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Glaudemir da silva - AMMC

 

Vamos conhecer melhor a pessoa de Jesus, para compreender a sua missão.

Jesus era conhecido por todos, veio de Nazaré da Galileia, filho de uma família modesta, comum como todas as famílias pobres da sua época.

Durante trinta anos, Jesus parecia tão semelhante aos seus parentes e se manteve discreto no meio dos seus concidadãos, que foi uma surpresa total quando um dia ele se separou deles e começou um itinerário que espantou a todos.

Vejamos o que diz o Comblin sobre a pessoa de Jesus de Nazaré:
Jesus era um carpinteiro que tinha recebido a formação que deviam

receber os artesãos da Galileia. Era da Galileia, a província mais afastada da capital e mais atrasada culturalmente. Aprendeu a Bíblia na sinagoga como todos os meninos da sua raça. Não foi preparado para exercer cargo algum, no seu povo, nem na sua religião. No templo, a sua condição era a de qualquer peregrino leigo do interior, um romeiro da Galileia que veio para pagar as promessas (COMBLIN, 2010, p. 11).

José Antonio Pagola, também faz uma apresentação do Jesus histórico que vale a pena aqui aprofundar um pouco. Vejamos o que ele diz:

Yeshua é a forma abreviada de Yeoshua e quer dizer “Javé salva”. Era um nome tão comum naquele tempo que era preciso acrescentar-lhe algo mais para identificar a pessoa. Em seu povoado, as pessoas o chamavam de Jesus filho de José. Na Galileia dos anos 30, a primeira coisa que interessava saber a respeito de uma pessoa era: donde ela? E, a que família pertence? Se se sabe de que povoado alguém vem e a que grupo familiar pertence, já se pode saber muito sobre sua pessoa (PAGOLA, 2013, p. 29.).

Segundo essa afirmação feita pelo teólogo e historiador Pagola, Jesus vem de uma cultura onde as pessoas se mantinham fiéis as suas raízes tanto no sentido religioso quanto no social. Jesus, não trai seu povo, ele não se esqueceu de sua realidade nem da sua história. Não se deixou levar pela vaidade que é tão comum aos seres humanos. Manteve-se como o jovem carpinteiro de Nazaré, o Galileu.

O grande perigo que corremos enquanto vida missionária é esquecermos nossas raízes, nossa cultura e nossa história. Quando acontece isso; perdemos o referencial com o Jesus histórico e a ligação com o povo, que é a base que serve de inspiração e sustento para nossa missão.

Jesus foi formado pelas experiências de vida do povo de seu pequeno vilarejo em Nazaré da Galileia. Foi vivendo na humildade de Nazaré que ele aprendeu os mínimos detalhes da vida de cada dia do seu povo, isso lhe serviu como instrumento para a evangelização. Exemplo: “Certa vez ele disse que o Reino do céu é comparado com a mulher que vare a casa em busca da moeda que perdera, ao encontrar chama as vizinhas e faz uma festa” (cf. Lc 15,8-10). Certamente, ele viu sua mãe e vizinhas agirem desta forma. Jesus foi formado na teologia da vida dos pobres da Galileia. E tantas outras lições práticas do dia a dia da vida do povo que lhe serviram de lição e inspiração na sua empreitada de evangelizador pelas vilas, aldeias e povoados nas redondezas de Nazaré.
A MISSÃO DE JESUS

Conhecendo um pouco mais sobre a vida, a origem e a história de Jesus de Nazaré, agora fica mais fácil para compreendermos sua missão e sua forma de promover a libertação dos oprimidos e oprimidas de todos os tempos. A missão de Jesus foi lançar um chamado à liberdade das pessoas e à sua tomada de consciência. No seu programa de vida apresentado pelo evangelista Lucas (cf. Lc 4, 16-22), encontra-se o centro e o fio condutor da missão de Jesus. Programa este, que ele foi fiel até as últimas consequências.

Para Comblin a missão de Jesus, se desenvolve da seguinte forma:
A missão de Jesus na terra foi revelar o Pai. João condensa toda a sua

mensagem nisto: dar a conhecer o que é Deus. Deus quis mostrar o que ele é realmente. Ele tem uma palavra que tudo diz, e essa palavra é Jesus. A vida de Jesus na terra mostra o que é Deus: “Quem me vê, vê o Pai”. Pois, Jesus não lhe dá o nome de Deus, mas o nome de Pai, o que já anuncia a grande diferença em relação a todas as religiões do mundo. O Pai está com Jesus e em Jesus, e tudo o que Jesus fez mostra o que é o Pai. A verdadeira glória de Deus está na vida de Jesus, na cruz e na ressurreição (COMBLIN, 2010, p.15).

