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Ivone Gebara*

1 FALAR NO PRESENTE, DO PASSADO E DO FUTURO

A vida humana se desenrola fundamentalmente no presente. É o presente que nos traz a memória do passado e nos traz os anseios em relação ao futuro. É o presente que nos esclarece sobre visões limitadas do passado, porém sempre interpretadas com os novos limites do presente. É o presente que nos leva a constatar que a maior parte de nossos anseios, também chamados desejos e esperanças, não se realizaram da forma como se delineavam em nosso passado/presente/futuro misturados, como para indicar a complexidade dessa realidade que chamamos nosso tempo. O tempo real é o presente cotidiano, tempo em que sofremos e nos alegramos, porém inseparável do passado e do futuro.

Esse movimento temporal em nós, esse fluir incessante da vida que nos leva até a velhice, quando conseguimos chegar a ela, nos convida a retomar através da memória o caminho percorrido como testemunhas de que vivemos algo de especial no passado. Mas o passado contado já não é o passado acontecido, é o presente contando o passado, quase ajustando o passado a novas situações, emoções e interpretações. Do passado existem apenas traços na memória ou em algumas páginas escritas por alguns/mas. O passado deixa de ser factual, deixa de ser claramente observável e passa a ser História contada e interpretada. Situa-se na categoria do ‘naquele tempo’ era assim. Essa narrativa e interpretação podem ser múltiplas e variadas dependendo dos sujeitos que a interpretam e levam quase inevitavelmente a inúmeros conflitos entre os intérpretes e interpretações. O passado pode também tornar-se arte no presente e imortalizar-se na literatura, no teatro, na pintura, na música, na dança. Mas a arte é mais do que o evento factual ao qual nos referimos. É uma invenção, uma criação testemunha, como dizia o grande poeta maranhense Ferreira Goulart. Que “a arte existe porque a vida não basta”. A vida não basta pois inventamos sentidos para ela e para além dela, acrescentamos pedaços de outras vidas, criamos situações idílicas, seres extraordinários, heróis, santos, gênios salvadores, deuses capazes de descer dos céus para nos socorrer. Por isso, da vida vivida apenas apreendemos fragmentos e talvez fragmentos que se ajustam mais aos desejos e expectativas de nosso presente ou que se ajustam mais aos nossos estados de alma quando escrevemos. Tudo isso para prevenir o leitor de minha subjetividade passada revisitada no presente, subjetividade interferindo em uma situação nascida e vivida no passado: a questão da Igreja dos pobres. Não discorro sobre ela de forma científica e fundada em eventuais documentos do passado, mas como um ingrediente que faz e fez parte de minha vida e que foi mudando de sabor, de forma e de odor ao longo dos anos. Hoje é memória, mas é também algo presente, um condimento importante que, de diferentes formas, se mistura nas situações diversificadas que vivo ou que vivemos, nós que ainda nos referimos a esta expressão como algo de nossa história.

2 O QUE É MESMO IGREJA DOS POBRES?

A expressão, reafirmada de forma especial há mais de 50 anos, especialmente com a Teologia da Libertação, precisa hoje ser explicada e compreendida a partir de uma leitura atualizada de nosso mundo. A distância de 50 anos já nos permite um debruçar mais ou menos objetivo/subjetivo sobre algo que vivemos no passado. Vou discorrer sobre ela como exercício espontâneo de memória, a ser completada e ajustada por outras testemunhas.

Em linhas muito gerais a expressão tem a ver com a consciência de muitas pessoas

que vivendo nos e dos territórios da religião, especialmente o cristianismo, sentiram a necessidade de tornar os conteúdos da religião que se referiam especialmente à realização da felicidade eterna em conteúdos históricos em vista de uma finalidade histórica real. O contexto geral da época e suas muitas violências e injustiças sociais convidava para isso. Se propuseram, assim, uma nova hermenêutica religiosa afirmando o ‘aqui e o agora’ das promessas religiosas e dos valores sociais que ela propunha. Embora isso não seja uma novidade da América Latina, é preciso afirmar sua originalidade num contexto de luta contra as ditaduras militares e a alienação das religiões frente as injustiças sociais crescentes. As mediações sociais e analíticas pouco penetravam nas Igrejas fora alguns documentos oficiais. O Concílio Vaticano II, a vasta documentação emanada do Conselho Mundial e das Igrejas latino- americanas eram insuficientes para mover séculos de religiosidade e de aliança com os poderes estabelecidos provindos da época colonial.

