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PUEBLA, 40 ANOS: da opção pelos pobres a uma Igreja em saída

 

Recentes vicissitudes históricas, no Brasil e na América Latina, vêm mergulhando o povo dos pobres num contexto de morte e obscurantismo. Precisamos manter viva a esperança dos pobres. Neste sentido, é que a memória vivificante de Puebla nos instiga a refazer nossa esperança. 

 

Quatro décadas percorremos, desde a realização, em Puebla, México, da III Conferência Episcopal Latino-Americana, que confirmou despertou, de modo mais amplo, a consciência dos Cristãos e Cristãs, em geral, e em especial dos membros da Igreja Católica Romana, o compromisso com a causa libertadora dos pobres - povos indígenas, comunidades afro-americanas, camponeses, operários, desempregados, jovens, mulheres, enfermos, prisioneiros... -, espalhados pelo continente latino-americano e pelo mundo. Proclamada na Conferência de Medellín, dez anos antes, a opção pelos pobres vem a ser reafirmada, em Puebla, por meio de forte apelo aos cristãos e cristãs, a assumirem, pelo anúncio do Evangelho e pelo seu testemunho de vida, a vocação à Liberdade, à libertação de todo tipo de jugo e de opressão - econômica, política, cultural, religiosa.

 

Ao longo desta IX STPJC – e com especial ênfase nas Jornadas Comunitárias -, cuidamos de fazer memória do acontecimento Puebla, seu significado, seu alcance, suas prioridades, seus enfrentamentos, etc., ao tempo em que nos colocamos atentos aos sinais dos tempos presentes. Nosso propósito é o de, ao celebrarmos os 40 anos de Puebla, exercitar uma memória avaliativo-prospectiva desta caminhada na atualidade, sobretudo tendo presente o incansável chamamento do Papa Francisco a uma “Igreja em saída”, eis nosso jeito de revisitar o legado do Pe. José Comblin.

 

Tanto as prioridades assinaladas pelo acontecimento Puebla, inclusive por meio do seu Documento final, como os reiterados clamores expressos por Francisco Bispo de Roma, em busca de uma “Igreja em saída”, ao nos remeterem profeticamente às prioridades da Tradição de Jesus, também nos remetem ao legado do Pe. José Comblin, como se o teólogo e o Papa estivessem em contínuo diálogo, ainda que de modo implícito.

 

Um quanto o outro têm ajudado como poucos, a despertar da consciência dos cristãos e cristãs, e de comprometê-los ativamente com os valores do reino de Deus, anunciados e testemunhados por Jesus, através da História.

 

Durante os próximos meses, até à conclusão desta nona edição da STPJC trataremos de revisitar relevantes trechos do documento de Puebla, bem como escritos do Papa Francisco e do Pe. José Comblin, como forma de estimular a reflexão comunitária sobre o evento Puebla, e de impulsionar uma consciência crítica e empenhativa de nossa fé, especialmente voltada para o fortalecimento da causa libertadora do povo dos pobres, apesar e além das profundas adversidades enfrentadas, na atual conjuntura sócio-eclesial.

 

Em nossas Jornadas comunitárias, costumamos propor à reflexão em pequenos grupos, de breves textos do tema trabalhado, recolhidos tanto do Documento final de Puebla como de breves escritos do Papa Francisco e do Pe. José Comblin. Duas ou três perguntas costumam ser propostas, ao final de cada texto, como motivação para a discussão em grupo. Eis o que se encontra, em seguida.

 

 

Texto 1: extrato do documento de Puebla.

 

31 Esta situação de extrema pobreza generalizada adquire, na vida real, feições concretíssimas, nas quais deveríamos reconhecer as feições sofredoras de Cristo, o Senhor (que nos questiona e interpela) :

 

  1. - feições de crianças, golpeadas pela pobreza ainda antes de nascer, impedidas que estão de realizarse, por causa de deficiências mentais e corporais irreparáveis, que as acompanharão por toda a vida; crianças abandonadas e muitas vezes exploradas de nossas cidades, resultado da pobreza e da desorganização moral da família; 44 Cf. João Paulo II, Discurso Inaugural, III, 2 – AAS, LXXI, p. 199. 45 CF. PP 3. 46 Cf. João Paulo II, Discurso Inaugural, III, 3 – AAS, LXXI, p. 201. 70

 

  1. - feições de jovens, desorientados por não encontrarem seu lugar na sociedade e frustrados, sobretudo nas zonas rurais e urbanas marginalizadas, por falta de oportunidades de capacitação e de ocupação;

 

  1. - feições de indígenas e, com freqüência, também de afro-americanos, que, vivendo segregados e em situações desumanas, podem ser considerados como os mais pobres dentre os pobres.

 

  1. - feições de camponeses, que, como grupo social, vivem relegados em quase todo o nosso continente, sem terra, em situação de dependência interna e externa, submetidos a sistemas de comércio que os enganam e os exploram;

 

  1. - feições de operários, com freqüência mal remunerados, que têm dificuldade de se organizar e defender os próprios direitos;

 

  1. - feições de subempregados e desempregados, despedidos pelas duras exigências das crises econômicas e, muitas vezes, de modelos desenvolvimentistas que submetem os trabalhadores e suas famílias a frios cálculos econômicos;

 

  1. - feições de marginalizados e amontoados das nossas cidades, sofrendo o duplo impacto da carência dos bens materiais e da ostentação da riqueza de outros setores sociais;

 

  1. - feições de anciãos cada dia mais numerosos, frequentemente postos à margem da sociedade do progresso, que prescinde das pessoas que não produzem.