Jesus cresce aprendendo que sua missão foi revelar a face amorosa do Pai. Claro, que isso, ele não nasceu sabendo, foi um aprendizado que durou grande parte de sua vida, como nos mostra o autor da carta aos Hebreus (cf. Hb 5, 5.8-9).
JESUS O BUSCADOR DE DEUS

Na concepção de Pagola, quando Jesus deixa sua humilde vila (Nazaré), sua família e seu trabalho de artesão, ele não procura uma nova ocupação, ou um mestre para estudar a Torá. Sua primeira busca foi o deserto. “O deserto é por natureza local do

recomeço, do reencontro consigo e com Deus”. Esta busca que Jesus fez por Deus, não foi uma busca por harmonia pessoal. Foi buscar o Pai como força de salvação para seu povo (2013 p. 87-88). Podemos até comparar o deserto como o espaço e o tempo de abastecer a sua fé e esperança para melhor servir ao Reino e ao Povo de Deus na luta por sua libertação.

Toda ação missionária de Jesus foi para revelar a face de Deus como Abba (cf. Mc 14,36), (painho querido). Essa deve ser também a nossa busca como missionários e missionárias: revelar em tudo faz a face amorosa, maternal, paternal e misericordiosa de Deus.

Quando Jesus fala de si mesmo, designa-se como um “enviado”. “O meu Pai me

enviou para...” “eu fui enviado para...” A personalidade de Jesus é identificada com sua missão. Para ele, a missão significa muito mais que uma função, uma profissão, uma tarefa; a missão é o que envolve e ocupa a totalidade dele mesmo. Lembra-nos Comblin:

Desde o dia em que se sentiu chamado da Galileia para o Jordão onde João batizava, Jesus não se pertencia mais. Vivia devorado, completamente entregue à sua missão. Quando os discípulos o procuram, ele responde: “Vamos para outros lugares, às aldeias vizinhas, para que eu pregue por lá, pois, foi para isso que sai” (Mc 1,38). (COMBNLIN, 2010, p. 21).

Para Jesus, estava claro que a missão não era a transmissão de um sistema religioso, nem a integração das pessoas no mesmo. A missão tinha por objetivo comunicar a todos (as) a mensagem da Boa Nova, o anúncio de uma libertação que é o

grande sonho de Deus.
Comentando sobre a pessoa do Jesus missionário, padre José fez a seguinte

observação: “Jesus foi, antes de tudo, um homem livre. Mostrou-se como homem livre porque a libertação e a liberdade eram o núcleo da sua mensagem” (2010, p.29).

Para fazer da sua missão uma mensagem fiel ao sonho de libertação do seu povo e do próprio Pai, Jesus assumi a causa da luta dos pobres em diversos aspectos. Como Profeta, Bom Pastor, Anunciador do Reino, Missionário da Galileia e outros mais que aqui não teremos tempo para aprofundar nesse estudo.

Jesus começa a missão como o “poeta da compaixão”. Para exercer esta tarefa,

ele é o mais simples possível. Na compreensão de Pagola a linguagem de Jesus é inconfundível. Não há em suas palavras nada de artificial ou forçado; tudo é claro e simples.

 

Foi com palavras e gestos simples e profundos que Jesus foi revelando as pessoas, sobretudo aos mais oprimidos a compaixão de Deus.

A Missão do Profeta

Vejamos como foi que Jesus desenvolveu a sua missão como profeta: um marco na missão profética de Jesus é sua liberdade. Uma das características de quem deseja viver a profecia é a liberdade. Como profeta, Jesus veio para reativar a esperança de Israel. Não anunciou uma coisa nova porque esta esperança estava no coração dos pobres e dos simples.

Como profeta, Jesus realizou sinais maravilhosos da chegada do reino de Deus. O profeta é alguém muito próximo do povo. A profecia deve partir da relação concreta

com o Povo de Deus (Comblin, 1983, p.4).
Essa verdade, não se pode negar: A missão do profeta e da profetisa é a que mais

se aproxima da missão de Jesus de Nazaré. Para viver a missão na linha do profetismo, devemos fazer o sagrado esforço em todo momento para viver como Jesus viveu em sua missão de profeta no dia a dia.
A Missão do Pastor

Também como pastor Jesus soube viver a missão a ele confiada pelo Pai.
Em Jesus Bom Pastor (cf. Jo, 10,10-11), é o próprio Deus que vem cuidar do seu rebanho. Coloca-se a serviço das ovelhas e as reúne em um único rebanho.

