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Direita e esquerda, que se alternam hoje na gestão do poder, têm por isso bem pouco o que fazer com o contexto político do qual os termos provêm e nomeiam simplesmente os dois pólos - aquele que aposta sem escrúpulos na dessubjetivação e aquele que gostaria, ao contrário, de recobri-la com a máscara hipócrita do bom cidadão democrático - de uma mesma máquina governamental. (Giorgio Agamben)

 

Gedeon José de Oliveira

Tenho lido textos de teólogos e filósofos criticando G. Agamben, desde seu primeiro artigo no contexto da pandemia, intitulado de: Uma pergunta. O artigo Foi publicado pela UNISINOS no dia 18 de abril do corrente ano. As criticas são importantes porque revelam a importância da temática, assim como ampliam as perspectivas de interpretações. O texto de Yara Frateschi: Agamben sendo Agamben. A invenção da epidemia. (https://blogdaboitempo.com.br/2020/05/12/agamben-sendo-agamben-o-filosofo-e-a-invencao-da-pandemia/), é um dos textos mais lúcido e equilibrado até o momento nas críticas a G. Agamben. No fim do artigo, porém, algumas afirmações merecem atenção de modo que trataremos refletir no decorrer do artigo em questão.

Depois da pergunta como título do artigo do dia 18 de abril, Agamben da continuidade ao artigo enquanto questão feita a si mesmo, a saber: como foi possível que um país inteiro tenha entrado em colapso ético e político diante de uma doença?

Como reza o processo de pensar, a pergunta levantada por Agamben é tão complexa quanto às críticas a ele dirigidas em torno da temática. Será que os seus críticos em parte ou no todo consideraram a trajetória intelectual do filósofo de modo a perceber que colocando a pergunta no início da reflexão, ela traz em si mesma a metodologia onde está implícita a ideia de fenomenologia? Todo perguntar aponta para alguma coisa ao mesmo tempo em que escondem outras tantas. O objetivo da pergunta, certamente, é trazer para o debate o que se esconde por trás do que aparece e vice-versa. Se a pergunta desvela ao passo que vela alguma coisa, os textos de Agamben, de fato, são difíceis de detectar o que realmente ele deseja comunicar.

No dicionário de Foucault (2016) está escrito em palavras do próprio Foucault que nós, (se referindo aos filósofos modernos) somos alunos da escola fenomenológica. E não se trata de um fenômeno linguístico da tradição analítica fregeana e russelliana ou da tradição saussureana, mas da concepção fenomenológica da linguagem, segundo Heidegger. A fenomenologia em Heidegger permite, mediante o ato de perguntar, voltar à situação originária para refletir o presente factual que provocou a pergunta. O presente não se explica a si mesmo, mas decorre de um processo anterior marcado por continuidades e descontinuidades, de interesses e ideologias de modo a obscurecer o presente que se aparece até nós. Nesse processo os vários campos das ciências hermenêuticas agem a seu modo em torno dos fenômenos afins. O destaque dado ao fenômeno da situação ou ocasionalidade faz parte da estratégia de desobstruir o conhecimento teórico que se interpõe a experiência fática da vida. A ciência que estuda e pesquisa no campo da biologia o vírus pandêmico, determina o comportamento humano. (ética X ciência). Ora, o contagio acontece nas condições de possibilidades e não determinada ela ciência. Como as pessoas não reagem mediante afastamento social imposto pelo estado e atestado pela religião? A dor e o sofrimento que juntos apontam para morte, (vida fati) se tornam propagandas midiáticas objetivando, através da negação da vida, a administração política da população.

O medo explica o próprio medo? A ameaça de sofrer através do vírus pandêmico, explica o sofrimento? Ainda, os dados estatísticos que apontam para um futuro onde alguns vão morrer e outros não, tem a finalidade “estatistica” ou objetiva de determinar o isolamento? Nada mais biopolítico do que um futuro criado. Criando um futuro se pode dominar e determinar o corpo social negando o presente e afirmando um futuro. O medo não se explica a partir do medo mas daquilo cujo efeito é o medo, ou seja, a vida fati.

A pergunta de Agamben não se direciona para o além-mundo como pensa Yara Frateschi (https://blogdaboitempo.com.br/2020/05/12/agamben-sendo-agamben-o-filosofo-e-a-invencao-da-pandemia/), quando frisa o termo messianismo, mas aos Entes mesmo. Os Entes não têm o caráter objetivista da ontologia grega, tampouco da ciência, mas aponta para o caráter da vida fática. (Heidegger. O escândalo de Cristo. Ijui,2005, p 65).

Para Agamben, a vida é como conceito não médico-científico, mas filosófico-político-teológico, e por essa razão não pode deixar de ser tematizada pela filosofia política. Trata-se de um ensaio sobre a vida, que fragmentada historicamente se torna capturada pelo biopoder, pela biopolítica, e quando é cindida no direito pela relação de exceção que é levada atermo pelo poder soberano.

Qual o nexo entre a faculdade da fala e a faculdade da morte? Tanto a faculdade da morte quanto a faculdade da linguagem, enquanto abrem a sua morada mais própria, abrem e desvelam esta morada como já permeada desde sempre pela negatividade e nela fundada (AGAMBEN. 2006, p.10). Para Agamben, o esclarecimento entre tais faculdades passa pelo negativo. A negatividade está na definição da esfera de significado da palavra “Ser” e dos indicadores da enunciação que dela são partes integrantes. Trata-se, pois de uma reivindicação do problema da voz e da sua gramática como problema metafisico (AGAMBEN. 2006, p.11).

