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"Reformata, Ecclesia semper reformanda est"



Alder Júlio Ferreira Calado

 

Mantidos distantes e de consciência anestesiada, em face dos problemas centrais de sua(s) Igreja(s), Católicos e reformados em sua imensa maioria, continuam a seguir acriticamente as orientações de suas lideranças, quase todas masculinas, fazendo ouvidos moucos à sua vocação de copartícipes e corresponsáveis nos processos de decisão de suas respectivas Igrejas, deixando assim de escutar o que o Espírito Santo lhes tem a dizer. Em uma de suas tantas entrevistas concedidas, o teólogo José Comblin, desta vez ao jornalista da Rádio chilena Bio Bio, perguntado sobre o que achava que devia mudar na Igreja, não hesitou em responder, em seu tom irônico e hiperbólico: "todo"...  Nas linhas que seguem, é justamente este ponto que ousamos destacar.

 

As considerações que seguem, embora se destinem mais diretamente à Igreja Católica Romana, podem estender-se, em alguns pontos, a outras Igrejas Cristãs.

 

Um rápido olhar ao que se passa cotidianamente em nossas Igrejas é suficiente para nos darmos conta das manifestas disparidades presentes na Igreja Católica no que concerne, inclusive às relações de gênero. A esse respeito diversas vozes profetas se têm pronunciado, não faltando a de alguns cardeais. Um deles, Carlo Maria Martini, em sua última entrevista, não hesitou em afirmar que a Igreja Católica se encontra atrasada em 200 anos (Cf. 

https://www.corriere.it/cronache/12_settembre_02/le-parole-ultima-intervista_cdb2993e-f50b-11e1-9f30-3ee01883d8dd.shtml)

 

Há 50 anos atrás, mais precisamente durante a penúltima e a última sessões do Concílio Vaticano II (1962-1965), ao presidir a uma daquelas sessões, o cardeal belga Leo-Jozef Suenens ousou pedir aos padres conciliares que olhassem para seu lado (de um lado e de outro) e perguntou-lhe onde estavam as mulheres que correspondem à metade da Igreja… (Cf:

https://www.toscanaoggi.it/Vita-Chiesa/L-altra-meta-del-Concilio )

Como em todo legado humano - de avanços e de retrocessos, de conquistas e de reveses -, também do acervo judeu-cristão podemos recolher frutos de vida ou de morte, Vem-nos à memória, no momento, um trecho do Livro do Profeta Jeremias, mais precisamente  a narrativa de sua vocação: “, Olha, ponho-te neste dia sobre as nações, e sobre os reinos, para arrancares, e para derrubares, e para destruíres, e para arruinares; e também para edificares e para plantares.” (Jr 1,10). Algo semelhante também podemos dizer em relação ao Povo de Deus da Antiga e da Nova Aliança, bem como à Igreja em sua caminhada. Com efeito, ao revisitarmos sua trajetória podemos extrair de seu baú coisas admiráveis e outras nem tanto. Do mesmo baú, nós podemos retirar a bela experiência de vida das primeiras comunidades cristãs: de solidariedade, partilha fraterna, recolhendo de cada um o que cada um pode oferecer, e, ao mesmo tempo, distribuindo a cada qual, conforme suas necessidades.  Da mesma tradição, podemos, com alegria destacar o testemunho de figuras expressivas - a beleza de um Francisco de Assis e de uma Clara de Assis. O compromisso com o Evangelho testemunhado pelos Valdenses e pelas Beguinas. Ao mesmo tempo, desta tradição, podemos retirar coisas desagradáveis, correspondentes a muitos contratestemunhos apresentados pela mesma Mãe Igreja. Buscando resumir a extremo, podemos dizer que um dos maiores contratestemunhos tem a ver com sua instituição em forma de Estado. 

 

Eis uma longa e desafortunada história de contratestemunhos observáveis ao longo de sua história, durante séculos, e perdurando até ao presente. Durante a realização do Concílio Vaticano II, graças à amizade de Dom Helder com o Papa Paulo VI, que se conheceram antes de ele se tornar papa, Dom Helder teve a bendita iniciativa de sugerir ao Papa iniciativas tais como: deixar sua residência no Vaticano e ir morar numa residência mais simples; ousar afastar vários elementos pomposos da Igreja-Estado, entre outras. Certa vez, o Papa Paulo VI dirigiu-se a Dom Helder, solicitando que lhe entregasse por escrito essas e outras sugestões. Tempos depois, Dom Helder recebeu como resposta que suas sugestões eram preciosas, mas estavam fora do alcance do Papa, dado o peso extraordinário de sua estrutura.