Como pastor, Jesus ensina a prestar muita atenção na reação das ovelhas; pois, elas reconhecem a voz do seu pastor. Ele também nos manda prestar atenção na atitude de quem se diz pastor, de modo ver se o seu interesse é a vida das ovelhas, ou se o

mesmo pode dar sua a vida por elas.
Vendo como se deu ação missionária de Jesus como pastor, precisamos assumir

como missão, ir a buscar das ovelhas que se encontram perdidas no mundo da exclusão tanto na sociedade, como também nas Igrejas. O Papa Francisco nos anima dizendo: “Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (Alegria do Evangelho, 2013, no 48).

Revelador do Reino

Como profeta e pastor, Jesus tem um objetivo: anunciar o Reino de Deus presente no meio do seu povo. O padre Comblin diz que o centro da mensagem de Jesus

 

está em seu ensinamento sobre o Reino de Deus. Jesus desde o início de sua missão teve muito claro que o objetivo de seu ensinamento era o Reino de Deus.

O centro da pregação e da mensagem de Jesus encontra-se na revelação que ele faz sobre o reino de Deus presente no meio do seu povo.

Precisamos nos perguntar: qual é o centro da missão que assumo como anúncio da Boa Notícia? A missão segundo os critérios do Evangelho, não deve ser a doutrina, mas a Boa Nova e a justiça do Reino.

Pregar o Reino é promover a vida. Como anda a minha capacidade na promoção da vida? Essa promoção da vida deve ser considerada como ponto fundamental na missão dos seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré.
A Missão de Jesus na Galileia

Para Comblin, Jesus veio para os camponeses da Galileia que eram oprimidos pelos sacerdotes do templo, pelos proprietários da terra e pelos romanos que cobravam impostos impagáveis (2004, p, 24).

A missão de Jesus pelas aldeias da Galileia despertou a esperança dos pobres. A função da missão é despertar a esperança. (não é um senso católico, pastoral do dízimo e nem fazer cobranças ou julgar as pessoas).

No seu livro O Caminho, Padre José, ressalta que a escolhida de Jesus pela Galileia para exercer sua missão, já foi uma Boa Nova. A escolha acertada do espaço de missão já é anúncio por si, não precisa de muito discurso, a missão deve transmitir esperança para o povo. Os discípulos e discípulas de Jesus sempre foram para a Galileia. A Galileia é por excelência (lugar) de missão (2004, p.25).

Muitos cristãos e cristãs escolheram Jerusalém e esqueceram-se das Galileias de hoje: favelas, pontas de ruas, bairros pobres, boca de fumo, ponto de prostituição, zona rurais abandonadas, acampamento...

A verdadeira missão deve se desenvolver na Galileia, se não for à Galileia, não pode ser chamada de missão de Jesus. Quem vai para a Galileia torna-se sinal de esperança, lá é lugar privilegiado da esperança.
A MISSÃO DE JESUS E A NOSSA MISSÃO

O ponto de partida para entender a missão que Jesus nos delegou como Igreja é a missão que, segundo os evangelhos, o próprio Jesus Cristo assumiu durante seu ministério terreno. Quais foram suas prioridades? Qual foi sua mensagem? Quais elementos incluíram em sua missão? Qual foi sua motivação?

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Em termos gerais, o propósito de Deus é que a Igreja se constitua em uma comunidade de testemunhas de Jesus Cristo. Consequentimente é muito mais do que “dar testemunho” verbal sobre ele; significa ser e viver como ele.

De todas as descrições de Jesus Cristo, nenhuma comunica com tanta força a natureza de sua missão como a descrição dele como “servo”, ou “escravo”. Em (cf. Mc 10,45), ele disse sobre si mesmo: “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”. Para o apóstolo Paulo é clara a relação entre a entrega de Jesus Cristo na cruz e sua própria experiência como missionário. Ou seja: a missão é uma doação gratuita e entrega por amor!

A primeira coisa a ser considerada na missão é que não se evangeliza sem confiar em quem vai ser evangelizado. Ninguém se deixa evangelizar se não confia no evangelizador (a). Então, o primeiro passo na missão, é criar laços de confiança com as pessoas que serão envolvidas na missão.

