VATICANO II: Cinquenta anos depois1

 

Jose Comblin

 

1. Antes do Concílio

 

A maioria dos bispos que chegaram ao Concilio Vaticano II não entendiam por que e para que haviam sido convocados. Não tinham projetos. Pensavam como os funcionários da Cúria: que somente o Papa tinha poder de decisão e tudo decidia, não havendo necessidade de convocar um Concílio. Havia, porém uma minoria bem consciente dos problemas do povo católico, sobretudo nos países intelectual e pastoralmente mais desenvolvidos. Haviam experimentado episódios dramáticos da distância entre as preocupações dos sacerdotes mais inseridos no mundo contemporâneo e a administração vaticana. Sabiam o que tinham sofrido no pontificado de Pio XII que se opunha a todas as reformas tão ansiadas por muitos. Todos os que buscavam uma inserção da Igreja no mundo contemporâneo, constituído pelo desenvolvimento das ciências, da tecnologia e da nova economia, assim como pelo espírito democrático, sentiam-se reprimidos. Havia uma elite de bispos e cardeais que estavam bem conscientes das reformas necessárias e quiseram aproveitar a oportunidade oferecida providencialmente por João XXIII. A Cúria não aceitava as idéias do novo Papa e muitos bispos estavam desconcertados porque o modelo de pontificado de João XXIII era bem diferente dos papas Pios, que se pensava ser a norma desde Pio IX.

As comissões preparatórias do Concilio eram claramente conservadoras e por isso, no dia da abertura do Concilio as perspectivas dos teólogos e peritos levados pelos bispos mais conscientes eram bem pessimistas. Porém, houve o discurso de abertura de João XXIII que rompeu decididamente com a tradição dos Papas anteriores. João XXIII anunciou que o Concilio não estava reunido para fazer novas condenações de heresias como era o costume. Disse que tratava-se de apresentar ao mundo uma outra figura da Igreja, que a tornaria mais compreensível para os contemporâneos. A maioria dos bispos não entendeu nada e pensou que o Papa não dissera nada, porque não havia mencionado nenhuma heresia. Para o Papa não se tratava de aumentar o número de dogmas, mas sim de falar ao mundo moderno numa linguagem atual e compreensível. Uma minoria esclarecida entendeu o recado e sentiu que teria o apoio do Papa na sua luta contra a Cúria.

A Cúria romana tinha uma estratégia. Havia uma maneira de anular o Concilio. As comissões haviam preparado documentos sobre todos os assuntos anunciados. Todos esses documentos eram conservadores e não permitiam nenhuma mudança real na pastoral. Esses documentos seriam entregues às comissões conciliares que os aprovariam e o Concilio se encerraria em poucas semanas com documentos inofensivos que não mudariam absolutamente nada. Importava fazer uma lista de comissões lideradas por bispos conservadores e explicar ao Concílio que o mais prático seria aceitar as listas já preparadas pela Cúria, pois os bispos da assembléia não se conheciam.

O primeiro que descobriu essa estratégia foi Dom Manuel Larraín, bispo de Talca, Chile, e presidente do CELAM. Ele, junto com Dom Helder Camara - eram amigos íntimos e acostumados a trabalharem juntos - avisaram aos lideres mais abertos do clero. A Cúria havia preparado uma lista de membros das comissões, escolhidos de tal maneira que se sabia que aprovariam os textos curiais sem problema. Era preciso, portanto, rejeitar as listas preparadas pela Cúria e pedir que as comissões fossem eleitas pelo próprio Concílio. Os líderes, cardeais Doepfner (de Munique, Alemanha), Liénart (de Lille, França), Suenens (de Malinas, Bélgica), Montini (de Milão) e mais alguns tomaram a palavra e solicitaram que o próprio Concílio nomeasse os membros das comissões, o que foi aprovado por aclamação.

