logo teologia nordwste

Pe. Waldemir Santana

Estamos vivendo em um tempo que não está sendo fácil para ninguém. O número de pessoas com estresse, ansiedade de depressão é crescente. Não resta dúvida que a pandemia está provocando um sofrimento atroz em muitas famílias. O número de mortos a cada dia cresce de forma assustadora. Nessa perspectiva, como se relaciona sofrimento e morte? O sofrimento é apanágio da vida. Há aqueles que procuram exaltar o sofrimento como modo de estar mais intimamente ligado ao sofrimento de Cristo. É mister desmistificar essa concepção pois ela trás danos à vida do ser humano. O sofrimento em si é ruim, e dizer o contrário é tolice. Sendo o sofrimento uma realidade inevitável da vida, o ser humano procura livrar-se para sempre dessa realidade. Outra coisa é a pessoa viver o sofrimento como uma experiência enriquecedora e positiva. O Covid-19 irrompeu no mundo e fez eclodir a inquietação e a ameaça. Não é fácil administrar uma realidade que não esperávamos, e, no entanto, é sempre uma possibilidade aberta.

O sofrimento leva a pessoa ao sentimento de fragilidade, de impotência e desamparo e aí todas as certezas se desmancham. Destarte, o sofrimento é um sério problema para todas as pessoas, inclusive para aquele que crê. A fé não suprime as grandes questões que o sofrimento manifesta.

O sofrimento está ali sob mil formas diferentes. É o sofrimento de cada pessoa em particular, mas também de setores da humanidade que sofrem uma dor comum como as do que padecem de fome. O que fazer diante do sofrimento provocado pela pandemia? Como podemos perceber, falar do sofrimento não é fácil, pois é um mal que desorienta e silencia. A dor da perda de um ente querido vítima do Covid-19, é uma realidade que não priva ninguém, não existindo, portanto, uma resposta humana que a explique totalmente.

Diante do sofrimento, a reação humana é sempre decisiva para sua existência. Em vista da dor que dilacera, a questão atinge a Deus. Neste momento quantas pessoas estão nas UTIs e se perguntam: Por que Deus permite este tipo de coisa comigo? Esse questionamento precisa ser pontuado. O sofrimento é uma realidade inevitável. Quem está no mundo está sujeito às coisas do mundo. Portanto, o sofrimento é próprio da contingência da criatura.

A morte de uma pessoa querida pode ser ocasionada por um acidente de trânsito, ou pela contaminação de um vírus. Tudo isso faz parte deste mundo que está em devir e que Deus na sua infinita bondade, vai conduzindo por meio e uma evolução dolorosa até a participação de sua vida divina.

Sofrimento por sofrimento é ruim e Deus não o quer para ninguém. Não viemos ao mundo para sofrer, mas para transpor os obstáculos que produzem sofrimento. É necessário dissiparmos a confusão que se faz entre sofrimento e morte. Sabendo que o sofrimento pode ser demorado, mas leva a cura é suportável. Pois se a pessoa tivesse a certeza de não morrer, suportaria a dor com firmeza incrível, mas a perspectiva da morte, mesmo sem dor lhe causa apreensão.

A repulsa da morte não está na certeza de que se vai morrer, mas em razão do desconhecido para muitos a morte representa um salto numa realidade que é um enigma. O medo da morte se dá devido ao terror do desconhecido e a angústia da separação. O certo é que, quanto mais tememos a morte, mais terrível ela é, porque se alimenta de nossos temores. Assim sendo, devemos olhá-la como ela é em si, isto é, sem os horrores da matéria e sem os terrores da imaginação.

Qual a razão para termos tanto medo da morte? É claro que, por mais que entendamos a morte como processo natural ela tem algo de misterioso que precisamos levar em consideração. O medo da morte é inerente ao ser humano, como é o amor pela vida. Só quem conhece o medo da morte tem a chance de saber o que o aguarda. No escuro da morte, a vida pode mostrar seu brilho. O caminho da vida é também o caminho da morte.

O Covid-19 que tanto tem ceifados vidas nos provoca a pensar na nossa própria morte. Não é fácil para ninguém perder um ente querido e não poder se despedir. Nesta perspectiva só nos resta o amor que devotamos a quem partiu. Viver é uma arte e morrer também, ambas estão ligadas a arte de amar. Aprender a amar é ir se preparando para o mergulho final no oceano chamado vida. O amor como fonte original da vida, jamais se contentará com o temporal, ele vive e sobrevive de eternidade.