A expressão ‘igreja dos pobres’ nem sempre teve em seu conteúdo uma marca política de aliança com a vida real dos pobres, com os movimentos sociais, mas desenvolveu- se de diferentes formas em conteúdos e ações.

A Igreja dos pobres pode ser explicitada por diferentes grupos que a compreendiam a partir de suas escolhas sociais e políticas. Enumero algumas, a título de exemplo:

- Uma Igreja ou uma comunidade de fé de propriedade dos pobres, organizada e dirigida por eles/elas.
- Uma Igreja para os pobres mantida especialmente por hierarquias que se reclamam sucessoras dos apóstolos e que dão uma atenção prioritária aos necessitados.

- Uma Igreja ou uma Instituição religiosa que direciona suas atividades priorizando ações sociais de benemerência para enfrentar-se a pobreza e o abandono de muitos. Assume muitas vezes uma posição de suplência em relação à responsabilidade do Estado.

- Uma Igreja sonho realizado de justiça e amor vividos já nos limites de nossa História por muitos que se congregam em nome de Jesus de Nazaré.

De uma maneira geral essas concepções, e muitas outras no gênero, vão de uma postura de querer ajudar os pobres a querer que eles assumam a sua vida de maneira particular na Igreja, que tomem decisões em relação à sua pertença à comunidade cristã e ao seu protagonismo social e político. Entretanto, sabemos bem que o protagonismo social e político foi de certa forma vivido pelos pobres, porém entregar a Igreja institucional aos pobres foi e é quase um sonho impossível. A História já nos ensinou suficientemente o quanto essa pretensão é instável e é sempre vítima de vários revezes provindos da própria condição humana. Mas por que seguimos com essa linguagem? Por que fazemos de conta que os pobres agora são os primeiros quando na realidade continuam a ser os últimos? Por que os afirmamos como protagonistas mais importantes quando na realidade são apenas coadjuvantes de algo que não escolheram? Não tenho respostas seguras e convincentes nem para mim mesma.

A partir dessa constatação ouso confessar que vivo em mim uma série de sentimentos contraditórios em relação a essa forma de dirigir-se aos pobres referindo-os à Igreja. Se dizemos Igreja dos pobres é porque sem dúvida existe a Igreja dos ricos e até a Igreja da classe média. Ela participa, assim, da fragmentação da sociedade em classes sociais embora se apresente como una e aparentemente igual para todos/as os fiéis. Além disso, também participa de uma esperança maior, de algo como um sentido feliz para a história humana onde a irmandade universal possa se realizar de fato e de direito. Não reflito agora sobre a irmandade universal, mas é algo que precisaria ser retomado em tempo oportuno. O que significa hoje?

Penso que a expressão ‘igreja dos pobres’ retomou seu lugar na história da América Latina dos anos 1970 frente a dor imensa dos povos que aqui vivem, subjugados, espoliados, oprimidos por poderes nacionais e internacionais que se julgavam donos do destino humano. Não retomo a história já conhecida dos muitos desenvolvimentismos, mas retomo a expressão ‘igreja dos pobres’ com todas as ambiguidades que pode encerrar como uma espécie de expressão do anseio de muitas pessoas de ver a justiça e o amor triunfarem sobre a terra. A expressão hoje lida por mim assemelha-se quase a uma espécie de produção de uma esperança metafísica capaz de criar expectativas para além da opressão real vivida na história de nossos países minados pela dependência econômica mantida pelos regimes ditatoriais.