  

  1. A dimensão política, constitutiva do homem, representa um aspecto relevante da convivência humana. Possui um aspecto englobante, porque tem como fim o bem comum da sociedade. Mas nem por isso esgota a gama das relações sociais. 514. A fé cristã não despreza a atividade política; pelo contrário, a valoriza e a tem em alta estima. 515. A Igreja - falando ainda em geral, sem distinguir o papel que compete a seus diversos membros sente como seu dever e direito estar presente neste campo da realidade: porque o cristianismo deve evangelizar a totalidade da existência humana. inclusive a dimensão política. Por isso ela critica aqueles que tendem a reduzir o espaço da fé à vida pessoal ou familiar, excluindo a ordem profissional, econômica, social e política, como se o pecado, o amor, a oração e o perdão não tivessem importância aí. 516. Efetivamente a necessidade da presença da Igreja, no âmbito político, provém do mais íntimo da fé cristã: do domínio de Cristo que se estende a toda a vida. Cristo marca a irmandade definitiva da humanidade; cada homem vale tanto quanto 0 outro: “Todos sois um em Cristo Jesus” (G1 3,28). 517. Da mensagem integral de Cristo derivam uma antropologia e teologia originais que abrangem “a vida concreta, pessoal e social do homem” (EN 29). É uma mensagem que liberta porque salva da escravidão do pecado, raiz e fonte de toda opressão, injustiça e a discriminação. 518. Estas são algumas das razões da presença da Igreja no campo do político, 167 para iluminar as consciências e anunciar uma palavra transformadora da sociedade. 519. A Igreja reconhece a devida autonomia do temporal (GS 36); isso vale para os governos, partidos, sindicatos e outros grupos no campo social e político. O fim que o Senhor determinou à sua Igreja é de ordem religiosa e, portanto, ao intervir neste campo, não a anima nenhuma intenção de ordem política, econômica ou social. “Mas, na verdade, desta mesma missão religiosa decorrem benefícios, luzes e forças que podem auxiliar a organização e o fortalecimento da comunidade humana segundo a lei de Deus” (GS 42) . 520. Interessa especialmente distinguir neste campo da política aquilo que corresponde aos leigos, o que compete aos religiosos e o que compete aos ministros da unidade da Igreja, o bispo com seu presbitério. 5.3. Conceitos de política e de compromisso político 521. Devemos distinguir dois conceitos de política e de compromisso político: primeiro, a política em seu sentido mais amplo que visa o bem comum, no âmbito nacional e no âmbito internacional. Corresponde-lhe precisar os valores fundamentais de toda a comunidade - a concórdia interna e a segurança externa - conciliando a igualdade com a liberdade, a autoridade pública com a legítima autonomia e participação das pessoas e grupos, a soberania nacional com a convivência e solidariedade internacional. Define também os meios e a ética das relações sociais. Neste sentido amplo, a política interessa à Igreja e, portanto, a seus pastores, ministros da unidade. É uma forma de dar culto ao único Deus, dessacralizando e ao mesmo tempo consagrando o mundo a Ele (LG 34) . 522. A Igreja contribui assim para promover os valores que devem inspirar a política, interpretando em cada nação as aspirações de seus povos especialmente os anseios daqueles que uma sociedade tenda a marginalizar. E o faz mediante seu testemunho, sua doutrina e sua multiforme ação pastoral. 523. Segundo: a realização concreta dessa tarefa política fundamental se faz normalmente através de grupos de cidadãos que se propõem conseguir e exercer o poder político para resolver as questões econômicas, políticas e sociais segundo seus próprios critérios ou ideologias. Neste sentido se pode falar de “política de partido”. As ideologias elaboradas por esses grupos, embora se 168 inspirem na doutrina cristã, podem chegar a diferentes conclusões. Por isso, nenhum partido político, por mais inspirado que esteja na doutrina da Igreja, pode arrogar-se a representação de todos os fiéis, já que seu programa concreto nunca poderá ter valor absoluto para todos184 (João Paulo II, Discurso Inaugural, I, 4-AAS, LXXI, p. 190). 524. A política partidarista é o campo próprio dos leigos (GS 43). Corresponde à sua condição leiga constituir e organizar partidos políticos, com ideologia e estratégia adequada. para alcançar seus legítimos fins. 525. O leigo encontra na doutrina social da Igreja os critérios adequados, à luz da visão cristã do homem. Por seu lado, a hierarquia lhe garantirá sua solidariedade, favorecendo sua formação e sua vida espiritual e estimulando-o em sua criatividade para que procure opções cada vez mais conformes com o bem comum e as necessidades dos mais fracos. 526. Os pastores, pelo contrario, uma vez que devem preocupar-se com a unidade, se despojarão de toda ideologia político-partidária que possa condicionar seus critérios e atitudes. Terão, assim, liberdade para evangelizar o político como Cristo, a partir de um Evangelho sem partidarismos nem ideologizações. O Evangelho de Cristo não teria tido tanto impacto na história, se ele não o houvesse proclamado como uma mensagem religiosa. “Os evangelhos mostram claramente como para Jesus era mais tentação o que alterasse sua missão de Servo de Javé.185 Não aceita a posição daqueles que misturavam as coisas de Deus com as atitudes meramente políticas186 (João Paulo II, Discurso Inaugural, I, 4-AAS, LXXI, p. 190). 527. Os sacerdotes, também ministros da unidade e os diáconos, deverão submeter-se a idêntica renúncia pessoal. Se militassem em política partidarista, correriam o risco de absolutiza-la e radicalizá-la, dada sua vocação a ser “os homens do absoluto”. “Mas na ordem econômica e social e principalmente na ordem política, em que se apresentam diversas opções concretas, ao sacerdote como tal não lhe cabe diretamente a decisão, nem a liderança, nem tampouco a estruturação de soluções” (Med., Sac. 19) . “Ao assumir uma função diretiva (leadership), “militar” ativamente em um partido político, é algo que deve excluir qualquer presbítero, a não ser que, em circunstâncias concretas e excep- 184 Cf. Pio XI, A Ação Católica e a Política, 169 cionais, o exija realmente o bem comum, obtendo o consentimento do bispo, consultado o conselho presbiteral e - se o caso o requer - também a Conferência Episcopal” (Sínodo 1971, Parte II, 2b). Certamente, a tendência atual da Igreja não está neste sentido. 528. Os religiosos, por sua forma de seguir a Cristo, segundo a função peculiar que lhes compete dentro da missão da Igreja, de acordo com seu carisma específico, também cooperam na evangelização do político. Numa sociedade pouco fraterna, dada ao consumismo e que se propõe como fim último desenvolvimento de suas forças produtivas mate riais, os religiosos têm que ser testemunhas de uma real austeridade de vida, de comunhão com os homens e de intensa relação com Deus. Deverão, pois, resistir, igualmente, à, tentação de comprometer-se em política partidarista, para não provocar a confusão dos valores evangélicos com uma ideologia determinada. 