A conclusão foi que as novas comissões rejeitaram todos os documentos preparados pelas comissões preparatórias, o que foi uma afirmação do episcopado diante da Cúria romana. O Papa estava feliz. Claro que em poucas horas, Manuel Larraín e Helder Camara prepararam listas dos bispos latino-americanos que puderam integrar as comissões e outros fizeram o mesmo para os outros continentes porque Manuel Larraín já tinha muitos contatos mundo afora. Desde o início ficou claro que o Concílio seria uma batalha, passo a passo, contra a Cúria romana. O Papa não tinha força para mudar a Cúria. Até hoje os Papas são prisioneiros da Cúria que, em princípio, devia depender deles. A administração é mais forte que o governante na Igreja, assim como em muitas nações. Nem sequer João Paulo II atreveu-se a intervir na Cúria. Impotente em Roma passou a viajar pelo mundo, onde foi aclamado triunfalmente.

A maioria conciliar que o grupo de frente conseguiu conquistar, não queria ruptura e por isso sempre deu importância à minoria conservadora, embora pequena, que representava os interesses da Cúria e se identificava com ela. Por isso, muitos textos resultaram ambíguos porque após um parágrafo inovador, vinha um parágrafo conservador que dizia o contrário. De um lado se anunciavam temas novos e logo se abria espaço para os temas antigos da tradição dos papas Pio’s. Essa ambigüidade prejudicou em muito a aplicação do Concílio.

A minoria conciliar e a Cúria não se converteram. Até hoje se opõem ao Vaticano II e encontram argumentos nos mesmos textos conciliares conservadores. Quando João Paulo II citava os textos do Vaticano II, citava os textos mais conservadores, como se os outros não existissem. Por exemplo, na Constituição Lumen Gentium está claro que o destaque é o lugar dado ao povo de Deus. No entanto, quando se trata da hierarquia, o povo de Deus desaparece e tudo continua como sempre. Em 1985, instigado pelo cardeal Ratzinger, o povo de Deus foi eliminado do vocabulário do Vaticano. Desde então nenhum documento romano faz referência ao povo de Deus que era o tema mais importante da constituição conciliar. O cardeal Ratzinger havia descoberto que o povo de Deus era um conceito sociológico, ainda que o conceito de povo não se encontre nos tratados de sociologia. O povo não existe sociologicamente porque é um conceito teológico, bíblico.

Essa situação terá grande importância na evolução posterior do Vaticano II na Igreja. Desde o começo houve um partido ao qual sempre se deu importância e poder e que lutou contra todas as novidades. Nas eleições pontifícias que, como sempre são manipuladas por alguns grupos, o problema do Vaticano II foi decisivo e os Papas foram eleitos porque se conhecia as suas restrições aos documentos conciliares em tudo o que tinha de novo. O Papa atual pode viver dez anos mais ou até mais. Depois dele podemos pensar que será eleito novamente um Papa menos comprometido com o Concilio, para usar um eufemismo, porque os grupos que defendem essa posição são bem fortes na Cúria e no colégio dos cardeais e não há sinais de que as futuras nomeações possam mudar de orientação. As últimas nomeações na Cúria são eloquentes.

 

2. De 1965 a 1968

 

A historia da receptividade do Vaticano II foi determinada por um acontecimento totalmente imprevisto. 1968 representa uma data simbólica da maior revolução cultural na historia do Ocidente, mais que a revolução francesa ou a revolução russa, porque atinge a totalidade dos valores da vida e todas as estruturas sociais. A partir de 1968 houve muito mais que um protesto dos estudantes. Houve o começo de um novo sistema de valores e uma nova interpretação da vida humana.