Falando do missionário Paulo, ele pode ser um grande exemplo para nós no ponto de vista da missão no seguimento de Jesus. Ao chegar numa cidade se instalava e procurava um trabalho. O livro dos Atos dos Apóstolos diz que ele era um artesão, que confeccionava tendas (cf. At 18,1-4). Na oficina se dava os primeiros contatos, ele contava sua experiência pessoal, sua conversão, dava seu testemunho de fé.

O mundo do trabalho pode ser outro espaço de missão. Os trabalhadores e trabalhadoras se sentem cada vez mais inseguros, pois, já não existe mais estabilidade no trabalho. Ai uma presença missionária fará muita diferença. O mundo do trabalho pode ser um espaço de evangelização, a partir do testemunho de vida do (a) missionário (a). Uma presença solidaria aos sofredores.
A MISSÃO NO CONTEXTO BÍBLICO

A missão no Primeiro Testamento refere-se a uma realidade bem determinada. É uma escolha, a eleição de algumas pessoas, por parte de Deus; e o envio para outras pessoas com uma mensagem a transmitir ou uma atividade para realizar.

A Igreja, povo de Deus, continuadora da missão de Jesus, é por natureza e essência missionária. Sua missionariedade realiza-se pela participação, comunhão e empenho de todos os batizados e batizadas.

A dimensão social da missão é tão importante quanto à dimensão religiosa. Por isso, a missão não pode descuidar da dimensão social; se não, a ação missionária fica incompleta. Considerando que a fonte da missão é o amor e o projeto de Deus, devemos

 

fazer o esforço para pôr em prática essas duas demissões missionárias. Uma forma bem concreta é a organização do povo na busca por seus direitos.
QUAL É A FINALIDADE DA MISSÃO?

Assim como Jesus, (o) missionário (a) é chamado (a) a anunciar o Reino. Para que isso aconteça com mais eficácia, ele, ela chama outras pessoas para que possam se envolver na construção do mesmo. Por isso, é que o missionário a missionária, precisa ter um olhar contemplativo para descobrir pessoas desejosas de colaborar na transformação do mundo.

Às vezes o missionário a missionária passa pela tentação do desânimo diante da imensidão da tarefa. O Apóstolo São Paulo lembra: “Deus escolheu o que é fraco para confundir os fortes” (cf. 1 Cor 1,27-29). Por isso, a fé e a Palavra de Deus, são aliadas indispensáveis na missão.
ALEGRIA E FELICIDADE

A mensagem de Jesus só pode ser mensagem de alegria e felicidade. Precisamos estar bem convencidos, convencidas de que o evangelho é mensagem de felicidade. Assim, a missão assumida trona-se leve e benéfica para o Povo de Deus. Considerando que o verdadeiro missionário e a verdadeira missionária não fazem missão, mas é presença missionária onde estiverem. A Igreja e a missão existem para anunciar a graça de Deus, e onde estivermos devemos ser sinal dessa graça. Na missão não se deve valorizar tanto pecado, mas a graça e a misericórdia.
O GRANDE PRINCÍPIO DA MISSÃO É A LIBERDADE

No nordeste, por exemplo: a maioria da população declara-se católica. O missionário, a missionária vai ter que fazer com que o povo descubra, que primeiro é cristão. E que tem uma missão específica no mundo e na Igreja. Que é evangelizar e se deixar evangelizar pelos empobrecidos, pois, são eles os primeiros destinatários da missão. É deles que vem o maior exemplo de liberdade evangélica. Portanto, são eles (os pobres), os maiores evangelizadores!
Conclusão

São esses passos dados por Jesus e a proposta que ele nos deixa, para que possamos continuar a sua missão atualmente. Dentro de nossa realidade e das nossas condições, devemos fazer todo esforço possível para sermos fiéis a esse legado que nos foi confiado desde o nosso batismo.

 

Fiquemos sempre atentos, atentas para não perdermos de vista a oportunidade de pôr em prática os ensinamentos de Jesus, quanto ao anúncio do Reino e a revelação da Misericórdia do Pai. Sobretudo para os menos favorecidos da sociedade. ________________________________________
REFERÊNCIAS BIOGRÁFICAS
COMBLIN, José. Jesus de Nazaré. São Paulo: Paulus, 2010.
____________, _____. Jesus Cristo e sua Missão. Breve Curso de Teologia. São Paulo:
Paulinas, 1984.
__________,______O Caminho Ensaio sobre o seguimento de Jesus. São Paulo: Paulus, 2004.
PAGOLA, Antonio, José. Jesus Aproximação Histórica. Petrópolis, RJ: Vozes: 2013. Endereço do autor: glaudemir_ silva@ hotmail.com