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José Comblin

 

Nasci num país católico. No século XVI, os Países Baixos estavam sendo penetrados pela Reforma protestante. Mas os exércitos de Felipe II conseguiram reconquistar toda a parte Sul, enquanto a parte Norte aderia firmemente à Reforma e conseguiu derrotar o exército espanhol, graças ao sistema de canais. Felipe II eliminou todos os protestantes do Sul, e a Bélgica ficou católica, plasmada pouco a pouco pelas estruturas da contra-Reforme tridentina. Sou filho da Igreja pós-tridentina, aquela que teima em não morrer apesar da evolução do mundo. Essa Igreja barroca teve as suas glórias e por isso na Europa ainda há alguns saudosistas como os há na América latina. No entanto a meados do século XX, já estava claro para muitos que o modelo estava esgotado. Fui um deles, apesar de ter sido educado como s. Paulo na mais estrita observância tridentina com todas as suas vantagens e desvantagens. 

 

                Não vim para América latina com a pretensão de evangelizar países católicos. Vim para entrar numa Igreja que tinha futuro. Naquele tempo, Pio XII governava a Igreja como um monarca de Antigo regime. Tinha aumentado ainda o mito do Papa, criatura celestial, supra-humana, representante de Deus na terra. Mas Pio XII era insensível ao movimento da história. Estava obnubilado pelo seu próprio poder que confundia com o destino da Igreja. Condenou todas as tentativas de entrada no mundo, tornando assim toda evangelização impossível. Foram golpes terríveis as condenações de todos os teólogos importantes que, para nós, os jovens, eram os guias; outro golpe a condenação dos padres-operários, última tentativa da Igreja para permanecer em contato com o povo. De fato, depois disso, nem o Concílio pôde restabelecer o diálogo. Já era tarde demais. Pio XII tinha cortado as últimas pontes.

Eu estava desesperado e cheguei a conclusão de que na Europa a Igreja não tinha mais futuro. Estávamos nos anos 50. Todos os sinais que anunciavam a situação atual em que a Igreja foi praticamente excluída da sociedade européia, já estavam presentes.Mas a maioria não se dava conta e vivia tranqüilamente de ilusões. Eu não queria perder a vida assistindo impotente à uma decadência sem remédio. A história confirmou o meu pressentimento. Graças a Deus tomei a decisão que salvou a minha vida. Ninguém me deve nada. Eu sou quem devo a todos aqui na América latina.

Desde a Revolução francesa, os Papas dedicaram-se a construir dentro da Igreja um poder absoluto. A hierarquia foi reduzida ao silêncio, condenada a bajular o poder absoluto do Papa. Com todo esse poder absoluto, os Papas cometeram tantos erros históricos, erros tão flagrantes, que só por milagre de Deus e pela fidelidade do povo humilde que nem toma conhecimento daquilo que sucede nas alturas do poder, a Igreja sobreviveu. Vários católicos denunciaram esses erros naquele tempo, mas não foram ouvidos e muitas vezes condenados como Rosmini, atualmente reabilitado, quando já é tarde demais. Agora podemos ver as conseqüências dos erros cometidos: basta olhar para o estado atual do catolicismo na Europa. Os filhos pagam pelos pecados dos pais. Historicamente sucede assim. Ficou confirmado que o poder absoluto é cego e leva ao desastre.

Denunciam o secularismo, o cientismo, o racionalismo, o socialismo, a modernidade, a tecnologia e assim por diante. A culpa é sempre dos outros. Na realidade a culpa está na Igreja que não soube responder aos sinais dos tempos, e principalmente naqueles que tinham a missão de conduzir, e pensaram primeiro no seu próprio poder. Tudo isso estava fervendo  na minha cabeça naquele tempo.

Quando veio a oportunidade criada pelo próprio Pio XII – porque ninguém sabe para quem trabalha, como diz um provérbio chileno – fui para América latina. Pio XII pediu padres para lutar contra o comunismo na América latina e os padres que vieram, foram justamente os “padres comunistas” denunciados mais tarde pelas nunciaturas.

Tive sorte. Cheguei a América latina exatamente na hora histórica da verdadeira fundação da Igreja latino-americana, como Igreja com configuração própria.Em 1958, já o fermento estava agindo, mas não se tinha  manifestado claramente que havia um movimento continental que levantava todos os países latino-americanos e que se tratava de um despertar coletivo de um continente inteiro. Estava nascendo a Igreja latino-americana.