529. Uma atenta reflexão dos bispos, sacerdotes e religiosos sobre as palavras do Santo Padre, será preciosa orientação para seu serviço neste campo: “A alma que vive em contacto habitual com Deus e se move dentro do ardente raio de seu amor, sabe defender-se com facilidade da tentação de particularismos e antíteses, que criam o risco de dolorosas divisões; sabe interpretar, à justa luz do Evangelho, as opções pelos mais pobres e por cada uma das vítimas do egoísmo humano, sem ceder a radicalismos sócio-políticos, que com o tempo se revelam inoportunos, contraproducentes e geradores eles próprios de novas violações. Sabe aproximar-se das pessoas e inserir-se no meio do povo, sem questionar a própria identidade religiosa, nem obscurecer a “originalidade específica” da própria vocação que deriva do peculiar “seguimento de Cristo”, pobre, casto e obediente. Um momento de verdadeira adoração tem mais valor e fruto espiritual do que a mais intensa atividade, ainda que se tratasse da própria atividade apostólica. Essa é a “contestação” mais urgente que os religiosos devem opor a uma sociedade onde a eficácia veio a ser um ídolo, sobre cujo altar não poucas vezes se sacrifica até a própria dignidade humana” (João Paulo II aos Superiores Maiores Religiosos, 24-11-1978) . 530. Os leigos dirigentes da ação pastoral não devem empregar sua autoridade em função de partidos ou ideologias. 5.4. Reflexão sobre a violência política 531. Diante da deplorável realidade de violência na América Latina, queremos 170 pronunciar-nos com clareza. A tortu- ra física e psicológica, os seqüestras, a perseguição de dissidentes políticos ou de suspeitos e a exclusão da vida pública, por causa das idéias são sempre condenáveis. Se tais crimes são realizados pela autoridade encarregada de tutelar o bem comum, tornam vis aos que os praticam, independentemente das razões aduzidas. 532. Com igual decisão a Igreja repele a violência terrorista e guerrilheira, cruel e incontrolável quando se desencadeia. De nenhum modo se justifica o crime como caminho de libertação. A violência gera inexoravelmente novas formas de opressão e escravidão, geralmente mais graves do que aquelas das quais se pretende libertar e homem. Mas, sobretudo, é um atentado contra a vida que só depende do Criador. Devemos salientar igualmente que quando uma ideologia apela para a violência, reconhece com isso sua própria insuficiência e debilidade. 533. Nossa responsabilidade de cristãos é promover de todos os modos os meios não violentos para restabelecer a justiça nas relações sócio-politicas e econômicas, segundo a doutrina do Concílio, que vale tanto para a vida nacional como para a vida internacional: “Só podemos calorosamente aplaudir aqueles que, para reivindicar os seus direitos, renunciam ao emprego da violência e recorrem aos meios de defesa, que aliás estão ao alcance também dos mais fracos, contanto que isso seja viável sem lesar direitos e obrigações de outros ou da comunidade” (GS 78). 534. “Devemos dizer e reafirmar que a violência não é nem cristã nem evangélica e que as transformações bruscas e violentas das estruturas serão enganosas, ineficazes em si mesmas e certamente não conformes com a dignidade do povo” (Paulo VI, discurso em Bogotá, 23-8-1968). Com efeito, “a Igreja está consciente de que as melhores estruturas e os sistemas mais idealizados logo se tornam desumanos se as inclinações do homem não forem sanadas, se não houver a conversão do coração e da mente por p 171 ponto de vista de um grupo determinado da sociedade. A ideologia manifesta as aspirações desse grupo, convida para certa solidariedade e combatividade e fundamenta sua legitimação em valores específicos. Toda ideologia é parcial, já que nenhum grupo particular pode pretender identificar suas aspirações com as da sociedade global. Uma ideologia será, pois, legítima se os interesses que defende o forem e se respeitar os direitos fundamentais dos demais grupos da nação. Neste sentido positivo, as ideologias surgem como algo necessário para a esfera social, enquanto são mediações para a ação. 536. As ideologias trazem em si mesmas a tendência a absolutizar os interesses que defendem, a visão que propõem e a estratégia que promovem. Neste caso, se transformam em verdadeiras “religiões leigas”. Apresentam-se como “uma explicação última e suficiente de tudo e se constrói assim um novo ídolo, do qual se aceita às vezes, sem se dar conta, o caráter totalitário e obrigatório” (0A 28). Nesta perspectiva não é de estranhar que as ideologias tentem instrumentalizar pessoas e instituições a serviço da eficaz consecução de seus fins. Eis o lado ambíguo e negativo das ideologias. 537. Não devemos analisar as ideologias somente do ponto de vista de seus conteúdos conceituais. Elas constituem, transcendendo a eles, fenômenos vitais de dinamismo envolvente, contagioso. São correntes de aspirações com tendência para a absolutização, dotadas também de poderosa força de conquista e fervor redentor. Isso lhes confere uma “mística” especial e a capacidade de penetrar os diversos ambientes de modo muitas vezes irresistível. Seus slogans, suas expressões típicas, seus critérios, chegam a marcar profundamente e com facilidade mesmo aqueles que estão longe de aderir voluntariamente a seus princípios doutrinais. Desse modo, muitos vivem e militam praticamente dentro dos limites de determinadas ideologias sem haverem tomado consciência disso. Este é outro aspecto que exige constante revisão e vigilância. Tudo isso se aplica tanto às ideologias que legitimam a situação atual, como àquelas que pretendem mudá-la. 538. Para o necessário discernimento e julgamento crítico sobre as ideologias, devem os cristãos apoiar-se no “rico e complexo patrimônio que a Evangelii Nuntiandi denomina Doutrina Social ou Ensinamento Social da Igreja” (João Paulo II, Discurso Inaugural, III, 7 - AAS, LXXI, p. 203) . 539. Esta Doutrina ou Ensinamento Social da Igreja expressa “o que ela possui 172 como próprio: uma visão global do homem e da humanidade” (PP 13) . Deixa-se interpelar e enriquecer pelas ideologias no que elas têm de positivo e, por sua vez, as interpela, relativiza e critica. 540. Nem o Evangelho nem a Doutrina ou Ensinamento Social que dele provém são ideologias. Pelo contrário, representam para estas uma poderosa fonte de questionamentos de seus limites e ambigüidades. A originalidade sempre nova da mensagem evangélica deve ser permanentemente esclarecida e defendida diante das tentativas de ideologização. 541. A exaltação desmedida e os abusos do Estado não podem, contudo, fazer esquecer a necessidade das funções do Estado moderno, respeitoso dos direitos e das liberdades fundamentais. Estado que se apóie sobre uma ampla base de participação popular, exercida através de diversos grupos intermédios. Propulsor de um desenvolvimento autônomo, acelerado e eqüitativo, capaz de afirmar o ser nacional diante de pressões ou interferências indevidas, tanto em nível interno como internacional. Capaz de adotar uma posição de ativa cooperação com os esforços de integração continental e no âmbito da comunidade internacional. Estado, enfim, que evite o abuso do poder monolítico, concentrado nas mãos de poucos. Na América Latina há diversas ideologias que exigem uma análise. 