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Introdução à Mensagem de Marcelo Barros aos irmãos e irmãs, companheiros/as da Academia Transliterária de Belo Horizonte, por ocasião da apresentação do espetáculo artístico Travesti Rainha ou Nossa Senhora dos Travestis.

Jesus é o profeta do Reino

Desde o século XIX particularmente, com o desenvolvimento das Ciências, intensificou-se a pesquisa exegética e histórica no sentido de chegar mais perto daquilo que a Bíblia realmente carrega consigo e nos oferece: Arqueologia, Geografia, Antropologia, História, Ciências da Linguagem, interpretação de Línguas Antigas, Sociologia, Exegese, Hermenêutica, etc. Mesmo que muitas coisas não se esclareçam pela distância que nos separa da Antiguidade, a pesquisa, de fato, nos tem oferecido a possibilidade de distinguir com bastante segurança o que realmente são dados confiáveis e o que se busca sustentar e manter a partir de circunstâncias posteriores àqueles tempos, por um mecanismo natural de retroprojeção e, inclusive, em certos casos, por motivos ideológicos e interesses institucionais.

Hoje já é possível ter mais clareza sobre as circunstâncias em que viveu e trabalhou Jesus de Nazaré e até delinear os seus traços básicos de profeta anunciador do Reino de Deus, sem que isso ponha em causa sua identidade teológica de Filho de Deus. Não nos esqueçamos de que Ele se encarnou! Já não se pode negar ou esquecer que sua figura histórica foi a de alguém que o povo de seu país identificou como profeta, à semelhança dos antigos profetas, como por exemplo Elias e Eliseu, é o que se vê especialmente no Evangelho segundo Lucas (cf. Lc 4, 14-30; 7, 16), para o qual Jesus é “novo Elias e “novo Eliseu”. Ele sucedeu a João Batista depois que esse foi assassinado pelo infame rei Herodes (cf. Mc 1, 14-20; 6, 14-29). O povo do país o reconhecia como “o profeta de Nazaré” e, progressivamente, sua fama se espalhava até em regiões gentias, marcadas pelo paganismo (cf. Mc 3, 7-12). Frente a Ele não era raro se lembrar da antiga figura do profeta Elias que, em seu tempo, também tinha ultrapassado os limites do país, e curado e partilhado pão, e visto pelo rei como inimigo (cf. Mc 5, 1-20; 7, 24-30; 1Rs 17-19).

Na esteira da corrente profética, sobretudo identificando-se com a herança do profeta Isaías, que era, digamos em imagem de hoje, seu livro de cabeceira (cf. sobretudo Is 40-66), Jesus assumiu a tarefa de anunciar a proximidade do Reino de Deus e alargar o alcance da Aliança de Deus com Moisés para além das fronteiras judaicas. Foi um piedoso fiel judeu que frequentava a Sinagoga e o Templo, como toda a gente de seu país, mas corajosamente denunciava o fechamento do Judaísmo em si mesmo, com o desprezo pelos outros povos, tidos como “impuros”, especialmente desde os tempos da reforma de Esdras, lá pelo século IV a.C, após a volta dos grupos que tinham sido levados para o exílio em Babilônia. E a “pureza” se media pelo estrito cumprimento da Lei, o que deixava os pobres, as mulheres e as pessoas estrangeiras em situação de inferioridade e desprezo. Imaginemos que até certas profissões eram julgadas pela marca da impureza, o que marginalizava grande massa de pessoas. Não admira se nos impressionamos com o significativo número de gente faminta (cf. Mc 6, 3-44), de gente louca considerada cheia de demônios ou ferida na carne por seus “pecados” (cf. Mc 1, 40-45; 3, 20-30; 5, 1ss; Lc 7, 18-30.36-50; 8, 1-3; Jo 9, 1-41).

