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Um diálogo possível:

Teologia feminista entre religiosas e ativistas

 

Estimada companheira,

Pergunto-lhe: O que pode ter em comum entre religiosas e ativistas a partir da teologia feminista? Ora, comumente as religiosas relatam alguma experiência com a divindade, o que não é o caso do budismo. E nessa experiência também buscam o amor, que possa via a promover alguma justiça e dignidade, aqui ou em outro mundo (como algumas pessoas interpretam.) Por outro lado, as ativistas até podem relatar tal experiência, mas não é o foco, mas enfatizam a luta por direitos, justiça e dignidade.

Mas, apesar de considerar alguma convergência no que se refere à justiça e dignidade, parece-me que à forma da busca divergem de alguma maneira, mas não posso generalizar, pois: existem religiosas que buscam justiça aqui e agora, mas existem as religiosas que apenas esperam a vontade da divindade. Existem ativistas que pensam apenas nas lutas, mas existem as que consideram a espiritualidade como um fator a contribuir nas lutas.

A propósito, qual a relação delas com a teologia feminista? Uma vez que majoritariamente teologia é interpretada como o estudo de deus ou dos deuses? E nem todas as religiosas, e nem todas as ativistas acreditam em deus ou deuses. Ora, o que existe em comum é as nossas crenças, independente de serem religiosas, começam em nossos corpos, a partir de questões cotidianas vividas pelas mulheres, como bem nos apresenta a Ivone Gebara. Acrescenta-se a isso, que por sermos mulheres – independente da idade, da orientação sexual, da identidade de gênero, da classe, da raça ou etnia, da denominação religiosa - sofremos opressões, exclusões, violências, pois são frutos do Patriarcado, Machismo, Misoginia...

Une-se a isso – outro ponto convergente - que qualquer ser humano, na sua existência, considerando as opressões, alimentam a esperança ou o esperançar, respectivamente significa, que vem do verbo esperar (aguardar) e o esperar buscando (movimentando/construindo). Para nós, cabe-nos enfatizar o esperançar. Como nos é apresentado por Paulo Freire.

A Esperança radica exatamente nossa necessidade natural do ser humano. Inconcluso sabedor da minha inconclusão, eu busco. Ao procurar não quer dizer que acho. E a minha esperança não tem a ver com a certeza interativa de que preciso procurar. No fundo, mulheres e homens somos seres da procura. (Não consegui identificar a pessoa autora)

Ora, somos seres que tem esperança, umas pessoas interpretam em aguardar uma justiça unicamente divina, o que é um pouco incoerente uma vez que o movimento de Jesus como referência, isso para o cristianismo e outras pessoas conseguem unir as duas coisas. Umas mulheres atuam em âmbito religioso por serem o espaço possível de exercerem sua ‘humanidade’ que é a convivência social, o nó de relações... Outras mulheres, tem condições de frequentar outros espaços. As crenças/as religiões, não necessariamente associadas a deus, deuses ou fantasmas mas associado a questões de ser, sentidos e verdades como nos apresenta Mircea Eliade. Tais crenças, devem ser consideradas para iniciarmos um diálogo libertário e libertador, isto é, respectivamente, uma transformação da pessoa e consequentemente um engajamento para a transformação da realidade. Pergunto: Quem nós não é marcada pelo lugar que nasce, pelo tempo que nasce, pela cultura, em uma família, pelo caráter ou índole, pela cor ou raça, pelo sexo, pela orientação sexual, pela religião, pela classe, pelo físico como nos ajuda a refletir o Frei Carlos Mesters? Para umas pessoas, pesam muito. Para outras, pouco. E se se é menina, mulher, então?

Somos muitas, temos mais situações que nos unem do que nos separam. Vale considerar que a religião é um fato social e não pode ser negligenciado para ser pensado apenas por homens. Em tempo remoto e não remoto, como o resultado das eleições e outros fatores, que

a religião pode tornar-se perigosa nas mãos e palavras de homens sem princípios éticos, que se utilizam de discursos politicamente corretos e esvaziados de humanidade e de sensibilidade. Pois as superstições distanciam os seres humanos de sua natureza, tornando-os imóveis na existência. (HENRIQUE, 2019)(grifo meu)

Que tal pensarmos estratégias para minimizarmos eventuais distanciamentos e fragmentações? Porque, “para mudar a sociedade do jeito que a gente quer, participando sem medo de ser mulher(es)”



a história
das mulheres
se escreveu em meio
ao cheiro de queimado
por séculos
& séculos.
agora, não mais!
essa é a luta
de todas as que venceram
as chamas do preconceito
e da opressão
& descobriram como
amar profundamente
a si mesmas,
do jeito que são.

a
bruxa
não vai para
a fogueira
neste livro
amanda lovelace

Referências

ELIADE, Mircea. Origens: história e sentido da religião. Lisboa: Edições 70, 1989.

GEBARA, Ivone. O que é teologia. São Paulo: Brasiliense, 2006. (Coleção primeiros passos).

HENRIQUE, Juliana. Sobre a natureza da religião. Rio de Janeiro: Autografia, 2019.
MESTERS, Carlos. Com Jesus na contramão. São Paulo: Paulinas, 2013.


 
Sobre Juliana Henrique
Integrante do CEBI/PB. Autora do livro 'Sobre a natureza da religião' pela editora autografia.