542. a) O liberalismo capitalista, idolatria da riqueza em sua forma individual. Reconhecemos a força que infunde a capacidade criadora da liberdade humana e que foi o propulsar do progresso. Contudo, “considera o lucro como o motor essencial do progresso econômico, a concorrência como lei suprema da economia, a propriedade privada dos meios de produção como direito absoluto, sem limites nem obrigações sociais correspondentes” (PP 26) . Os privilégios ilegítimos, derivados do direito absoluto de propriedade, causam contrastes escandalosos e uma situação de dependência e opressão, tanto no âmbito nacional quanto no internacional. Embora seja evidente que em alguns países se atenuou sua expressão histórica original, devido à influência de uma necessária legislação social e de precisas intervenções do Estado, em outros lugares ainda manifesta persistência ou, mesmo, retrocesso a formas primitivas e de menor sensibilidade social. 543. b) O coletivismo marxista conduz igualmente por seus pressupostos materialistas - a uma idolatria da riqueza, mas em sua forma coletiva. Embora 173 nascido de uma crítica positiva ao fetichismo do comércio e ao desconhecimento do valor humano do trabalho, não conseguiu ir à raiz dessa idolatria que consiste na recusa do Deus de amor e justiça, único Deus adorável. 544. O motor de sua dialética é a luta de classes. Seu objetivo, a sociedade sem classes, que se alcança através de uma ditadura proletária que, enfim, estabelece a ditadura do partido. Todas as suas experiências históricas concretas, como sistema de governo, se realizaram dentro do quadro de regimes totalitários fechados a toda. possibilidade de crítica e retificação. Alguns crêem possível separar diversos aspectos do marxismo, em particular sua doutrina e sua análise. Recordamos com o Magistério pontifício que “seria ilusório e perigoso chegar a esquecer o nexo íntimo que os une radicalmente; aceitar os elementos da análise marxista sem reconhecer suas relações com a ideologia, entrar na prática da luta de classes e de sua interpretação marxista, deixando de perceber o tipo de sociedade totalitária e violenta a que conduz tal processo” (OA 34). 545. Cumpre salientar aqui o risco de ideologização a que se expõe a reflexão teológica, quando se realiza partindo de uma práxis que recorre à análise marxista. Suas conseqüências são a total politização da existência cristã, a dissolução da linguagem da fé no das ciências sociais e o esvaziamento da dimensão transcendental da salvação cristã. 546. Ambas as ideologias assinaladas - liberalismo capitalista e marxismo - se inspiram em humanismos fechados a qualquer perspectiva transcendente. Uma, devido a seu ateísmo prático; a outra, por causa da profissão sistemática de um ateísmo militante. 547. c) Nos últimos anos vem se impondo em nosso Continente a chamada “Doutrina da Segurança Nacional”, que na realidade é mais uma ideologia do que uma doutrina. Está vinculada a um determinado modelo econômico-político, de características elitistas e verticalistas, que suprime a participação ampla do povo nas decisões políticas. Pretende mesmo justificar-se em certos países da América Latina como doutrina defensora da civilização ocidental cristã. Desenvolve um sistema repressivo, em conformidade com seu conceito de “guerra permanente”. Em alguns casos expressa uma clara intencionalidade de protagonismo geopolítico. 548. Uma convivência fraterna, entendemos perfeitamente, necessita de um 174 sistema de segurança para impor o respeito de uma ordem social justa, que permita a todos cumprir sua missão com relação ao bem comum. Este, portanto, exige que as medidas de segurança estejam sob o controle de um poder independente, capaz de julgar sobre as violações da lei e de garantir medidas que as corrijam. 549. A Doutrina da Segurança Nacional, entendida como ideologia absoluta, não se harmonizaria com uma visão cristã do homem enquanto responsável pela, realização de um projeto temporal nem do Estado, enquanto administrador do bem comum. Impõe, com efeito, a tutela do povo por elites de poder, militares e políticas, e conduz a uma acentuada desigualdade de participação nos resultados do desenvolvimento. 550. Em plena conformidade com Medellín, insistimos que “o sistema liberal capitalista e a tentação do sistema marxista parecem ter esgotado em nosso Continente as possibilidades de transformar as estruturas econômicas. Ambos os sistemas atentam contra a dignidade da pessoa humana; pois um tem como pressuposto a primazia do capital, seu poder e sua discriminatória utilização em função do lucro; o outro, embora ideologicamente sustente um humanismo, visa antes ao homem coletivo e, na prática, se traduz numa concentração totalitária do poder do Estado. Devemos denunciar que a América Latina se encontra fechada entre essas duas opções e permanece dependente de um ou outro dos centros de poder que canalizam sua economia” (Med., Justiça 10). 551. Diante desta realidade, “a Igreja quer manter-se livre com relação aos sistemas opostos, para optar só pelo homem. Quaisquer que sejam as misérias ou sofrimentos que aflijam ao homem, não será através da violência, dos jogos de poder, dos sistemas políticos, mas mediante a verdade sobre o homem, que a humanidade encontrará, seu caminho para um futuro melhor” (João Paulo II, Discurso Inaugural, III, 3 - AAS, LXXI, p. 199). Sobre a base deste humanismo os cristãos obterão força para superar a porfiada alternativa e contribuir para a construção de uma nova civilização, justa, fraterna e aberta para o transcendente. Será, além disso, testemunho de que as esperanças escatológicas animam e dão sentido às esperanças humanas. 552. Para essa ação corajosa e criativa, o cristão fortalecerá sua identidade nos valores originais da antropologia cristã. A Igreja, “não precisa, portanto, recorrer a sistemas e ideologias para amar, defender e colaborar na libertação do homem: no centro da mensagem da qual é depositária e pregoeira, ela encontra 175 inspiração para atuar em favor da fraternidade, da justiça, da paz, contra todas as dominações, escravidões, discriminações, atentados à liberdade religiosa, opressões contra o homem e tudo o que atenta contra a vida” (João Paulo II, Discurso Inaugural, III, 2 - AAS, LXXI, p. 199). 553. Inspirando-se nesses conteúdos da antropologia cristã, é indispensável o compromisso dos cristãos na elaboração de projetos históricos conformes às necessidades de cada momento e de cada cultura. 554. Cabe ao cristão ter atenção e discernimento especiais em seu eventual compromisso em movimentos históricos nascidos de diversas ideologias que, por outro lado, são diferentes delas. De acordo com a doutrina de Pacem in Terris (55 e 152) retomada em Octogesima Adveniens, não se pode identificar as teorias filosóficas falsas com os movimentos históricos originados nelas, na medida em que estes movimentos históricos podem ser influenciados em sua evolução. O compromisso dos cristãos nesses movimentos, em todo caso, coloca para eles certas exigências de fidelidade perseverante que facilitarão seu papel evangelizador: 555. a) Discernimento eclesial, em comunhão com os pastores, segundo OA 4. 556. b) Fortalecimento de sua identidade, nutrindo-a nas verdades da fé e sua explicitação na Doutrina ou Ensinamento Social da Igreja e o apoio de uma rica vida sacramental e de oração. 557. c) Consciência crítica das dificuldades, limitações, possibilidades e valores destas convergências.

