Alder Júlio Ferreira Calado

Um dos grandes empecilhos presentes no processo de formação, vivenciado nos seminários, tem a ver com a pouca criticidade dos ensinamentos relativos à história da igreja. Com muita frequência, o que se tem é mais uma história eclesiástica, defesa incondicional da hierarquia, em tom apologético, acrítico. Em verdade, uma compreensão crítica, baseada nos fatos históricos, nos acontecimentos e situações vivenciados pela Igreja Católica Romana e também outras igrejas mui raramente é exercitada. A posição que prevalece é um olhar complacente, condescendente ou mesmo cúmplice dos graves malfeitos protagonizados pela hierarquia eclesiástica, em diversos períodos da história da igreja. Não raramente, aqueles grupos, movimentos e figuras que discordassem dos princípios impostos pela hierarquia, não eram tratados apenas como meros dissidentes, mas como heréticos, alvo, por conseguinte, de intensa perseguição e graves punições, inclusive a fogueira, da parte da hierarquia eclesiástica.

 

Ao longo de dois mil anos de cristandade são impactantes os graves malfeitos praticados por papas, bispos e o clero em geral contra quem não se submetesse incondicionalmente às suas ordens e normas, mesmo quando estas se chocassem visivelmente com os textos evangélicos. Toda esta estrutura punitiva não foi, contudo, suficiente para inibir ou dissuadir muitos dos membros desta igreja, que preferiram obedecer, conforme o conselho presente nos Atos dos Apóstolos, mais a Deus do que aos humanos. Isto se deu com vários grupos, movimentos e pessoas, ao longo da história da cristandade, em especial durante a chamada Baixa Idade Média. A partir do século XI e XII, observa-se uma sucessão de grupos, movimentos e pessoas que se insurgiram contra os preceitos impostos pela hierarquia, razão pela qual tiveram que pagar um preço muito alto, inclusive com a sua própria vida. No século XII, por exemplo, tem início um movimento animado pela figura de Pierre Valdès (ou Valdo), um rico comerciante que, profundamente tocado pela exortação do Evangelho, segundo a qual dificilmente um rico entrará no reino dos céus, decidiu desfazer-se de sua riqueza e dividi-la com os pobres, em uma atitude de obediência aos ensinamentos do Evangelho em torno de 1160. Na região sudeste da França, perto de Lyon e da Provence, é que tem início este movimento, chamado de movimento dos Valdenses, em referência a figura de Pierre Valdo. Tocados pelo chamamento missionário, este movimento de homens e mulheres passa a alimentar-se da palavra de Deus, especialmente do Evangelho, que os move à pregação em praça pública, em um contexto em que a pregação era tida como prerrogativa exclusiva do clero. Buscando, todavia, obedecer mais a Deus do que à hierarquia, estes homens e mulheres ousam sair em missão, a pregarem e a testemunharem o Evangelho do Reino de Deus e sua justiça, procedimento que passa a ser punido, de forma contundente, pela alta hierarquia, incluindo perseguições e castigos infligidos a este movimento, por longos séculos.

 

O movimento dos Valdenses não era aceito pela hierarquia, não apenas por ousarem pregar o Evangelho em público, mas também por ousarem fazê-lo, utilizando-se da língua comum, tendo traduzido o Evangelho para a língua do povo, para o vernáculo. Apenas ao clero era permitido, não apenas pregar, como também ler a sagrada escritura e, em latim, sendo às massas populares permitido tão somente ouvir, em segunda mão, a palavra de Deus, o que os membros deste movimento não se puseram de acordo. Guiados pelo sopro frontal, pelo Espírito Santo, os Valdenses não cessavam de espalhar-se por aquela região, de modo a assustar ainda mais os hierarcas. Estes ainda sofriam fortes denúncias feitas pelos Valdenses, com relação ao seu agir aético e distante dos valores do Evangelho, à medida em que se impunham como componentes de um estado, de um império, com alianças seguidas com reis e príncipes, ao tempo em que desprezavam os pobres, os desvalidos mais ainda: metiam-se em situações de corrupção e de devassidão, perdendo cada vez mais a confiança dos pobres, dos que não compunham a nobreza e seus cúmplices. Os valdenses expandiam fortemente sua ação missionária passando da região em torno de Lyon, na França, para a região da provence francesa e, em seguida, para a região italiana dos Alpes, do Piemonte. Os hierarcas, por sua vez, não pouparam os Valdenses, Contra eles movendo seguidas perseguições, das quais a chamada "Semana Sangrenta", na região francesa do Luberon, constitui uma forte ilustração das perversidades do massacre impetrado contra milhares de membros do Movimento dos Valdenses, em 1545.

