Alder Júlio Ferreira Calado

Os períodos de crise, em um dos quais estamos profundamente mergulhados, também nos propiciam momentos de preciosa inspiração. Mais uma vez, recorremos ao exercício da memória histórica. Desta feita, centrando nossa atenção no baú medieval, especialmente destacando o período entre o século XII e o século XV/inícios do XVI, de modo a cavoucar elementos intuitivos de caráter revolucionário, não apenas para a época revisitada, mas ainda para os tempos de hoje.

Àqueles que, em relação à Idade Média ainda mantém uma avaliação negativa, esperamos poder trazer alguma surpresa, inclusive no tocante há vários elementos intuitivos que, sobretudo a baixa Idade Média, pode nos oferecer, diante dos dilemas incomensuráveis que nos cercam, nas primeiras décadas do Século XXI. A Idade Média, com efeito, especialmente nos últimos séculos, oferece-nos uma sucessão de movimentos populares, axiologicamente inspirados no Sagrado, revelando-se um baú extraordinário de atitudes de rebeldia, de criatividade e de busca de condições concretas em vista de um novo modo de produção do exercício das relações do Sagrado, condizentes com seus ideais libertários.

Neste baú de rebeldia, vamos encontrar, já a partir do século XII, o despertar de uma consciência utópica, progressivamente contraposta àquela ordem, a começar do exemplo de Gioacchino da Fiore, que vai inspirar o movimento joaquinita e, logo em seguida, a Francisco de Assis e seus companheiros. Nos séculos seguintes, vamos deparar-nos com o espírito de rebeldia de movimentos populares tais como os Valdenses, Albigenses, Apostólicos (“Apostolici”), as Beguinas, Anabatistas, este já na irrupção do Renascimento, da Idade Moderna, injetando mais energia aos grandes nomes da Reforma, tais como Lutero e Thomas Müntzer.

Nas linhas que seguem, cuidamos, primeiro, de situar concisamente o período histórico deste baú de memória que pretendemos revisitar. Em seguida, tratamos de destacar as principais contribuições oferecidas pelos movimentos pauperísticos, tanto no que diz respeito à busca de respostas aos profundos estragos do modelo de sociedade então vigente - modo de produção feudal -, quanto em relação às admiráveis intuições profético-revolucionárias semeadas por algumas figuras de referência deste período, particularmente as figuras de Gioacchino da Fiore, Gerardo Segarelli, Fra Dolcino e Thomas Müntzer. Por fim, cuidaremos de sublinhar elementos inspiradores que podemos recolher para enfrentamento exitoso dos impasses de nossa desafiante atualidade.  

 

Traços dos cenários do Baú medieval que estamos a visitar

A chamada Baixa Idade Média corresponde a um período de densos acontecimentos, dos mais impactantes de nossa história. Com efeito, ao examinarmos o que acontece por exemplo, entre os séculos XII e XV/inícios do XVI, vamos observar uma expressiva sequência ou coexistência de movimentos populares a manifestarem uma notável força de contestação e de potencial inovador, seja no plano macrossocial, seja, em especial, em luta contra estruturas eclesiásticas de então. Diversos são, portanto, os movimentos populares cristãos de insurgência contra aquela ordem feudal e eclesiástica, apresentando forte oposição profética às elites eclesiásticas e ao modelo de sociedade então vigente.

Uma das dificuldades encontradas no trabalho de pesquisa sobre movimentos populares de resistência, não somente atinentes ao Medievo, tem a ver com a escassez de fontes e de registros escritos pelos próprios protagonistas, uma vez que quase todas as fontes disponíveis são da lavra dos vencedores. Isto também se dá em relação ao período em exame. 

Já por volta de 1135 (não se tem data precisa), surge a figura de Gioacchino da Fiore.