 

Questões para o grupo:

  1. Que pontos-chaves podemos indicar no texto acima, extraído do Documento de Puebla?
  2. Em nossa visão, das propostas de Puebla o que hoje continua e o que hoje dela se distância, e o que fazer, a partir de suas grandes intuições?

Texto 2 Pe. José Comblin acerca de Puebla:

A Conferência de Puebla

Passados dez anos de Medellín, a IIIa. Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano realizada em Puebla (1979) ocupou-se da “Evangelização no presente e no futuro da América Latina” 182. À primeira vista, este tema central era mais restrito do que o tema de Medellín, mas, por ser a evangelização “a graça e a vocação próprias da Igreja, e sua identidade mais profunda” (EN 14), na realidade Puebla abrangeu também as grandes questões da presença e da tarefa da Igreja na América Latina. Puebla não significou propriamente ruptura em relação a Medellín nem também tranquila continuidade. As mudanças no contexto sócio-político e principalmente no eclesial influenciaram o desenvolvimento da Conferência, bem como o seu texto final183. Sob o aspecto doutrinário, as acentuações do documento são a evangelização, como o tema central, a comunhão e participação, como a meta, a libertação, como o caminho pelo qual a 181 “As vigorosas afirmações permitem trabalhar, aos que querem trabalhar; obrigam a fazer ao menos um pouco aos que não queriam fazer nada; e impedem os reacionários e conservadores manter intransigentemente as portas fechadas. É o começo do novo período da vida eclesiástica na América Latina, ao qual aludia Paulo VI no discurso de abertura, mas é apenas o início. Às declarações e aos propósitos deverão seguir os atos. Entretanto não se pode contestar o valor e o vigor destes propósitos”. KLOPPENBURG, Boaventura. “A Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-americano”. In: REB 28 (1968), p. 623-626. 182 As Conclusões de Puebla, que devem ser compreendidas a partir do método, assumido em Medellín, ver-julgar-agir, apresenta na Ia. Parte, a visão pastoral da realidade latino-americana, como desafio inicial. Na IIa. Parte encontra-se a seção doutrinária, onde está afirmada a identidade da Igreja, também da Igreja latino-americana, destacando-se o tema da evangelização da cultura, que será o ponto de contato com o que segue. Nas partes seguintes, a IIIa., intitulada “A Evangelização da Igreja da América Latina: comunhão e participação”, acentuando os centros de comunhão e participação, a IVa., “Igreja missionária a serviço da evangelização da América Latina”, onde se encontram as opções preferenciais, e Va., “Sob o dinamismo do Espírito: as opções pastorais”, encontra-se a reflexão sobre o agir. Cf. HACKMANN, Geraldo Luiz Borges. A amada Igreja de Jesus Cristo: manual de eclesiologia como comunhão orgânica.Porto Alegre:EDIPUCRS, 2003, p. 61. 183 No contexto sócio-político latino-americano continuam atuantes regimes autoritários praticando abuso de poder e violando os direitos humanos. A utopia da democracia social, participativa e solidária ainda está distante. Cresce a desigualdade entre ricos e pobres. 76 evangelização impulsiona tudo e todos em direção a sua meta, e os pobres, como os sujeitos preferenciais184 . A eclesiologia de Puebla não está onde o texto a anuncia, na Segunda Parte: “A verdade a respeito da Igreja: O Povo de Deus, Sinal e Serviço de Comunhão” (220-303). Aqui encontra-se o esboço de uma eclesiologia universalista que interpreta e cita o Vaticano II, especialmente Lumen Gentium e a Exortação Apostólica de Paulo VI Evangelii Nuntiandi (1975) numa perspectiva que, em determinados momentos, parece fugir do sentido original desses documentos. O desafio está em buscar as reflexões eclesiológicas ao longo de todo o Documento de Puebla. Na Quarta Parte do texto final, começa-se a delinear uma eclesiologia diferente daquela presente na Segunda parte. Uma eclesiologia que assume a realidade do Continente como ponto de partida para a compreensão missionária na Igreja. À luz desta visão eclesiológica, é que se pode compreender alguns aspectos do capítulo eclesiológico. A grande opção de Puebla é a evangelização com base num tripé doutrinal: a verdade sobre Jesus Cristo, sobre a Igreja e sobre o Homem.De certa forma, tudo o que o Documento diz gira em torno desta opção: ou aponta critérios para que a evangelização seja verdadeiramente cristã, ou apresenta prioridades derivadas dessa opção fundamental. A opção da evangelização, já Começam a surgir algumas iniciativas na direção da superação dos regimes de força para o Estado democrático de direito. No contexto eclesial, imediatamente depois de Medellín, já apareciam os primeiros sinais de reação as iniciativas inovadoras pós-conciliares e ao caminho libertador da Igreja latino-americana por parte de Roma e de setores conservadores eclesiásticos do nosso Continente. Afirmava-se que na Igreja latino-americana se fizera falsa interpretação de Medellín e suas opções. O próprio discurso inaugural da Conferência, de João Paulo II, refletiu a tendência eclesial de desconfiança em face da Igreja da libertação. Contudo, essa tendência conservadora não obteve unanimidade entre os bispos. Assim, o texto oficial e as opções de Puebla acabaram por fazer concessões à Igreja da libertação por causa da fundamentação bíblica de suas propostas, da coragem profética de alguns bispos que souberam interpretar o momento histórico e eclesial e até mesmo por causa das afirmações do Papa que após o início dos trabalhos da Conferência, estabeleceu contato com a realidade sofrida do povo mexicano e produziu análises corajosas que foram assumidas pelo Documento de Puebla, concedendo-lhe maior abertura social. Cf. COMBLIN, José. “Puebla: vinte anos depois”. In: Perspectiva Teológica 84 (1999), p. 201-222; DUSSEL, Enrique. De Medellín a Puebla, uma década de sangue e esperança. São Paulo: Loyola, 1981; GÓMEZ DE SOUZA, L. A. Classes populares e Igreja nos caminhos da história. Petrópolis: Vozes, 1982, p. 153-223; Id., “A Caminhada de Medellín a Puebla”. In: Perspectiva Teológica 84 (1999), p. 223-234;LIBÂNIO, João Batista. Op. Cit., p. 28-30; Id., “Significado e a contribuição da Conferência de Puebla à Pastoral na América Latina”. In: Medellín – Teologia y pastoral para América Latina 81 (mar/1995), pp. 72-107. Id., “A próxima conferência geral do episcopado latino-americano: temores e esperanças”. In: Convergência 108 (1977), p. 606-619. 