Jesus teria realmente fundado a Igreja como uma instituição religiosa própria frente ao Judaísmo? É assim que a maioria do povo cristão imagina, a começar das próprias autoridades das Igrejas. E quanta “doutrina” se tem deitado sobre esse tema! Se raciocinamos tendo como pano de fundo a realidade histórica de Jesus, tal coisa é impensável, carece de qualquer fundamento. O povo de Israel, segundo sua convicção, desde Moisés tinha uma aliança com Deus. Por isso Israel era a “qahal YHWH”, ou seja, a “assembleia” de Deus, o povo reunido por Ele e diante d’Ele, para testemunhar de Seu poder recriador e misericordioso através da história desde o tempo das tribos (cf. Js 24), é o que vemos, por exemplo, nos livros de Êxodo e Deuteronômio. Fundar a Igreja, como uma nova instituição religiosa ao lado do Judaísmo, teria sido uma ação cismática e herética da parte de Jesus. Teria sido romper com a tradição da Aliança que era um laço eterno com Deus, desde as remotas origens de sua gente. Jesus foi profeta de Israel e seu propósito era anunciar o julgamento e a boa nova de um novo e redentor acontecimento: a chegada do Reino de Deus (cf. Mc 1, 14-15). Em nome do Deus de Moisés que o enviava, tomou corajosamente a peito denunciar os desvios da liderança religiosa que era igualmente a liderança econômica e política, no bom estilo das teocracias. Amaldiçoou o Templo, denunciou sua função de centro de uma economia de exploração e da ideologia que o justificava (cf. Mc 12, com ênfase para a análise que faz do sistema nos vs. 38-44). E corajosamente o invadiu com seus discípulos e anunciou-lhe a destruição (cf. Mc 13; Jo 2, 13-25). Para Ele a fidelidade ao Deus da Aliança brotaria de novo como tenro galho da velha figueira cortada, a figueira era símbolo do povo de Deus, junto com a oliveira e a vinha (cf. Mc 11, 13, 25; 12, 1- 12; 11, 1). Já não haveria Templo com toda a função de concentrar o sistema de exploração do povo, mas haveria casas que seriam as comunidades do povo de Deus renovado (cf. Mc 13, 33-36).

Foi para isso que associou a Si discípulos e discípulas (cf. Lc 8, 1-3), para enviá-los(as) às cidades e casas do povo (cf. Mt 10 e Lc 10), com o simbolismo muito claro de que se tratava da renovação das “doze tribos de Israel”, representadas por seus pais e suas mães (cf. Mc 3, 13-19; 5, 21-43; 6, 6-13). Passava-lhes Sua própria missão de renovar a Aliança, agora aberta definitivamente também à Samaria, considerada “Judaísmo herético” (cf. Jo 4) e aos povos gentios, tidos como impuros (cf. Mc 5; 7, 24-30; 8, 1-10; 12, 1-38), bem na perspectiva universalista do profeta Isaías (cf. Is 2, 1-5). É muito possível que, no contexto cultural das expectativas apocalípticas da época, Jesus tivesse alimentado a expectativa de uma vinda imediata do Reino de Deus (cf. Mc 9, 1; 13, 1-37; Mt 3, 1-12). Não devemos esquecer que tinha participado do movimento de João Batista, como sugere o Evangelho segundo João (cf. Jo 1, 19-39). Não se justificava criar uma nova instituição religiosa, além de representar uma absurda ruptura com a antiga Aliança de Deus com Seu povo, mediante o profeta Moisés. Não se tratava de substituir, mas de renovar e alargar a condição de Aliança em raio universal. Tinha razão o teólogo e padre francês, um ilustre pioneiro da moderna Teologias, condenado na época por Roma, chamado Loisy, que disse: “Jesus anunciou o Reino e o que veio foi a Igreja”.