 

Traços do legado de Gioacchino da Fiore

Tem-se o ano de 1135 como data do nascimento de Gioacchino da Fiore, em uma pequena cidade (Celico), na Calábria, região Meridional da Itália. Seu percurso existencial comporta períodos de incerteza de dados biográficos. Importa, porém, aqui ressaltar alguns elementos mais relevantes de sua biografia de forma bastante sucinta. Desde cedo, revela-se alguém vocacionado para o campo contemplativo. Dedica-se, sob vários aspectos, a cumprir sua vocação contemplativa, o que lhe permite aprofundamento místico, combinado com relevante tempo de estudos, principalmente, no terreno da teologia da história. Seus estudos bíblicos, feitos inclusive em Jerusalém, onde passou um período de sua vida, propiciam-lhe condições favoráveis a um exame mais acurado da sagrada escritura, especialmente atendo-se às concordâncias entre o Velho e o Novo Testamentos, o quê, por sua vez, vai contribuir para a formulação de suas conclusões interpretativas neste terreno. A principal marca de sua contribuição deve-se à sua extraordinária competência de hermeneuta. Aí é que ele vai se revelar dotado de um dom especial na arte interpretativa do Antigo e do Novo Testamentos, sempre visando a acentuar suas concordâncias. Como um refinado teólogo da história, na esteira de emblemáticos teólogos, a exemplo de Agostinho, Gioacchino da Fiore avança consideravelmente, sobretudo no campo prospectivo, com base nos seus diligentes estudos da sagrada escritura, ao tempo em que se mantém como perspicaz observador dos desafios do seu tempo. Inspirado em uma interpretação trinitária, concebe a história da salvação como portadora de três tempos fundamentais ou três Eras: a Era do pai, a Era do filho e a Era do Espírito Santo, demonstrando já aí o seu apreço ao mistério da Trindade. Percebe-se que o foco de Gioacchino da Fiore, sem qualquer desprezo pela figura da Segunda Pessoa da Trindade (o Filho), passa de uma interpretação cristocêntrica a uma interpretação pneumatocêntrica (a Era do Espírito Santo). A Era do Pai corresponde à da antiga aliança, caracterizada pelo Temor, enquanto a Era do Filho é marcada pela prevalência da Graça, ao tempo em que, por sua vez, a Era do Espírito Santo caracteriza-se pela prevalência da Liberdade. Gioacchino da Fiore cuida, então, de desenvolver uma Teologia da história, inspirando-se também nos valores próprios do Apocalipse de São João.

Na Era do Pai, vigiam a lei, o temor, o conhecimento dos velhos, tendo como emblemas o inverno, a noite, a água e as ervas; a Era do Filho vem caracterizada pela graça, pela sabedoria, pela prevalência dos jovens, tendo como símbolos a primavera, a aurora, a espiga e o vinho; quanto à Idade do Espírito Santo, virá marcada por um tempo de liberdade, do amor, da amizade, tendo as crianças como referência-mor, enquanto seus emblemas estarão representados pelo verão, pela colheita, pelo óleo.

Gioacchino da Fiore, por meio de sua genial capacidade interpretativa, mostrava-se um teólogo marcado pela Esperança, razão por quê cuidava de argumentar, com base na própria escritura, as condições históricas a que os humanos deveriam dar-se, fazendo a sua parte.

Importa sublinhar que, já no final do século XII, desponta a figura de Francisco de Assis, cuja trajetória existencial passa a exercer forte influência sobre as camadas mais pobres daquela região. A nota Marcante do legado de Francisco de Assis reside, sem sombra de dúvida, em sua radicalidade desde sua tenra juventude, nas relações conflitivas com o seu pai, rico comerciante, já se podia observar a firmeza de caráter, ao ponto de não hesitar em abandonar sua casa, despojando-se inteiramente de suas vestes, devolvendo-as ao pai, e, mantendo seu respeito e carinho para com sua mãe, escolhe o caminho da peregrinação, da pobreza, e do compromisso com a vida, em todas as suas dimensões. A Francisco, graças ao seu testemunho, foram reunindo-se alguns amigos, de modo a formar um núcleo consistente de um movimento que se estenderia progressivamente. Todavia, tal crescimento se fez, em grande medida, A revelia da firme posição do próprio Francisco, a medida que este sempre se opôs a uma flexibilização do estilo de vida. No entanto, Graças a estratégias utilizadas por importantes figuras representativas da alta hierarquia, teve lugar uma crescente cooptação de parte expressiva do movimento Franciscano, culminando com sua institucionalização, objetivo não previsto nem alimentado pelo seu fundador. Em verdade, Francisco tinha os olhos fixos na figura de Jesus de Nazaré, Profeta itinerante, a peregrinar pelas aldeias da Galileia, servindo de exemplo maior a Francisco de Assis e a um pequeno grupo de companheiros seus que seguiram assumindo o evangelho, em sua radicalidade.

