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Alder Júlio Ferreira calado 

 

Francisco, o atual Bispo de Roma, completará, no próximo dia 13 de Março, 7 anos, desde assunção de suas funções. Eis que, de lá para cá, protagonizando verdadeira reviravolta, no exercício do ministério petrino, comum pastor e missionário Itinerante, a serviço do Reino de Deus e sua justiça. Diversas são as marcas que, neste ainda breve período, ele tem deixado, tanto ao interno da Igreja Católica Romana, quanto à vista de pessoas e grupos de outras confissões religiosas e  de tantas outras comunidades ou pessoas que não professam qualquer credo. Durante esses 7 anos de um pontificado itinerante, eis que Francisco tem percorrido os cinco continentes, por meio de suas viagens apostólicas, alcançando um total de 33 visitas apostólicas, à terra e às gentes de todos os continentes. Durante este período, também revelou-se como um mensageiro de justiça e de paz, por meio de escritos emblemáticos, tais como, por exemplo: “Evangelii Gaudum” (A alegria do Evangelho”, “Laudato Sí” (Louvado Seja, Meu Senhor), “Amoris Laetitia” (Alegria do Amor), “Christus Vivit” (Acerca do Sínodo sobre os Jovens), “Querida Amazônia”. Tem-se revelado um artífice extraordinário na tecedura de relações de unidade na diversidade entre cristãos e não-cristãos, a começar pelo seu reconhecido empenho na busca de unidade entre católicos ortodoxos e católicos romanos, entre reformados e católicos, sem esquecermos seu precioso trabalho a serviço da causa libertadora do povo dos pobres. Digna de nota também é sua iniciativa de enfrentamento do desafio das Profundas e crescentes desigualdades sociais, para o quê não tem medido esforços de convocar representantes dos movimentos sociais de todo o mundo, para encontros especiais, realizados ora em Roma, ora em Santa Cruz de La Sierra (Bolívia), já o tendo feito várias vezes. Igualmente digna de reconhecimento e de admiração tem sido sua participação nas jornadas da Juventude, pelo mundo. Mais recentemente, tem se empenhado na convocação de sínodos de bispos, sempre com o propósito de assegurar um amplo programa de universalização de políticas sociais, de modo a garantir uma vida digna ao conjunto dos humanos, em harmonia com o Planeta. A este respeito, lembra o economista Ladislau Dowbor, segundo qual pesquisas recentes dão conta de que o total de riquezas detidas por um ínfimo percentual de bilionários, fosse dividido pelo conjunto dos habitantes do mundo, por certo resultaria uma renda per capita ou familiar bastante expressiva. Ladislau Dowbor também lembra que se o PIB Mundial, correspondendo a 86 trilhões de dólares, fosse dividido pelo total de habitantes da terra, resultaria em uma renda per capita de 15000 Dólares.Igualmente tocante é acrescentar, da parte deste mesmo economista, que algo similar aconteceria em relação a divisão do PIB do Brasil, correspondendo a 6 trilhões e 500 bilhões, uma vez dividido pelo número de habitantes do Brasil, também resultaria em uma renda per capita correspondendo a 15000 reais. Daí nossa convicção de que já não é razoável aceitar a fome, a penúria, a miséria, o desemprego alarmante e outras mazelas sociais , afetarem enormes parcelas da população mundial, incluindo a do Brasil, quando se sabemos  que há sim, recursos suficientes para garantir uma vida digna ao conjunto dos humanos, em respeito também a dignidade do planeta.

Neste sentido, um outro caminho, há de  ser pensado no Encontro "Economia de Francisco",  com a participação de convidados e convidadas de várias partes do mundo, ora tratando de enfrentar os desafios mais emblemáticos a impactarem jovens de todo mundo (sínodo sobre os jovens), ora convocando bispos, representantes de povos originários e tradicionais da Amazônia, além de especialistas sensíveis a causa da vida socioambiental. Não bastassem tais iniciativas, eis que, ainda no primeiro semestre deste ano, estão agendados dois compromissos de grande relevância: o primeiro, a realizar-se de 26 a 28 de Março próximo, e o segundo a ter lugar em Roma, em maio vindouro. Enquanto o primeiro trata de encontrar novos caminhos em direção a uma economia a serviço da humanidade, em harmonia com o planeta, a segunda cuida do desafio de uma educação voltada mais profundamente para os compromissos com a justiça e a paz. 