184 Cf. ALESSANDRI, Hernan. O futuro de Puebla. Repercussão social e eclesial. São Paulo:Paulinas, 1982, p. 30-33. 77 presente no próprio tema central da Conferência, recebe uma dupla coordenada de tempo e espaço. A primeira sinaliza o interesse das reflexões pastorais, ou seja, o presente e o futuro. Volta-se, de modo concreto, para o fato real e urgente dos desafios que o momento presente e futuro próximo do continente apresentam. A coordenada geopolítica, por sua vez, é o continente latinoamericano. Não basta que sejam dadas afirmações corretas e gerais, válidas no seu universalismo. Importa que seja em vista da Evangelização na América Latina. Através destes critérios e opções, a evangelização na América Latina não pode se caracterizar por outro aspecto a não ser o missionário, visando antes de tudo, os setores mais necessitados e marginalizados. A Conferência de Puebla veio contribuir com novos e valiosos elementos para elaboração de uma eclesiologia que se concretiza numa opção pelo homem concreto, latinoamericano, homem situado (pobre, marginalizado, jovens e famílias). Em espírito de “comunhão e participação”, que acabou se tornando o lema da Conferência, tem como pretensão evangelizar a cultura, defender a dignidade do homem, iluminar a política, promover a justiça, educar para a liberdade, assumir a causa dos pobres e projetar a civilização do amor. Este novo modelo eclesiológico tem como eixo estruturado e básico os pobres e oprimidos de nosso mundo. A eclesiologia é vista a partir do reverso da história, a partir dos crucificados do mundo. Se o modelo do Vaticano II era o de uma eclesiologia de comunhão, o da América Latina insiste em que os pobres devem ser o centro dessa comunhão. Deste modo, os conceitos básicos do Vaticano II são reformulados a partir dos pobres185 . O tema e à realidade dos pobres na América Latina, à sua evangelização e à libertação de suas escravidões é central em Puebla, sob todos os seus aspectos, e reúne a experiência e a reflexão eclesial latino-americana186. Nesta opção pelos pobres, Puebla retoma as conclusões de Medellín, aprofundando o tema à luz da Evangelii Nuntiandi. Deste aprofundamento nascem novas luzes sobre a Evangelização, que terá que ser libertadora nas várias culturas vivas 185 Cf. CODINA, Victor. Seguir Jesus Hoje: da modernidade à solidariedade.São Paulo: Paulinas, 1993, p. 85. 186 Cf., especialmente os números 1134-1165 das Conclusões de Puebla. Segundo o teólogo Leonardo Boff, está opção preferencial pelos pobres, “apesar de todas as ambiguidades que possam estar associadas a Puebla, santificou a IIIa. Conferência Episcopal latino-americana e, certamente, constituirá um marco imorredouro para a ulterior história da Igreja no Continente”. Cf. “Puebla: Ganhos, Avanços e Questões Emergentes”, In.: REB 39 (1979), p.51. 78 presentes no Continente, como por exemplo, os indígenas e afro-americanos (PUEBLA, 34). “A IIIa. Conferência Episcopal volta a tomar com renovada esperança na força vivificante do Espírito a posição da Conferência de Medellín que fez uma clara e profética opção preferencial e solidária pelos pobres” (PUEBLA, 1134)187 . Puebla ressalta ainda que, tal opção pelos pobres e a identificação com eles não têm sido suficientes por parte da Igreja, tanto em extensão quanto em profundidade e em motivação de seu compromisso. A opção pelo pobre questiona a Igreja incentivando-a a uma conversão permanente e a uma purificação de seu estilo e de sua pastoral, “para conseguir identificar-se cada dia mais plenamente com o Cristo pobre e com os pobres” (PUEBLA, 1145). O teólogo Antônio Manzatto afirma que Puebla reconhece que, O caminho da evangelização passa pela promoção da dignidade humana e, portanto, o engajamento pela libertação dos pobres é um dos compromissos que se esperam da Igreja. Assim, a opção pelos pobres não é vista, simplesmente, como uma afirmação ideológica, como muitos quiserem fazer ver na época e ainda hoje, mas um componente da vida da Igreja, uma vez que a história revela ter sido sempre esse o caminho escolhido por Deus para sua revelação188 . Puebla convida a Igreja a encarnar-se nos meios populares do Continente, e justamente a isto se refere à teologia pastoral latino-americana ao falar de “Igreja dos Pobres” ou “Igreja que nasce da fé do povo”, que significa a resposta de fé das comunidades populares latino-americanas a uma Igreja enraizada no povo e que evangeliza começando pelos pobres. Contata-se uma nítida preocupação em atingir as causas estruturais da pobreza, que resulta num compromisso com os pobres e numa prática pastoral de denúncia das profundas injustiças derivadas de mecanismos opressores. Não é por acaso que tanto Medellín quanto Puebla comecem analisando a realidade humana e social latino-americana antes de falar da Igreja e da evangelização. Este modelo 187 “Essa confirmação da opção pelos pobres tornou-se mais notável pelo fato de o Documento Preparatório não ter reservado mais do que um subtítulo nas mais de duzentas páginas sobre a opção pelos pobres ou sua concretização nas CEB‟s. Ali mesmo em Puebla, os bispos de maior espírito pastoral reagiram contra o silêncio sepulcral sobre Medellín (...), e na recomposição do material a opção pelos pobres e as CEB‟s tornaram-se títulos de dois dos quatorze capítulos do documento final”. Cf. REGAN, David. Igreja para a Libertação: retrato pastoral da Igreja no Brasil. São Paulo:Paulinas, 1986, p. 158. 