Ora, estava nascendo ao redor de um grupo de bispos que foram os verdadeiros fundadores das Igrejas latino-americanas. Aconteceu o que tinha acontecido por primeira vez entre 325 e 430 no Império romano: uma série de grandes bispos que encarnaram de certo modo na sua pessoa e uniram junto a si mesmos as forças criativas suscitadas pelo Espírito tanto no clero e nos religiosos como nos leigos. Houve Atanásio, Basílio. João Crisóstomo, Gregório Nazianzeno.  Ambrosio, Hilário, Agostinho, Cirilo de Alexandria, Cirilo de Jerusalém, e outros menores. Com eles houve monges, sacerdotes e leigos, mas eles levantavam a bandeira para mostrar o caminho.

. Houve algo semelhante na América latina. Foram os bispos que fizeram Medellín. Tive sorte porque acontecimento semelhante somente sucede a cada 1500 anos. Semelhante geração de bispos como houve em Medellín, somente haverá daqui a 1500 anos. Por isso tive sorte. Foram Manuel Larraín, Helder Câmara, Ramón Bogarin, Sergio Mendes Arceo, Leônidas Proaño, José Dammert, Eduardo Angelelli, mas também o cardeal Silva de Santiago, o cardeal dom Avelar Brandão de Salvador, o cardeal Landazzuri de Lima , para citar apenas os falecidos  sem esquecer o mártir exemplar que foi dom Oscar Romero ainda que não tenha estado em Medellin. Todos foram bispos que não se contentaram com  administrar a sua diocese, o que a Cúria romana lhes pedia, mas que entraram no mundo e anunciaram o evangelho ao mundo, se atreveram a sair dos edifícios sagrados para dirigir a palavra a humanidade, o que não se lhes pedia em Roma, o que se pedia que não fizessem. Por isso, todos foram de alguns maneiros castigados, mas perseveraram. Foram os verdadeiros fundadores da Igreja na América latina, porque até então os católicos repetiam as lições que lhes tinham sido dadas pelos missionários espanhóis ou portugueses, mas não tinham tomado atitudes próprias. Não tinham chegado a uma fé pessoal. A Igreja chegou à sua idade adulta em Medellín.

Não  conheci  todos esses Santos Padres com a mesma intimidade, mas pude pelo conhecer um bom número deles, e colaborar com vários..

O primeiro que conheci, foi dom Manuel Larraín, bispo de Talca, que conheci quando cheguei ao Chile em 1962. Dom Manuel era baixinho de estatura, mas grande e alto pela personalidade. Era lúcido, inteligente, seguro de si mesmo. Era filho de uma das maiores famílias aristocráticas do Chile, descendente de três presidentes da republica quando os presidentes pertenciam todos à oligarquia. Tinha toda a segurança e a fortaleza da sua classe. Mas rompeu com a família e com a classe, porque rompeu com os privilégios da aristocracia e passou para o lado dos oprimidos, com grande escândalo da elite do país e também da elite da Igreja.. 

Deus sabe o que faz. Porque dom Manuel tinha toda a segurança da aristocracia, sabia desafiar os grandes. Quando Roma e toda a conferência episcopal defendiam as posições da oligarquia católica do partido conservador  e queriam condenar a juventude democrata-cristã que era a primeira em contestar na Igreja  a situação social do país, ele levantou a voz, fez um escândalo e impediu que isso sucedesse. 

Dom Manuel fez a reforma agrária nas terras da diocese, quando isso era o escândalo dos escândalos, puro comunismo. Atraiu sobre si a ira de todos os latifundiários do país, inclusive da sua família, pelo mau exemplo que estava dando. De fato, o exemplo dele foi o que iniciou o processo de reforma agrária: pois, ele dessacralizou a propriedade da terra dos latifúndios.

Dom Manuel fundou o CELAM com dom Helder. Foi o presidente do CELAM que organizou Medellín. Morreu acidentalmente em 1966 e não pôde presidir a assembléia, mas ele era o seu verdadeiro autor e deixava tudo preparado. Um dia numa reunião do CELAM interpelou o cardeal Samoré que representava a Santa Sé . Tirou a cruz peitoral, entregou-a ao cardeal dizendo : “Se o senhor sabe melhor do que nós o que devemos fazer, o sr. vá a Talca, e seja lá bispo no meu lugar”.Dom Manuel teve um papel destacado no Concílio ao lado de dom Helder, sobretudo no início. Articulou toda a manobra dos cardeais que levantaram a voz para que a assembléia não aceitasse as propostas da Cúria quanto à organização dos trabalhos.