Nas linhas que seguem, limitamo-nos a fornecer Uma Breve notícia, seguida de algumas considerações, acerca do Encontro denominado "Economia de Francisco ", já ultimando seus preparativos, mostrando Ampla receptividade e expectativa, pelas gentes de todo o mundo, em especial pelos jovens.

O principal objetivo deste Encontro pode ser resumido na busca comum de identificar e de analisar criticamente os principais fatores dos graves impasses econômicos que vem infelicitando o atual cenário Mundial, afetando imensas parcelas de nossa população, bem como propor novos caminhos, novos paradigmas de uma economia a serviço da humanidade e do planeta. 

Nesse sentido, o Papa Francisco está a convidar personagens de reconhecida contribuição na área econômica, inclusive figuras homenageadas com o prêmio Nobel, personalidades de vários países, tais como: Amartya Sen, Muhammad Yunus, Vandana Shiva, Jeffrey Sachs e Ladislau Dowbor. Além desses convidados, o encontro está aberto a um acompanhamento de jovens vindos de vários países, em busca de manifestar seu apoio e seu empenho em participar, ao seu modo, da busca de uma economia a serviço dos humanos e dos demais viventes do planeta. A este respeito, recomendamos o acesso ao link http://francescoeconomy.org

Com efeito, a economia que vem sendo hegemônica tem resultado em trágicas consequências, afetando fortemente parcelas e mesas da população mundial, cada vez mais empobrecidas e mergulhados na penúria, enquanto uma ínfima minoria de figuras bilionárias concentra renda e riquezas enormes e crescentes, em suas mãos. As desigualdades sociais não cessam de alcançar patamares extremos, Graças há uma impiedosa concentração de riquezas e patrimônios em mãos de muito poucos. Estima-se que 206 bilionários brasileiros figuram na lista dos mais ricos do mundo, concentrando em suas mãos riquezas correspondentes a maioria da população. Trata-se, em geral, de agentes financistas, cujas riquezas provém de sucessivas aplicações financeiras , completamente parasitárias, inclusive em paraísos fiscais, em detrimento das atividades produtivas, incapazes de gerar empregos, de pagar impostos, produtos destinados às necessidades de consumo das mais diversas áreas, úteis aos mais diversos segmentos da população. 

Democratizar a economia consiste em um dos primeiros e urgentes objetivos. Já não se tolera que parcelas imensas da humanidade continuem a ter ameaçada sua sobrevivência, quando se constata uma acumulação sem precedentes de capitais fictícios, por parte de uma pequena minoria de financistas parasitários. Os estados nacionais, componentes do sistema capitalista, hoje controlado pelo seu segmento mais parasitário - o segmento financista - já não se mostram mais capazes de controlar as perversidades da acumulação protagonizada pelos grandes financistas, em escala internacional. De supostos controladores das decisões econômicas, os estados nacionais se mostram, cada vez mais, subordinados as estratégias financistas, que se revelam impotentes em relação ao controle minimamente público, visto que as decisões de políticas econômicas se acham concentradas no poder das corporações financeiras.

Outra grande preocupação, por parte dos organizadores do Encontro em questão: a necessidade e a urgência de uma tomada de decisão mais democrática, isto é, requerendo uma ampla participação das populações do mundo acerca deste tipo de economia, e em busca de uma economia viável, mas que seja socialmente justa e ambientalmente sustentável. Tal urgência de participação popular no repensar o espectro geral da economia em vigor, se faz ainda mais premente quando prepostos, agentes ou representantes do próprio mundo financista emitem declarações de reconhecimento (insuspeito, portanto!) de que já não é mais razoável a continuidade desse tipo de economia. Declaração recente, firmada por figuras diretamente ligadas aos mais altos postos do setor financista, atestam seu reconhecimento da necessidade de mudança deste tipo de economia. Bem antes deles, tornou-se célebre o economista Joseph Stiglitz, do Banco Mundial, trazendo uma posição bastante crítica do modo de funcionamento da economia em vigência. o próprio Joseph Stiglitz é um dos convidados a participarem das reflexões críticas sobre a atual economia, quando do encontro da "Economia de Francisco". 