Essa esperança metafísica para além das aparências reais da vida cotidiana, para além das derrotas, das muitas mortes, dos muitos êxodos forçados e perseguições era como uma força para além de nós, embora também em nós, que nos ajudava a arrancar de novo o motor de nossa história comum e dar novo impulso para a luta libertária. Fizemos canções para os que foram mortos, para as vítimas dos fuzis e das emboscadas como se fossem alimentos para a continuidade de nossa esperança. Se um cai dez se levantarão para defender a liberdade! E depois, segundo a fé cristã, cantamos a ressurreição dos mortos como se ela pudesse nos reafirmar na instável certeza da vitória histórica sobre a opressão. Transformávamos as mortes em forças para continuar a vida. De certa forma ouso dizer que ousávamos não ver a realidade crua e cruel das mortes, da fome e dos medos acreditando que Alguém, um Ser superior, estava de nosso lado e que, finalmente, a nossa vitória seria também a dele. Afinal éramos seu povo, seus filhos e filhas, seus herdeiros na felicidade eterna! Ele garantia a pertinência de nossa luta que, afinal, era também a dele.

Mas quem éramos nós os que apostávamos nas frentes de Deus, no impulso do amor divino, na restauração do reino, com nossas foices e enxadas frente aos canhões de guerra e metralhadoras? Éramos a elite da Igreja dos pobres, aqueles/as que lutavam pelos pobres, aqueles que lideravam frentes de batalha com e para os pobres. Se morrermos com eles com eles ressuscitaremos! Seguiremos fiéis ao Cristo até a vitória final!

Desperta em relação ao tempo que passou, retomo esses sonhos nutridos, sobretudo no nordeste do Brasil, e através das pequenas vitórias que nos contavam terem acontecido em muitos lugares. A voz de Helder Camara nos nutria. Seus sonhos de justiça e ponto final à miséria alimentavam os nossos. Suas preces noturnas nos convidavam a orar e seguir suas propostas sem esmorecer. Ele era para nós o líder religioso mais próximo de nossos sonhos de justiça. Em torno dele muitos de nós gravitávamos como se ele soubesse melhor do que todos nós da vontade do ‘grande chefe criador’ de todas as coisas. Sua poesia e seus contos e parábolas sobre a vida nos nutriam. Sua simplicidade de vida nos convidava a radicalizar e despojarmo-nos de nossos privilégios. Com ele também púnhamos os pés na lama dos mangues e morros do Recife e lutávamos por aqueles que não tinham escolha senão viver em meio aos caranguejos alimentando-se deles.

Com ele queríamos formar o povo dos pobres para uma nova teologia, uma nova Igreja, um novo mundo onde a justiça floresceria em cada gesto nosso. Entrei nesse sonho em 1973 como numa aventura maravilhosa e cheia de riscos. Com outros companheiros/as achava que íamos chegar à terra prometida. Afinal estávamos lendo isso na ‘Palavra de Deus’? Que garantia maior poderíamos ter? Não seria essa Palavra que líamos como promessa a ser realizada também por nós a certeza de que esse era o único caminho da justiça? Sem desprezar as análises dos cientistas sociais e políticos nossa luta e nossas esperanças se fundavam na revelação e realização da justiça divina.

Viver pobre no meio dos pobres para beber de sua sabedoria. Não acumular bens para aprender a dividir sempre. Não se extasiar frente as novidades do Mercado sempre nos atraindo com suas luzes e ofertas. Criar grupos de estudo, articulações nacionais e internacionais para uma ajuda mútua. Estas atitudes queriam ser uma espécie de fermento na massa com a finalidade de levedar a sociedade em vista da construção de relações econômicas, sociais e políticas mais igualitárias. Vivemos isso em muitas atividades pastorais e no Instituto de Teologia do Recife e no DEPA (Departamento de Pesquisa e Assessoria) em vista da formação de agentes de pastoral de meio popular numa perspectiva ao mesmo tempo formativa e ativista.