Conheci dom Raul Silva em algumas circunstancias pitorescas. Ele também fez a reforma agrária nas fazendas da diocese e por isso foi desautorizado em Roma.  Mas ele teve sobretudo o grande mérito de criar e sustentar a Vicaria de Solidariedade, que foi a obra mais significativa realizada pela Igreja no Chile no século XX. Por isso os seus funerais foram apoteóticos.Por primeira vez a Igreja tinha assumido a defesa de pessoas que não eram católicas. Foi um espanto: ninguém entendia porque a Igreja defendia socialistas e comunistas perseguidos por Pinochet. Até agora a burguesia chilena não lhe perdoa. Roma nunca perdoou e o principal articulador, fundador efetivo, que é um sacerdote excepcional, que quero mencionar aqui, Cristián Precht, nunca foi feito bispo por esse motivo, por ter sido o diretor dessa Vicaria de Solidariedade (coisa que nunca vão reconhecer, naturalmente).

Quem me chamou ao Recife, foi dom Helder, claro que com uma intervenção de padre Marcelo Carvalheira, que era reitor do seminário de Olinda naquele tempo. Não vou repetir o que escrevi sobre dom Helder em vários artigos. Dom Helder era uma personalidade excepcional. Ele teve uma multidão de colaboradores, mas ele sempre dirigia o jogo. Parecia apagado, discreto, escondido, mas dirigia tudo sem  que ninguém se desse conta. 

Dom Helder era um visionário. Tal cardeal dizia dele que o melhor que se podia dizer dele, era que era louco. Não tinha entendido nada. Sobretudo não tinha entendido nada do Nordeste e de modo particular do Ceará. Dom Helder era um visionário, um entusiasta.Sempre tinha novos projetos, sempre a partir de pequenos sinais adivinhava um grande futuro. Vivia a magnanimidade como dizia s. Tomás de Aquino que achava que essa era a virtude superior. Vivia sempre no meio de grandes coisas.

Era de uma inteligência intuitiva única: logo entendia tudo, percebia as pessoas, os projetos, as idéias. Era capaz de reagir imediatamente. Tinha todos os talentos. Podia ter sido o segundo cardeal Leme, grande organizador da Igreja como tinha sido organizador da Ação católica, do ensino católico, da CNBB, do CELAM e de muitas organizações mais modestas. Era ao mesmo tempo místico e administrador. Misturando as duas coisas sabia entrar nos detalhes da aplicação, articular projetos, reunir colaborações, estimular a imaginação e a vontade de servir Deixava a todos a impressão de que eles tinham decidido, mas na realidade tudo tinha saída da cabeça dele.  

Dom Helder tina a capacidade de suscitar colaborações. Não queria fazer tudo por si mesmo. Sempre preferia fazer com que outros fizessem. Por isso, muitas das suas intervenções permanecem ocultas e não entrarão na história porque agiu por intermédio de outros. A sua atuação na Igreja foi muito maior do que pareceu. Dessa maneira conseguiu resultados que não teria conseguido se tivesse querido fazer tudo por si mesmo.

Todos esses talentos teriam podido permanecer à disposição da própria Igreja com o foi mais ou menos até 1955.Mas então ele abriu os olhos e descobriu o Brasil. Estava absorvido pela Igreja, olhando para o seu umbigo como fazia todo o clero, e, de repente, descobriu o povo brasileiro. Deu um passo imenso. Nisso foi seguido por muitos outros bispos, sacerdotes e leigos que fizeram a mesma conversão. Descobriu que a vocação dele não era o servidor do poder da Igreja, mas servidor do povo brasileiro.

Dom Helder sabia acolher com o mesmo afeto, a mesma efusão, os mesmos gestos afetivos os mendigos como os ministros ou os governadores, ou os seus colaboradores mais íntimos. Era transbordante de afetividade como todos os Nordestinos e, sobretudo os Cearenses, ele que agradecia a Deus a graça de ter nascido Cearense.

Alguns acusaram dom Helder de ter sido submisso demais à Santa Sé e ter sacrificado parte da sua independência. Algo há de verdade nisso porque ele sempre teve uma confiança absoluta no Papa e essa confiança foi muito mal retribuída.Ficou esmagado e sofreu sem se queixar nunca. Sofreu porque ficou desenganado e nunca teria imaginado que lhe teriam dado o sucessor que teve. Estava acima das contingências. Era um místico e no meio do sofrimento subiu para o Calvário em silêncio. Esse silêncio teve a sua grandeza porque foi fiel a si mesmo. 

Dom Helder deixa tantos testemunhos escritos que a publicação das suas obras constituirá um tesouro para os 1500 anos seguintes, até que venha outra geração de bispos semelhantes. Mas há uma coisa que não se pode descrever: o tom da voz, a insistência, a persuasão, o entusiasmo do discurso. Pois ele falava com o mesmo entusiasmo por uma pessoa como por uma multidão.