O Apóstolo Paulo, o missionário da transformação universal

O Apóstolo São Paulo, diferentemente de Jesus que era camponês, era um homem de cidade. Teve a intuição de levar a missão de Jesus ao ambiente urbano de seu tempo, no quadro da cultura greco-romana e do Império. Chegou até a elaborar uma estratégia de viagens para alcançar o mundo conhecido da época, como se vê nos Atos dos Apóstolos e em suas Epístolas: da Ásia Menor (hoje Turquia) à Grécia, da Grécia a Roma e daí à Espanha, a ponta extrema do Ocidente. Um verdadeiro projeto internacionalista. Privilegiava os centros metropolitanos da época, certo de que daí se irradiaria a mensagem para as regiões circunvizinhas. Na verdade, tratava-se de uma “revolução” radical que implicaria até mesmo a criação (cf. Rm 8). Também ele permaneceu judeu até o fim, era a sua religião, nunca abandonou o Judaísmo para abraçar o Cristianismo. Como Jesus e todo o grupo de discípulos e discípulas, não morreu cristão, mas judeu. Compreendeu perfeitamente o projeto de Jesus: não substituir, mas universalizar o povo da Aliança, como primícias da grande transformação mundial . Traduziu para o grego a expressão “qahal YHWH” e assim usou a palavra “ekklesía” que em latim dá “ecclesia” e para nós é “Igreja” (em espanhol, a palavra grega ainda se deixa ver: “Iglesia”), significa justamente “assembleia”. A “ekklesía” era a continuidade da Aliança, agora definitivamente universal, quebrando-se a separação entre os povos, as classes, os gêneros e as pessoas.

É importante pensar que “ekklesía” era o nome da assembleia de governo das cidades greco-romanas. Assembleia bem diferente do que o Apóstolo pensava da Igreja. Na assembleia da “pólis” (cidade) greco-romana só tinham assento homens, era uma instituição androcrática (poder masculino), o poder pertencia aos machos; plutocrática, o poder era de ricos proprietários de terras e de escravos; finalmente, era aristocrática, quer dizer “governo dos melhores”, que eram justamente os ricos. Algo como entre nós, os “homens de bem” eram justamente os “homens de bens”, por isso mereciam governar sobre os demais. Os grupos seguidores de Jesus constituíam outra “assembleia”. Não havia apartação, como nos diz a Carta aos Gálatas: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Jesus Cristo” (Gl 3, 28). Não se tratava simplesmente de uma “nova religião”, mas de uma proposta de vida segundo a qual “caíam os muros de separação” entre os povos, as classes, os gêneros e as pessoas (cf. Ef 2), reconciliação universal em vista do “xalôm”, a felicidade, o “bem-viver”, como costumamos dizer hoje, a paz fruto da reconciliação universal (cf. Ef 2). Na “ekklesía” germinava a semente de um povo universal, de um novo mundo, cujo centro era a igualdade e por isso a liberdade, é isto de que se trata na Carta aos Gálatas. A primeira Carta aos Coríntios desenvolve a perspectiva que mantém todo o conjunto desse “novo povo”: são as comunidades que se formam do que os poderosos consideram “o lixo do mundo” (cf. 1Cor 1-4), nelas tem de florescer o amor e o acordo mútuo. A base da sociedade tem de tomar consciência de seu papel de sustentáculo da sociedade toda. “Evagelizar” tem tudo a ver com o que nosso irmão Paulo Freire, inspirado por Dom Helder Camara, chamou de “conscientização”. Aliás, Paulo Freire foi uma das pessoas que melhor compreenderam o Evangelho. A segunda Carta aos Coríntios enfoca particularmente o tema da liderança do movimento. É interessante notar que, em primeira aos Tessalonicenses, se percebe uma comunidade formada por pessoas pobres, trabalhadores manuais e escravosas, que vivem do próprio trabalho. O Apóstolo chega a sugerir que a comunidade busque se organizar internamente, dedicar-se ao trabalho e buscar a autonomia econômica “para não ter necessidade de ninguém” de fora (tratar-se-ia de sugerir um tipo de “cooperativa”?) (cf. 1Ts 4, 9-12).

Não se tratava de organizar uma nova religião, mas de levar adiante a missão profética de Jesus. Por isso não havia organização predeterminada, ao contrário, uma grande pluralidade que chegava até a levantar discussões e conflitos (cf. At 15). Uma coisa eram as comunidades em torno da influência de Pedro ou de Tiago, mais ligadas ao Judaísmo; outra, eram as comunidades sob a forte liderança de Paulo, que iam inventando seu modelo aberto ao mundo gentio; outra, as comunidades sob a influência do “Discípulo Amado”, mais comunitárias e “congregacionais” com forte liderança feminina, e grande preocupação com o igualitarismo fraterno.

A Igreja foi mesmo “fundada” pelo profeta Jesus?

