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Jardene Soares

Minha fala é a partir do lugar que ocupo na sociedade, enquanto mulher, jovem, que cresceu em um assentamento rural, fez a experiência da Escola de Formação Missionária Padre José Comblin da Paraíba e que, aos poucos, através da vida, de movimentos e dos livros, entrou em contato com a perspectiva feminista. Além disso, falo também a partir da minha humilde (con)vivência com muitas mulheres do meio popular, no campo e na cidade.

Não sei se o que faço
É magnífico ou inútil Ingênuo ou astuto
Mas sei que o momento do meu passo É proveitoso e oportuno

É a busca de sonhos cultivados Necessários como o ar e o alimento Para serem concebidos
Como uma semente germinada na terra Que brota silenciosamente com o tempo

Peço à Ivone Gebara, teóloga feminista, por gentileza, que nos introduza nesta conversa sobre a imagem construída de Deus ou as possíveis faces do divino, com as suas palavras de luz e luta.

“Um novo momento se abre para nós como se um grande ‘salto vital’ estivesse sendo coletivamente preparado. Aguardemos vigilantes as pequenas luzes desse grande acontecimento, sem dúvida, em grande parte anunciado, manifestado e vivido por nós mulheres. Ele vem acontecendo devagar, não de forma estrondosa, mas quando duas ou três estiverem reunidas em seu próprio nome acreditando que o amor e a justiça as habitam e podem renovar a face da Terra” (GEBARA, 2019, p. 88).

Sim, Ivone! Que a gestação de um mundo mais humano e justo, principalmente na atual conjuntura, acompanhe toda nossa vida. E é desta forma que inicio um pouco da minha reflexão, a partir de uma situação, uma conversa entre leigos da Igreja Católica, parte da minha vivência em comunidade.

José: – Deus é homem!
Ana: – E Deus pode ser mulher também, não é não?
José: – Não! Deus é homem! Não pode ser mulher. Jesus é homem!

Ana: – Mas se nós somos imagem e semelhança de Deus, por que ele não pode ser mulher?

Sinto confessar que esta vivência marcou-me profundamente, pois através dela pude refletir sobre a construção da imagem de Deus presente no imaginário social e religioso das pessoas. E, além disso, pensar nos seus possíveis impactos à sociedade e à vida, principalmente das mulheres. Tal diálogo pode parecer até engraçado inicialmente, se não revelasse uma face da sociedade e da Igreja Católica (des)conhecida para muitas pessoas: a face do patriarcado. Afinal, em uma sociedade marcada por um cultura patriarcal, não é motivo de admiração encontrar pessoas que pensam assim como José, inclusive na Igreja.

Sim! Porque é dessa forma que a imagem de Deus foi construída e disseminada na Igreja Católica, um Deus que é homem, branco, dos olhos claros e, além disso, me atrevo a dizer heteronormativo. Logo, as pessoas que não se “enquadram” em tais padrões, podem ser vistas como “distantes” de Deus, com o risco de serem discriminadas, excluídas e marginalizadas, como, por exemplo, as mulheres, a população negra/preta e a população LGBT. Se Deus é “Pai Todo-poderoso”, logo, quem serão os mais próximos do divino e detentores de tal poder?

E, para além do contexto religioso, é preciso falar que a Igreja, enquanto instituição detentora de poder diante de sua estrutura patriarcal e hierárquica, só fortalece e reafirma cada vez mais a estrutura presente no Estado, enquanto forma de organização de um sistema que é capitalista, patriarcal e racista. Este caráter patriarcal é manifestado de diversas formas, como, por exemplo, nos espaços de decisão, onde a presença é predominantemente masculina, no clero, na teologia, inclusive na Teologia da Libertação (também patriarcal) e na invisibilidade da atuação de tantas mulheres.

Estas mulheres, na maioria das vezes, atuam em tarefas de limpeza, alimentação e organização da “casa de Deus” - até com um certo ânimo. Porém, de forma bem camuflada, estas atividades revelam a reprodução do trabalho doméstico e a divisão sexual do trabalho, não apenas nos seus lares, mas também na Igreja. E, até mesmo, as mulheres que atuam como líderes e protagonistas no seio da Igreja, com o apoio e a legitimidade da comunidade, também não são excluídas dessa realidade de divisão injusta do trabalho.

Em geral, tais tarefas não são reconhecidas como trabalho, porque “o cuidado é inerente à mulher”, “tarefa de mulher”, o que gera silenciosamente não apenas a desvalorização, a invisibilidade, como também a dupla, tripla ou múltiplas jornadas de

trabalho, levando-as, muitas vezes, a um estado de esgotamento físico, emocional e mental, diante da sobrecarga, enfrentada não apenas nas suas casas, na família, no cuidado com os/as filhos/as, no trabalho, mas também na Igreja, enquanto instituição. E, em tempos de pandemia, tais fatores tornam-se ainda mais evidentes no seio da vida das mulheres.