Assim, Agamben tematiza a vida como um problema ético em relação a metafisica. Ora, se a vida em quanto negatividade é tematizada no campo da metafísica, a crítica a tradição ontológica da filosofia ocidental passa necessariamente pela crítica da tradição ética e ao Estado. Deste modo, afirma Agamben: lógica e ética repousam sobre um único fundamento negativo e são no horizonte da metafisica, inseparáveis. A analise da pandemia e os modos de subjetivação que da pandemia decorrem, assemelha-se às mortes provocadas pela peste. A análise da peste para Foucault está associada a disciplina e ao exercício do poder e do poder decorre os modos de subjetivação. (Foucault 2009, p 188). A peste no campo da filosofia foucautiana perpassa a concepção de disciplina (vigiar e punir) vinculada ao conceito de biopoder (controle da vida biológica, o poder de decidir quem vive e quem morre, controle da população e da vida biológica). A peste por assim dizer, vai ser a experiência de um micro poder como gestão da vida. A peste possibilita o sonho de uma sociedade disciplinar.

Assim, a epidemia do Corona vírus possibilita colonizar o ambiente com determinada ordem (medo da contaminação ou morte) objetivando docilizar os corpos (aceitação da colonização justificada pelo e através do medo), as possibilidades de contágio do COVID 19 representa uma tecnologia do controle do corpo e do espaço. Agamben pergunta: porque todos aceitam o isolamento social? A questão não se refere propriamente ao isolamento, mas a passividade dos sujeitos mediante mecanismos de controle que justifica o isolamento. Deste modo os mecanismos de controle conseguem despir a vida de qualquer valor ético. A vida nua, é uma vida frágil, fraca, medrosa e, portanto suscetível a dominação. Uma vez submissa, a populaça é conduzida pela vontade dos governantes.

A igreja católica tem o discurso segundo o qual ela, a Igreja, se sustenta desde a teologia trinitária. A pergunta de Agamben é: qual o limite da essência da qual não podemos abrir mão? Vejamos como a vida é retratada no personagem, central das Memórias do subterrâneo.

Perdemos o hábito da vida a tal ponto que, às vezes, sentimos uma espécie de repugnância pela vida verdadeira, e por isso não nos agrada que no-la recordem. Chegamos a considerar a vida viva como uma tarefa, quase como um emprego, e, no íntimo, somos todos de opinião que é melhor viver pela imaginação. e segue:

 

Pelo que me respeita, não fiz outra coisa, na minha vida, senão levar até o último limite aquilo que os senhores, por covardia, não ousariam levar sequer ao meio; e, no entanto, consideram a sua covardia como prudência e querem consolar-se enganando-se a si mesmos. Por isso pode ser que eu esteja mais próximo da vida do que os senhores. Mas vejam a coisa mais de perto! Não sabemos perfeitamente o que está vivo, em que consiste e como se chama. (F. Ddostoiévski, Memorias do subterraneo, in obras completas, Rio de Janeiro: companhia Águiar Editora. 1963, vol.II, p. 661ss).

 

A vida nasce do subterrâneo. O tornar-se homem significa assumir a vida confrontando-a com as situações adversas. A vida é feita de grandes paixões e desilusoes, saúde e doença, amor e ódio. Essa tensão é levada a cabo por agamben evitando, portanto, uma teoria da vida ou uma abstração.

Em Nietzsche, a morte de deus não tem significação de um enunciado metafísico sobre a existência ou não de um ser superior. O anúncio do homem louco, “Deus está morto” (Gottisttodt), tem o significado de um abalo cósmico, de uma perda total de sentido, de toda finalidade (ARALDI. 1998, p.77). Por biopolítica, se entende a maneira pela qual, a partir do século XVIII, se buscou racionalizar os problemas colocados para a prática governamental pelos fenômenos próprios de um conjunto de viventes enquanto população. Como fazer uso racional do homem como ser vivente pertencente a uma espécie biológica? Quer dizer o que morre e desaparece. A biopolítica, intervém para estabelecer a forma de viver e sobre o como da vida para controlar a morte e as deficiências.

Cristo abraçou a cruz porque no discurso está seu destino. São Francisco abraçou o leproso porque não existe dicotomia entre o discurso sobre o amor e o amor. A igreja ao atender os decretos dos Estados se posicionou ao lado da escola, das forças armadas, enfim, a igreja institucional é um dos mecanismos de sujeição política, de modo a agir segundo a política do Estado. Agamben reflete, portanto, os mecanismos que operam para vida nua, ou seja, em torno da fragilidade, não originaria, mas numa pandemia fabricada. Na indústria mercadológica das crises, a ética dá lugar ao desespero humano com o objetivo de alimentar a ciência. Mediante atribuições científicas sobre a vida, as provas cientificas são supérfluas. Dostoiévski distingue o homem do subterraneo do homem da superfície, Heidegger distingue a autenticidade da inautenticidade, Agamben distingue a retórica governamental do bem comum da efetivação da dominação social da mesma retórica. Na libertação está a escravidão, eis o estatuto da pandemia.