188 MANZATTO, Antônio. . “As primeiras conferências do CELAM”. In: Vida Pastoral 249 (2006), São Paulo: Paulus, p.6. 79 eclesiológico aspira a ser não só Igreja para os pobres, mas uma Igreja dos pobres e com os pobres189 . As CEB‟s representam o ponto gerador e explicitador desse modelo eclesial mais ligado ao povo. Quando se diz ou escreve que na América Latina a Igreja nasce do povo, não se quer dizer que seja uma Igreja contra a hierarquia, mas simplesmente que é uma Igreja que vai surgindo de setores populares que se agrupam para viver sua fé em comunhão com toda a Igreja190 . Assim, elas buscam promover a co-responsabilidade dos fiéis na ação pastoral e em relação à sua realidade imediata, numa linha libertadora. O Documento reconhece e saúda que nos dez anos após Medellín as CEB‟s se multiplicaram, amadureceram e tornaram-se focos de evangelização e motores de libertação e desenvolvimento (cf. PUEBLA, 617-657). A insistência sobre as CEB‟s tem um significado: interesse, importância do tema, preocupação, apreço, apoio. Toda essa repetição correspondeu à própria realidade das CEB‟s na América Latina, que exigia ser retomada, avaliada, assumida e projetada. Por isso o Documento de Puebla salienta algumas das dificuldades e desafios existentes para as CEB‟s, explicitando o seu lugar na estrutura eclesial e tratando de seu conteúdo doutrinal e de sua perspectiva pastoral191 . O texto de Puebla é um texto positivo em relação às CEB‟s, reafirmando claramente a importância e a opção preferencial da Igreja por elas por 189 Cf. CODINA, Victor. Op. Cit., p. 84-87. VV.AA. Os Pobres e a Libertação em Puebla, Petrópolis: Vozes, 1982, p. 194-206. Na análise está presente uma atitude de profunda solidariedade com o povo crente e oprimido e um compromisso com as causas das maiorias empobrecidas, na qual se reconhece a própria causa de Jesus. Por essa fundamentação, é que perpassa toda solidariedade com o ser humano latino-americano, a atenção à sua realidade e o compromisso com a sua libertação, presente em todas as reflexões do Documento de Puebla. Cf. VV.AA. Puebla, análise, perpsectivas, interrogaçãoes. São Paulo: Paulinas, 1979, p. 53- 65. Sobre os debates acerca dos métodos assumidos na análise da realidade ver: ANDRADE, Paulo Fernando Carneiro de. “A Conferência de Puebla”. In.: Fé e Eficácia: o uso da sociologia na Teologia da Libertação. São Paulo: Loyola, 1991, p. 89-95. 190 Id. Para Compreender a Eclesiologia a partir da América Latina, p. 191. 191 Puebla manifesta a preocupação de que as CEB‟s não sejam manipuladas por políticos (n. 98), nem percam seu sentido eclesial (ns. 261-263); mas, no conjunto do documento, predomina um tom de alegria e abertura (n. 16), saudando as CEB‟s como a “esperança” da Igreja. Além disso, Puebla colocou as CEB‟s em relação com os vários níveis e setores da vida da Igreja. Assim, elas aparecem como tendo implicações com os bispos e presbíteros (n. 626), em conexão com os novos ministérios (n. 97), com os diáconos (ns. 119 e 676), com as vocações religiosas (ns. 850 e 867), com a catequese (n. 983) e com o ecumenismo (n.1252). De uma forma especial, as CEB‟s são colocadas em relação com a estrutura da Igreja, juntamente com a paróquia e a Igreja particular (ns. 618-657). Dessa forma, as CEB‟s 80 constituírem exemplo e caminho de construção de uma Igreja que se quer comunhão e participação192 , semente de uma nova sociedade que deve ser da mesma forma. É bem verdade que o Documento prefere salientar a característica eclesial das CEBs, contudo não está ausente seu aspecto de compromisso social de transformar o mundo e sua qualidade de manifestação do amor preferencial da Igreja pelos pobres. De modo que essa experiência eclesial do nosso Continente se sentiu estimulada, apoiada e incentivada pelas orientações pastorais dos bispos. Enfim, Puebla constituiu, acima de tudo, um forte desafio à criatividade, ao compromisso e a fidelidade de nossa Igreja latino-americana. Mais que um texto, é um acontecimento eclesial. É com certeza, fruto da vida e da caminhada desta Igreja a partir do Vaticano II e especialmente de Medellín193 . Mas foi também e sobretudo, o resultado de uma ação nova e criadora do Espírito, que abre a Igreja para as novas realidades e exigências pastorais. Com os textos e a recepção de Puebla, iniciou-se o momento de relançamento de toda a Igreja para empreender a missão de ser evangelizadora no sentido pleno do termo, que implica o anúncio da salvação e libertação integral do ser humano, bem como o envolvimento deste, no duplo movimento de conversão pessoal e de transformação das estruturas. Deste anseio surgem compromissos e pistas de ação pastoral que têm como ponto fundante a participação e comunhão de todos. Nesta perspectiva pode-se afirmar então a atualidade desta reflexão e a necessidade de se buscar horizontes mais amplos e comprometidos e não apenas assumir práticas e posturas restauradoras.