Sim, chegaríamos a esse ideal, apesar das dificuldades e dos reveses. E se algum de nós duvidasse, num momento de desespero, dessa certeza de fé, lá estávamos todos para ajudá-lo a não cair na tentação dos céticos. Afinal tínhamos a Promessa! E quem nos garantia o seu cumprimento e a vitória era Jesus Cristo, libertador! Como não confiar? Como não esperar? Como não continuar a luta?

Porém, os muitos reveses da história protelaram a promessa, empurraram a promessa para os céus e, mais uma vez, a Igreja dos pobres com seu sonhado ativismo político libertário ficou apenas como um nome, uma expressão convidando-nos a precisar melhor o que ainda buscamos.

3 E AGORA JOSÉ? O SONHO ACABOU?

Agora os tempos são outros. Os sonhos ideais, talvez ‘metafísicos’ de viver o Reino dos céus na história, o reinado da justiça e do amor estão abalados e talvez têm outras formas de manifestação. A roupa que usávamos para expressá-los parece bem apertada rompendo-se a cada movimento do corpo. Já não nos abriga nem do frio e nem nos protege do calor. Viraram trapos sobre nossos corpos... Memórias bonitas quase sem eficácia em nossa história presente embora verbalmente as repitamos e ainda desejemos que algo do que acreditávamos se realize.

Pouco conheço das novas danças da vida e nem tenho a compreensão da nova arte, da nova música, das novas danças dos corpos que pobres e ricos estão dançando. A ‘nostalgia da Igreja dos pobres’ volta, às vezes, como se quiséssemos recuperá-la, como se já velhos quiséssemos lembrar a outros e a nós mesmos que lutamos e muito pela vida dos pobres. Que o sonho não acabou, que a dança não findou apesar de nossos corpos alquebrados sem o molejo necessário para dançar a novidade de hoje.

Ah! Que saudade daquelas crenças antigas! Aquelas que já faziam ouvir o barulho dos tambores de festa, das cuícas e violões anunciando que em breve as mesas estariam fartas, as casas mais sólidas, as crianças nas escolas, os córregos limpos, os camponeses com terra e sem agrotóxicos. Ah! Que saudades do que não aconteceu! Saudades do silêncio imaginado das baionetas e dos canhões, da truculência policial transformada em gesto de cuidado, das prisões vazias de pobres e negros! Ah! Que saudade do respeito às mulheres, da igualdade de salários, do direito à escolha! Ah! Que saudade das cirandas festivas que iluminavam nossos encontros e renovavam nossa bagagem de realização de nossas esperanças!

Ontem, acenamos de longe para a ‘terra prometida’. Cantamos nossa próxima chegada a ela como ‘um levantar a vista’ para enfim saudá-la como nossa!

Será que chegaremos a ela um dia? Não sei... Talvez, haverá pequenos terrenos conquistados, pequenas festas que saciam nossa fome e amores que encantaram provisoriamente nossas vidas. A dinâmica da vida, como a sinto hoje, me leva a afirmar a falta de chegada, a falta de um ponto final feliz a partir do qual todas/os vivam a dignidade desejada. É no caldeirão da vida cotidiana que experimento alegrias, pequenos prazeres, pequenas vitórias da justiça, encontros de amigos como para saudar a precariedade da vida hoje e convidar-nos para uma breve espera no próximo mês. É no imediato que a alegria de ver jovens ocupando uma escola e pedindo melhor educação, mulheres na rua pedindo respeito a seus corpos, uma multidão gritando contra o racismo e a xenofobia. Esta não é mais a Igreja dos pobres. É bem maior, mais extensa, sem limites dogmáticos, sem controle clerical. É a comunidade humana reclamando da própria comunidade humana e esperando que os conflitos produzam vida digna através de leis e de direitos reconhecidos. Esta expansão de lutas, esse eco de gritos e canções diversas me alegra e me faz vibrar.