Dom Leônidas Proaño  foi talvez o Santo Padre da América latina  que conheci de mais  perto durante mais tempo. Embora morando no Chile ou no Brasil eu ia a Riobamba pelo menos duas vezes por ano e, às vezes, mais, durante 20 anos. Devo ter feito  umas 50 visitas de algumas semanas.

Dom Leônidas morava num quartinho da casa de retiros de Santa Cruz perto de Riobamba, na maior simplicidade. Tomava as refeições na casa de retiros. Mas estava percorrendo a diocese quase todos os dias. O sábado era o dia de visita dos indígenas que vinham para a feira e aproveitavam para visitar o bispo e contar todos os seus problemas. Esse era o dia mais sagrado.

Quando chegou a Riobamba dom Leônidas descobriu a imensa opressão dos índios, pois a diocese dele era formada majoritariamente por índios. Quem explorava os indígenas, eram os donos da terra e os mestiços das cidades. Dom Leonidas adotou a causa dos índios e se dedicou totalmente a ela. Nisso teve que agüentar a oposição dos proprietários naturalmente, mas também dos comerciantes, das administrações, enfim de tudo o que era importante na diocese. A miséria dos indígenas era algo incrível, e as humilhações que tinham que sofrer também.

Dom Leônidas também teve que começar com a reforma agrária nas fazendas da diocese. Depois disso organizou serviços de promoção, uma radio indígena, abriu uma casa de acolhimento para os indígenas na cidade e incansavelmente defendeu a causa deles em todos os conflitos de cada dia.  Ora, a generosidade e o serviço desinteressado dele eram tão impressionantes que até os inimigos ficavam desarmados.

Dom Leônidas Proaño era tímido, retraído, humilde, simples, realmente pobre. Mas quando se tratava dos índios era como uma coluna inflexível. Não fazia concessões, não aceitava a distorção, não aceitava a corrupção. Sabia sofrer em silêncio. No episcopado, no clero, na sociedade estava muitas vezes sozinho. Ninguém estava como ele decidido a sustentar a causa dos indígenas. Os outros preferiam esquecer-se da existência dos indígenas, que eram tratados como se fosse a vergonha da nação.

Várias vezes vi dom Leônidas voltando da conferência episcopal e com tristeza dizendo:” fiquei sozinho. Ninguém me apoiou !” Dom Leonidas multiplicava os cursos,as jornadas, as reuniões com os animadores das comunidades indígenas na casa de Santa Cruz e com uma paciência extraordinária, explicava cem vezes a mesma coisa. Sempre falando do valor da comunidade, da necessidade de permanecer unidos na comunidade, da defesa dos direitos dos indígenas. Restituiu-lhes o sentimento de dignidade, a confiança em si próprios, a esperança de um futuro melhor. Com a mesma paciência durante 30 anos! Todos esses temas estão nas palestras radiofônicas que difundia cada semana e poderiam ser publicadas.

Pelo seu trabalho de defesa dos índios, dom Leônidas foi muito criticado. As críticas eram sempre bem acolhidas no Vaticano. Um dia mandaram um visitador apostólico que era um simples sacerdote, o provincial dos salesianos de Bolívia. O visitador apostólico foi acolhido no aeroporto por um destacamento militar o destacamento acompanhou-o até Riobamba porque lhe tinham dito que Proaño era chefe dos guerrilheiros. Quando chegou, o vigário geral, padre Bravo, disse que ele, o visitador, seria muito bem recebido mas que não aceitava o destacamento militar. Então o visitador despediu os soldados. Foi muito bem recebido y descobriu que a realidade era bem diferente. No fim, disse que tinha entrevistado 2000 pessoas e somente 20 tinham falado mal do bispo. Disse ao sair que ia fazer um relatório muito favorável. Nunca nenhuma informação veio de Roma, nenhuma retificação. O que permaneceu na opinião pública foi que estava suspeito em Roma e não veio nenhum desmentido.

Um dia encontrou-se numa cidade, acho que foi em Quito ou Guayaquil com o cardeal Baggio que era o chefe da Congregação dos bispos. Dom Leônidas perguntou-lhe: “Senhor cardeal, por que em Roma há tanta oposição a mim? “Então o cardeal Baggio tomou pela mão a gravata dele e disse :`” É isto, monsenhor !”. Proaño usava uma gravata e essa era a razão da hostilidade da Cúria romana! Depois disso, dom Leônidas tirou a gravata, mas a situação não mudou.

Proaño se abria nas reuniões que havia no seu quarto todas as noites. Ali estava Angelina, missionária catalã, que o acompanhou fielmente e tomava conta dele durante tantos anos, estavam as cozinheiras e os hóspedes. Então Proaño abria o jornal e comentava as noticias interessantes para o Equador e o mundo, sempre desde o ponto de vista dos índios.

