logo teologia nordwste

 

Pe. Gedeon José de Oliveira

Quais as causas históricas da condenação de Jesus à morte de cruz? Certamente, essa pergunta está enraizada no contexto sócio histórico da Palestina do I Século. Jesus é a realização da promessa do Deus que libertou o povo do Egito (cf. Ex 3,7-10; 20,1-20). Os milagres de Jesus apontam para a referência do êxodo, de modo que a condenação de Jesus à crucificação é fruto das tramas históricas provenientes do confronto de práticas: a prática do Império, da qual também participavam dirigentes do povo judeu e a prática messiânica de Jesus que era seguida por seus discípulos e discípulas.

As práticas do império Romano contrárias às práticas de Jesus e de seus discípulos nos provocam a pensar de um lado as mortes dos alunos e funcionários do colégio Suzano em São Paulo e de outro lado os incentivos ao armamento do governo. O assassinato dos alunos do colégio Suzano diz respeito ao contexto em que estamos inseridos, de modo que podemos estender os assassinatos por arma de fogo, pelas mesmas razões, a saber: contexto econômico e político no qual Jesus estava inserido. A pergunta pelas causas que levam alguém a assassinar outro(s) não significa, necessariamente, encontrar um culpado, já que as condições politicas e econômicas constituem elementos que ampliam a analise de tais crimes. Sendo assim, os assassinatos exercidos em tais condições, nos inserem na trama política dos mecanismos subjacentes as formas do exercício da governabilidade e as consequências que decorrem dos modelos de governança.

Em se tratando da morte de Jesus, no Símbolo Apostólico se professa“Padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado”. Também o Credo Niceno-constantinopolitano o afirma: “Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado. a morte de Jesus na cruz é histórica, fruto de procedimentos históricos. Os textos bíblicos mostram a morte de Jesus baseada numa acusação política (cf. Lc 23,2-5; Mt 26,63; Jo 19,12-16; At 10,34-43), fruto de tensões econômicas, sociais, políticas e religiosas (cf. Mc 2,1-36; 7,1-23; 11,1-12,44). Além do testemunho canônico, a morte de Jesus na cruz é atestada por vários textos apócrifos. Também vários historiadores como Flávio Josefo, Tácito, Suetônio, Plínio, testemunham esse fato. Podemos concluir que a morte de Jesus aconteceu mediante aliança entre os romanos e os dirigentes do povo. 

Com base no texto que acabamos de refletir, a nossa pergunta não tem resposta, pois não aparece um sujeito com C.P. F (Cadastro de Pessoas Físicas), que responda por tal atrocidade, mas um sujeito jurídico sem C.N.P. J (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica). É próprio do exercício governamental, utilizar mecanismos que obscurecem a identificação de um responsável pelos assassinatos de grupos de pessoas, de modo que o Estado assassina sem, contudo, ser punido pelos assassinatos, ou se omite dos assassinatos culpando alguém em particular, desprovido do contexto no qual está inserido. Essa estratégia pode ser aplicada aos assassinos dos estudantes do colégio Suzano na grande São Paulo, uma vez que especialistas afirmam que a flexibilização das armas alimentada e motivada pelo governo, amplia as possibilidades de assassinatos em massa. Clarice Lispector, que não era freira ou sacerdotisa e que muito cedo abandonou a religião, ao refletir a morte de mineirinho, diz: O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro. As imagens de padres fazendo das mãos armas apontando para outras pessoas em conformidade com a eleição de Bolsonaro, não constituem um simples gesto de campanha eleitoral, mas algo mais tenebroso, ou seja, a religião como fundamento ideológico da violência. Cada sujeito que votou em Bolsonaro é responsável pelo assassinato dos estudantes, assim como cada membro do sinédrio foi culpado pela morte de Jesus. Cada eleitor por omissão ou por defender a violência armada é responsabilizado pelo massacre.

A justificativa que nos palcos das ruas se ensaiava a posse de armas assenta-se em um eventual comunismo ou na teologia da libertação. Trata-se de um passado presente, que deve ser assassinado pelos partidários de Bolsonaro. As armas da vingança devem eliminar os movimentos sociais. Como diria Nietsche, a repugnância, o contra querer da vontade em relação ao passado é o espirito de vingança. O assim foi e é o ranger dos dentes da vontade e a sua mais solitária aflição. Impotente diante do que foi feito pelo Partido dos Trabalhadores, a vingança é uma expectadora malévola do passado. Que o tempo não possa voltar atrás é a fúria que somente as armas podem exterminar.

Na celebração da Semana Santa os PADRES que apoiaram a eleição do então presidente, vão estar no altar fazendo memória das injustiças imputadas a Jesus pelo estado romano. O espirito de vingança ritualiza e atualiza o assassinato de Jesus. No altar do sacrifício a cruz cede lugar às armas e o sacrificado cede lugar aos estudantes de Suzano. Assim as mortes continuam sob Pôncio Bolsonaro.

Mas a semana Santa é também celebrada pelo povo de Deus nas comunidades de base e nos movimentos sociais. A temática da morte de Cristo se torna sinal de luta contra o poder hegemônico, pois a glória de Deus é o homem vivo! No Evangelho de João o próprio Jesus nos diz: “Coragem, eu venci o mundo!” Então, como conduzir um povo a se aproximar de Jesus mediante o tema do amor ao próximo?! Ele não pôs as mãos em armas, ao contrário, mandou Pedro guardar a espada; também jamais defendeu armar o povo e fazer apologia incitadora. Como é que Ele está presente em nosso meio? Qual o aceno de sua presença na vida de cada um e da comunidade? Sabemos por meio de uma verdadeira leitura teológica do Apocalipse de João que Jesus não voltará mais de forma fantasiosa conforme a apocalíptica, pois Ele já está presente em Espírito!