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Genildo Santana

Diz Carl Sagan, o eminente cientista e escritor, autor do famoso livro de ficção científica, transposto ao cinema, Contato: “Vivemos em uma sociedade extremamente dependente da ciência e da tecnologia, na qual pouquíssimas pessoas sabem algo de ciência e tecnologia. Isso é uma clara prescrição para o desastre.”

Em tempos de negacionistas, a ciência se afirma cada vez mais, à medida que é negada cada vez mais. No entanto, existem os mercadores da dúvida. A estes cabe o triste e infame papel de implantar dúvidas na sociedade, nas mídias, uma vez que não podem/conseguem negar a ciência, sendo que o debate que fazem não se baseia nas teorias ou nos critérios científicos. Negacionismo é isso mesmo. Não é questionar, duvidar, erguer teses contrárias. Pois, para tal monta, é necessário conhecer a tese que se questiona e ter argumentos sólidos, capazes de se contrapor em igual proporção. Não é isso que fazem os negacionistas.

Quem levantou essa questão foi o professor de filosofia André Antônio Ribeiro, da Universidade de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, na Olimpíada Filosófica do Rio de Janeiro. (Abraços, Lara Sayão!).

Para Ribeiro, os negacionistas implantam a dúvida através da manipulação de informações (Fake News) com fins políticos e comerciais. Para obterem vantagens econômicas e políticas, não negam a ciência (não podem fazê-lo), mas põem em dúvida sua fala, suas teorias. Questionam a evidência científica, afirmando que não há consenso entre os cientistas, contando, inclusive, com apoio de cientistas que corroboram suas posturas por sabe-se lá quais interesses (sempre há um “profissional” que serve à causa política/econômica mais do que à causa científica). O objetivo é tão somente plantar a dúvida nas mentes mais ignorantes, que não estão por dentro dos debates e afins. Para tanto, suas estratégias incluem, ainda segundo Ribeiro, atacar os estudiosos (com ameaças de morte, inclusive), colocar a culpa em outrem sempre, apelar para a liberdade de escolha do indivíduo. Nada novo, como temos visto, por exemplo, no tocante à vacina e na maneira como se (des)governa atualmente no Brasil. É nesses moldes que funcionam os mercadores da dúvida.

O maior problema é que assim agem em nome da política e da ideologia que acreditam e defendem. Não fazem debate científico, sério, com hipóteses, teorias, teses, mas uma fala político-ideológica.

Soma-se a esse cenário, o que o professor Ribeiro chama de Agnotologia. Agnosis (Ignorância) e Logia (Estudo), a Agnotologia é o estudo da produção política e cultural da ignorância. É o estudo da propagação intencional da ignorância para fins políticos/comerciais, feito por pessoas e grupos poderosos, para desviarem a atenção dos problemas que lhes interessam. Isso mesmo: há uma indústria que produz ignorância. Assim, confundem a opinião pública pela manipulação intencional de informações. São estratégias utilizadas pelo Mercado globalizado neoliberal para lucrar e para manter seus políticos protegidos e protetores no poder.

Nesse cenário, Carl Sagan está certo ao prever um desastre.

Importando essas questões para a teologia, a igreja, a fé que vivemos, uma pergunta salta aos olhos: O cristianismo, ou mais precisamente em nosso caso, a Igreja Católica não é agnotológico(a)? Não há uma produção intencional de ignorância nas naves das nossas igrejas, nos cultos, nas redes de Tv ou em acampamentos? Não há uma deturpação do que seja a Fé em Cristo, em Deus? À Teologia – ciência séria – não se contrapõem pregadores que nada dizem de teológico ou, pior, a utilizam para seus interesses pessoais?

Essas questões me vieram com mais força ao ouvir a fala do Bispo Dom Arnaldo Cavalheiro Neto, da Diocese de Itapeva (SP), que diz claramente que “quem não apoia o Papa Francisco e Dom Orlando deve sair da Igreja e ir embora, porque não está em comunhão com a Igreja da qual faz parte.” E ainda apela o Bispo: “Antes de falar do Papa, da CNBB, leiam os documentos da CNBB, ouçam o que diz o Papa Francisco, leiam os documentos do Vaticano II antes de falar mal da Igreja, do Papa Francisco.”

Vamos nos questionar: 1- Houve uma catequização séria desses fiéis ou houve – e ainda há – uma infantilização dos mesmos? 2 – Esses fiéis sabem o que é ser Cristão, na prática, ou vivem uma fé teórica, desvinculada da vida concreta, real? 3 – A Teologia – ciência séria – que embasa os Ministros Ordenados é a mesma Teologia dada aos fiéis, proposta a eles ou vivem “Fés” diferentes? 4 – Houve – e ainda há – uma propagação intencional da ignorância na Igreja, uma Agnotologia?

Numa primeira e limitada tentativa de resposta, essas perguntas assustam ante o temor de terem respostas afirmativas. Há uma infantilização dos fiéis, uma negação – intencional? – dos Tesouros teológicos da Igreja. A impressão que se dá é que Ministros Ordenados e Fiéis vivem uma fé distinta. E pior: afastou-se a fé da vida concreta, prática, de modo que não há implicação da fé na vida cristã. O que gerou “cristãos” que não sabem o que é ser cristão.

O desastre prenunciado por Carl Sagan no tocante à sociedade pode muito bem ser aplicado ao desastre no seio do cristianismo. Essa agnotologia implantada na fé explica o que acontece hoje nos círculos internos da igreja católica e de todo universo evangélico, com raras, poucas e belas exceções, da parte de Padres, Bispos ou Pastores que não se deixaram enveredar por tal caminho, nem o aplicaram ao seu rebanho.

Lembrando ainda o bispo, diz o prelado que “tem hora que tem-se que tomar postura.” Já passou da hora da igreja, enquanto instituição, tomar postura, não só no tocante ao que ora está acontecendo, mas, principalmente, no que diz respeito à maneira como educam, instruem (ou manipulam) seus fiéis.

Devo dizer que, como cristão e católico, dói-me escrever sobre isso, inclusive utilizando palavras fortes, mas assim me ensinou Dom Francisco, assim me ensinaram meus professores e a Teologia da Libertação, bem como Chê Guevara: “Hay que endurecerse, pero, sin perder la ternura, jamás!” É com firmeza e com ternura que assim me manifesto porque amo minha igreja, a teologia, o cristianismo e nosso Deus!

Por isso, creio que a igreja precisa de cristãos maduros, conscientes, racionais e não de adultos/crianças que precisam da palavra e proteção e um padre/pai sempre ou de “cristãos” imaturos que se escandalizam com uma risada que o padre/bispo deu. Precisa de cristãos que estudem teologia, cientificamente mesmo, para melhor entenderem a fé que vivem e pregam.

Infelizmente, os mercadores da dúvida não estão só no mundo da política ou no mundo do Mercado globalizado neoliberal. Estão também nas igrejas, pregando em púlpitos, altares, utilizando da palavra e do poder do qual foram investidos para defenderem seus interesses político-comerciais-ideológicos e sabe-se lá quais outros.