Mas o trabalho não foi em vão. Quem viu os indígenas do Equador há 30 anos atrás e quem os vê agora, deve reconhecer que houve uma transformação imensa. Agora os indígenas formam organizações fortes que adquiriram um verdadeiro poder político. Obrigaram os governos a fazer várias reformas sociais. Basta olhar para eles: até fisicamente estão transformados. Como dizia um latifundiário desiludido e raivoso diante das ofensivas dos índios : “Tudo isso é obra do Proaño. Lamento somente uma coisa : de não ter metido uma bala nele naquele tempo !”.

Dom Leônidas Proaño teve a sorte de ter um sucessor que continuou na mesma linha dele, linha de defesa dos índios, e que, agora sofre as mesmas perseguições.

Pouco conheci dom Oscar Romero. Somente na conferência de Puebla. Era um ano antes do martírio. Mas todos já sabiam que ia ser mártir. Falava dando um testemunho de mártir. Cada palestra que dava na cidade era como um testamento. Muito simples linguagem de um homem absolutamente autêntico, puro de coração como diz o evangelho, sem nada de mentira o de engano. Exatamente da mesma tempera de dom Leônidas Proaño. Ele se identificava com o testemunho que dava no seu país.. Era o mártir ainda vivo. Todos escutavam com profunda emoção, sabendo que já falava como mártir.

Conheci e encontrei muitas vezes dom Sergio Mendes Arceo, bispo de Cuernavaca. Era com certeza um bispo atípico. Alto, forte, reto, careca, parecia um monumento, uma coluna. Com esse corpo impressionante, um homem de calma imperturbável, cheio de humor, tranqüilo, seguro de si mesmo. Era universitário e tinha uma imensa cultura. Conhecia todos os recantos da sociedade e da política mexicana. Estava sempre à parte do resto de episcopado, salvo algumas exceções como Samuel Ruiz ou José Llaguno. Pois, não respeitava a obrigação de silêncio imposto aos bispos em virtude do acordo entre a Cúria romana e o PRI (o partido que governou México durante 70 anos e acumulava tanta corrupção que era lendário na América toda). Falava com toda liberdade. Nunca vi um homem tão livre como ele. Praticava o yoga o que lhe aumentava ainda a serenidade. Em Roma espantava a Cúria, quando aparecia porque dizia o que pensava. Não tinha absolutamente medo de nada e de ninguém e tomava tudo filosoficamente. Acolhedor, tolerante, aberto, ecumênico, deu cobertura às experiências monásticas de Lemercier e ao centro de Ivan Illich. Ele sozinho fazia o contrapeso aos 80 bispos da conferência episcopal, tal era a força da sua personalidade. Com ele a gente tinha a imagem daquilo que poderia ser o episcopado latino-americano se se quisesse. Mas ele não cabia de modo algum no padrão oficial.

Conheci pouco dom Ramón Bogarin, bispo de san Juan Bautista de las Misiones no Paraguai. Era o líder do episcopado do Paraguai. Uma forte personalidade cuja má sorte foi ter nascido num país pequeno como o Paraguai. Estava virtualmente eleito presidente do CELAM em 1972 em Sucre, mas uma manobra suja do núncio, que queria promover o famoso Alfonso Lopez Trujillo hoje cardeal, foi afastado. Para ver como são as coisas. Antes do último escrutínio no qual Bogarin ia ser eleito, o núncio disse que o Papa se opunha a essa eleição e queria que dom Pironio fosse presidente e Alfonso Lopez ,secretario geral. O que provoca espanto, é que os bispos aceitaram esse discurso. Em lugar de tomar o primeiro avião para Roma para perguntar ao Papa (Paulo VI) se isso era verdade, e o Papa, com certeza, teria dito que nada sabia disso, simplesmente acataram e elegeram conforme o núncio tinha ditado. Claro que Pironio era um santo, ótima pessoa e comprometido, mas uma personalidade fraca que ia ser esmagada pelo secretario geral, cuja carreira fulgurante começou dessa maneira, escandalizando toda a Igreja da América latina. Para ver como são as coisas! Precisa viver para saber.

Conheci Bogarin em Riobamba na famosa reunião em que os 17 bispos fora,m presos pela policia que os tomou como perigosos guerrilheiros. Na prisão ele era realmente o chefe e porta-voz de todos. Era uma personalidade calma, mas muito segura de si mesma. “Un grand monsieur!, como se diz em francês.