4 OS MERCADORES DOS TEMPLOS, OS DONOS DOS POBRES DE HOJE

Hoje onde está a Igreja dos pobres? A Igreja dos pobres, salvo algumas raras exceções, virou presença em grandes empresas nacionais e multinacionais de religiões usando os pobres como matéria-prima, massa de manobra para grandes ganhos econômicos. Constroem suntuosos templos, fazem milagres, curas, prometem emprego, abundância, proteção como se a religião se tornasse fornecedora de mercadoria de muitas procedências para atender a mil e uma necessidades. Vendem benefícios celestes como antes a Igreja Católica vendia indulgências. Ensinam a combater os demônios que eles identificam como aqueles que impedem a proliferação de uma vida de abundância e de amor.

Quem está fora desse comercio ‘espiritual’ está sem sucesso no meio do povo. Poucos são os redutos onde ainda se fala da teologia da libertação comparados aos discursos de verdades dogmáticas dos Templos de mercadores. Entre a promessa de abundância e prosperidade e a teologia da libertação que exige luta, sacrifício e partilha sem certezas de sucesso, a primeira alternativa a da abundância e do sucesso garantido é bem maior e muito mais atraente.

A Igreja Católica Romana embora com maior discrição e sem usar a palavra prosperidade também está presente no grande mercado dos Templos. Retomou suas velhas devoções, reconstruiu seus templos, voltou a morar nas sacristias e fazer milagres disputando um público que havia perdido. Restaurou seu lugar no culto aos santos, canonizou dezenas de novos intercessores o que lhe tem rendido entrar numa competição indiscreta e triste com outras igrejas na manutenção de seus fiéis. Em meio a esse movimento de restauração há vozes, grupos, pequenas organizações que seguem afirmando a herança ética do Evangelho de Jesus.

5 E AS MULHERES FEMINISTAS ONDE ESTÃO?

Desde a década de 1980 muitas mulheres de diferentes Igrejas no Brasil e em diferentes países da América Latina começaram a se reunir e fazer teologia feminista.

Influenciadas pelo movimento feminista internacional perceberam logo o quanto a dominação masculina, inclusive das igrejas, incidia sobre os corpos das mulheres. O controle dos corpos, a espiritualidade da obediência e submissão à vontade divina eram, na realidade, uma forma de manter as estruturas das Igrejas segundo a lei patriarcal considerada ‘vontade divina’. A partir do final dos anos 1970 comecei a ler e estudar não só o feminismo, mas as teologias feministas produzidas no exterior. Uma revolução interior de grandes proporções se deu em mim porque os clamores que me habitavam encontravam eco nos ousados pensamentos de outras mulheres, as chamadas feministas. Da mesma forma as questões que começava a ouvir da boca das mulheres de meio popular, questões que antes não me tocavam em profundidade, começaram igualmente a me habitar e me agulhar. Tinham que ver com a convivência familiar, a submissão ao marido, a sexualidade, os salários menores, a violência que sofriam na maioria das vezes caladas para não causar escândalo público como costumavam dizer. Minha ciência teológica não parecia mais servir nem para mim e nem para elas. Da mesma forma as pregações, as liturgias, as explicações religiosas sempre apelando à submissão das mulheres à vontade divina pareciam trair algo de profundo na vida das mulheres. Um prazeroso e ao mesmo tempo doloroso período de mudança começou a acontecer em mim. Sentia-me muitas vezes mais à vontade com grupos feministas como SOS Corpo do Recife do que com as repetições dos discursos da Igreja Católica, muitas vezes genéricos e idealistas.

O feminismo nunca foi simpático à maioria das Igrejas e continua até os dias de hoje demonizado e criando inúmeras formas de perseguição a muitas mulheres. Mesmo na Igreja de Olinda e Recife isso acontecia. O clero e os bispos nunca se aproximaram do feminismo com simpatia. O mesmo acontecia com os alunos do Instituto de Teologia e os estudantes de faculdades católicas. O feminismo era uma espécie de heresia, nascida especialmente nos Estados Unidos, e que pervertia as mulheres latino-americanas deixando-as submissas a novas formas de imperialismo, como argumentavam. Muitos conflitos aconteceram entre feministas e a Igreja Católica em diferentes lugares do mundo dos quais eu também fui uma das vítimas. Esses conflitos seguem de muitas formas nos dias de hoje, embora algumas pessoas comecem a se interessar pelas bandeiras feministas e ousem emitir suas opiniões nas igrejas.