A missão deve ser a mesma de Jesus, mas as formas vão surgindo em contextos diversos ao longo da história, para melhor e para pior. Sem dúvida, a Igreja nasce a partir da vida e da missão de Jesus, mas toma forma concreta com seus discípulos e em novas circunstâncias. Para infelicidade, progressivamente as comunidades foram retomando modelos que vinham do Judaísmo. É sempre assim na história, Jesus está muito adiante da Igreja. Já no próprio Novo Testamento, podemos perceber em algumas epístolas, por exemplo, a volta ao modelo patriarcal da relação homem-mulher (cf. 1Cor 14, 33-39, texto seguramente interpolado que não representa o pensamento de Paulo); a mesma regressão se nota na 1Pd 3, 1-7 nos conselhos às mulheres casadas, e nas admoestações aos escravos (cf. 1Pd 2, 18-25) e na recomendação a sujeitar-se às autoridades (cf. 2, 13-17). Jesus provocara escândalo ao admitir mulheres em seu discipulado e até indicou Maria Madalena como modelo de discípula (cf. Lc 10, 38-47; Jo 20). No quarto Evangelho, é Marta quem confessa Jesus como Messias (cf. Jo 11, 27), indo além de Simão Pedro (cf. Jo 6, 67-71). Nas comunidades, porém, progressivamente vai-se voltando aos modelos religiosos do Judaísmo ou dos gentios e a comunidade vai-se tornando um novo grupo religioso que passa a substituir a religião antiga. Os conflitos com o Judaísmo e o horror que se tinha à forma pagã de viver também contribuíram muito para tornar a Igreja uma nova “religião”.

A perspectiva de Jesus e do Apóstolo Paulo, porém, era de desencadear um movimento de transformação desde as relações econômicas (partilha de bens: (cf. Mc 10, 17-31; At 2, 42-47; 4, 32-37; 2 Cor 9), superada a exploração dos pobres (cf. Mc 12, 38-44; Lc 6, 20-26). Transformação das relações sociais, mediante o serviço recíproco e o perdão (cf. Mc 8, 34-38; 9, 33-50; 10, 1-16; Mt 18, 21-22). Transformação das relações de poder político (cf. Mc 10, 35-45). Nas comunidades, porém, foi crescendo a distância entre clero e laicato, “clero” era antes designação para todo o povo cristão, uma vez que significa “consagrado/a” e “leigo” queria dizer “membro do laós”, do povo santo. Passam a designar o estrato superior e o estrato inferior e o termo “leigo/a” vira designação negativa de quem não é clero. A liderança das comunidades vai concentrando poder monárquico que ficou como característica dos bispos, isto é, dos “supervisores”, selados pela “sagração” litúrgica que lhes atribui o dom do Espírito Santo. Em suma, a comunidade do discipulado de Jesus vai-se tornando religião da sociedade e isso já se dá claramente a partir do século II d.C.. Teólogos muito competentes chegaram a dizer que “Eclesiologia é, na verdade, o discurso ou teoria do poder eclesiástico”.

As categorias do pensamento grego, sobretudo da corrente platônica e do neoplatonismo, vão servir para formular a doutrina que leva o Cristianismo a defender o antropocentrismo concebido sob o modelo do poder imperial; o dualismo espírito e matéria, rompendo-se o equilíbrio bíblico do modelo de “encarnação”; o espiritualismo que vai derivar para o ascético desprezo do corpo e da dimensão material da vida, e na outra ponta, para a pornografia. Algumas correntes cristãs chegaram mesmo a negar a materialidade de Jesus, reduzindo-o a simples aparência. Já sendo religião da sociedade e portadora de sua cultura, o próximo passo foi associar-se com o poder político e tornar-se braço religioso do Estado romano, substituindo as formas religiosas anteriores do paganismo idolátrico. Processo que se deu durante mais ou menos dois séculos.