Não posso deixar de mencionar dom Jaime de Nevares, o bispo de Neuquén, vizinho de Talca, mas do outro lado da cordilheira, que salvou a honra do episcopado argentino vergonhosamente silencioso diante das atrocidades cometidas pelos militares. Ele com dom Novak de Quilmes e dom  Hesayne de Viedma, salvaram a honra num episcopado sem honra. Dom de Nevares era Salesiano. Entre os Salesianos tem de tudo, como diz o provérbio. Tem o cardeal Silva e tem o cardeal Obando.  Dom Jaime era uma personalidade muito interessante. Não teve medo. Fez o que os outros não tiveram a coragem de fazer: rompeu com os militares. Quando caiu o governo militar, ele foi eleito na comissão encarregada de fazer o balanço humano do regime ditatorial militar. 

Teria muito que contar de bispos daquela geração, mas que ainda vivem e não convém falar deles antes que terminem a sua carreira terrestre. São bastante numerosos ainda, mas praticamente todos eméritos. Se eu sobreviver a alguns, poderei também um dia divulgar a memória deles.

Mas queria também evocar algumas figuras menos evidentes, que agiram mais na sombra de outros, mas numa verdadeira santidade. Lembro a memória de dom Enrique Alvear, que foi bispo auxiliar de Santiago. Era realmente o bispo dos pobres. Irradiando a bondade, o acolhimento, o serviço. Não tinha nenhuma pretensão de intelectual, mas era conselheiro universal para os pobres, mas também para os padres e agentes de pastoral. Humilde, atento, serviçal, puro com um anjo, totalmente desapegado, pobre pessoalmente sempre sorridente, morreu com fama de santidade e sua memória é venerada no Chile.

A fama de dom Helder faz com que a figura de dom José Lamartine ficasse quase apagada. No entanto ao lado de dom Helder era uma personalidade notável. Assumir a administração da diocese com dom Helder já não era fácil. Os dois combinaram perfeitamente. Dom Lamartine jamais teve a sombra de inveja da fama de dom Helder. Sempre a disposição de todos, com uma simplicidade perfeita, sempre acolhedor. Com ele a Cúria da rua do Giriquiti nem parecia uma Cúria, era um lugar de encontro em que todos se achavam à vontade, coisa bem excepcional para uma Cúria diocesana.

Chegando aqui, pergunto-me: por que não apareceu até agora nenhuma mulher? É de fato uma coisa estranha, mas que manifesta como a Igreja exclui as mulheres. Não lhes permite ter acesso a lugares de exposição em que poderiam mostrar todas as suas qualidades. Permanecem na sombra, em lugares secundários. Pouquíssimas recebem uma verdadeira formação teológica e poucas recebem responsabilidades de primeira categoria.

E os leigos? Não houve leigos? Claro que encontrei centenas e milhares de leigos de uma generosidade sem limite, encarnações verdadeiras do evangelho. Mas como diz são João se tivesse que contar tudo o que presenciei dos leigos, o mundo inteiro não bastaria. Quero citar somente uns poucos exemplos, também de pessoas já falecidas.

Como representante citarei Manuel Amboya, índio do Chimborazo, da diocese de Riobamba, um dos missionários leigos instituídos por dom Leônidas Proaño.Agricultor pobre, pai de família, vivendo num povoado na montanha, uma dessas montanhas de terras paupérrimas que os latifundiários deixaram para os indígenas. Manuel era missionário. Deixava a família e a terra aos cuidados da comunidade e ia para outras comunidades subindo na montanha, passando 15 dias com os dirigentes e os membros dessas comunidades para ensinar-lhes o que ele mesmo tinha aprendido. Com toda naturalidade, caminhando léguas e léguas, sem nunca receber nenhum dinheiro por isso. Com uma total disponibilidade.Um homem calmo, tranqüilo, totalmente desapegado. Um dia acompanhei-o numa viagem ao México para uma reunião de missionários indígenas de América que se realizava em Chiapas, em San Cristobal de Lãs Casas.Chegando ao aeroporto, a policia mexicana não queria deixá-lo entrar. Exigiram que mostrasse a passagem de volta e que mostrasse que tinha dinheiro. Assim mesmo não queriam que entrasse no México, simplesmente porque era vestido com um índio da província de Chimborazo. Tive que interpelar o chefe da polícia por causa de tanta discriminação. Sucede que todos os policiais tinham cara de índios. Mas uma vez introduzidos na sociedade dominante, eles já têm vergonha de ser índios e desprezam os seus irmãos de raça. Manuel ficou aí esperando com toda tranqüilidade sem se comover, como um homem que já viu tantas arbitrariedades na vida que já não se assusta por nada. Hoje o filho dele é diretor da escola de formação de Riobamba.