Democratizar, portanto, a economia e organizar ampla participação popular, em busca da superação da extrema concentração de renda e de riquezas, bem como do chamamento à ampla participação popular constituem objetivos do Encontro "Economia de Francisco", aos quais outros devem ser acrescentados, a exemplo da urgência de formulação e implementação de políticas sociais de acesso universal gratuito. Com efeito, a renda e as riquezas acumuladas pelo setor financista são largamente parasitárias, à medida que fundadas, em larga escala, em capital fictício, em fetiche. Isto implica, por exemplo, na necessidade de taxação dos fluxos financeiros, isto é, por meio de uma simbólica taxação das riquezas depositadas nos paraísos fiscais, redundaria em uma soma capaz de superar diversos problemas estruturais, sofridos por amplas parcelas de nossa população. Estima-se que, nos paraísos fiscais, circulam em torno de vinte trilhões de dólares, e, no entanto, uma simples decisão resultante da Conferência ambiental em Paris, em 2015, de acordo com a qual os países ricos devem contribuir com cem bilhões de dólares, a serem investidos no combate à emissão de CO2 e outros gases poluentes ao ambiente, não tem prosperado...

Em Assis, também se debaterá sobre a possibilidade de se assegurar uma renda básica ao conjunto dos cidadãos e cidadãs do mundo, também do Brasil Outro. que anima uma forte mobilização dos jovens e dos adultos , inconformados e comprometidos com a construção de caminhos alternativos aos oferecidos pela atual barbárie do capital financeiro pela falta a ser trabalhada em Assis, no debate sobre “a Economia de Francisco”, ainda terá lugar a proposta de que todo o serviço financeiro, em escala mundial, seja igualmente democratizado, isto é, submetido a um controle público, uma vez que se trata de recursos correspondentes ao bem comum da humanidade. Para tanto, resta fundamental interferir democraticamente no controle ou no monopólio da mídia corporativa ou comercial, que detém odioso monopólio informativo, havendo casos, como no Brasil, em que uma meia dúzia de famílias detém o controle geral da informação, desta forma atuando antes como um partido político a serviço das forças econômicas que a financiam do que um assumir verdadeiro de sua responsabilidade e de seu compromisso com a verdade jornalística. 

Igualmente digno de nota é o item referente à necessidade de se discutir e de deliberar sobre uma proposta educativa que viabilize, de forma didática, ampla discussão sobre a economia. Deste modo, a “Economia de Francisco” se mostra verdadeiramente comprometida com os processos democráticos de decisão, incluindo o debate público sobre a economia, uma vez que a economia dominante, acaba sendo acessível a um pequeno círculo de especialistas, pois se usa e se abusa de um jargão, de um “economês” acessível a um pequeno grupo de privilegiados, ficando longe e fora do alcance do grande público. Neste sentido, é de justiça destacar figuras como o economista Ladislau Dowbor, do qual fornecemos links de alguns de seus vídeos, nos quais, bem como em seus numerosos textos acadêmicos, inclusive em seu mais recente ensaio, trata de utilizar um linguajar simples, profundo, claro e objetivo, acessível ao comum dos mortais (confira sua página acima mencionada).

Eis aqui apenas algumas pinceladas do programa ou da pauta a ser trabalhada em Assis, de 26 a 28 de Março deste ano, no grande Encontro sobre a “Economia de Francisco”, sobre a qual fornecemos também a lista de temas a serem debatidos, ao longo desses dias:

1 – Democracia econômica

2 – Democracia participativa

3 – Taxação dos fluxos financeiros

4 – Renda básica universal

5 – Políticas sociais de acesso universal, público e gratuito

6 – Desenvolvimento local integrado

7 – Sistemas financeiros como serviço público

8 – Economia do conhecimento

9 – Democratização dos meios de comunicação

10 – Pedagogia da economia

 

Não é à toa o crescente interesse despertado pelo encontro da “Economia de Francisco” sobre um crescente número de jovens, boa parte já tendo formalizado sua inscrição, e outros tantos ainda tentando fazê-la. Todos a Assis, nas trilhas de Francisco, por uma economia a serviço da humanidade e do planeta! 

 

João Pessoa, 17 de fevereiro de 2020