A “Cristandade” medieval ainda é até hoje nossa referência predominante

Na chamada Idade Média, que durou cerca de dez séculos, a Igreja se consolida como poder religioso e político-militar, na chamada Cristandade, quando Igreja e sociedade se confundem, a guerra torna-se serviço a Deus (houve até ordens religiosas militares…), matam-se “infiéis” no Oriente muçulmano e torturam-se e condenam-se à fogueira cristãos e cristãs “hereges” que, na verdade, eram lideranças do movimento popular da época, estando entre essas imenso número de mulheres acusadas de serem “bruxas” quando na verdade eram precursoras de novos papéis das mulheres, inclusive com ciência de ervas e de remédios; o papado se levanta como o poder acima de todos os poderes: “Sancta Ecclesia, magistra et domina” (mestra e senhora), dizia o papa Gregório VII, no século XI.

Hoje, se nos decidimos a fazer profunda autocrítica da história do Cristianismo, deparamo-nos com pesadíssima montanha ferrosa, que é quase impossível deslocar depois dessa longa e consolidada história de dezenove séculos. Ainda prevalece na mente das pessoas a ingênua imagem de que o que vivemos hoje não passa de continuidade daquilo que “Jesus instituiu”. Grande parte da Teologia cristã não tem passado de justificativa ideológica daquilo em que a Igreja se tornou ao longo dos séculos. A missão sem dúvida é divina. As formas, porém, que a Igreja foi assumindo ao longo dos séculos são criação humana e podem mudar radicalmente para o bem do povo dos pobres e para a honra de Jesus. Pensemos honestamente: Na verdade, quem teria a coragem de dizer que a Igreja dos tempos apostólicos se assemelharia à Igreja do Império, à da Idade Média, à do centralismo romano e vaticano, à Igreja do tempo em que abençoava as naus que foram buscar escravos e escravas na África para animalizã-los na Afroameríndia…? Quem teria essa coragem? Só se fosse ingenuidade ou cinismo…

Conclusão

O que se dá é que a Igreja ainda não se acostumou a ser parte da sociedade civil e reage a se tornar realmente parceira do Movimento Popular. Chega-se a episódios escandalosos. Um arcebispo católico romano se sente confortável em receber um candidato a presidente da República que, além de declarar-se favorável à tortura e dela fazer apologia (atenção, esquecemos de que somos discípulos e discípulas de um prisioneiro político que foi torturado e executado pelo Império e pelo Templo…?), ao assassinato em massa pelo poder estatal (trinta mil pessoas…), ridicularizar e inferiorizar as mulheres, promover a homofobia e o ódio a nordestinos/as, ataca publicamente a Conferência dos Bispos e seus órgãos de assessoria, chamando-lhes de “banda podre da Igreja Católica”. E todas essas terríveis asneiras foram proclamadas na véspera da tal visita. E mais grave ainda: a nova presidência da CNBB faz visita oficial a tal personagem. A Igreja. por força do costume de séculos, persiste na ilusão de ser parte do poder “imperial”. Sente-se muito mais à vontade nos palácios e nos palanques do que nas praças e ruas, ombro a ombro com trabalhadores e trabalhadoras, aqueles e aquelas que na 1Coríntios são apresentados como “loucura no mundo para confundir os sábios, o que é fraqueza no mundo Deus escolheu para confundir o que é forte, e o que no mundo é vil e desprezado, o que não é, Deus escolheu para reduzir a nada o que é” (1Cor 1, 27-28). Ainda temos de caminhar muitas milhas para reaprender a passar de instituição de poder a verdadeiramente “povo de Deus” na história, como anunciava o Concílio Vaticano II. Papa Francisco tem indicado os sinais de “saída” para ir ao encontro do povo onde ele realmente se acha, é isso o que tem mostrado com seus diálogos com os Movimentos Sociais e seus gestos na direção de pessoas mais desprezadas: migrantes, pobres e perseguidas… mas ainda estamos longe de chegar aonde Deus nos está querendo conduzir.

Tudo o que foi dito até agora foi para servir de introdução e situar no contexto o texto que segue, do querido monge beneditino e irmão Marcelo Barros, o qual nos chama a descer dos tronos a que a história nos tem elevado (foi assim que nos acostumamos a “censurar”, por exemplo) e voltar a assumir nosso lugar como parte da sociedade civil.

