logo teologia nordwste

 

Jardene Soares

Juliana Henrique

 

 

“Companheira, me ajuda,

Que eu não posso andar só,

Eu sozinha ando bem,

Mas com você ando melhor”

- Ju! Certa vez um amigo me contou a seguinte história, um fato concreto, veja:

“João na roda de amigos (maioria cristãos) sempre foi considerado ateu pelos companheiros. Certo dia, os amigos estavam reunidos assistindo, dando gargalhadas, quando um deles chama João. Quando o mesmo se aproxima, depara-se com um vídeo sobre um casal homoafetivo. João percebe as atitudes homofóbicas praticadas pelos amigos e retira-se imediatamente, sem dar muita atenção. Um dos amigos, espírita, depois disse: “João, eu percebi que você não gostou, por isso retirou-se. E eu, enquanto espírita, tenho consciência que era para ter feito o mesmo, mas não tive coragem.”

Quando recordo essa situação, lembro-me de um trecho do último discurso escrito por Marielle Franco, antes do seu assassinato, quando ela diz: “falar de igualdade de gênero é defender a vida”. Assim, fiquei pensando... Quando falamos em igualdade de gênero e compromisso com a vida também podemos levantar o seguinte questionamento: de qual/quais vida/s estamos falando? De quais vidas Marielle estava falando? De quais vidas as pessoas “cristãs” realmente falam?

- Ops...Falam, não... Silenciam. Silenciam população negra, indígenas, população LGBTQIA+, mulheres, entre outras. Na estrutura de alguns discursos cristãos em espaços oficiais, majoritariamente, não têm falas que visibilizem a realidade das mulheres, da população negra, LGBTQIA+ e indígenas. Podemos observar, por exemplo, a estrutura na missa. As músicas, as passagens bíblicas escolhidas, os instrumentos musicais, podem não corresponder às dores dos povos supracitados.

- Então, eu penso que quando uma instituição, grupo ou movimento, sejam de ordem religiosa ou não, se recusam a falar sobre igualdade de gênero, violências sofridas pelas mulheres, diversidade de expressão da sexualidade, relações de classe, raça/cor, sem buscar ampliar esse debate às pessoas, só mostram, de fato, o tamanho descaso e descompromisso com a vida!

- Jade, mulher...Eu sou cristã e super apoio a atitude de João, de não alimentar atitudes preconceituosas. Parece-me que ele sabe respeitar o ser humano: independente de ser mulher, negra/o, indígena e/ou população LGBTQIA+. Agora, muito me estranha o deus desses cristãos amigos de João, pois tem um mandamento que manda amar o próximo como a si mesmo. Olhe, para determinado tipo de representatividade de deus, sou ateia.

- No caso de João o ato de se retirar foi uma resposta à situação. Mas eu fico pensando...Para lutar pela igualdade de gênero e por um mundo mais justo, só se retirar das situações basta? Como lutar por uma sociedade mais igualitária sem levantar a discussão da necessidade do diálogo e da educação sobre igualdade de gênero? Além disso, também envolve falar sobre a relação de dominação/cuidado que temos com a mãe Terra?

Eita, Jade, tens razão. Precisamos refletir sobre temas relacionados em grupos, seja em casa, na escola, no futebol, no trabalho, na política, em encontros com pessoas amigas. Enfim...E eu já ia me esquecendo. Eu já ouvi falar que essa tal de igualdade de gênero é coisa do demônio. Mas antes de emitir qualquer opinião, preciso ouvir e pesquisar mais de uma argumentação e a quem está beneficiando. Você pode me explicar o que é essa igualdade de gênero?

- Olha, Ju. Há diversos autores que falam sobre essa questão. Mas, basicamente, igualdade de gênero é Dona Maria, moradora da comunidade, seja no campo ou na cidade, poder viver numa sociedade mais justa sem sofrer nenhum tipo de discriminação pelo simples fato de ser mulher, com os mesmos direitos e deveres. É ela poder viver em um espaço onde as tarefas domésticas são divididas com todos da casa, incluindo os homens, afinal, todos precisam assumir e compartilhar essa responsabilidade. Ou seja, falar sobre igualdade de gênero é falar também sobre a divisão sexual do trabalho.

- Jade, igualdade de gênero é isso? Ah! Olhando direitinho, temos profissionais que exercem a mesma função, mas os homens ganham mais. Eu “tô” começando a entender sobre igualdade de gênero?

- Sim. Essa situação é um fato concreto que exemplifica a desigualdade de gênero vivenciada por muitas mulheres, no campo profissional. É por essa e tantas outras situações do cotidiano da vida, que urge cada vez mais a necessidade de falar sobre igualdade de gênero.

- Sem dúvida. É como diz Ivone Gebara (2017), “o caminho da consciência e da mudança é longo. Percorremos apenas algumas pequenas avenidas, sabendo que estão interligadas a muitas outras, a ruas, a vielas, a buracos escondidos, a vias sem saída, a praças abertas às brincadeiras das crianças e aos namorados que nutrem seus sonhos de amor. Depois desse aperitivo, ofereço-lhes a comida preparada com ternura e cuidado; ao saboreá- la, as leitoras/es poderão até descobrir as formas de melhorá-la introduzindo novos condimentos e formas de preparo”.

- Gratidão, Ivone, por sempre nos acarinhar com as suas palavras e, no mais, deixamos aqui esta breve conversa como sinal de partilha e plantação. Que a semente do diálogo, do encontro, da (con)vivência possa ser plantada a cada dia e nos possibilite novos (des)encontros, (des)encantos, (trans)formações, construções e muitos aprendizados na vida! Porque falar pode parecer um ato muito simples e pouco impactante, mas, na verdade, é um ato que pode provocar uma libertação gigante! Sigamos com fé na humanidade, que é transcendente e imanente.

“Não leva na maldade não, não lutamos por inversão

Igualdade é o x da questão, então aumenta o som

Em nome das Marias, Quitérias, da Penha Silva

Empoderadas, revolucionárias, ativistas

Deixem nossas meninas serem super heroínas

Pra que nasça uma Joana d'Arc por dia

Como diria Frida "eu não me Kahlo!"

Que possa soar bem Correr como uma menina

Jogar como uma menina

Dirigir como menina

Ter a força de uma menina

Se não for por mim, mude por sua mãe ou filha

Respeita as mina

Toda essa produção não se limita a você

Já passou da hora de aprender”

(Música “Respeita as minas” – Kell Smith)

Referência

GEBARA, Ivone. Mulheres, religião e poder: ensaios feministas. São Paulo:

Edições Terceira Via, 2017.