(Extraído do PDF acessado no link: https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/17426/17426_4.PDF)

Questões propostas para o grupo:

  1. Que aspectos mais fortes podemos sublinhar do texto de Comblin sobre Puebla?
  2. Que pontos comuns podem ser observados entre a proposta de Puebla e a “Igreja em saída”, apresentada pelo Papa Francisco?

Texto 3: extrato do escrito do Papa Francisco:

  1. Na Palavra de Deus, aparece constantemente este dinamismo de «saída», que Deus quer provocar nos crentes. Abraão aceitou a chamada para partir rumo a uma nova terra (cf. Gn12, 1-3). Moisés ouviu a chamada de Deus: «Vai; Eu te envio» (Ex3, 10), e fez sair o povo para a terra prometida (cf. Ex 3, 17). A Jeremias disse: «Irás aonde Eu te enviar» (Jr 1, 7). Naquele «ide» de Jesus, estão presentes os cenários e os desafios sempre novos da missão evangelizadora da Igreja, e hoje todos somos chamados a esta nova «saída» missionária. Cada cristão e cada comunidade há-de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho.
  2. A alegria do Evangelho, que enche a vida da comunidade dos discípulos, é uma alegria missionária. Experimentam-na os setenta e dois discípulos, que voltam da missão cheios de alegria (cf. Lc10, 17). Vive-a Jesus, que exulta de alegria no Espírito Santo e louva o Pai, porque a sua revelação chega aos pobres e aos pequeninos 
    (cf. Lc10, 21). Sentem-na, cheios de admiração, os primeiros que se convertem no Pentecostes, ao ouvir «cada um na sua própria língua» (Act 2, 6) a pregação dos Apóstolos. Esta alegria é um sinal de que o Evangelho foi anunciado e está a frutificar. Mas contém sempre a dinâmica do êxodo e do dom, de sair de si mesmo, de caminhar e de semear sempre de novo, sempre mais além. O Senhor diz: «Vamos para outra parte, para as aldeias vizinhas, a fim de pregar aí, pois foi para isso que Eu vim» (Mc 1, 38). Ele, depois de lançar a semente num lugar, não se demora lá a explicar melhor ou a cumprir novos sinais, mas o Espírito leva-O a partir para outras aldeias.
  3. A Palavra possui, em si mesma, uma tal potencialidade, que não a podemos prever. O Evangelho fala da semente que, uma vez lançada à terra, cresce por si mesma, inclusive quando o agricultor dorme (cf. Mc4, 26-29). A Igreja deve aceitar esta liberdade incontrolável da Palavra, que é eficaz a seu modo e sob formas tão variadas que muitas vezes nos escapam, superando as nossas previsões e quebrando os nossos esquemas.
  4. A intimidade da Igreja com Jesus é uma intimidade itinerante, e a comunhão «reveste essencialmente a forma de comunhão missionária».[20]Fiel ao modelo do Mestre, é vital que hoje a Igreja saia para anunciar o Evangelho a todos, em todos os lugares, em todas as ocasiões, sem demora, sem repugnâncias e sem medo. A alegria do Evangelho é para todo o povo, não se pode excluir ninguém; assim foi anunciada pelo anjo aos pastores de Belém: «Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo» (Lc2, 10). O Apocalipse fala de «uma Boa Nova de valor eterno para anunciar aos habitantes da terra: a todas as nações, tribos, línguas e povos» (Ap 14, 6).

«Primeirear», envolver-se, acompanhar, frutificar e festejar

  1. A Igreja «em saída» é a comunidade de discípulos missionários que «primeireiam», que se envolvem, que acompanham, que frutificam e festejam. Primeireiam– desculpai o neologismo –, tomam a iniciativa! A comunidade missionária experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor (cf. 1 Jo4, 10), e, por isso, ela sabe ir à frente, sabe tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos. Vive um desejo inexaurível de oferecer misericórdia, fruto de ter experimentado a misericórdia infinita do Pai e a sua força difusiva. Ousemos um pouco mais no tomar a iniciativa! Como consequência, a Igreja sabe «envolver-se». Jesus lavou os pés aos seus discípulos. O Senhor envolve-Se e envolve os seus, pondo-Se de joelhos diante dos outros para os lavar; mas, logo a seguir, diz aos discípulos: «Sereis felizes se o puserdes em prática» (Jo 13, 17). Com obras e gestos, a comunidade missionária entra na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se – se for necessário – até à humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo. Os evangelizadores contraem assim o «cheiro das ovelhas», e estas escutam a sua voz. Em seguida, a comunidade evangelizadora dispõe-se a «acompanhar». Acompanha a humanidade em todos os seus processos, por mais duros e demorados que sejam. Conhece as longas esperas e a suportação apostólica. A evangelização patenteia muita paciência, e evita deter-se a considerar as limitações. Fiel ao dom do Senhor, sabe também «frutificar». A comunidade evangelizadora mantém-se atenta aos frutos, porque o Senhor a quer fecunda. Cuida do trigo e não perde a paz por causa do joio. O semeador, quando vê surgir o joio no meio do trigo, não tem reacções lastimosas ou alarmistas. Encontra o modo para fazer com que a Palavra se encarne numa situação concreta e dê frutos de vida nova, apesar de serem aparentemente imperfeitos ou defeituosos. O discípulo sabe oferecer a vida inteira e jogá-la até ao martírio como testemunho de Jesus Cristo, mas o seu sonho não é estar cheio de inimigos, mas antes que a Palavra seja acolhida e manifeste a sua força libertadora e renovadora. Por fim, a comunidade evangelizadora jubilosa sabe sempre «festejar»: celebra e festeja cada pequena vitória, cada passo em frente na evangelização. No meio desta exigência diária de fazer avançar o bem, a evangelização jubilosa torna-se beleza na liturgia. A Igreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da liturgia, que é também celebração da actividade evangelizadora e fonte dum renovado impulso para se dar.

Extraído de “Exortação Apostólica” Evangelii Galdium, nn. 20-24, cf. link: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html#I._Uma_Igreja_%C2%ABem_sa%C3%ADda%C2%BB

 

Questões propostas ao grupo:

1.Que marcas mais fortes podem ser indicadas do que o Papa Francisco chama de “Igreja em saída”?

2.Como nossas comunidades estão se organizando, em vista de uma “Igreja em saída”?