Genildo Santana

 

O dogma Extra Ecclesiam Nulla Sallus (fora da Igreja não há salvação), foi promulgado pelo IV Concílio de Latrão, em 1215.

O artigo assim dizia:

 

Ora, existe uma Igreja universal dos fiéis, fora da qual absolutamente ninguém se salva, e na qual o mesmo Jesus Cristo é sacerdote e sacrifício, cujo corpo e sangue são contidos verdadeiramente no sacramento do altar, sob as espécies do pão e do vinho, pois que, pelo poder divino, o pão é transubstanciado no corpo e o vinho no sangue; de modo que, para realizar plenamente o mistério da unidade, nós recebemos dele o que ele recebeu de nós.” (FAUS, 1988).

 

As consequências desse dogma foram imensas. A Igreja se afirmava acima de todas as instituições e, mais especificamente, dos Imperadores e dos Gentios. Ela se portava como a única portadora do Evangelho, do perdão, da salvação ofertada por Cristo. Deu mais ênfase à Cristandade medieval. Uma Igreja que findou por tomar e ditar os rumos do Mundo Ocidental, inclusive no âmbito da Política. Uma Igreja que se apropriou e se disse dona única das ideias sobre todos os aspectos da vida humana, mais propriamente dos ligados à sua natureza sexual.

Segundo esse texto, os que não estão na Igreja Católica estão condenados por toda a eternidade. Numa outra leitura possível, deixa claro, nas entrelinhas, que a única Igreja de Cristo é a Igreja Católica. E que só através dela, o ser humano pode conhecer a Cristo e ganhar a salvação. Ela é, pois, a única portadora da mensagem salvífiva de Deus.

Se olharmos por outra ótica, a quantidade dos que não estiveram no passado, e não estão no presente, dentro da Igreja Católica, esse texto aparece mais assustador ainda. A quantidade dos que se salvariam seria mínima. Continentes inteiros estariam condenados ao fogo do Inferno. Nações inteiras sem chances nenhuma de salvação, até porque nunca ouviram falar em Cristo e assim, não poderiam estar dentro de algo que não conheciam.

Colocado em prática nos dias atuais, esse texto levaria mais de 07 bilhões de homens e mulheres à perdição, visto que só uma pequena porcentagem da humanidade se diz Cristã. E mesmos estes, sendo divididos em três Igrejas Cristãs, poucos sobrariam para a Igreja Católica.

A Igreja era vista, pois, como uma sociedade perfeita, piramidal, que através de dogmas, doutrinas e sacramentos angariava a salvação dos fieis. Uma Igreja centrada em si mesma e nos seus interesses. Bastava apenas professar a fé da Igreja e na Igreja. Era necessário, ainda, cumprir todos os preceitos, mandamentos e ritos para garantir a salvação no céu. Aliada a essa prática estava a vivência de todos os sacramentos. Isto era suficiente para se chegar ao paraíso. Uma verdadeira submissão à Igreja Católica.

Os que se negavam a professar sua adesão à Igreja Católica ou professavam doutrinas contrárias àquelas ensinadas pelo Magistério da Igreja, eram considerados hereges e ficavam à mercê da Sagrada Inquisição ou Tribunal do Santo Ofício. A Sagrada Inquisição tinha poder para atuar, julgar, condenar os fieis que se “perdessem na Fé”. E ela cumpriu seu papel. Não poucos foram perseguidos e mortos na fogueira para expurgar seus pecados. O triste e sombrio livro Malleus Malleficarum, escrito por dois monges dominicanos, Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado em 1487, veio corroborar essa perseguição aos hereges e “adoradores do demônio” que não estavam na Igreja Católica.

Hoje, o Tribunal do Santo Ofício tem o nome de Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé. Não mais queima na fogueira, materialmente. Mas exige o Imprimatur a teólogos e persegue todo aquele que não concorda com o ensinamento doutrinal da Igreja Católica. Os que discordam de algum ensinamento ou doutrina da Igreja são Notificados. Foi ela quem condenou o frade Leonardo Boff, nos anos 80, pelo seu Livro Igreja: Carisma e Poder. Em 2006, Notificou o Padre e Teólogo salvadorenho, Jon Sobriño.