Consta da biografia de Francisco de Assis o episódio em que ele compartilha um estranho sonho, em que Jesus lhe solicitava empenho em reconstruir a Igreja, que ele interpretou, num primeiro momento, como se tratando da Igreja de São Damião. Não tardou, porém, a retificar sua interpretação: Jesus lhe pedia para reconstruir Sua Igreja, em farrapos por conta do contra testemunho da alta hierarquia… Sua vida busca testemunhar a fidelidade a este pedido, ainda que de modo distinto (não elegeu o confronto direto) de outros movimentos que nele próprio se inspiraram.

É assim que, no mesmo século, surgem outros grupos que se constituíram em movimentos palperísticos, denunciarem vigorosamente os desvios do alto clero, seu estilo devasso, sua corrupção, seus compromissos com os grandes deste mundo, sucumbindo à traição aos valores do Evangelho. 

 

Elementos da trajetória de Gerardo Segarelli

Dentre vários destes movimentos pauperísticos, surge também um que era formado por figuras inspiradas em Gioacchino da Fiore, a exemplo de Gerardo Segarelli, em conjunto com outros irmãos e irmãs, a darem sequência aos trabalhos e atividades missionárias do grupo por ele animado.

Desde jovem, Segarelli sentia-se chamado à vida religiosa, chegando a ser admitido, por breve tempo, por um convento, mas diante das contradições, possivelmente por ele denunciadas neste ambiente, não tardou a ser excluído deste meio. Ele, porém, continuava sentindo-se vocacionado à missão, e, desfazendo-se dos seus bens, distribuindo-os aos pobres, passou a fazer parte de um grupo que tinha em  Gioacchino da Fiore sua principal inspiração. A ele se associaram vários companheiros e companheiras, motivados pela mesma causa, isto é, o propósito de viverem e pregarem os valores correspondentes a vida apostólica, e ao modo de organização das primeiras comunidades cristãs. Por esta razão, o movimento por ele protagonizado passou a ser chamado de “Apostólicos” (em latim: “apostolici”). Este grupo se entregou a uma vida de oração e pregação, no estilo recomendado pela Sagrada Escritura - atividade proibida a leigos e leigas. Seguia de aldeia em aldeia, de vila em vila, pregando o Evangelho - tornou-se conhecida a frase "penitência agite" (façam Penitência), a anunciar o Reino de Deus e sua justiça, contrapondo-se aos poderosos deste mundo e aos poderosos também daquela igreja. Denunciava abertamente os malfeitos da nobreza e do clero, mergulhados numa vida devassa, de pompas, de luxo e de exploração das camadas populares. Tal atividade suscita, inevitavelmente, a ira dos poderosos do mundo e da igreja, que passam a organizar contra este movimento pauperístico e tantos outros, crescente perseguição, inclusive por meio de cruzadas e da inquisição, até conseguir assassinar os últimos membros deste grupo.

Por outro lado, muito próximo desta data, eis que surge a figura de Fra Dolcino que, não hesitou em dar continuidade aos trabalhos missionários do profeta itinerante Geraldo Segarelli. Dolcino segue, portanto, as mesmas trilhas do movimento dos Apostólicos, sempre em companhia de vários outros seguidores, entre os quais figurava Marguerita de Trento, comparável ao papel exercido, no relato evangélica, por Madalena. Dolcino era um animador de reconhecidas qualidades, tanto no que diz respeito à sua formação teológica, quanto a sua capacidade organizativa de resistência às crescentes perseguições de que foi vítima também o mesmo grupo.

 

Na trajetória biográfica de Fra Dolcino e de seus companheiros e companheiras de movimento - referimo-nos ao movimento dos "Apóstolos" -, destacamos, de início, sua resoluta postura de dar prosseguimento àquele movimento, tão logo se deu o grande revés sofrido por Gerardo Segarelli e seus companheiros. Quase que instantaneamente, Dolcino, fiel discípulo de Segarelli, empenhou-se em tornar a ele e seus companheiros ainda mais vivos do que antes. Assim, trata de cercar-se de outros companheiros e companheiras, com o objetivo de prosseguir as atividades daquele movimento, percorrendo aldeias e vilas, a testemunharem os valores do Reino de Deus, inspirados nos relatos do Novo Testamento, especialmente nos Evangelhos e no Livro do Apocalipse de João. Profetas itinerantes, nas pegadas do mestre da Galileia, seguem, firmes e fortes, a semearem as sementes da Boa Nova aos pobres, aos cativos, aos aflitos, aos construtores da justiça e da paz, na mesma linha de outros movimentos pauperísticos e suas respectivas lideranças ou figuras de referência, e exemplo dos os seguidores e seguidoras de Francisco, Gioacchino da Fiore, Valdo, de Segarelli.