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Carta de Marcelo Barros

Aos irmãos e irmãs, companheiros da Academia Transliteraria de Belo Horizonte

Estou passando em Betim, região metropolitana de Belo Horizonte e soube que nesse final de semana vai acontecer nessa cidade a Virada Cultural. Nessa ocasião, um grupo ia mostrar uma peça ou espetáculo ou evento artístico que era Rainha Travesti ou parece que chamaram de “Nossa Senhora dos Travestis” . O evento foi censurado pela prefeitura e pela autoridade maior da arquidiocese de Belo Horizonte. Não quero criar problemas com a hierarquia, mas me sinto obrigado como irmão a tornar pública a seguinte declaração que publico aqui.

(Não conheço ninguém da tal peça e nem sei como mandar a eles/elas essa mensagem, mas assim mesmo escrevo. Se alguém que ler tiver como fizer essa mensagem chegar ao grupo, agradeço o favor de enviar)

Aos irmãos e irmãs, companheiros da Academia Transliterária de Belo Horizonte,

Para quem não me conhece, sou monge beneditino e ainda aos 74, estudante de Bíblia e Teologia Espiritual.

Acabo de saber que uma peça ou evento artístico chamado Travesti Rainha ou Nossa Senhora dos Travestis foi censurado em nome de Deus e da religião.

Acredito em um Deus que é Amor e em Jesus que nos ensinou que o Pai Amoroso se identifica com os pequeninos e os marginalizados da sociedade do ódio e da exclusão. Peço a Deus em minha oração que um dia os pastores cristãos se situem não como poderosos ao lado dos poderosos do mundo e sim como irmãos e servidores de todos e se solidarizem aos travestis e até fiquem contentes quando alguém chamar Maria, mãe de Jesus de “Nossa Senhora dos Travestis”. A nota da Academia Transliterária afirma que a peça nada tem a ver com religião nem com Maria, mãe de Jesus. E se tivesse? De acordo com a declaração, esses queridos irmãos e irmãs que criaram a peça não pensaram em Maria, mãe de Jesus quando falaram em “Nossa Senhora dos Travestis”. Apenas pediram emprestado um título que os católicos gostam de lhe dar (Nossa Senhora) para mostrar os travestis como pessoas constituídas de uma dignidade sagrada que nenhuma palavra de bispo, padre ou eclesiástico poderá retirar deles e delas. Diante disso, o que humildemente gostaria de testemunhar é que o Deus no qual cremos é Amor, é inclusão e está junto com vocês e com todos e todas na luta para reafirmar a dignidade humana de cada pessoa em qualquer situação que seja. Sei que diante da forma como vocês são tratados por alguns eclesiásticos, nem sempre fica fácil acreditar nisso.

Aceitem, então, o sincero pedido de perdão e o compromisso de solidariedade e amor a vocês de quem sofre com essa realidade tão triste em pleno século XX e em plena Igreja Católica que teria a vocação de ser universal e poderia ser conduzida pela profecia do papa Francisco.

Estou convencido de que, mesmo que vocês, ao bolar a peça, não tenham pensado em Maria Mãe de Jesus, certamente Jesus pensa sempre em vocês e se identifica de tal forma com vocês que se sente contente em emprestar a sua mãe a vocês como Mãe de vocês . Hoje, a vocês e a todos os que vivem no mundo a cruz da missão de resgatar a plena dignidade das pessoas, Jesus afirma o que na cruz disse ao discípulo amado: Filho, eis aí tua mãe… Essa ideia que a Academia Transliterária expressa em sua nota que foi sua intenção de religar as pessoas de coração aberto e na alegria é também a grande meta de Jesus que, segundo o evangelho “morreu para reunir na unidade todos os filhos e filhas de Deus espalhados pelo mundo” (Jo 11, 52). . Sintam-se, então, confortados/as pelo meu carinho de irmão mais velho e de muitos cristãos e cristãs, assim como de pessoas que nos mais diversos caminhos espirituais optam por seguir o caminho do Amor inclusivo e veem Deus em cada um, uma de vocês, como o que há de mais sagrado, muito mais do que qualquer imagem ou símbolo religioso. Em vocês contemplo a presença do Amor Divino e lhes agradeço por resistirem e persistirem nesse caminho. O Amor Crucificado pelo mundo desamoroso está em vocês e com vocês. Vamos continuar juntos e sem nunca descrer que um dia o Amor vencerá.

Abraço do irmão Marcelo Barros