Foi sob esse paradigma que a Igreja perseguiu judeus, protestantes, maçons, os cientistas, em suma, todos os que não concordavam com suas ideias, posturas, seus dogmas, suas verdades fechadas.

E a Igreja tinha razão? Estava evangelizando? Convertendo os fieis?

Um dos mais perseguidos pela Igreja foi Galileu Galilei, por suas ideias Heliocêntricas. Ideias que o padre Nicolau Copérnico já havia desenvolvido há quase um século antes de Galileu, questionando dois mil anos de Geocentrismo.

Segundo José Ignácio Gonzales Faus, no livro A Autoridade da Verdade, Momentos obscuros do Magistério Eclesiástico, publicado em 1988,

 

Dizer “tudo está no evangelho” ou “tudo está no Alcorão” é uma maneira de desprestigiar o texto sagrado e ofender a Deus, único autor da criação e da salvação. (...) Parece que Galileu em suas visões teológicas tinha mais razão que os teólogos. (FAUS, 1988. p. 105).

 

O Papa João Paulo II pediu muitos perdões por erros cometidos pela Igreja Católica. Um dos perdões foi dirigido a Galileu Galilei. Em seu discurso no dia 31 de Outubro de 1992 afirmou: “Paradoxalmente, Galileu, fiel sincero, mostrou-se nesse ponto [critérios de interpretação da Escritura] mais perspicaz que seus adversários teológicos.” (Yoldi, 1994. p. 29).

Segundo João Paixão Netto, (NETTO, 2006), durante uma aula inaugural na Universidade de Sorbonne, quando alguém cochichou ao ouvido de Merleau-Ponty que Roma tinha reabilitado Galileu, ele comentou: “O catolicismo romano sempre é enganado no passado, infalível no presente e inocente no futuro”.

Quando de sua posse, num dos primeiros discursos, o Papa Francisco retomou esse tema em seu discurso na Rádio Vaticana, (via Fratres in Unum), no dia 29 de março de 2013. O Vigário de Cristo repetiu – mais uma vez de improviso, mais uma vez sem arrodeios e sem dar muitas explicações, simplesmente como quem afirma uma verdade já por demais evidente – que Extra Ecclesiam Nulla Sallus, ou seja, que “fora da Igreja não há salvação”. Pois ele sentencia assim, totalmente à vontade, sem medo de ferir susceptibilidades ou de provocar polêmicas, que «não existe caminho de vida, não existe perdão nem reconciliação fora da mãe Igreja».

Além de anticristã, essa ideia de Igreja absoluta, completa, fim em si mesma, é anti-ecumênica. Barra qualquer diálogo que possa existir com outras denominações religiosas, inclusive aquelas mais milenares do que o Cristianismo. O diálogo implica dois (DI) que não (A) tem razão (Logos). Onde se “dialoga” impondo-se uma razão, uma verdade única, inquestionável, não há verdadeiro diálogo. Antes, há o domínio de uma razão sobre outra. Assim, ao se afirmar com única, a Igreja interrompe o diálogo com outras culturas, outras igrejas e outros povos. O que equivale a dizer que sem diálogo não há evangelização, porque decididamente a evangelização feita à força se converte em submissão de povos inteiros, nunca em evangelização, muito menos em Cristianismo.

Esta Eclesiologia – soberana, eclesiocêntrica, piramidal, da sociedade perfeita –foi rompida pela concepção de Igreja como POVO DE DEUS, expressa no Concílio Vaticano II (1962-1965), mais precisamente, na Lumem Gentium 12. Foi substituída a Igreja da sociedade perfeita pela noção de Igreja-Sacramento (sinal, meio de salvação). A expressão Igreja-Sacramento vê a Igreja como meio e não como um fim em si mesma. A Igreja como sacramento se reconhece como um instrumento de Algo distinto e maior do que ela: O REINO DE DEUS.