Com uma esperança viva e vivificante no espírito do ressuscitado, firmes em sua fé, empenhados em fazerem o bem, Fra Dolcino e seus companheiros e companheiras, seguiam seu caminho, contra todo tipo de barreira, de perseguição postas pelas poderosas forças adversárias, atuando em uma enorme frente formada por representantes da nobreza, grandes comerciantes, forças militares financiadas pela nobreza e também  pelos bispos e cardeais, pelo Papa Bonifácio VIII, recorrendo ao terror da inquisição. Os setores dominantes tiveram que participar de três batalhas, para, somente na última, levarem a melhor diante dos Apostólicos. tal é o impacto positivo semeado por eles, seja durante aquele tempo, seja séculos após. São reconhecidamente fortes os testemunhos de simpatia, de solidariedade, de apoio ético prestados por diversas figuras do mundo eclesial e da sociedade civil. Uma dessas personagens, solidária aos membros e a liderança dos "Apóstolo", se acha, ninguém mais, ninguém menos do que Dante Alighieri , que manifesta sua simpatia a figura de Dolcino, inclusive fazendo dele registro em seus famosos versos da Divina Comédia. 

 

A fé revolucionária de Thomas Müntzer

Em uma vasta lista de reformadores, o nome de Müntzer corresponde talvez ao nome mais controvertido, dada a intensidade de sua dedicação à causa libertadora dos pobres em seu tempo. Nasceu em Stolberg, na Alemanha, por volta de 1490. Teve um percurso existencial bastante abreviado, no tempo, contrastando, porém, com com uma intensidade extraordinária de suas atividades voltadas tanto aos estudos mais aprofundados da Sagrada Escritura, quanto de seu compromisso ético-político às vítimas mais frágeis do sistema feudal, do qual se revelava cúmplice, a alta hierarquia eclesiástica de seu tempo.

 

Com efeito, falava forte em todas essas figuras de teólogos reformadores. O próprio Lutero, de início emitiu sinais de simpatia com a posição de Thomas Müntzer. À medida, porém, que cresciam seus vínculos com os príncipes da época, de quem recebia proteção e acolhida, eis que Lutero passa a se opor a posição de Müntzer. Ainda assim, mesmo no auge de sua dissidência recíproca, Lutero não deixava de reconhecer aspectos de justiça na posição dos camponeses animados por Müntzer. Prova disto, por exemplo, é a carta que Lutero faz divulgar, endereçada aos lados em oposição. Na primeira parte da mesma carta, Lutero faz questão de reconhecer os motivos dos conflitos, provocados inicialmente pelas grandes injustiças cometidas pela nobreza e pelo clero, enquanto também reconhecia o direito dos camponeses a reivindicarem em tratamento justo. Sucede que, como vivia sobre a proteção dos príncipes e da nobreza não hesitou também em acusar a Müntzer e aos camponeses, por estarem organizando ações armadas contra a nobreza e o alto clero.

De uma perspectiva sociológica, podemos dizer que a posição de Thoma Müntzer se fundamentava em um conjunto de passagens bíblicas, do Antigo e do Novo Testamento, em especial do livro de Daniel, Capítulo segundo, dos Profetas, dos Atos dos Apóstolos e do Apocalipse de João. A inspiração desta leitura inspirada na era do Espírito Santo, como se percebe, sem deixar de tomar em conta os textos bíblicos fundantes, ousa ir além dos mesmos, contrastando assim com a tese Luterana, fundada no princípio "sola scriptura", isto é nada mais além nem do que está escrito na Bíblia. Para Thomas Müntzer, - bem como  para figuras como Gioacchino da Fiore, e outros líderes dos movimentos pauperísticos do medievo -, não fazia sentido pretender-se alterar as velhas estruturas eclesiásticas sem combater vigorosamente a corrupção, a luxúria e a devassidão do alto clero.