Minha referência na Igreja dos pobres eram as mulheres pobres, parte esquecida na

generalidade ‘opção preferencial pelos pobres’. Tentei abrir caminhos com elas, porém sempre me dava conta da dificuldade porque os ensinamentos da Igreja Católica, mesmo oprimindo as mulheres, apareciam como uma segunda natureza ou como vontade divina a ser obedecida.

Hoje, passados tantos anos, a bandeira feminista continua vivendo em mim. E, continua a aversão de uma parte significativa da hierarquia cristã e de fiéis a esse movimento social mundial de afirmação dos direitos humanos das mulheres.

6 SÓ PARA DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES...

Embora as religiões e suas instituições ainda tenham muito sucesso, há um sentimento em muitas de nós, e eu me incluo nele, de que esse discurso já não dá conta da realidade plural em que vivemos. Ele parece estar oco de conteúdos pertinentes. Sua linguagem se distanciou da língua plural e inclusiva falada em todos os países. Algo oco é algo que foi-se esvaziando e do qual apenas ficou uma casca. Oponho o vazio ao oco. O vazio é algo que sempre existe. É condição para nossa mobilidade e busca cotidiana. É condição para os novos sentidos, para o silencio necessário para retomar a vida. O oco é o que foi outrora cheio ou afirmado como verdade, porém foi-se esvaziando e perdendo sua força vital, sua consistência, seu sabor, sua atualidade. Tornou-se apenas casca, aparência de alimento sem substância real nutritiva. Tornou-se mercadoria de falsas esperanças e certezas vazias.

Minhas palavras e minhas análises não decretam o final das religiões patriarcais. Elas têm ainda muito fôlego. Falo de outra coisa, difícil de descrever, busco sentidos que incluam os muitos aspectos de nossas vidas. Tentarei expressar algo disso usando da memória de uma breve experiência que fiz, na Nicarágua, em meados dos anos 1980.

Passei uma semana na comunidade de irmãzinhas de Jesus, perto de Chinandega. Elas tinham um lindo trabalho de produção agrícola e artesanal com jovens mulheres. Sua casa simples entre as outras casas iniciava a vida cedo, no final da madrugada. Íamos para a capela desprovida de luxo e de imagens e nos sentávamos no chão, em silêncio, apenas esperando o alvorecer. Havia uma pequena vela acesa e suas sombras. A porta ficava aberta. Algumas mulheres vizinhas vinham também viver essa

espera silenciosa do dia. Cada uma de nós deixava o silencioso mistério acontecer em si mesma até que os raios do sol se tornassem mais intensos e como num comum acordo entoássemos um hino de louvor à vida.

Esse acontecimento singelo que habita a minha memória me faz pensar na necessidade de buscar na sementeira que somos nós um certo silêncio para redescobrir os novos caminhos do Cristianismo para os dias de hoje. Faz décadas que estou buscando... Sei que há que buscar a vida toda. Mas, o fato de lembrar-me desse silêncio coletivo que vivi e do compromisso ativo de tantas vidas de mulheres me convida a pensar e a calar. Hoje o barulho intenso se naturalizou em nós e já não sabemos mais da importância do silencio. É preciso busca-lo de novo de muitas formas.

Nesse atual momento quero apostar no fato de que as novas gerações que estão atuando no presente da história tenham mais instrumentos atualizados do que eu para entender esse complexo mundo de hoje que, pouco a pouco, está deixando de ser o meu mundo. Hesito em dar conselhos, direções, rumos para as Igrejas. Já não sei mais... Apesar do diálogo necessário entre as gerações pressinto que não são as velhas/os que darão a resposta para hoje... A gente pode somar, embora não tenhamos em nós os desafiadores ares dos novos tempos. Por isso estou tranquila.