 

Não eram apenas os Valdenses, também conhecidos como "os pobres de Lyon" que teimavam em seguir os conselhos evangélicos, mesmo contra as ordens e as normas dos hierarcas eclesiásticos. Havia, também, outros movimentos que seguiram passos semelhantes. o próprio movimento em torno de Francisco de Assis (os Valdenses surgiram cerca de 20 anos antes do nascimento de Francisco de Assis) também significou um protesto veemente contra a riqueza do clero e seus vínculos orgânicos com o império, com reis e príncipes, com a nobreza. Enquanto Francisco e seus companheiros, ainda que não tendo uma postura de claro enfrentamento com a hierarquia, graças ao seu testemunho de pobreza e de profecia, apontavam o horizonte do reino de Deus como sendo sua verdadeira meta. Além dos chamados espirituais franciscanos ou “fraticelli”, também importa reconhecer outros grupos e movimentos que surgem e se espalham, como o movimento das Beguinas, também contemporâneo dos acima mencionados.

 

Há mais de 20 anos, em um pequeno livro intitulado "Memória histórica e movimentos sociais populares ", tivemos a ocasião de fazer um breve apanhado de diversos movimentos pauperes típicos da Idade Média, incluindo os valdenses, franciscanos, os espirituais franciscanos, os cátaros, os begardos, as beguinas, integrantes do movimento em torno de Jan Hus e de Thomas Müntzer, entre outros. Naquela ocasião - como ainda hoje -, com notável frequência, escutamos advertências ou exortações da parte de integrantes de correntes conservadoras e reacionárias, aconselhando a não olhar pelo “retrovisor”, para se poder olhar apenas para a frente. Isto tem sido estratégia recorrente dos "vencedores da história", inclusive de correntes escravagistas que hoje assumem posição de relevo no atual contexto sócio-histórico e mesmo eclesial, a despeito de figuras tais como a do Papa Francisco. Ora, para os vencidos, olhar apenas para o futuro, desprezando relevantes lições do passado, significa um ato de submissão aos ditames dos grupos dirigentes e dominantes. Rememorar acontecimentos, situações e fatos históricos constitui uma ferramenta preciosa para os “de baixo", à medida que tal exercício é capaz de recolher lições e aprendizados, sem os quais se tornaria inútil a busca de alternativas com chances de êxito. Como costumava dizer Eduardo Galeano, "o passado tem muito a dizer ao futuro". daí nossa decisão de revisitarmos, de vez em quando, acontecimentos e fatos históricos do passado, não com o intuito de reproduzi-los - o que seria uma inócua farsa -, mas de, ao revisitá-los, buscar recolher ensinamentos grávidos de alternatividade para um enfrentamento exitoso dos desafios atuais. É, por conseguinte, nesta perspectiva, que ousamos rememorar o movimento dos Valdenses, ainda que de modo resumido.

 

Um dos ganhos relevantes de nossa tentativa reside no fato de que, por um lado, se as relações de dominação têm-se feito presentes, ao longo de séculos, os movimentos populares de resistência sempre tiveram lugar. E não se trata apenas, como sabemos, da resistência profética oposta pelos Valdenses aos caprichos e malfeitos perversos praticados pela hierarquia eclesiástica, em conluio com a nobreza, com o império, com príncipes, em diferentes épocas, mas também de rememorar tantos outros movimentos populares, antes e depois da Idade Média, até os dias presentes, como uma estratégia libertária para os oprimidos de todos os tempos. Convém sempre lembrar o protagonismo de outras forças sociais, movidas ou não por valores religiosos, mas sempre dispostas a se rebelarem contra todo tipo de dominação tal revisitação resulta, não apenas pertinente, mas igualmente útil e necessária, como meio de reforçar nosso horizonte de busca de uma nova sociedade, alternativa aos caprichos da barbárie presente, representada pelo capitalismo, em suas diversas modalidades.

 

Neste sentido, nossa busca de familiarização com os acontecimentos protagonizados, seja pelos gladiadores romanos que se rebelaram contra o império, seja pelos diversos movimentos revoltosos da Idade Média, seja pelos movimentos revolucionários da Idade Moderna e da Idade Contemporânea. Isto representa um campo de resistência bastante promissor como inspiração para as lutas presentes.

 

O que podemos recolher, como lições, das lutas travadas por estes movimentos populares, dentro e fora dos espaços eclesiásticos, especialmente dos Valdenses? Um dos pontos a recolher, refere-se ao entendimento de que toda dominação constitui-se uma relação social, na qual e pela qual dois pólos entram em conflito aberto: o polo da dominação e o polo que sofre a dominação. Sem o consentimento deste, a relação se rompe, em algum momento. Isto sucede tanto nas macro relações quanto nas micro relações. Resulta impossível uma dominação, inclusive, pela força das armas, quando é persistente a resistência do polo que sofre aquela dominação. Eis um aspecto que injeta muita esperança e confiança nos dominados de todos os tempos, inclusive nos de hoje.

 

Dadas, inclusive, suas especificidades e singularidades, vale a pena trazer à tona alguns aspectos da evolução e dos desdobramentos do Movimento dos Valdenses. Trata-se de experiência eclesial das mais longevas, entre as igrejas cristãs. O movimento dos Valdenses se dá antes mesmo do nascimento de Francisco de Assis, no final do século XII, menos de um século após o chamado cisma do oriente, isto é, a separação de igrejas ortodoxas da Igreja Católica Romana, em 1080. O movimento dos valdenses, com efeito, tem atravessado cerca de nove séculos, sendo capaz de sobreviver a graves intempéries sofridas, ao longo deste tempo.