Na esteira de Gioacchino da Fiore, do próprio Francisco de Assis e de personagens tomadas e guiadas pelo Espírito de liberdade, também Müntzer rompe com a suposta dicotomia entre "a Cidade de Deus" e a “Cidade dos Homens". Na formulação agostiniana, Deus - o Deus anunciado e testemunhado por Jesus de Nazaré - é o mesmo de toda a humanidade, de cristãos e não-cristãos, de crentes e não-crentes. A defesa da Justiça não pode e não deve, conforme a posição de Thomas Müntzer, restringir-se ao plano estritamente eclesial. deve estender-se igualmente às relações macrossociais. Diferentemente de Lutero, que se move acossado pelo poder dos Príncipes, Müntzer trata, do mesmo modo, todos os que se opõe como obstáculo à justiça, sem a qual não brota a paz. Como lembram os profetas, a paz é fruto da Justiça". 

 

Especificamente, acerca do movimento AnaBatista, com o qual se pode observar uma empatia de ação com as ideias de Thomas Müntzer, podemos destacar valores fundamentais que animavam este Movimento. tratava-se de uma iniciativa de fecunda rebeldia contra aquela ordem feudal, bem como a todas as forças que, direta ou indiretamente, lhe dessem sustentação, como é o caso do alto clero, profundamente mergulhado em graves vícios de Simonia (venda de indulgências, corrupção, vida devassa, desprezo dos pobres, aliança com os ricos). Os Anabatistas, por meio de sua grade axiológica, fundada em fontes bíblicas, especialmente no Novo Testamento, põem em destaque a ação do Espírito Santo no mundo. Mostraram-se mais afinados com as interpretações antes levantadas pela teologia da história, concebida por Gioacchino da Fiore. Em vez de travarem um movimento de rebeldia apenas contra a ordem eclesiástica então dominante, como o fazia Lutero (cf. Teses 21, 27, 28, 82, por exemplo), empenhavam-se igualmente no enfrentamento de toda a ordem feudal, a tal ponto de defenderem a separação entre estado e igreja. Propugnavam, com ênfase, pela propriedade social dos bens de produção, ainda que sob uma nomenclatura própria daquela época, sem as ferramentas conceituais mais tarde apuradas por outros revolucionários.



Vale a pena conferir um programa correspondente às principais queixas/reivindicações dos Anabatistas contra aquela ordem feudal, por meio dos “12 artigos fundamentais”:

O primeiro artigo. Primeiramente, é nossa humilde petição e rogo, assim como nossa vontade e resolução que de hoje em diante tenhamos poder e autoridade de tal maneira que cada comunidade possa eleger e nomear um pastor. Que tenhamos também o direito de depô-lo no caso de conduta inapropriada. Este mesmo pastor eleito nos ensinará o Santo Evangelho pura e simplesmente, sem nenhum agregado, doutrina ou mandamento elaborado pelo homem. Porquanto o ensino continuo da Fé verdadeira nos conduzirá a implorar a Deus que, através de sua Graça, a Fé cresça dentro de nós e chegue a ser parte integrante de nós. Pois se sua Graça não obra em nós, permaneceremos para sempre na carne e no sangue, o que equivale a nada, já que a Escritura claramente ensina que só através da Fé verdadeira chegaremos a Deus. Só através de sua Graça poderemos alcançar a gloriosa misericórdia. Por isso, um guia e um pastor é necessário e na maneira descrita está fundado nas Escrituras. 

 