Vaticano II respondeu às interrogações e aos desafios da sociedade ocidental em 1962. Os problemas tratados, as respostas propostas, as discussões sobre as estruturas eclesiais, as idéias sobre uma reforma litúrgica, tudo isso havia sido preparado por teólogos e pastoralistas, sobretudo desde os anos 30 nos países da Europa central, França, Alemanha, Bélgica, Holanda, Suíça com algumas franjas no norte da Itália. Estava reconstruída a sociedade européia destruída pela guerra e a Igreja ocupava um lugar de destaque na sociedade. Era o governo na Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda, e tinha participação nos governos da França. Na realidade, havia perdido contato com a classe operaria porem esta já estava diminuindo numericamente devido a evolução da economia em relação aos serviços. O número de católicos praticantes estava diminuindo discretamente. A Igreja tinha um clero fiel, um episcopado bastante ilustrado, ainda que pouco inovador socialmente, porém identificado com os partidos democratas cristãos. O grande problema de Igreja era a tensão entre os setores mais comprometidos com a nova sociedade e o mundo romano de Pio XII, apoiado pelas Igrejas dos países menos desenvolvidos e mais tradicionalistas, como Espanha, Portugal, América latina, Itália, sobretudo no sul de Florença e dos povos católicos do sudeste europeu. Os problemas eram estruturais e não alcançavam nem os dogmas nem a moral tradicional.

Em 1968 começava abruptamente uma revolução total que atingiria todos os dogmas e toda a moral tradicional assim como todas as estruturas institucionais da Igreja e de toda a sociedade. Em 1968 o Vaticano II teria sido impossível, porque não havia ninguém ou quase ninguém para entender o que estava acontecendo. Vaticano II respondeu às questões de 1962, porém não tinha nada para responder aos desafios de 1968. Em 1968 o Concílio havia sido um Concílio conservador assustado pelas transformações culturais radicais que começavam.

As manifestações exteriores da revolução dos estudantes em todo o mundo ocidental desenvolvido foram reprimidas com facilidade e, por isso, muitos pensaram que seria um episodio sem conseqüências importantes. Na realidade, era o começo de uma nova era que prossegue hoje em pleno desenvolvimento. 1968 significa transformação de toda a política, a educação, os valores morais, a organização da vida e a economia.

1968 é uma data simbólica que evoca os grandes acontecimentos que mudaram o mundo na década dos 60, sobretudo a partir de 1965.

 

a) 1968 significou uma crítica radical de todas as instituições estabelecidas e de todos os sistemas de autoridade.

Foi a contestação global de toda a sociedade tradicional organizada. A crítica dirigia-se ao Estado, à Escola em todos os seus níveis, ao Exército, ao sistema jurídico, aos hospitais. Foi uma crítica a todas as autoridades estabelecidas que manda pela força das estruturas e fazem dos cidadãos prisioneiros das instituições. Claro está que a Igreja católica foi incluída nessa crítica. A Igreja católica era o modelo típico de um sistema institucional radicalmente autoritário. Ela foi imediatamente atacada e denunciada com vigor. As mudanças conciliares, tão tímidos não podiam convencer a nova geração. Vaticano II era totalmente inofensivo se comparado com a revolução cultural que começou em 1968.

 

b) 1968 inicia uma luta contra todos os sistemas de pensamento, o que se chamou “os grande relatos”.

Os sistemas são formas de manipulação do pensamento, são expressões de dominação intelectual. Não se aceita nenhum sistema que tenha a pretensão de ser “a verdade”. Com isso sofrem os dogmas e o código moral da Igreja católica e toda sua pretensão de “magistério”. Vaticano II não poderia nem sequer imaginar que tal situação fosse possível. Aí não houve nenhuma discussão de nenhum dogma e todo o sistema de pensamento nunca foi questionado. Agora a nova geração contesta tudo o sistema doutrinal da Igreja católica porque esse sistema não permite o livre exercício do pensamento. Não que a nova geração queira negar todo o conteúdo doutrinal, porém não quer aceitar todo um sistema sem antes discuti-lo e não quer aceitá-lo com um bloco. Quer examinar cada elemento, aceitar ou não aceitar.

 

c) Simultaneamente houve a explosão da revolução feminista.

