RELIGIÃO, CIÊNCIA E SABER

Estamos saindo de uma época de conflito entre a religião, ou mais propriamente a religião cristã, e a ciência, ou mais propriamente a ciência ocidental. Houve conflito e conflito muito forte porque tanto a religião como a ciência queriam ser um saber, o saber. Cada uma achava que estava em posse do saber total, global, básico, universal e definitivo. Mas hoje em dia devemos reconhecer que nem a religião, nem a ciência, são um saber.

 

 

Ao saber está associado o poder. Durante séculos a religião e a ciência lutaram pelo poder. A Igreja lutava para defender o poder total que tinha durante a cristandade. Continuava afirmando que possuía o saber básico ao qual estavam subordinados todos os saberes, e, por isso achava que tinha o direito de dirigir a sociedade e  vida humana total. Na atualidade ainda há setores do cristianismo que lutam para defender esse poder total.  São os movimentos fundamentalistas tão fortes em Roma, e os movimentos fundamentalistas protestantes dos Estados Unidos. Querem uma sociedade cristã porque acham que têm a ciência total e básica. Porém, isto é um resto do passado. Não condiciona muito a sociedade humana contemporânea, mas constitui um perigo para as instituições religiosas, o perigo de se transformarem em seitas como diz Hans Küng.

Na cristandade nasceu o conceito de “magistério” que se tornou um dos conceitos fundamentais da eclesiologia. A hierarquia reivindica o poder absoluto na cristandade por ser o magistério, depositária das doutrinas sagradas.O magistério gerou a Inquisição. A doutrina foi o maior instrumento de poder na cristandade. O Papa não tinha um exército importante, mas podia mobilizar todos os exércitos da cristandade e ser o grande chefe militar como sucedia nas Cruzadas.Tudo isso em nome da doutrina que lhe dava autoridade.

No entanto, o cristianismo não é um saber.  Nada ensina sobre Deus a não ser que nada se pode saber de Deus. Deus manifesta-se como dizia um escrito de um cartuxo inglês do século XIV “na nuvem do não-saber”. De Deus sabemos que está aqui, mas não sabemos o que é. A tradição judeo-cristã ensina que nada podemos saber dele.A própria palavra “Deus” já é um engano, porque já é uma qualidade definida. Na história das religiões há uma infinidade de deuses. Dar o nome de “Deus” já é colocar numa classificação. Já é determinar,ou seja, limitar. O Deus dos profetas e de Jesus está além de qualquer palavra. Está além de qualquer  atributo ou qualidade. Dizer algo dele já é limita-lo, ou seja, reduzi-lo à categoria de criatura. Jesus diz : “O Pai” mas diz o nome Esse Pai permanece escondido.

Esse Pai manifestou-se, mas não para dizer o que ele é. Foi para manifestar a sua vontade, o caminho que os seres humanos devem seguir para se libertarem do mal que os aflige. Manifestou-se pela palavra dos profetas e pela vida de Jesus. Jesus diz o que o Pai quer. Ensina uma prática, mas não ensina uma doutrina sobre Deus, não ensina nenhuma teologia. A sua mensagem está nas suas ações e as suas palavras ilustram as suas ações. Essas ações contêm uma mensagem válida para sempre e para todos. A revelação diz o que é para fazer, não diz o que Deus é, mas o que ele faz em nós. Não revela nenhuma essência nova ou desconhecida. Mostra como é que se deve agir.

Por outro lado, a história da humanidade está cheia de religiões diferentes e a própria tradição  cristã transmite um sistema religioso, ou, pelo menos, uma coleção de dados religiosos : mitos, ritos, preceitos. O que pensar disso ?

A vida está cheio de mistérios: porque o nascimento? porque a morte? a doença?  os acidentes? as necessidades não satisfeitas? a presença do ser humana na terra?, como animal mais desenvolvido? a coexistência de seres humanos diferentes querendo ocupar o mesmo espaço? e assim por  diante.

As respostas a essas perguntas não se acham nesta terra. Nada responde às perguntas. Mais tarde as ciências vão estudar como funciona o nosso mundo. Podem explicar donde vem esta doença, esse acidente, mas não explica porque existe a doença, ou porque existem acidentes. As próprias causas próximas somente apareceram depois de muitos séculos de experimentação e observação do funcionamento dos seres que conhecemos.

