logo teologia nordwste

Artur Peregrino

O Grupo de Peregrinas e Peregrinos do Nordeste (GPPN), fez uma caminhada a pé, de 05 de janeiro a 02 de fevereiro de 2020, saindo de Juazeiro do Norte – CE até Recife – PE. Tinha um lema: De Cícero Romão a Hélder Camara. O objetivo foi de viver uma experiência de convivência com os pobres da terra. De quase 700 quilômetros percorridos, envolvendo os estados do Ceará e Pernambuco, recortamos um trecho, destacando o que vimos nas terras do Sertão, Agreste e Zona da Mata. Ao mesmo tempo que caminhávamos liamos o livro do padre José Comblin: O caminho: ensaio sobre o seguimento de Jesus. Seguindo a orientação do Mestre Comblin: “É urgente ir para a ‘Galileia’. Quem faz isso torna-se sinal de esperança. Qual é o lugar privilegiado da esperança? Exatamente essa Galileia” (2005, p. 25). Com essa motivação colocamos os pés na estrada.

A peregrinação perpassou a região do sertão, agreste e zona da mata, o que nos possibilitou um conhecimento mais profundo dessas regiões. No dizer de João Guimarães Rosa, mergulhamos no “sertão profundo”. Nós peregrinas e peregrinos dizemos: “mergulhamos no Nordeste do Brasil profundo”. O que encontramos?

No sertão, como em outras regiões, por falta e por corte em programas sociais, voltou a fome e o abandono do povo, deixando-o a própria sorte. Percebemos, a olhos nus, que aumentou a desigualdade social, a pobreza e a miséria. A falta de incentivos atinge sobretudo os mais jovens, que vivem sem perspectiva e esperança de arrumar um emprego. A exemplo de Natália Silva, uma jovem de 21 anos, que concluiu o ensino médio há anos, mas não tem condições de se qualificar por falta de oportunidade, o que não é oferecido pelo governo federal, que já mostrou que é inimigo da educação.

No agreste, tem-se percebido um aumento da desigualdade entre ricos e pobres e isso é percebido pelo aumento do latifúndio improdutivo. Andando pelas fazendas escutamos e vimos o aumento do gado nelore e o desaparecimento de pequenos sítios. Esse cenário ficou muito visível na região de Garanhuns. Nas palavras de sr. Gerson Fonseca, morador da cidade de Canhotinho: “A maioria das terras da região estão nas mãos dos grandes de Maceió. Por isso vemos o aumento da violência e das drogas”.

Na zona da mata o quadro é ainda mais grave por causa do “inferno verde da cana” – a monocultura da cana de açúcar. Secularmente, impõe-se uma opressão sem limites ao povo trabalhador da região. Vimos de perto os crucificados da cana. A exemplo, encontramos um trabalhador da cana, chamado de boia fria, que quando perguntamos seu nome nos respondeu: Binda. Tudo lhe foi roubado, inclusive a consciência e o próprio nome. No trecho da cidade de Escada para o Cabo de Santo Agostinho, encontramos esse jovem, aparentando 22 anos: negro, aspecto físico esquelético, olhos fundos sem brilho, sem camisa, calça em molambos, estava coberto de cinzas da palha da cana da cabeça aos pés e apenas tinha um facão na mão direita. Dialogamos um pouco, mas ele só respondia o que perguntávamos e as respostas eram curtas e diretas: você trabalha no canavial e corta quantas toneladas de cana por dia? De 4 a 5 toneladas. Quanto custa uma tonelada de cana cortada? Custa doze reais. Você é de onde? Macaparana. Aqui você fica onde? Num galpão com 54 homens. Você tem despesas e paga algum valor? Pago a alimentação e o aluguel da ferramenta. Ele nos olhou com olhos fundos, tirando a vista para a pista e passou para o outro lado, desaparecendo dentro do canavial. A partir dessa cena vivida, fizemos uma reflexão que calou fundo. O jovem Binda faz parte de um fenômeno de trabalhadores que vêm do sertão e do agreste, muitas vezes de outras cidades da zona da mata, onde há usinas falidas e o desemprego é alto. É o caso da cidade de Macaparana, município paupérrimo do interior do Estado de Pernambuco, onde o desemprego é altíssimo, tendo no seu histórico a dependência de duas famílias oligárquicas que dominam a política desde a ditadura militar de 1964, mudando sempre de nome: Arena, que passou para PDS, que se tornou PFL, que virou DEM. Binda é o tipo de trabalhador da entressafra. No geral vivem em lugares sem condições mínimas de humanidade. Alguns, de tanto trabalhar para melhorar o ganho, trabalham à exaustão chegando a ter sérios problemas de saúde. Popularmente é conhecida uma causa de morte: “trabalhou tanto que estourou o coração”. É um regime de semiescravidão, não tem outra palavra. Não é preciso irmos tão longe da chamada “civilização” para encontrarmos escravos.

A estrada nos surpreendeu pelo descuido das rodovias por parte das autoridades. Em boa parte do caminho percorrido, as banquetas eram desprovidas de cuidado. Inclusive em alguns lugares não havia acostamento porque o mato invadia a pista, sobretudo nas estradas estaduais. Foi impactante o número de cruzes que encontramos pelo caminho como também animais mortos. Em certo momento parecia que tinha acontecido uma guerra naquele local. Junte-se a isso a quantidade de lixo entulhado na beira da estrada.

Era um retrato da vida degradada a olhos nus. Do chão subia um grito de socorro da terra. De tudo vivido brotou uma indignação que se transformou em compaixão com os pobres da terra e toda natureza criada. Em todo caminho tínhamos sempre presente o texto bíblico de Mateus 9, 35-36: “Jesus percorria todas as cidades e povoados ensinando nas sinagogas e anunciando a boa-nova do Reino, enquanto curava toda sorte de doenças e enfermidades. Ao ver a multidão, teve compaixão dela porque estava cansada e abatida como ovelhas sem pastor”.