Outro: don Germán Oyanedel, esposo de dona Ema, pai de 10 filhos, alfaiate de Curicó no vale central do Chile. Dirigente da comunidade, conseguindo fazer com que todos os filhos se entregassem espontaneamente a tarefas da comunidade, inclusive uma menina deficiente que também acompanhava. Don Germán era baixinho, magrinho, nervoso, trabalhador, falador, dedicado, sempre animado, tempos livres sempre doados à comunidade. Um verdadeiro chileno daqueles que a elite chama de “rotos”. Era de uma simplicidade total, de casa sempre aberta para todos. Um dia perguntou-me o seguinte: “Padre, já faz 10 anos que estou dirigindo esta comunidade que fundei. Agora acho que eles podem caminhar sem mim. Tudo funciona por si mesmo. Eu gostaria de ir para outros lugares fundar outras comunidades. Mas o sr. acha que o bispo poderia aprovar isso ? “ Eu disse que o bispo ficaria encantado se soubesse isso. Depois disso todos os fins de semana don Germán tomava sua bicicleta e ia visitar povoados situados à distância da cidade. Um dia morreu atropelado por um carro na estrada. Sua viúva, dona Ema, decidiu que ela ia continuar o mesmo trabalho e já faz mais de 15 anos que ela continua andando, já bem velha hoje em dia, baixinha, mais do que ele, mas cheia de energia.

E as outras mulheres? Todos os nomes que me vêm na mente são nomes de mulheres que ainda vivem. Será porque as mulheres vivem mais do que os homens ? Não vou fazer o retrato das mulheres maravilhosas que conheci e ainda estão neste mundo. Até os últimos tempos, as mulheres permaneciam confinadas em papeis obscuros.Estavam ao lado desses homens que citei, sacrificando-se, dedicando-se com sensibilidade, generosidade, sempre humildes, discretas, escondidas. Mas parece que esse não será o destino delas para sempre. Algumas entraram assim mesmo na história como a famosa turma de Rio de Janeiro às quais dom Helder dedicou as milhares de cartas que são o documento mais precioso de toda a história da Igreja do século XX. Não as conheci. Conheço-as apenas pela história.

Passei mais de 20 anos trabalhando em seminários na formação do clero. Cheguei à conclusão de que essa fórmula que Roma promove com tanta energia fazendo com que a quase única prioridade pastoral de quase todas as dioceses do mundo é o seminário, está esgotada. Não dá para mais. Sei que muitos bispos pensam igual porque mo disseram, mas não podem falar, pelo menos até que sejam eméritos. Essa formação responde a um modelo de sacerdote que está esgotado. Não adianta querer fechar os olhos.

O Concílio deixou um documento so0bre os presbíteros que todos acharam fraco e não convincente. De fato, o Concílio não quis abordar o tema dos sacerdotes e o próprio Papa proibiu que se tocasse no assunto. Então era só repetir as coisas de sempre, pensamentos muito espirituais, mas que não tocam no nó da questão, não entram na realidade. Isto não quer dizer que a Igreja vai mudar o modelo. As burocracias são muito inertes. Podem conservar durante séculos modelos ineficientes e atribuir a causa de todos os desastres aos “outros” ou a falta de virtudes dos padres. Não é problema de falta de virtudes e os padres de hoje têm mais virtudes do que em qualquer época da Igreja. O problema não é esse e por isso não se resolve com exortações espirituais. O problema é de estrutura. Pode ser que daqui a 500 anos a burocracia vaticana comece a perceber a realidade. Não tenho muita esperança de que a mudança suceda antes. No entanto, já que se trata de um modelo esgotado, dediquei-me ,à formação de leigos, apesar de estar bem conscientes  de que isso não interessa em absoluto a estrutura atual. A estrutura atual quer leigos obedientes, que nunca fazem perguntas, pagam o dízimo e bajulam a autoridade.

Dito isso, quero reconhecer que conheci sacerdotes admiráveis que dentro do sistema e apesar dos limites do sistema foram realmente apóstolos, presença do evangelho vivo no meio do seu povo. Não há espaço para multiplicar os exemplos. Quero somente citar duas figuras de sacerdotes já falecidos.

Quero lembrar um sacerdote que viveu perto daqui, da Paraíba: monsenhor Expedito Medeiros, vigário de São Paulo de Potengi, na diocese de Natal, durante 54 anos. Monsenhor Expedito era um homem jovial, exuberante, extrovertido, um verdadeiro Nordestino, cheio de idéias, de projetos, de iniciativas, otimista, trabalhador incansável. Era realmente o pai e o chefe do seu povo num município que nasceu com ele, cresceu com ele e de certo modo se identificava com ele.

