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Alder Júlio Ferreira Calado


A Arte, em suas diferentes expressões, também se revela como catarse revolucionária. A Arte, qualquer que seja sua forma, nos encanta, nos humaniza, nos torna pessoas mais leves, nos reanima, nos faz criativos, dá sentido ao nosso  convier. Sem o exercício de alguma forma de linguagem artística, ao contrário, sucumbimos ao processo de desumanização: facilmente nos esclerosamos, tornamo-nos insensíveis às dimensões fundamentais da vida. A este respeito, o prof. Ivandro da Costa Sales, a justo título, costuma lembrar um conhecido dito, relativo à antiga Grécia, acerca de tempos tenebrosos vividos pelos seus habitantes ( cito-o de memória, sem precisão) : “A vida salvou a Grécia, graças à beleza da arte”.

Com efeito, vários dos bons clássicos  e contemporâneos não se cansam de aludir ao relevante lugar ocupado pelas diferentes formas de Arte no processo de humanização. Em diversas de suas páginas, Karl Marx chamou a atenção sobre a dimensão humanizadora das Artes. Em seus “Manuscritos Econômico-Filosóficos”, por exemplo, ele deplorava as condições desumanas de trabalho, a que o Capitalismo submete os trabalhadores, a ponto de não lhes permitir sequer a condição de  apreciarem e fruírem uma obra artística, como uma bela pintura.

Mesmo sabendo, por outro lado, que sendo a Arte expressão do humano - e, portanto, também, podendo ser usada a favor da dominação (por exemplo, um romance, uma novela, uma poesia também podem expressar relações de dominação), aqui ressaltamos o potencial libertário das diferentes manifestações artísticas, mais especificamente, as canções populares. 

Múltiplas se mostram as funções exercidas pelas diferentes manifestações artísticas ao longo do processo de humanização uma foto traz de volta situações de grande significação histórica, familiar, comunitária, pessoal… Um filme, por exemplo, ajuda sobremaneira a reavaliar determinados episódios ou memsmo períodos históricos, Um romance, uma poesia, um conto tem a magia de nos transportar a circunstâncias mais inesperadas e comoventes. O caso da música não é tão diferente. As canções populares de rebeldia e de exaltação da liberdade expressam bem a função de encorajamento à luta, à resistência. Assim nos sentimos, ao ouvirmos, por exemplo, a Marselhesa, a “Internationale”, canções de rebeldia que animam povos de vários continentes, inclusive da América Latina e do Brasil.

Hinos e canções povoam o imaginário libertário das classes populares, nos mais diversos tempos e lugares.

As canções de rebeldia atravessam séculos. Fazem parte da história humana, em todos os períodos. Na chamada Idade Média os clamores  dos “de baixo” se propagavam pelos campos e comunas. Combinando letras e melodias (inclusive melodias relativas a cânticos sacros), os Goliardos - um espécie de “hippies” do Medievo - peregrinavam por campos e aldeias e comunas, a expressarem seus protestos contra as mais diversas formas de opressão de que eram vítimas grupos diversos daquela sociedade. A este respeito, vale a pena (re) visitar o denso livro do saudoso Prof. Maurice Van Woensel “Carmina Burana”. Não eram apenas os Goleardos a expressarem seus protestos, suas sátiras contra os “donos do poder”  de então. Nesta época, também resultaram célebres os chamados movimentos pauperísticos, tais como os Valdenses e as Beguinas, entre outros. A quem interessar possa, sugiro acessar o ”link”: http://consciencia.net/o-perfil-instituinte-do-movimento-das-beguinas-na-baixa-idade-media/ 

Especialmente a partir do século  XVIII com o ascenso da Revolução Industrial, na Europa Ocidental e com a Independência dos Estados Unidos,tem lugar crescentes movimentos populares de protesto contra as condições de vida e de trabalho das classes populares, culminando com a eclosão da Revolução Francesa. Este quadro sócio-histórico se acha bem representado, sobretudo, na letra e na melodia do Hino Nacional da França, mais conhecido como a Marselhesa, do qual citamos o seguinte trecho: 

 

“ Contra nós se ergue o estandarte sangrento da tirania

 Vocês estão ouvindo o bramido desses ferozes soldados

 Vindo, pelos campos até nós, 

 Querendo degolar nossos filhos e nossas companheiras?

 Resistam, cidadãos! Organizem-se! Vamos à luta! “

( Trecho do Hino Nacional da França, mas conhecido como A Marselhesa )



Em condições sócio-históricas semelhantes, mas impregnadas de nuanças próprias, ao menos quanto ao grau de protagonismo e de consciência crítica dos “de baixo”, prosperaram, desde a segunda metade do século XIX e primeiras décadas do século XX, lutas sociais de grande envergadura, das quais a “Internationale” constitui uma representação emblemática. Desta famosa canção ( a Internationale) destacamos o seguinte trecho:

 

“De pé, oh vítimas da fome

 De pé, oh famélicos da terra

Da idéia a chama já consome

A crosta bruta que a soterra

Cortai o mal pelo fundo!