No Concílio do Vaticano II, segundo Teófilo Cabrestero, no livro Descer da Cruz os Pobres: Cristologia da Libertação, organizado pro Victor Codina, os pobres tiveram duas vozes ao seu favor: uma, a do próprio Papa João XXIII e a segunda, a do Cardeal Lercaro. Assim, na busca de um princípio vivificador e unificador, o eminente Cardeal se expressou:

 

O Mistério de Cristo nos pobres, a eminente dignidade dos pobres no Reino de Deus e na Igreja e o anúncio do evangelho aos pobres. Esta é a hora dos pobres, dos milhões de pobres que estão por toda a terra: esta é a hora do Mistério da Igreja mãe dos pobres, esta é a hora do Mistério de Cristo no pobre. (CODINA, 2007. p. 51).

 

Um dos cronistas do Concílio, José Martins Descalzo, viu a intervenção do cardeal Lercaro como,

 

O grande momento da sessão de hoje: o silêncio era cortante, comentava-me um dos assistentes; e, ao se concluir, a assembleia explodiu em um dos mais vivos aplausos que o Concílio conheceu.( DESCALZO, 1964. p. 326).

 

Na América Latina, essa noção de Igreja Povo de Deus foi corroborada nas conferências Episcopais de Medellin na Colômbia, em 1968 e de Puebla, no México, em 1979. A Teologia da Libertação levou a sério esse termo e foi categórica ao afirmar que a Igreja é o Povo de Deus.

Segundo Oscar Campana, teólogo argentino,

 

A história da recepção do Concílio Vaticano II na América Latina é inseparável do caminho que as comunidades cristãs de nosso continente foram percorrendo, primeiro na direção dos pobres, depois junto aos pobres, e finalmente a partir dos pobres (CODINA, 2007. p. 58).

 

O pobre não pode ser esquecido na teologia cristã. Muito menos por uma Igreja que se diga fiel ao projeto de Jesus Cristo. Segundo Jon Sobriño, pobres são os que tem quase todos os poderes do mundo contra si. Pobres são os que não tem nome, os que não tem calendário. Sem nome e sem calendário os pobres não tem existência nas políticas, nas economias, na Tv.

Assim diz Jon Sobrino:

 

Entretanto, os pobres existem. Entre eles resplandece um grande mistério: sua “santidade primordial”. E com temor e tremor, escrevi: “Extra Pauperes Nulla Sallus”. Trazem salvação. (CODINA, 2007. p. 348).

 

Diz ainda o teólogo salvadorenho, que, por conta da sua intransigente defesa da Primazia do Pobre, recebeu, em 2006, uma Notificação da Sagrada Congregação Para a Doutrina da Fé:

 

Dom Romero conhecia a afirmação de santo Irineu: ‘Gloria Dei vivens homo’, e algumas semanas antes de seu assassinato formulou-a desta maneira: ‘Gloria Dei vivens pauper’. (IDEM).

 

Por isso, finda-se por se tornar uma contradictio in terminis, andar “às voltas com Deus” e não andar “às voltas com os pobres.” É contraditório falar de Deus e não falar dos pobres, não assumir sua condição de pobreza, não denunciar os que provocam essa mesma pobreza, não denunciar os que tiram proveito dessa pobreza, os que exploram os pobres, os que os humilham.

Fora da Igreja pode até ter salvação. Só Deus o sabe, porque só Deus pode salvar. Mas, fora do compromisso com os pobres não há salvação. Nem para a Igreja. Assumir o compromisso com os pobres, torná-los protagonistas e construtores do REINO DE DEUS, não é caso desse ou daquele Dogma, dessa ou daquela teologia, desse ou daquele Bispo mais sensível, ou desse ou daquele padre mais despojado do poder.

NÃO! É mandamento evangélico. É critério de fidelidade a Cristo e ao seu Projeto.

E desse compromisso real, concreto, a Igreja que queira ser fiel a Jesus Cristo não pode fugir.

Por fim, uma mensagem de Dom Oscar Romero, na noite de Natal de 1978:

 

A Igreja prega a partir dos pobres, e não nos envergonhamos nunca de dizer a Igreja dos Pobres, porque entre os pobres Cristo quis pôr sua cátedra de redenção. (CODINA, 2007. p. 356).