O segundo artigo. Em segundo lugar, assim como um justo dízimo está estabelecido pelo Antigo Testamento e confirmado no Novo [Testamento], nós estamos dispostos e desejosos de pagar o justo dízimo de grão. A palavra de Deus estabeleceu que dar está em conformidade a Deus e que na distribuição aos seus, os serviços de um pastor são requeridos. Queremos que no futuro, quem quer que seja o preboste eclesiástico designado pela comunidade, ele recolherá e receberá este dízimo. Deste dízimo, proverá ao pastor eleito por toda a comunidade uma subsistência decente e suficiente, com o justo parecer (ou com o conhecimento) da comunidade em sua totalidade. O remanescente eventual será distribuído entre os pobres do lugar, segundo o exijam as circunstâncias e a opinião geral. Se ainda restar um pouco, será guardado por alguém que tenha que abandonar o país por causa da pobreza. Far-se-á também provisão deste excedente para evitar que se agrave (?) com impostos a terra aos pobres. No caso de que um ou mais povos se tenham comprometido voluntariamente a pagar o dízimo em razão da penúria e que cada povo tenha tomado essas medidas de maneira coletiva, o adquirente não sofrerá perdas, mas queremos que se chegue a um acordo apropriado para o reembolso da soma mais o investimento devido pelo povo. Mas a aqueles que tenham adquirido direito a dízimos, não mediante a compra, senão mediante apropriação pela obra de seus ancestrais, não os será nem os deverá pagar soma alguma de agora em diante. O povo deverá aplicar o pagamento do dízimo para a manutenção do pastor, eleito como se indicou mais acima, ou para o consolo dos pobres, como assim [o] ensina a Escritura. Quanto ao dízimo miúdo, seja eclesiástico ou laico, não será pago a partir de agora, porquanto o Senhor Deus criou o ganho para sua livre utilização para o homem. Em consequência, não pagaremos no que se segue este indecoroso dízimo de pura criação humana. 

 

O terceiro artigo. Em terceiro, tem sido até agora costume para alguns de tratar-nos como se fôssemos de sua propriedade privada, o que é de se lamentar, considerando que Cristo nos libertou e redimiu a todos por igual, ao servo e ao Senhor, sem exceção, por meio do derramamento de seu precioso sangue. Assim, conforme a Escritura somo e queremos ser livres. Isto não significa que desejamos ser absolutamente livres e não estar sujeito a alguma autoridade. Deus não nos ensina que devemos levar uma vida desordenada nos prazeres da carne, senão que teremos que amar a Deus, nosso Senhor, e a nosso próximo. Nós nos conformaremos com alegria a todo isto, como Deus nos ordenou na celebração da comunhão. Não nos ordenou desobedecer às autoridades, senão antes praticar a humildade, não só com aqueles que exercem a autoridade, senão com todos. Nós estamos assim dispostos a prestar obediência a nossas autoridades, eleitas e regulares, em todas as coisas próprias que concernem a um cristão. Damos, pois, por aceito que Vós nos libertareis da servidão como cristãos verdadeiros, a menos que se nos demonstre que do Evangelho surja \ apareça que devamos ser servos. 

 

O quarto artigo. Em quarto lugar, tem sido até agora costume que a nenhum homem pobre era permitido capturar veados ou animais selvagens ou peixes das águas fluviais, o que nos parece não apenas totalmente indecoroso e pouco fraternal, senão também egoísta e contrário a palavra de Deus. Também em alguns lugares, os Superiores conservam suas presas de caça para nosso desgosto \ dissabor e grandes perdas, permitindo sem nenhuma consideração \ respeito que animais selvagens destruam nossos cultivos, que o Senhor se esforça por fazer germinar par ao uso do homem e ainda devemos sofrê-lo em silêncio. Tudo isto é contrário a Deus e ao próximo. Deus ao criar o Homem deu o domínio sobre todos os animais, sobre as aves no ar e sobre o peixe na água. Em conformidade, é nosso desejo que se um homem tem posse sobre águas, que prove com documentos suficientes que tem adquirido esse direito inadvertidamente por meio de uma compra. Nós não queremos a arrebatar-lhe por meio da força, mas seus direitos devem ser exercidos de uma maneira fraternal e cristã. Mas quem quer não possa aduzir tal prova, deverá desistir com boa vontade de sua pretensão. 

 

O quinto artigo. Em quinto lugar, parece-nos graves questões relativas ao corte de madeira, porquanto que a gente nobre se apropriou de todos os bosques para seu exclusivo uso pessoal. Quando um homem pobre necessita de madeira, deve pagar o dobro por ela. É nossa opinião, no que concerne aos bosques que a possessão de um Senhor, seja espiritual ou temporal, que, a menos que tenha sido devidamente comprado, deverá ser devolvido novamente a comunidade. Mais ainda: todo membro da comunidade será livre para procurar por si mesmo a lenha necessária para seu lar. Da mesma forma, se um homem requer madeira para usos de carpintaria, a obterá sem encargo, mas com conhecimento de uma pessoa designada pela comunidade com tal propósito. Não obstante, nenhum bosque devidamente comprado e administrado de maneira fraternal e cristã, será posto à disposição da renda comunidade. Se um bosque, mesmo aquele que tiver sido objeto de apropriação em primeira instância, tiver sido logo vendido na forma devida, a questão será dirimida com espírito amistoso e de acordo com as Sagradas Escrituras. 