Se nada somos de tal mundo 

Sejamos nós, oh produtores!

Bem unidos façamos

Nesta luta final

Uma terra sem amos

A Internacional!

 

( … )

 

O crime do rico a lei o cobre

O Estado esmaga o oprimido

Não há direitos para o pobre

Ao rico tudo é permitido

À opressão não mais sujeitos!

Somos iguais todos os seres

Não mais deveres sem direitos

Não mais direitos sem deveres!”

 

( A Internacional)

 

Trata-se apenas de duas canções, num vastíssimo leque de tantas outras, a exemplo do que se pode conferir, acessando-se o link:

https://www.youtube.com/user/PchanKingOfGETs/videos

 

Ainda antes do surgimento das chamadas pastorais sociais (CIMI, a CPT, PJMP e outras), vale rememorar algumas canções próprias de um dos movimentos sociais populares mais expressivos dos anos 60. Trata-se das ligas camponesas, atuam principalmente no Nordeste, a partir do Engenho Galiléia, no município de Vitória de Santo Antão, em Pernambuco, espalhando-se por outros estados da região e também para além da região as ligas camponesas, sob a liderança de figuras tais como Francisco Julião, João Pedro Teixeira e Elizabeth Teixeira, para citarmos apenas três figuras emblemáticas deste movimento, tiveram uma duração relativamente breve, de 1954 a 1964, quando foram perseguidas pela ditadura Empresarial militar que se abateu sobre o povo brasileiro, a partir do golpe civil militar de 1964 uma canção muito conhecida dos militantes das ligas camponesas, em suas manifestações e em suas caminhadas, diz o seguinte: 

 

"Já chega de tanto sofrer 

Já chega de tanto penar

a luta vai ser tão difícil

na lei ou na marra

nós vamos ganhar."

 

Convém, desde logo, fazer uma advertência. Como sói acontecer nos diferentes campos de saberes, também no universo artístico, a leitura, a decifração e a interpretação resultam sempre relativas, sobre vários aspectos as mensagens contidas nas diferentes linguagens da arte comportam elementos por vezes indecifráveis, pelo menos do ponto de vista de seus respectivos autores e autoras ainda assim, importa reconhecer o esforço reiterado, feito pelo seus apreciadores e apreciadoras, no sentido de colher em algum tipo de recado neste sentido, a contextualização sócio-histórica pode - e na verdade se torna, quase sempre - um bom caminho de buscar entender ou de decodificar, ainda que relativamente, certas mensagens ali contidas de modo concreto, também no que diz respeito às canções de rebeldia, importa sempre situá-las e data-las, sob pena de leituras equivocadas ou o que é pior, da tentação de aplicar essas mensagens, de modo acrítico sem se tomar em conta cada contexto histórico específico por exemplo, parte expressiva das canções populares expressando resistência rebeldia comportam escolhas não raramente extremadas, isto é admitindo ou mesmo recomendando recursos à insurreição e à resistência armada, escolhas sempre merecedoras de respeito às gerações que as tomam, sem que isto implique reedição acrítica por outras gerações, em outras situações históricas.

 

  

 

O efeito organizativo, formativo e mobilizador dos cânticos, no caso das organizações da Igreja na “Base”



Como acima anunciado, restringimo-nos, a seguir, a focar algumas canções populares mais conhecidas das Pastorais Sociais, relativas à “ Igreja na Base”.  

 

Justamente ontem, 10 de dezembro, ao celebrarmos 71 anos desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos, celebrarmos a memória de um grande Bispo profeta, Dom Antônio Batista Fragoso, cujo Centenário começa a ser celebrado, cuidamos de exercitar também a memória das canções populares de resistência, vinculadas às pastorais sociais, priorizando as últimas décadas. A Declaração Universal dos Direitos Humanos enfrenta, ainda hoje, retrocessos deploráveis, inclusive no Brasil. Recentes dados do IBGE, combinados com os do Relatório da ONU, atestam o crescimento da desigualdade entre nós, além de retrocessos em diversos outros índices, de modo a suscitarem o clamor dos empobrecidos, das classes populares, que também podem ser escutados por meio das canções de resistência. 

 

Como as canções de resistência próprias das pastorais sociais impactaram e ainda impactam o imaginário e as lutas de resistência popular! Todo um cancioneiro de grande relevância a ser visitado. Uma dessas canções de resistência e de luta situa-se no período de resistência contra a ditadura empresarial militar. Eis algumas de suas estrofes: 

 

“No deserto, antigamente

O Povo de Deus marchou

O Moisés andava na frente

Hoje, Moisés é a gente

Quando enfrenta o opressor." 

 

Um aspecto a ressaltar na letra deste Cântico, tem a ver com o processo organizativo e formativo das classes populares: de um lado, acentua a importância do coletivo, do comunitário, como meio de fortalecimento das bases, diante do enfrentamento das forças adversas; por outro lado, no que toca ao processo formativo, sublinha o papel da memória histórica, como instrumento de formação crítica e de compromisso com a causa dos “debaixo”. 