A conclusão mais óbvia é que todos os mistérios se explicam pela intervenção de outros entes situados fora deste mundo. Imagina-se outro mundo superior a este e povoado de entes favoráveis ou desfavoráveis que intervêm neste mundo e estão na origem de tudo o que nos preocupa. Esses entes são dotados de mais poder do que os mais poderosos da terra.

Diante desses entes podemos agir de diversas maneiras. Em primeiro lugar esses entes provocam medo. Mircea Eliade dizia das religiões em geral que elas não acreditam nos seus deuses, mas têm medo deles. O medo é uma das grandes forças religiosas. Acontece tanta coisa ruim deste mundo: muitas entidades superiores devem estar irritadas. Como acalma-las ? Nasceu a imensa teoria dos sacrifícios. Não insisto porque tudo isso é muito conhecido. O que nos interessa é que boa parte dessas religiões entrou na Bíblia. Ela também tem uma mitologia, ritos, preceitos tudo para agradar a Deus. Donde vem isso ? Da influência das religiões vizinhas. Entra na Bíblia uma herança de muitos milênios. Porém houve a voz dos profetas que selecionou, aceitou elementos favoráveis e eliminou ou procurou eliminar os desfavoráveis 

Toda essa religião do Antigo Testamento foi considerada revelação  de Deus: é isso que é difícil de se aceitar. Jesus criticou todo o sistema religioso judaico e não fundou nenhuma religião nova, nem doutrina, nem ritos, nem preceitos religiosos. Ensina um caminho, uma maneira de viver. Mais tarde a tradição cristã introduziu de novo um sistema religioso. Em parte foi uma reintrodução   de elementos judaicos. Em parte foi influência dos sistemas religiosos dos povos pagãos. Em parte foi influência das circunstâncias políticas. Foram criados os sacramentos, toda uma organização religiosa, uma série de preceitos morais que Jesus deixou na indefinição .     Todo esse sistema foi atribuído a Jesus e constituiu uma doutrina supostamente revelada. Teólogos foram encarregados de mostrar que tudo isso vinha de Jesus. Jesus teria deixado todos os elementos dos quais a Igreja tirou uma doutrina, uma teologia. Daí o surgimento de um saber religioso cristão.

Porém este saber não procede de uma revelação. Não tem valor definitivo ou universal. Não procede de Jesus. Como todas as religiões, tem um grande valor poético, artístico, psicológico e sociológico. Mas pode e deve mudar quando já não cumpre essas funções. Não faz sentido impor a um povo um sistema religioso que se tornou incompreensível porque supostamente foi uma revelação divina.

Hoje em dia todo o sistema tridentino já é inaceitável. Porque é incompreensível Somente se mantém por causa da chantagem do Opus Dei e outros movimentos fundamentalistas, integristas que intimidam a hierarquia. Faz tempo que a hierarquia treme de medo diante da chantagem desses movimentos. Em lugar de buscar no mundo atual as expressões religiosas adequadas, querem impor algo que os católicos adultos não aceitam.

Transformam em dogmas de fé elementos religiosos que tiveram o seu papel na história da Igreja e foram criados para responder a necessidades temporárias. Fazem de tudo isso uma revelação divina e há teólogos que buscam os fundamentos dogmáticos  desses elementos. Dessa maneira fazem do cristianismo um saber inaceitável na atual condição  da humanidade. Daí a revolta não contra Jesus, mas contra todo o sistema de saber que um magistério mal aconselhado ensina como se fosse revelação divina.

 

Por outro lado está a ciência. Hoje em dia sabemos também que a ciência não é um saber. É uma crítica incessante a todas as teorias que se apresentam como saber científico. A ciência sabe agora que nunca vai saber o que é o mundo. A multiplicação das experiências e das tecnologias de exploração científica faz com que qualquer proposição científica já está ultrapassada no momento em que sai publicada. Já outros foram mais longe, mostrando todos os defeitos da explicação  anterior. Todas as teorias são provisórias e condenadas a ser substituídas em breve por outra que também não vai durar muito. 

Houve em tempo nos séculos XVII e XVIII em que a burguesia nascente achava que tinha encontrado na ciência uma explicação total do universo capaz de substituir  o saber da Igreja e por conseguinte de cortar as bases do poder da Igreja. A burguesia tiraria a justificação  da sua ascensão social, política e econômica na ciência. A ciência seria uma explicação  racional, definitiva, universal, objetiva do mundo e deixaria sem fundamento um saber religioso sem base científica.Esta concepção gerou uma Igreja paralela que foi a Maçonaria,  a religião dos burgueses ( dos homens, porque as mulheres não estavam metidas na vida pública).