 

Outro Episódio, do qual é protagonista O próprio Dom Hélder Câmara, remete-nos a um filme documentário, intitulado "o santo Rebelde", acerca do próprio Dom Hélder. Já no fim do referido documentário, aparece, legendada na tela, a narrativa de um de seus sonhos. Nele, Dom Hélder dizia ter sonhado que o Papa enlouquecera, e começava a atear fogo no Vaticano, adentrando o banco do Vaticano, saía com sacos de dinheiro e, do Alto da janela, distribuindo todo esse dinheiro na intenção dos pobres. Dirigindo-se aos diplomatas ali instalados, deles se despedia, pedindo que voltassem para seus respectivos países e assim por diante... No finalzinho desta narrativa, é ainda do próprio Dom Hélder o seguinte comentário acerca do sonho: "que cristãos somos nós, que para dizer a verdade, recorremos ao sonho... Mais de 50 anos passados, é a mesma Igreja Católica abençoada com a chegada do Papa Francisco, cujo testemunho tem sido amplamente reconhecido como alguém que tem feito muita diferença, na sombria história da igreja católica, a medida que, quase sete anos após Assunção de suas funções, não se cansa de chamar a igreja a conversão, não se limitando a dizer isto com palavras, mas principalmente pelo seu exemplo, pelas suas atitudes, percorrendo como profeta Missionário todos os continentes, bem como também por meio de seus escritos, dos quais “a Alegria do Evangelho e a Laudato sì” correspondem a sua mais densa mensagem Profética. Em que Pese este denso testemunho, muito pouca coisa tem mudado na velha estrutura eclesiástica. Seu formato de Estado segue muito pouco tocado. Sua forma de organização continua apresentando-se por meio da cúria Romana, dos Dicastérios, das nunciaturas, das estruturas diocesanas e paroquiais, sem alterações significativas, à vista. Refletindo sobre esta estrutura que segue sendo quase imutável, não obstante a tentativa feita durante a realização do Concílio Vaticano segundo, realizado entre 1962 e 1965, e apesar da tentativa feita na votação e aprovação de alguns de seus 16 documentos finais, inclusive a Constituição “Lumen gentium” e a constituição “Gaudium et Spes”, para citar apenas estes dois exemplos, a centralidade na condução da igreja e de suas decisões segue sendo A Hierarquia, em especial a Cúria Romana e os bispos em vez do Povo de Deus, como consta da ”Lumen gentium”. De lá para cá, tantas outras importantes iniciativas foram realizadas, sempre em busca de pôr em prática as decisões conciliares referindo-se a colegialidade, a participação dos leigos e leigas, ao enxugamento de sua pesada estrutura, e mesmo assim, muito pouca mudança podemos observar. Não nos esqueçamos, inclusive, de que durante estas décadas, tivemos momentos privilegiados, tais como o da realização da segunda conferência Episcopal latino-americana, realizada em Medellín, na Colômbia, em 1968 e a terceira Conferência Episcopal latino-americana, realizada 11 anos após, isto é, em 1979, no México. Momentos extraordinários de esperança e de busca de mudança na igreja católica, em especial no intenso chamamento a sua conversão à causa Libertadora dos pobres. Mesmo assim de lá para cá, mais de meio século se passou, e as estruturas eclesiásticas seguem rígidas com poucas alterações. Numa das raras iniciativas de caráter Pastoral- Profético foi o que passou a ser chamado de “Pacto das Catacumbas”, no qual cerca de 40 participantes, entre bispos, arcebispos e Cardeal e outros padres conciliares, num texto memorável, composto de treze pontos, comprometiam-se, de volta as suas respectivas dioceses, espalhadas por vários países dos cinco continentes, à abdicarem de serem reverenciados com  o pomposo tratamento de Excelências, a deixarem seus Palácios episcopais, indo morar em casas simples, mais perto do Povo, bem como sobretudo a passarem a levar uma um estilo de vida modesto. Com certeza, foi enorme o impacto desta iniciativa, realizada a menos de um mês do encerramento da última sessão do Concílio Vaticano Segundo tal foi o seu impacto que na realização tanto da conferência de Medellín, quanto na realização da conferência de Puebla, o pacto das catacumbas teve importante influência sobre o episcopado Latino Americano e sobre outros seguimentos da igreja católica. 