7 CAMINHANDO E CANTANDO E SEGUINDO A CANÇÃO...

Qual a canção que ouvimos e que ainda move nossos passos? Haveria uma canção única dentro de todas as canções plurais que ouvimos? Creio que em todas as canções há que buscar o estribilho da dignidade humana, da dignidade do planeta, da igualdade de direitos, do respeito às diferenças... Canção de muitas letras e muitas melodias. Nenhuma pode ser perdida na medida em que o estribilho possa ser o mesmo. Este era o estribilho de ontem e é ainda o de hoje, porque a tentação de trair os outros salvando a nossa própria pele é uma constante na história humana. Podemos ser amorosos e cruéis quase ao mesmo tempo. Podemos também nos sensibilizar com as dores das caídas nas estradas da vida, mas esquecê-las também.

De fato, nos tempos da Igreja dos pobres com Dom Helder Camara e muitos outros fomos felizes no que acreditávamos. Isto foi muito importante. E, o que acreditávamos dava-nos a possibilidade de dar o próximo passo como se víssemos algo do invisível desejado, do bem imaginado, da justiça esperada em nossos sonhos.

Os sonhos se renovam de muitas maneiras. Muito embora guardem suas velhas notas, sua recorrência é contínua, mesmo se maquiada ou vestida com outras linguagens que nos fazem imaginar sua radical novidade. Seguiremos, seguirão nossos herdeiros como se inventassem novamente o mundo na sempre velha e nova dinâmica da vida ou como se bordassem novos desenhos no seu tecido onde se pode ainda distinguir os velhos traços quase imperceptíveis do passado.

‘Mundo, mundo, vasto mundo, Ah! se eu me chamasse....’

 

LIVROS DE IVONE GEBARA (descrevem um pouco de seus itinerários)

A mulher faz teologia. Petrópolis: Vozes, 1981.
As águas do meu poço: reflexões sobre experiências de liberdade. São Paulo:

Brasiliense, 2005.

Direitos humanos & amor ao próximo: textos teológicos em diálogo com a vida real. São Paulo: Editora Recriar, 2019. Escrito com Jung Mo Sung.

Ecofeminismo: desafios para repensar a teologia. São Paulo: Editora Terceira Via, 2017.

Filosofia feminista: uma brevíssima introdução. São Paulo: Editora Terceira Via, 2016.

Maria, Mãe de Deus e Mãe dos Pobres. Petrópolis: Vozes, 1987. Escrito com Maria C. Bingemer.

Mulheres, religião e poder: ensaios feministas. São Paulo: Editora Terceira Via, 2017.

O que é teologia feminista. São Paulo: Brasiliense, 2007.
Rompendo o silêncio: uma fenomenologia feminista do mal. Petrópolis: Vozes, 2000.

Teologia ecofeminista: ensaio para repensar o conhecimento e a religião. São Paulo: Editora Olho D’água, 1997.

Vulnerabilidade, justiça e feminismo: antologia de textos. São Bernardo do Campo: Nhanduti Editora, 2010.

 

 

* Doutora em Filosofia, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, e em Ciências Religiosas, pela Universidade Católica de Louvain. Foi professora de Filosofia e Teologia no Instituto de Teologia do Recife, durante o bispado de Dom Helder Camara. É integrante da Associação de Teólogos do Terceiro Mundo, assessora grupos e é convidada como docente por universidades no Brasil e no exterior. Entre 1995 e 1996 viveu em Bruxelas, obrigada pelo Vaticano que lhe impôs dois anos de silêncio e seu traslado à Europa. Viveu em Camaragibe/PE até o ano de 2007, voltando a morar em São Paulo/SP em 2008.

 

fonte : http://www.unicap.br/ojs/index.php/paralellus/article/view/1865/pdf