 

Na sua proposta de vivenciar o Evangelho, por meio do discipulado fiel à sua palavra, Pierre Valdo e seus seguidores se mostraram bem firmes, em seus propósitos, principalmente no tocante à sua vocação de pregar o Evangelho em público, permitindo que a palavra de Deus fosse acessível diretamente àqueles e àquelas tocadas pela sua mensagem, razão por que Pierre Valdo tratou, junto com os seus irmãos e irmãs, de fazer traduzir a Sagrada Escritura ou mais diretamente os Evangelhos, em língua popular, em um tempo em que somente os membros do clero tinham a prerrogativa de lê-la, em latim, acarretando ao povo uma leitura de segunda mão, algo com o que os Valdenses não concordavam. Esta vocação de leigos e leigas pregadores do Evangelho incomodou o alto clero, tornando-se um fator de reiteradas perseguições condenações e até de massacre, como ocorreu em 1545, além de outros episódios semelhantes em tempos posteriores.

 

Os Valdenses, a partir de Lyon e dos seus arredores, na região de Aix-en-provence, foram se expandindo para outras regiões, A exemplo do Piemonte e, a partir daí, por toda a península italiana, pela Suíça, pelo sul da Alemanha, chegando a marcar presença também em países do leste europeu, exemplo da atual República Tcheca e da Polônia, depois indo mais longe, inclusive na América Latina, especialmente entre o Uruguai e a Argentina, além de sua presença também nos Estados Unidos, na região de Carolina do Norte, Nova York e outras.

 

Esta capacidade de resistência a todo tipo de perseguição tornou os valdenses fiéis e obedientes à palavra de Deus, até o presente. Disto dão testemunho sua participação e sua ação evangelizadora, por meio também da oração e do culto assegurado aos seus fiéis, mulheres e homens. Adaptando-se aos diversos contextos, os valdenses acabaram filiando-se às igrejas reformadas, principalmente à Igreja Calvinista, e mais recentemente, também à Igreja Metodista e Presbiteriana.

 

Interessante, igualmente, atentar à forma como organizam e vivenciam os seus cultos. uma sugestão provocativa pode ser a de acompanhar um de seus cultos, pela via da internet, nesses tempos de pandemia. Um desses cultos, tivemos a alegria de acompanhar recentemente (e que recomendo pelo link https://www.youtube.com/watch?v=j5QSiarbFGs), justamente quando se celebrava a festa de Pentecostes. No culto, a ênfase dada era a de um dia todo especial, pois rememorativo da fundação das igrejas cristãs. Chamam a atenção não apenas as densas leituras da celebração, como também a firme participação feminina nos referidos cultos, em companhia masculina, demonstrando uma participação fraterna, também no que concerne às relações de gênero.

 

Outro aspecto tocante, na experiência mais recente das igrejas valdenses, refere-se à sua participação crítica nos embates da sociedade civil, inclusive em temas delicados, tais como a orientação sexual de seus membros, a eutanásia, sua posição em relação a muitos temas-tabus, tão característicos atualmente das igrejas Neo pentecostais fundamentalistas, inclusive no segmento Pentecostal ao interno da Igreja Católica Romana. Chama a atenção, não menos, sua posição firme em relação à laicidade do Estado. Mostram-se, também, muito aplicados nos estudos de exegese, adotando o método histórico crítico, como instrumento de releitura e interpretação de textos bíblicos espinhosos, do ponto de vista das mulheres e dos homens de nossos tempos.

 

Rememorar traços significativos do legado dos Valdenses e de tantos outros movimentos populares, na Idade Média e em quaisquer outros períodos da história, tem a ver com o propósito de reavivarmos nossos compromissos, diante dos tremendos desafios atuais - ecológicos, sanitários, econômicos, políticos e culturais, à medida que tal exercício nos permite compreender a importância do exercício de uma memória revolucionária, tanto em sua dimensão coletiva quanto no âmbito pessoal.

 

Em vez de nos rendermos ao sentimento de impotência ou, pior ainda, de indiferença, ante os desafios de hoje, exercitar a memória histórica destas lutas e deste legado nos anima sobremaneira, no sentido de despertar nossa consciência crítico-transformadora, a partir das correntezas subterrâneas, grávidas de alternatividade à barbárie capitalista ora agravada, seja pela pandemia da covid-19, seja pelo pandemônio da atual conjuntura neo-fascista de correntes obscurantistas, protagonizadas por seres humanamente desfigurados como os do Trumpismo e do Bolsonarismo. Quanto a este último, importa alertar em relação aos gravíssimos riscos que a sociedade brasileira corre - já não bastassem os anos de tragédia golpista, maquinada pela elite escravagista -, ante a clara tendência ao aprofundamento do golpe, por meio da criação de um Estado teocrático miliciano, haja vista seu obcecado empenho em liberalização da venda de armas. No caso dos Estados Unidos, ainda que tarde, alguma medida está sendo tomada. E em nosso caso?

 

 João Pessoa, 13 de Janeiro de 2021.