Por ocasião das comemorações dos 50 anos do mesmo pacto das catacumbas, foram produzidos livros e documentários sobre este acontecimento. Um deles teve a forma de um vídeo, no qual se ouviam algumas figuras originárias deste pacto das catacumbas. Um deles, Dom Antônio Batista Fragoso, Bispo de Crateús, Ceará, expressava seu sentimento acerca do pacto das catacumbas, destacando tratar-se de uma tentativa, por parte de seus signatários, de sublinhar a vocação da igreja católica a acolher e a apoiar a causa Libertadora dos pobres. Já o Concílio Vaticano Segundo havia destinado um lugar aquém do desejável. Este mesmo Bispo reconhecia que o Concílio Vaticano segundo muito havia avançado no que diz respeito ao diálogo com a modernidade, tendo-lhe, porém, faltado tratamento semelhante em relação a causa dos pobres. 

Subscrevendo as palavras de Dom Fragoso, mais de meio século depois, entendemos, por outro lado, oportuno registrar o quê, mesmo em relação a modernidade, muitas lacunas persistiram, nos próprios documentos conciliares. uma delas prende-se a questão da mulher na igreja. A este respeito, devemos lembrar que apenas 23 mulheres, das quais 10 religiosas e 13 leigas, foram convidadas, já nas últimas sessões de 1964 e 1965 a participarem como ouvintes das sessões conciliares. Há de se convir que 23 participantes ouvintes, no universo de mais de 2500 masculinos, não representam propriamente um fato extraordinário, para se dizer o mínimo. Ainda assim, vale destacar a coragem profética de alguns participantes do Concílio Vaticano segundo inclusive um que chegou a presidir algumas das aulas conciliares. Tratava-se do cardeal belga Leo Josephe Suenens, do qual relatamos o episódio. Tomando em conta esses registros, com alguns avanços e diversas lacunas, é que cuidamos, nas linhas que seguem, reafirmar enfaticamente a necessidade e a urgência de Profundas mudanças na na organização estrutural da Igreja Católica Romana. Vários aspectos, inclusive o ligado a sua estrutura Imperial, herdada do Império Romano, com base estatal ainda hoje funcionando são, com efeito, muitas as mudanças a serem empreendidas. Concentramo-nos, todavia, apenas em um aspecto: o lugar das mulheres na igreja, ou seja a necessidade e urgência de se repensar um sentido das relações de gênero, ao interno da Igreja Católica Romana. 

Neste sentido, ao final da sessão de encerramento da nona semana teológica Padre José comblin, realizada em outubro do ano passado, por sugestão de algumas uma das palestrantes, e acolhimento caloroso da maioria daqueles participantes, decidiu-se trabalhar o tema das mulheres na igreja, na realização da décima semana Padre José comblin. Também por esta razão, buscamos focar mais detidamente aspectos desta questão desafiadora.

 

 

Por uma igreja renovada também nas relações de gênero

 Tal como tudo o que é humano, também a igreja (Católica ou Reformada) é continuamente chamada a renovar-se, a reconhecer e buscar superar seus próprios limites. Neste sentido, a Igreja Católica (e as demais cristãs) tem um longo caminho a percorrer, se sente verdadeira discípula-missionária de Jesus de Nazaré, que veio “não para ser servido, mas para servir”. Instituída, como vem há séculos, desde o Imperador Constantino (século IV), assumindo a forma de um Estado, não sinaliza fidelidade ao Seu Mestre, mas, antes, se rende aos caprichos do poder de uns poucos sobre o conjunto dos membros da Igreja, assumindo, como acima mencionado, território próprio, chefes distantes do povo, estrutura financeira pomposa (Banco do Vaticano), sistema judiciário orientado pelo seu famigerado  Direito Canônico, estrutura diplomática (Nunciatura) semelhante ao de outros Estados, além de outros elementos organizativos, tais como Dioceses e Paróquias (aludindo a uma estrutura do Império Romano).

Tendo em vista a complexidade e a extensão dos elementos a serem tomados em conta, neste processo de renovação, no presente item, cingimo-nos apenas aos aspectos concernentes às relações de gênero ao interno da Igreja Católica, mesmo sabendo de suas conexões orgânicas com tantos outros elementos a serem igualmente objeto de mudança.