Durante 300 anos a luta entre a Igreja e a Maçonaria foi a expressão social mais visível do conflito entre os dois saberes. A Igreja defende com a maior má fé do mundo a sua mitologia transformada em dogma, porque é a base do seu poder na sociedade. A Maçonaria encontra na ciência a arma decisiva capaz de destruir o poder da Igreja e de justificar a ascensão da burguesia.

O projeto de uma ciência como representação objetiva, universal e permanente do mundo era um sonho. O próprio desenvolvimento  da ciência mostrou no século XX que a ciência passa de um paradigma para outro. Todo paradigma é provisório e o progresso da ciência consiste justamente em prosseguir a experimentação  até desmontar esse paradigma e construir outro. A ciência é uma procura permanente para entender a complexidade do mundo que se revela cada vez mais longe do pensamento. O progresso da ciência consiste em dividir cada vez mais os fenômenos de tal modo que se multiplicam as conexões com a certeza de que a realidade é mais complexa ainda.Isto desfaz o projeto de uma representação da realidade unificada ao redor de alguns princípios científicos imutáveis.

 

Como nasceram esses dois projetos de saber objetivo e definitivo, um baseado na ciência de Deus e outro fundado no método científico ? Na raiz desses projetos esteve a filosofia grega com o seu sonho de um conhecimento objetivo, absoluto dotado de uma total certeza. A certeza que se supõe possível no saber da essência, do “esse” do universo, poderia gerar a certeza de tudo o que se pode deduzir dessa evidência primária. Os gregos inventaram esse ideal do conhecimento do ser que seria um conhecimento universal e indiscutível. O problema fundamental  era conhecer o “ser”, o conceito mais universal do qual derivariam todos os outros conhecimentos. Esse sonho passou dos gregos para o mundo ocidental e gerou a  história da filosofia. Infelizmente nunca dois filósofos estiveram de acordo sobre esse saber primordial. A filosofia do século XX dedicou-se a desmontar o sonho grego e o próprio conceito de “ser”.

O verbo “ser” não existia na língua de Jesus e ninguém procurava saber o que são as coisas. Todos os verbos se referiam ao agir. A entrada da filosofia grega começou na escola da Alexandria desde o século II com Clemente e Orígenes. Esse movimento encontrou uma forte oposição por parte dos monges durante séculos. No século XII e sobretudo no século XIII a filosofia grega entrou e foi admitida na Igreja. Nasceu a idéia de que o cristianismo é uma doutrina de valor absoluto porque reflete o próprio pensamento de Deus, o que vai conferir um poder absoluto ao magistério que se inspira nela. O resto da história, já o conhecemos. Na Igreja desde o século XIX o movimento bíblico pouco a pouco conseguiu mostrar a artificialidade do sistema teológico defendido pela  hierarquia. Hoje em dia fora da própria hierarquia ninguém mais acredita nessa teologia dita escolástica, ou seja, inspirada na filosofia grega. O pensamento cristão consiste em descobrir a aplicação do caminho evangélico no mundo atual. Isto não entra em contradição com a ciência.

A ciência começou com a magia e todas as receitas populares para melhorar a alimentação  e a saúde. O projeto é como melhorar a vida sabendo usar os recursos que estão no mundo. Saber o ser do mundo não ajuda em nada. A ciência não tem motivo de oposição ao caminho do evangelho. Mas é claro que ela não se conforma com a visão do mundo de Aristóteles. E porque os teólogos deviam defender a posição de Aristóteles como se fosse revelação divina?

Os filósofos gregos tiveram o sonho de um saber universal, absoluto, válido sempre e para todos. Eles teriam sido os privilegiados que teriam descoberto a ciência universal. “O milagre grego”. Mas existem muitas civilizações, muitas culturas e todas têm a sua concepção de vida. A universalidade não existe. O que é possível é um diálogo entre as culturas para se chegar a certas posições comuns aceitáveis por todos. Seria algo assim como a Declaração  dos direitos humanos, ainda que essa Declaração  proceda do mundo ocidental. Seria algo resultando de um diálogo mais completo. Não temos uma moral universal e a própria moral da Igreja deriva em grande parte das culturas dos povos que foram introduzidos na Igreja. A moral de Jesus era muito simples, ainda que quase de aplicação impossível. Ela é tão simples que pode ser aceita em todas as culturas e pode ser a base de um consxzenso universal. Mas o sistema católico nunca poderá ser essa base.

 

José Comblin