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Leitura Feminista do Evangelho ( Lucas, cap. 1 e 2).

Jéssica Silva dos Santos

Com base na leitura do 1° e 2° cap. do livro de S. Lucas e como criadora deste trabalho, faço colocações através do meu olhar feminista negro acerca da imagem da mulher, e a partir destes capítulos com as personagens de Maria e sua prima Isabel, por meio das quais se deram grandes acontecimentos e contribuições para a humanidade. Irei dar minha opinião sobre a atuação das mesmas, destacando principalmente o entrelaçamento entre Isabel que era considerada estéril e a figura de Maria como uma jovem que estava prometida em casamento, como também de ambas suas crias. Por fim destaco esses fatos entre os dois capítulos ocorridos dentro das circunstâncias da época, trazendo como meio para atuações e práticas de libertação na nossa sociedade atual.

 

O Evangelho de Lucas é o livro que, segundo Paulo Ueti -“trata-se do livro que mais fala de mulheres, mas não é o livro em que as mulheres mais falam.”- , traz fatos iniciais da plena história quais não se encontram nos livros de Mateus, Marcos e João, onde, diferentemente destes, ele inicia com o anúncio do nascimento de João Batista, e que a vinda deste prenuncia o momento de transformação, algo novo surgirá. É durante a gestação de Isabel, e com o nascimento de seu filho João Batista, onde tudo se revela. Isabel era uma mulher com idade avançada, e estéril, casada com o sacerdote Zacarias também de idade avançada, que apesar de temente e fiel a Deus (a quem rogava constantemente para obter uma descendência), desacreditou quando foi informado pelo anjo da gravidez de sua esposa.

 

E a partir desse anúncio, Isabel torna-se parte fundamental da realização do mistério central da vida. Adiante, vemos sobre o anúncio da vinda e o nascimento do menino Jesus e sobre sua mãe, a jovem Maria. Jovem a quem mais uma vez Deus se revela. A escolhida diz o seu “sim!” a Deus e com isso se coloca no papel de mensageira, templo do sagrado, sagrado que se tornará humano e que habitará neste mundo, mostrando aos seus que para além da vida, há mais vida (eternidade). Com esse fato para a época, tempo este que predominava machismo e domínio do homem sobre a mulher, ter esse “algo que está por vir” e mudar os rumos do mundo para sempre vindo de uma mulher e jovem, que não tinha nada, nem vez e voz, era algo inacreditável, impossível.

Maria ao receber a visita do anjo, e o livro mostra isso, também traz o seu protagonismo feminino em uma sociedade machista, fugindo assim, da estrutura patriarcal da época e mostrando o novo que está por vir; ela assumirá o papel da valorização das vidas e representatividade das pessoas, a capacidade de assumir de fato seu espaço na sociedade. No caso de Maria como jovem gestante, ela tem essa missão de preparar sua cria para concretização do projeto de Deus, que todavia e em todos os tempos resumiu-se em libertação e igualdade como abundância de vida para todas e todos. E no texto, percebemos que as duas futuras mães estão repletas de sentimentos, e isso, se dá pelo espaço que elas ocupam por serem mulheres, e viverem na margem da sociedade. Isso nos redireciona a ver o fato que ocupa o centro da vida, e assim nos preparar para o que está por vir.

 

Vale relembrarmos sobre a visita de Maria a sua prima Isabel. Isabel passa seus primeiros meses de gestação escondida (cf. 1,24); Maria vai apressadamente à região montanhosa (cf.1,39)

Destaco a capacidade de Maria de observar a situação e tomar uma iniciativa de imediato. E isso está ligado à necessidade de organização e de diálogo como forma de enfrentamento; sendo assim, questiono: visita ou refúgio?

À maneira que as duas futuras figuras e circunstâncias de vidas são entrelaçadas na narração de Lucas, no caso João Batista e Jesus, nota-se também a relação que se dá entre as mães, o apoio que uma encontra junto a outra, que apesar da diferença de idade, da distância entre si, elas dialogam muito bem, pois, ambas estão sobre uma mesma realidade com circunstâncias diferentes, elas estão a partir daí em contato direto com o plano de Deus, o Deus da vida que as escolhe como sinal dessa vida, e de anúncio dessas vidas dentro daquela realidade.

 

Onde “a sororidade e a doloridade”, conceitos trazidos pela escritora Djamila Ribeiro, entram nessa "visita" de Maria?.

 

Maria passa aí três meses, número que é remetido à complexidade e à perfeição, e depois volta para sua realidade de enfrentamento e preparação para a chegada de seu filho. No seu canto, Maria exalta o todo poderoso, denuncia os opressores e consola os humilhados, mostrando à clareza do olhar da mulher. E com certeza esse olhar é reflexo de uma sensibilidade que sente e denúncia, se opondo as estruturas opressoras e destrutivas da vida.

Assim nós podemos ver a importância da coletividade feminina e feminista para estruturar a nossa sociedade que é fundamentalista, preconceituosa, machista e patriarcal. Portanto, nota-se a importância da mulher como ser e agente central no plano da vida abundante e plena. O sinal da irmandade por parte de Maria e Isabel nós mostra como seguir ocupando espaço e o papel de protagonismo na nossa sociedade atual, levando-nos a construir passos novos e dar continuidade ao mistério do mundo.

 

Jéssica Silva, agente pastoral da CPT- Comissão Pastoral da Terra e membro da AJC, Associação de Articulação da Juventude Camponesa.