/180604_atlas_da_violencia_2018.pdf

46 Cf. ROMERO, O. “Iglesia y organizaciones políticas populares: Tercera Carta Pastoral”. In: SOBRINO, J. – MARTÍN-BARÓ, I. – CARDENAL, R. La voz de los sin voz: La palavra viva de Monseñor Romero. San Salvador: UCA, 2007, p. 91-121, aqui p. 113-118; ROMERO, O. “Misión de la Iglesia en médio de la crisis del país: Cuarta Carta Pastoral”. In: SOBRINO, J. – MARTÍN-BARÓ, I. – CARDENAL, R. La voz de los sin voz: La palavra viva de Monseñor Romero. Op. cit., p. 123-172, aqui p. 156-159; ELLACURÍA, I. “Comentarios a la Carta Pastoral”. In: Escritos Políticos II: Veite años de historia em El Salvador (1969-1989). San Salvador: UCA, 1993, p. 679-732, aqui 712-732.

47 Cf. CNBB. Campanha da Fraternidade 2018: Texto-Base. Brasília: Edições CNBB, 2017, p. 15-24.

48 A propósito da situação de El Salvador, Cf. CALLIZO, J. – SCHWAB, B. – ZECHMEISTER, M. “Escuchar el grito de las víctimas: Impulsos desde la teología de la liberación”. Revista Latinoamericana de Teología 102 (20117) p. 251-279.

49 PAPA FRANCISCO. Exortação Apostólica Evangelii gaudium: Sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. São Paulo: Paulinas, 2013.

50 SOBRINO, J. Terremoto, terrorismo, barbárie y utopia: El Salvador, Nueva York, Afeganistá. Madrid: Trotta, 2002, p. 126.

51 SOBRINO, J. Terremoto, terrorismo, barbárie y utopia. Op. cit., p. 36 e 37.

52 PAPA FRANCISCO. Exortação Apostólica Gaudete et exsultate: Sobre a chamada à santidade no mundo atual. São Paulo: Paulinas, 2018, Nº 7.

53 Cf. AQUINO JÚNIOR, F. “‘Tudo tem jeito. Só não tem jeito para a morte’. A esperança que vem das ruas e dos lixões”. In: A dimensão socioestrutural do reinado de Deus: Escritos de teologia social. São Paulo: Paulinas, 2011, p. 197-212; AQUINO JÚNIOR, F. “Entre ruas: fé e esperança de um povo. Espiritualidade da pastoral do povo da rua”. In: Viver segundo o espírito de Jesus Cristo: Espiritualidade como seguimento. São Paulo: Paulinas, 2014, p. 47-58; SANTIAGO, A. (org.). Esticadores de horizontes: Narrativas juvenis sobre vidas reinventadas. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2017.

54 Cf. PAPA FRANCISCO. Discurso do Papa Francisco aos participantes do Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Brasília: CNBB, 2015; IDEM. Discurso do Papa Francisco no II Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Brasília: CNBB, 2015; IDEM. Discurso do Papa Francisco aos participantes do III Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Brasília: CNBB, 2016; AQUINO JÚNIOR, F. Organizações populares. São Paulo: Paulinas, 2018.

55 Cf. SANTOS, B. Esquerdas do mundo, uni-vos! São Paulo: Boitempo, 2018.

56 SAFATLE, W. A esquerda que não teme dizer seu nome. Op. cit.

57 CELAM. Conclusões da Conferência de Medellín. Op. cit., p. 88, Nº 3

59 ROMERO, O. “La dimensión politica de la fé desde la opción por los pobres”. In: SOBRINO, J. – MARTÍN-BARÓ, I. – CARDENAL, R. La voz de los sin voz: La palavra viva de Monseñor Romero. Op. cit., 181-193, aqui p. 193.