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Genildo Firmino Santana

Foi em uma das pregações do padre Fábio de Melo que ouvi e vi a imagem da abelhinha feliz. Argumentava o sacerdote que a abelhinha feliz, realizada, vive alheia às realidades da vida, porque as realidades da vida não lhe interessam. E não devem interessar mesmo, uma vez que ela conseguiu tudo que queria. O caso é que a abelhinha feliz não se interessa por nada e quer comentar e julgar tudo. 

A imagem é espetacular. Nessas linhas, daremos nossa interpretação da metáfora da abelhinha feliz.

As humanas abelhinhas felizes, que venceram na vida por esforços próprios ou por meios nada ilícitos, nada honestos – como temos muitos assim! - ou já nasceram vencedores – por aquele fator que Frei Betto chama de Loteria Biológica – passam a viver reclusos em suas colmeias – ou seus feudos, numa linguagem histórica. Fora do seu feudo – ou da sua colmeia – nada lhes importa, nada lhes interessa. Pode ser um feudo político, econômico, cultural, religioso, familiar. 

Como temos abelhinhas felizes! Vale lembrar e citar aqui que esse não é um libelo da in-felicidade. Ser feliz é a meta de cada humano. Dizia Chico Pereira – Glória do pensamento na Paraíba -, o genial filho do “Moço loiro dos Dantas”, que tudo que fazemos é para sermos felizes. Casamos pra sermos felizes, separamos pra sermos felizes, trabalhamos e deixamos de trabalhar pra sermos felizes. Vivemos e até morremos – em suas palavras “é quando a morte parece mais feliz do que a vida”- pra sermos felizes. O problema é que a felicidade é como o horizonte, parece que nunca chega totalmente e só vemos e temos parcos momentos felizes. Parece – assim como o horizonte – que foge de nós quando chegamos perto.

 Por índole cristã, a felicidade também deve ser coletiva. Felicidade individual chega a ser anticristã. Parafraseando Paulo Freire: “Ou somos felizes juntos ou não haverá real felicidade.”

Mas há as abelhinhas felizes. E são um problema. Foram duas abelhinhas felizes que em seus confortáveis assentos julgaram os moradores de rua em São Paulo. Lembram? Esposas de políticos que não merecem nem ser citados. São as abelhinhas felizes em seus confortáveis lares que julgam com desdém as vidas e ideias e ideais de Karl Marx, Marighella, Carlos Lamarca, Padre Júlio Lancelotti, Dom Hélder e tantos outros. 

São as abelhinhas felizes que não dão a mínima importância para a pandemia, para a miséria social, para o projeto Tamar, para a Luta dos Sem Terra, dos menores abandonados, dos Sem Teto ou para a Campanha da Fraternidade. O problema é que as abelhinhas felizes ainda se sentem no direito de julgar negativamente quem encampa essas e outras lutas. São elas que nem ligaram – e nem ligam ainda - para a eleição a presidente do mais perverso dos políticos profissionais – ou politiqueiros -, de um homem abjeto, portador de tudo que se possa dizer de ruim de um ser humano. Não viram o problema na época, nem o veem, hoje. Duvido que o vejam amanhã. São as abelhinhas felizes que não enxergam o mal de uma guerra que pode tomar proporções apocalípticas, catastróficas.  

A abelhinha feliz está em todo canto – não é só privilégio da Classe Média ou da elite econômica. A abelhinha feliz está nos altares, preocupada unicamente com seus paramentos litúrgicos e/ou com a beleza, o show da celebração litúrgica. A abelhinha feliz está na política, preocupada com a vitória do seu partido ou do seu candidato – que de cândido nada tem. A abelhinha feliz está na família, sem avistar outra coisa a não ser os interesses familiares. Está fazendo cultura sem compromisso social, alienada.

Tudo é questão de consciência. Aliás, perdão! Consciente a abelhinha feliz pode até ser, uma vez que é ciente. É questão de sensibilidade – ou da falta de sensibilidade. Questão mais de coração que de cérebro. A diferença está aqui: em ser sensível ou não ao que acontece.

 

ABELHINHA FELIZ É IDIOTES

 

A abelhinha feliz é egoísta. Não pensa no Outro. Não vê o Outro ou o Próximo, como se diz na fé. Na Mitologia grega é uma narcisista que, como diz Caetano Veloso na canção Sampa, “acha feio o que não é espelho”.

Quando os gregos, em sua democracia, cunharam o conceito POLÍTIKOS,                                                                 de onde vem a política, no sentido de que político é quem cuida da pólis, da cidade e, assim o sendo, cuida do Outro - portanto um conceito bem diverso do que hoje se entende por política - cunharam também o seu inverso: O IDIOTES. 

Idiotes nada tem a ver com idiotice, falar ou fazer bobagem como costumeiramente se diz. O idiota nem sempre foi estúpido. Idiotes é, na Grécia, a imagem do homem privado, metido em seus próprios interesses. Idiotes é todo aquele que não cuida da pólis, o não-político grego, o que não pensa na cidade, no Outro.

Podemos (ou não!) numa tradução livre, afirmar que idiotes equivaleria ao egoísta de hoje, que não participa de nada, que não influi ou contribui com nada. Não liga para nada, uma vez que está bem onde está.

Hanna Arendt, quando viu, estudou, participou em Jerusalém do Caso Eichmann, chegou a produzir um livro: A Banalidade do Mal. Chegou à conclusão que o Mal, como foi o Nazismo, é banal. Banal no sentido de normalizado, aceitado. Banal porque não-pensado, não-refletido. Eichmann não refletia, não pensava, dizia Arendt, sobre as ordens que recebia. Era uma abelhinha feliz na máquina Nazista. Alerta a filósofa para o perigo do não-pensar, não-questionar, não-refletir. A abelhinha feliz se encontra nesse lugar. O lugar do não-questionamento, da não-reflexão. Isso fez com que chegássemos à triste realidade que o Brasil vive, que o mundo vive.

Essa é a imagem metafórica e o papel real da triste abelhinha feliz!