A descoberta da pílula que permite evitar a fecundação e, portanto, facilita a limitação da natalidade, desperto um entusiasmo universal entre as mulheres que tomaram conhecimento da novidade. Era um elemento básico na liberação das mulheres que deixavam de ser totalmente dependentes de maternidades repetidas. Era uma novidade para a Igreja também. Nada havia na Bíblia sobre essa tecnologia. Os episcopados dos países mais desenvolvidos socialmente, os teólogos consultados pelo Papa manifestaram que não havia nada na moral cristã que pudesse condenar o uso da pílula anticoncepcional. Porém, o Papa deixou-se impressionar pelo setor mais conservador embora minoritário e publicou a encíclica Humanae Vitae que foi como uma bomba. Muitos não podiam acreditar que o Papa tivesse assinado tal encíclica. Foi uma revolta enorme entre as mulheres católicas. Estas não aplicaram a proibição papal e aprenderam a desobediência. Dessa época resulta a fuga das mulheres. Agora as mulheres são as que transmitem a religião. Quando as mulheres deixaram de ensinar a religião aos seus filhos, apareceram gerações que ignoravam tudo sobre o cristianismo. Muitos bispos ficaram abalados, porem nada podiam fazer, porque o Concílio não havia abordado o exercício do primado do Papa. O Papa decide sozinho, mesmo que seja contra todos. Era o caso: o Papa havia decidido contra os bispos, os teólogos, o clero, os leigos que eram informados. Por desgraça, foi obra do Papa Paulo VI, que por tantos méritos na história do Concílio aparecia como homem aberto. Por que justamente ele? De outro papa se teria entendido melhor, mesmo que o efeito produzido tivesse sido o mesmo. Para muitos Humanae vitae era como um desmentido do Vaticano II: nada havia mudado!

 

d) 1968 e a sociedade de consumo

Até então o consumo era orientado pelos hábitos. Havia um consumo moderado e limitado. Os ricos não praticavam a ostentação de sua riqueza. Não havia rendimentos escandalosos. O consumo dependia da regularidade da vida: refeições regulares e tradicionais, festas tradicionais com gastos tradicionais, dentro de um ritmo de vida no qual o trabalho ocupava o lugar central. A partir da década dos 60, o trabalho deixou de ser o centro da vida. A partir de então, no centro está a busca de dinheiro para poder pagar as férias, os finais se semana, as festas que se multiplicam indefinidamente e o consumo festivo. O trabalho é o que permite o consumo. O trabalho agrícola desaparece nos países mais desenvolvidos, o trabalho industrial diminui e os serviços não oferecem nenhuma satisfação humana por serem aborrecidos. As próprias estruturas sociais estimulam o consumo e os que não podem consumir sentem-se rejeitados pela sociedade. Desde então as pessoas gastam o que não possuem e pagam 12, 48, 70 meses as suas compras. Pode-se consumir sem poder pagar imediatamente. Se paga após anos. Os jovens não têm limites, gastam mais do que podem.

 

e) O capitalismo descontrolado

A supressão de todas as leis que controlam os movimentos de capitais estimula a correria em busca da riqueza. Uma nova moral qualifica as pessoas pelo dinheiro que acumulam e pela ostentação de sua riqueza. A partir de então os donos do capital fazem o que querem e como querem com o risco de provocar crises financeiras das quais as vítimas são os pequenos. Até a queda do comunismo na URSS o magistério lutava contra esse consumismo e pouca atenção dava ao crescimento rápido de uma nova forma de capitalismo. Na América Latina a Igreja reage timidamente à conquista econômica dos grandes centros capitalistas mundiais. Na prática, a Igreja vai esquecer-se de Gaudium et Spes e aceitar a evolução do capitalismo descontrolado. A doutrina social da Igreja perdeu todo o significado profético porque na prática nada foi aplicado a casos concretos. Na prática o magistério aceitou o novo capitalismo.