 

O sexto artigo. Em sexto lugar, nossa queixa concerne aos excessivos serviços que nos são requeridos, os que se multiplicam dia após dia. Rogamos que esta questão seja apropriadamente examinada de modo tal que não sejamos duramente oprimidos, que tenham lugar considerações para conosco, porquanto que a nossos antepassados só lhes era requerido servir em conformidade com a palavra de Deus.

 

O sétimo artigo. Em sétimo lugar, de agora em diante, não mais admitiremos um senhorio que nos oprima por parte de nossos senhores e só permitiremos que eles nos exijam o que é justo e apropriado em conformidade com as palavras do acordo entre o senhor e o camponês. O senhor não deverá na sequência forçar ou pressionar por serviços ou outros deveres, sem pagamento e deverá permitir o gozo tranquilo e pacífico de suas possessões. O camponês deverá ajudar, não obstante, a seu senhor, quando for necessário e no tempo adequado, quando não lhe for desvantajoso para ele e mediante um pagamento apropriado. 

 

O oitavo artigo. Em oitavo lugar, nós somos oprimidos, e de fato muito oprimidos, por possessões que não podem fazer frente às rendas exigidas sobre aquelas. Os camponeses sofrem desta maneira perdas e estão arruinados. Pedimos aos senhores que designem pessoas honradas para estudar as possessões e fixar rendas de acordo com a justiça, de tal maneira que os camponeses não estejam obrigados a trabalhar em troca de nada, seu labor é digno de ser recompensado.

 

O nono artigo. Em nono lugar, ultraja-nos grandemente a constante promulgação de novas leis. Não somos julgados em relação à ofensa cometida, mas antes às vezes com enorme má vontade, às vezes com indulgência. Em nossa opinião, devemos ser julgados em conformidade com o antigo direito escrito e o caso deverá ser decidido de acordo com os méritos próprios do caso e não arbitrariamente.

 

O décimo artigo. Em décimo lugar, somos molestados pela apropriação, por alguns indivíduos, de prados e campos que outrora pertenceram à comunidade. Tomaremos possessão novamente, para nossas mãos em comum, dos ditos campos. Não obstante, cabe que estes campos tenham sido adquiridos conforme o direito. Quando, de maneira injusta, as terras tenham sido assim adquiridas, um arranjo\ acordo fraternal deverá ter lugar de acordo com as circunstâncias.

 

O undécimo artigo. Em undécimo lugar, aboliremos total e completamente o chamado tributo por caso de morte (Todfall). Não o sofreremos em absoluto de hoje em diante, nem tampouco toleraremos que viúvas e órfãos sejam desavergonhadamente roubados contra a vontade de Deus, com violação da justiça e do direito, como sucedeu em tantos lugares pela obra justamente daqueles que teriam que tê-los resguardado e protegido. Esses nos têm levado a desgraça e não têm espoliado, em que pese a ter escassos fundamentos, assim nos têm usurpado. Deus não o admitirá nunca mais, isto será radicalmente suprimido e ninguém no futuro será obrigado a dar nem pouco nem muito.

 

Em duodécimo lugar, é nossa conclusão e resolução final, que se um ou mais artigos dos que expostos não estivessem de acordo com a palavra de Deus, como nós cremos que estão, voluntariamente retiraremos tal artigo quando se prove que realmente é contrário a palavra de Deus mediante uma clara explicação da Escritura. Ou se os artigos que agora que se nos concedem (?), descobrir-se ulteriormente que são injustos, a partir deste momento ter-se-ão por letra morta, por nulos e sem efeito. Da mesma forma, se descobrirem-se novos agravantes baseados na verdade e na Escritura e relacionados com ofensas a Deus ou a nosso próximo, resolveremos reservar o direito de expô-los e pôr em prática, nós mesmos, todas os ensinamentos cristãos. Por tudo isso, rogaremos a Deus porque Ele e só Ele pode conceder-nos o solicitado. Que a paz de Cristo permaneça em todos nós. (CALDAS, Marcos J de A. Lutero, Müntzer e a Revolução do Homem Comum (1524-1525). In: Intellèctus, ano XVII, n.2, 2018, pp. 1-25. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/intellectus/article/view/39346. Acesso em 21.02.2020)



O movimento Anabatista, fortemente perseguido pelos diferentes grupos de poder dominante, conseguiu ultrapassar as fronteiras do seu tempo, alcançando, ainda que com profundas adaptações, tempos posteriores, espalhando-se por vários países e continentes.