Dias de luto/a
Em tempos de pandemia
Tantas vidas ceifadas
Tantos feminicídios
Tantas vidas com fome e sede
Tantas mulheres violentadas
Tanto descaso e desrespeito

Dias de luto/a
Tantos vivos mortos
Por uma sociedade preconceituosa
Patriarcal e machista
Que usa de fundamentalismo religioso
Para dizer que “ama o próximo”
E que “promove a vida”

Precisamos rever nossos (pre)conceitos! Também é necessário considerar que muitas mulheres, principalmente as que vivem no contexto das comunidades, em geral, possivelmente ainda não conseguem enxergar esse fato, diante das suas próprias condições de vida e das inúmeras amarras impostas à sua realidade. Dessa forma, falo de um sistema que estruturalmente mata e oprime, principalmente os mais pobres e as mulheres, com base em uma lógica conservadora e fundamentalista, fortemente reproduzida nas Igrejas Cristãs, defendida inclusive por muitos como “vontade de Deus” e “em nome de Deus”.

Afinal, que Deus é esse que defende a morte, principalmente das/os mais pobres? Penso que só não é o Deus da Vida, fonte de amor e justiça! Se Deus só pode ser homem, será que o homem também não deve estar se sentindo Deus? Não basta querer privatizar o que é público e direito das pessoas, como educação de qualidade, saúde, terra, água, moradia, trabalho, acesso à alimentação saudável? A imagem de Deus também precisa ser privatizada?

“O Deus, imagem de mãe, de irmão, o Deus fonte de toda vida, mistério maior e menor, este foi silenciado, testemunhando o silêncio poético no qual a teologia foi obrigada a viver. No que se refere à divindade, o vazio feminino está presente nos céus. As mulheres nunca foram dignas de estar sentadas no céu, nem ter anjos a seus pés.

Tiveram sim que se contentar com o rosto da divindade masculina, forçosamente convencidas de sua inferioridade ontológica e histórica, pois nada nelas assemelhava-se ao divino para merecer uma habitação digna dos céus. Sabemos que a teologia marial tradicional estruturou-se a partir de uma espécie de cooptação de Maria ao projeto de seu filho e de uma obediência sem condições à vontade de Deus Pai, entendida numa perspectiva patriarcal” (GEBARA, 1991, p. 18).

Tudo isso mostra que não é por acaso que a face feminina de Deus foi invisibilizada ao longo da história da humanidade e da Igreja, muito bem exemplificada na fala de José. Afinal, se somos, homens e mulheres, imagem e semelhança de Deus, a face feminina do divino também se faz presente no seio da humanidade. O lado feminino de Deus se manifesta com demasiada força nas faces de tantas mulheres da humanidade, nas comunidades rurais, nos assentamentos, nas comunidades quilombolas, nas comunidades indígenas e periferias da vida, do campo e da cidade.

Falo aqui do Deus de Sara, de Rebeca, de Raquel, de Maria, de Maria Madalena, de Margarida Maria Alves, de Marielle, de Ivone Gebara, de Dona Maria José, Maria do Céu, Maria da Guia, Marta, Rosineide, de tantas mulheres líderes de comunidade, fontes geradoras de vida, não apenas através da maternidade, mas também através de sonhos cultivados e da luta por um mundo mais humano, que expressam cotidianamente, através de atos concretos, a face feminina de Deus! Não apenas do Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó, de Jesus, Papa Francisco, Dom Hélder Câmara, de Padre José Comblin e Padre Ibiapina – não dizendo que tais figuras não foram e são importantes. Falo de um Deus que pode apresentar múltiplas faces, assim como diversa também é a beleza da humanidade.

Encerro um pouco desta minha humilde reflexão com o apoio de mais alguns versos, consciente que para algumas pessoas tais palavras podem gerar um certo desconforto e incômodo, mas sem muitos anseios, é longe da minha intenção querer aqui agradar todo mundo. Que a face feminina de Deus, fonte de amor e justiça, suscite em nós a defesa da vida, inclusive das mulheres, e não da necropolítica, na esperança que todas e todos tenham vida plena e em abundância!

Dias de luta
Por uma sociedade mais humana
Por uma sociedade mais justa
E que na atual conjuntura política
Os sentimentos de indignação e esperança Estejam sempre presentes
No cotidiano da vida

Dias de luta

Na terra de muitas mulheres
De muitas histórias
De muitos amores
Mulheres guerreiras
Mulheres valentes
Mulheres de força e que falam “Oxente”

Dias de luta
Na terra de muitas Marielles presentes De Margaridas variadas
De Marias sobreviventes
De muitas vidas Dandaras Mulheres de ontem, hoje e sempre Sigamos firmes na caminhada!

Referências

GEBARA, Ivone. Conhece-te a ti mesma. Edições Paulinas, São Paulo, 1991. GEBARA, Ivone. Medellín e a teologia feminista. Revista Albertus Magnus, v. 10, n. 1, p. 73-88, 2019.
GEBARA, Ivone. Religião e a pandemia Covid-19. Instituto Humanitas Unisinos, junho, 2020.