 Mas ele desde cedo descobriu o povo. Foi iniciador das comunidades eclesiais de base no Brasil nos anos 50 quando ainda não se usava esse nome. Transformou o povo de campo. No final da vida depois de 80 anos conseguiu animar o governador, os senadores, deputados, ad administrações municipais num imenso projeto de adutoras destinadas a levar água potável a todos os municípios numa região tão castigada pela seca. Estava animado, sabia persuadir, sabia empurrar os mais recalcitrantes. Foram construídos milhares de km de adutoras e agora, como dizia ele, pelo menos o povo tem água para beber, uma água boa. Assim foi durante a vida toda um extraordinário animador no meio de um povo que vive em situações tão precárias por causa da seca.

Monsenhor Expedito estava sempre à procura de novas idéias, novidades teológicas, pastorais, sociais, disposto a entrar em tudo. Topava com tudo. Quando um jovem sacerdote vinha ter comigo e se queixar que não sabia o que fazer, eu dizia: “Muito simples! Vá passar alguns meses com monsenhor Expedito e você vai aprender tudo” De modo geral não escutavam. Preferiam chorar e queixar-se do que realmente aprender com quem sabia.

Outro nome que quero citar é o de Enrique Correa, sacerdote da diocese de Talca (Chile). Diziam “` el huaso Correa”, el huaso é como o gaucho no Rio Grande do Sul ou na Argentina. Era de talha imensa, tinha uma boca de cavalo. Ria a gargalhadas.Como os chilenos do campo, a sua conversa era puro “chiste”, pura “talla”, como dizem no Chile, puras piadas. Mas em forma de piadas sabia conquistar o seu povo. Sabia falar exatamente na língua do povo e todos gozavam com ele, aguardavam com impaciência a  chegada dele porque era um deles. Os homens se sentiam apreciados e compreendidos, as mulheres adoravam-no por que ia na cozinha e falava dos assuntos delas. Morreu aos 60 anos de um câncer. Éramos muito amigos. Quando me informaram que estava para morrer , tomei o avião e quando cheguei a Santiago, os irmãos dele disseram-me : esta esperando a minha chegada para morrer. Ela ainda estava consciente e pude falar-lhe longamente. Pouco depois adormeceu e perdeu a consciência. Dois dias depois, morreu.

Era de família camponesa e tinha orgulho das suas origens. Naquele tempo ainda havia uma verdadeira cultura camponesa, o que as transformações sociais e culturais estão destruindo agora. Somente permanecem em forma de folclore artificialmente para os turistas.

O seu amor ao seu povo era tão visível, que se manifestava por milhares de gestos de amizade, de palavras que eram exatamente o que o povo esperava nas dificuldades da vida Era místico também. Deixou um longo manuscrito formado pelas notas de retiro cuja publicação é altamente desejável. Foi encarregado da formação dos diáconos e ministros leigos das comunidades. Para eles, ele era tudo. Era o grande amigo no sentido mais profundo. Depois foi diretor espiritual no seminário camponês destinado a formar sacerdotes camponeses com uma metodologia de formação adaptada a essa finalidade. A experiência foi lançada pela iniciativa de dois bispos vizinhos, mas o clero resistiu e depois veio o presente pontificado com a insistência na volta aos esquemas do passado. Estava afetivamente muito comprometido com esse seminário e sofreu bastante quando teve que fecha-lo. Depois disso foi nomeado responsável pastoral para toda a região rural do litoral da diocese.

A sua religião era profunda e sincera e sabia comunica-la aos camponeses na cultura deles. Fazia isso com um verdadeiro prazer. Era dedicado, sacrificado mas esse trabalho o encantava porque tanto amava esse povo. Era um homem feliz e era isso, acho, que  seduzia o povo. A religião dele era uma religião feliz. Sabia estar atento a todas as dores e todas as doenças, mas com todos era brincalhão e os deixava mais animados. Enfim descobri um pouco todas as qualidades que eu não tinha e foi o que me impressionou. Está enterrado no povoado de Villa Prat perto de Curicó onde residiu os últimos anos da sua vida. Todos os dias há flores novas na seu tumba e o povo já lhe atribui muitos milagres.

Estas são algumas das figuras desaparecidas que estão presentes na saudade. Eu mesmo vou desaparecer antes da maioria das outras pessoas que conheci. O que faz um país são os seus habitantes. Conheci e amei esses países pelos seus habitantes. Só falta agora agradecer a Deus por tantos benefícios. Pois ele me salvou do desastre e me deu uma vida.

 

Bayeux, março de 2002