Tratamos, em seguida, de compartilhar alguns pontos e questionamentos, no sentido de buscar contribuir com o enfrentamento exitoso deste desafio.

Partimos da própria condição humana na qual Jesus se incarnou, tornando-se partícipe das circunstâncias históricas, bem como de nossas angústias, alegrias, lutas e esperanças que todos experimentamos, ao longo do processo de humanização. Ao irmanizasse tão radicalmente, Jesus nos  acena e nos convida a seguirmos seu exemplo, nas relações do dia-a-dia, envolvendo também as relações de gênero. Neste sentido, compartilhamos algumas perguntas, do tipo:

- O que nos dizem os Evangelhos sobre o modo como Jesus atuava no meio de sua gente, ao percorrer os caminhos e as aldeias da Galileia?

- Em sua vasta intinerância pelas estradas da Galileia, de quem Ele se acompanhava? Somente de homens? Quantas mulheres sempre o acompanharam, bem além de sua mãe, de Maria Madalena, de Marta e Maria e de tantas outras?

- Que papel mulheres e homens seguidores de Jesus desempenhavam, na distribuição das tarefas e serviços, durante Sua missão itinerante?

- E nas primeiras comunidades cristãs, nas contínuas reuniões e encontros de comemoração da Ceia do senhor, como se dava a organização destes momentos, inclusive no que se refere à bênção dos alimentos e sua distribuição, sua partilha?

- Onde está escrito, nos textos neotestamentários, que cabia somente a homens abençoar a Ceia do senhor, ou mesmo presidir, com exclusividade?

- Onde encontrar fundamento sólido para a defesa de argumento, segundo o qual somente a varões coubesse a tomada de decisões relativas ao conjunto das comunidades?

- Terá sido esta uma iniciativa inspirada na Tradição de Jesus de Nazaré ou, antes, na tendência crescente, sobretudo desde o século IV, com a intervenção do Imperador Constantino, de se conferir privilégios a alguns homens (o clero), em detrimento do conjunto de membros das comunidades cristãs?

- Como comprovar a consistência deste modo secular de proceder, desde o espírito fraterno e de partilha legado por Jesus e pelas comunidades primitivas?

- E o que dizer com relação a tantos avanços que, pela animação do próprio Espírito do ressuscitado, se fizeram e vem se fazendo ao longo de nossa história?

- Como justificar, em pleno século XXI, à luz de tantas mudanças positivas observáveis em nosso mundo, no que diz respeito às relações de gêneros, de etnia, de geração, e tantas outras, que teimemos em seguir praticando o sexismo, o racismo, a gerontocracia e outros vícios evangelicamente insustentáveis?

- No que toca mais explicitamente às estruturas internas da Igreja Católica Romana, como justificar que suas decisões centrais, tomadas nos mais variados campos (administrativo, disciplinar, jurídico, litúrgico, pastoral, ministerial, etc., etc., etc.?) continuem sendo privilégio de um percentual mínimo da parcela do Povo de Deus componente da mesma Igreja Católica Romana?

Por outro lado, faz-se urgente compreender o longo tempo (talvez abusivo) que se vem tomando, sem que iniciativas  a altura da necessária retificação de tal rumo e de tal modo de organizar-se, venham sendo tomadas. Não esqueçamos as vozes proféticas que, há mais de cinquenta anos, vêm clamando nesta direção. Em especial, as mulheres, as mais diretamente afetadas por tal estrutura androcêntrica. Neste sentido, convém especial atenção a múltiplas iniciativas que as mulheres – leigas e religiosas – vêm apresentando há décadas, especialmente por meio de sua reconhecida contribuição às pesquisas teológicas, particularmente no campo da teologia feminista.

Esta contribuição merece ser tomada mais a sério, eis que, não raramente, figuras masculinas, representativas da estrutura eclesial, cometem deslizes, dando inclusive a entender que tenha havido um processo de inclusão crescente das mulheres na Igreja, quando sabemos que quase todas essas iniciativas (concessões) estão longe de alcançar seus justos reclamos. Elas não se contentam com uma participação figurativa, mas exigem respeito a sua condição de mulher, a sua condição de católicas, ao seu direito de decidirem, junto com os homens da mesma Igreja, sobre os rumos e a forma de organização do conjunto de Católicas e Católicos.

João Pessoa/Olinda 05 de janeiro de 2020.