 

Que lições recolher deste fecundo baú?

Hoje nos defrontamos com um tempo de profundo obscurantismo. Sentimo-nos mergulhados numa nave movendo-se em mar revolto. Estamos cercados de tremendos desafios, de múltiplas crises: sanitária, ecológica, econômica, política, ética... por isto mesmo, em busca de saídas, revisitando tempos tão ou mais desafiadores que o passado nos apresenta. No caso, cuidamos de revisitar, ainda que brevíssimamente, situações emblemáticas referentes ao período da Baixa Idade Média, mais precisamente o que se estende do século XII a fins do século XV e começos do XVI. Que lições podemos extrair de tal revisitação?

Em primeiro lugar, devemos estar atentos a certos aspectos de ordem teórico-metodológica. O modo comum dos movimentos pauperísticos e de suas figuras mais representativas enfrentarem, com ou sem sucesso, os dilemas do seu tempo não devem ser tomados como um ensinamento mecanicamente válido para os desafios da atualidade. Não obstante tais limites, buscamos deles recolher elementos de inspiração, de sinergia que eles nos levam. Entre os traços que cuidamos de destacar acerca de elementos propositivos relativamente úteis aos dias de hoje, incluem-se os seguintes pontos: vamos partir do elemento relativo ao Ethos comunitário que inspirou a insurgência de vários dos movimentos pauperísticos contra o establishment daquele período, isto é, do modo de produção feudal e de seus principais protagonistas, inclusive da alta hierarquia da igreja daquele período. Em que consistia este Ethos comunitário? Tinha a ver com com a convicção, de que eram movidos, de que as tentativas mais convincentes de saída para seus dilemas, passavam por um enfrentamento coletivo. Inútil pensar-se em uma resistência restrita a cada indivíduo, em separado. A sorte - para o bem ou para o mal - tinha que passar por um compromisso comunitário. Este Ethos comunitário vinha diretamente inspirado na forma de atuação do movimento de Jesus, desde sua itinerância pelas aldeias da Galileia, e depois pelo jeito de se organizar das primeiras comunidades cristãs. Sobre esta forma de organização, no Livro dos Atos dos Apóstolos, podemos encontrar trechos emblemáticos. 

Outro aspecto que podemos recolher como uma lição inspiradora para o enfrentamento dos múltiplos e complexos desafios da atualidade é a percepção de que as forças adversas, responsáveis por aquelas agruras, escândalos, luxúria, devassidão, extremo apego às riquezas em detrimento do justo atendimento às necessidades comuns, não se prendiam apenas ao domínio interno da igreja daquele período, mas principalmente à sua relação indissociável com o modo de produção então hegemônico.

Somos instados a reconhecer e mesmo assumir as potencialidades do Ethos comunitário, tanto no combate ao atual modelo de sociedade vigente, quanto nos embates em relação aos desafios eclesiásticos (em especial, as manifestações fundamentalistas) do tempo presente. Na prática, isto significa, por exemplo, retomarmos, em novo estilo, o trabalho de base, junto às distintas organizações de base de nossa sociedade, apostando cada vez mais no potencial transformador dos movimentos populares, partindo dos seus distintos núcleos, conselhos, células, círculos de cultura, ou que outros nomes tenham, sempre em conexão com suas respectivas instâncias.



Algumas sugestões de referências:



BLOCH, Ernst. Thomas Münzer; théologien de la révolution. Paris: Union Générale d'Éditions, 1975.

 

CALADO, Alder Júlio Ferreira. Memória história e movimentos sociais: ecos libertários de heresias medievais na contemporaneidade. João Pessoa: Ideia, 1999.

 

MÜNTZER, Thomas. Sermon aux princes. 1524.



João Pessoa, 23.03.2020