 

A segunda metade dos anos 60, no mundo, na América Latina e no Brasil, ao mesmo tempo em que endurecia o regime militar, em especial a partir ir da decretação do famigerado AI-5, de 13 de dezembro de 1968 ensejando o fechamento ainda maior e o aumento da repressão ditatorial sobre cidadãos e cidadãs, cristãos e não-cristãos, foi também neste período que as pastorais sociais - as pequenas como comunidades religiosas inseridas no meio Popular, as CEBs, outras pastorais sociais - configurando o quê depois seria conhecido como "a igreja na base". Também tivemos um intenso período de resistência popular resistência também expressa pela via da música, das canções executadas por essas organizações da Igreja Católica e de outras Igrejas Cristãs, reunidas no CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs), daí resultando muitas iniciativas de resistência e de solidariedade ao povo dos pobres uma das canções emblemáticas deste período foi um Cântico característico da Campanha da Fraternidade já em meados dos anos 70, intitulada "eu vim para que todos tenham vida ". Várias de suas estrofes tinham um expressivo chamamento à resistência e à solidariedade a partir do estribilho "eu vim para que todos tenham vida, que todos tenham vida plenamente”, várias estrofes se seguiam, nesta direção. Uma delas dizia assim:

 

“Eu passei fazendo o bem

Eu curei todos os males

Hoje és minha presença

Junto a todo sofredor

Onde sofre o teu irmão

Eu estou sofrendo nele.”

 

Toda a canção chamava fortemente a um compromisso com a vida, em especial da vida do povo dos Pobres, fortemente ameaçada pela repressão da ditadura ao mesmo tempo, a canção cuidava de encorajar a solidariedade, a resistência, a partilha, aos cuidados mais próximos com as vítimas da repressão isto se faz presente, também, em outra estrofe:

 

“Entreguei a minha vida

Pela salvação de todos

Busca, salva, reconduze

Quem perdeu toda esperança

Onde salvas teu irmão

Tu me estás salvando nele.”



Uma vez mais, é possível observar-se a intenção organizativa e formativa a incidir sobre a canção busca-se abrir e Despertar a consciência social dos participantes, instigando a um compromisso solidário com a vida, especialmente a vida das pessoas injustiçadas do povo dos pobres. modo pedagógico, o cântico inspira e hindus a superação do individualismo, do cada um por si, ao tempo em que anima as pessoas a comunhão, a união de forças, ao cuidado das pessoas necessitadas.

 

Já em meados dos anos 80, as pastorais sociais, movimentos e serviços animados pela igreja na base viviam tempos de todos, de intensa efervescência. Neste período, as pequenas comunidades de religiosas inseridas no meio Popular, , a CPT, a pjmp, serviços tais como a comissão justiça e paz, os centros de defesa dos direitos humanos e outras organizações de base, ligadas à igreja católica, animavam iniciativas e experiências múltiplas, também por meio de cantos populares por exemplo, por ocasião do VI Encontro Intereclesial das CEBs, realizado em Goiás, um desses cantos traduzia bem o horizonte perseguido, bem como os caminhos indicados. Trata-se do conhecido “Baião das CEBs”, do qual citamos o seguinte trecho: 

 

"Somos gente nova vivendo a união 

Somos povo semente de uma nova nação ê, ê 

Somos gente nova vivendo o amor 

Somos comunidade, povo do senhor, ê, ê 

Vou convidar os meus irmãos trabalhadores 

Operários, lavradores, biscateiros e outros mais 

E juntos vamos celebrar a confiança 

Nossa luta na esperança de ter terra, pão e paz, ê, ê”

 

 Vale sublinhar, neste Cântico, a preocupação fundamental característica daquela época: em vez de lutar por um novo Estado, toda a ênfase recaia sobre a busca da construção de uma nova sociedade. Esta característica merece especial reflexão crítica, principalmente porque, a partir dos anos 90, a tendência tem sido a de se lutar por um novo Estado, distanciando-se da perspectiva de uma nova sociedade.

 

Em resumo, entendemos que nos resta um longo caminho a percorrer, sobretudo tendo consciência da profundidade dos estragos provocados por esta era de obscurantismo econômico, político e cultural, sob a égide da mais nefasta hegemonia do capitalismo financeiro, atuando nas mais diferentes esferas da realidade, inclusive no plano educativo. A esse respeito específico, o mais recente relatório do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), ao divulgar dados pertinentes ao Brasil, faz uma revelação assombrosa: a de que de cada dez estudantes, quatro não sabem distinguir entre um fato e uma opinião. Nossa esperança reside nas forças sociais de mudanças, nossas organizações de base, a medida que sejam capazes de retomar, em novo estilo, o trabalho de base, seja do ponto de vista organizativo, no plano formativo, e no compromisso de luta.





João Pessoa, 11 de dezembro de 2019.