 

Nada disso foi provocado pelo Concílio. Não se pode atribuir ao Vaticano II tudo o que sucedeu como conseqüência da grande revolução cultural do Ocidente. Pois essa revolução teve imediatamente repercussões na juventude da Igreja. Todos sentiram que a instituição da Igreja estava profundamente questionada e desprestigiada. Esse desprestígio não procede do Vaticano II mas da grande crise cultural. O efeito mais visível foi a crise sacerdotal. Cerca de 80.000 sacerdotes deixaram o ministério. Quase todos os seminaristas abandonaram os seminários. Isso foi atribuído ao Concilio por todos os seus adversários. Na realidade nada havia no Vaticano II que pudesse explicar esse acontecimento. Tampouco a fuga de milhões de católicos leigos pode ser explicada pelo Vaticano II. Porem tudo se explica pela revolução cultural de juventude. No entanto, os mesmos Papas João Paulo II e Bento XVI aludiram várias vezes a esse argumento embora não se atrevessem a expressá-lo explicitamente.

 

 

3. A reação da Igreja foi o que se podia temer

 

Os Papas e muitos bispos aceitaram o argumento dos conservadores de que os problemas da Igreja provinham do Vaticano II. Vários teólogos que haviam sido defensores e promotores dos documentos conciliares, mudaram e adotaram a tese dos conservadores, entre eles o próprio Pata atual. Diziam que o Concilio “foi mal interpretado”. Por isso, o Papa convocou um sínodo extraordinário em 1985 por ocasião dos 20 anos da conclusão do Concilio para lutar contra as falsas interpretações e dar uma interpretação correta. Na prática a nova interpretação, a “correta”, consistia em suprimir tudo o que havia de novo nos documentos do Vaticano II. Um sinal bem simbólico foi a condenação da expressão “povo de Deus”. Terminou a época das experiências, dizia João Paulo II. Praticamente, o que se fez foi retomar o que havia sido feito depois da revolução francesa: fechar as portas e janelas impedindo a comunicação com o mundo exterior e reforçando a disciplina para evitar as dissidências. Porem isso não impediu as fugas. O problema é que a Igreja já não tem mais uma base camponesa pobre. Na América latina os pobres buscam as igrejas evangélicas.

Desde então, na linguagem oficial, se faz referência ao Concílio, porém sua mensagem continua ignorada. O Concílio permanece na memória e na fundamentação das minorias sensíveis à evolução do mundo que buscam nele argumentos, forjar mudanças e respostas aos desafios do mundo atual. A juventude, inclusive os novos sacerdotes, não sabe o que foi o Concílio Vaticano II, que para eles não tem nenhum interesse. Estão mais interessados no catolicismo anterior ao Vaticano II com sua segurança, sua plasticidade litúrgica e a justificativa de um autoritarismo clerical que os livra dos problemas.

A reação da Igreja foi a volta à disciplina anterior. O símbolo dessa criação foi o novo código de direito canônico no qual se mantém toda a estrutura eclesiástica do código de 1917, talvez com uma linguagem menos autoritária a mais florida. O novo código fechou as portas a todas as mudanças que poderiam inspirar-se no Vaticano II. Tornou o concilio Vaticano II historicamente inoperante.

No mundo, a prioridade dada à luta contra o comunismo - um comunismo já em plena decadência - fez com que a Igreja aceitasse silenciosamente - os silêncios da doutrina social da Igreja, dizia o padre Calvez - o capitalismo desenfreado que se instalou na década dos 70. Na América Latina o Vaticano apoiou as ditaduras militares e condenou todos os movimentos de transformação social, em nome da luta contra o comunismo. Desde o governo de Reagan a aliança com os Estados Unidos foi fiel até a guerra do Iraque que no final abriu os olhos do Papa por um breve momento. Dessa maneira a Igreja se aliava aos poderosos do mundo e através da sua pastoral real se condenava a ignorar o mundo dos pobres. As nomeações episcopais foram bastante significativas.

Na América Latina a reação da Igreja à revolução cultural que começou no mundo desenvolvido foi muito dolorosa. Destruiu algo novo que estava nascendo. Pois na América Latina, o Vaticano II representou uma mudança real. O Concilio Vaticano II foi o que converteu o episcopado e boa parte do clero e dos religiosos. Antes, houve sacerdotes, religiosos, leigos e também bispos que haviam feito uma opção pelos pobres. Em Roma os bispos latino-americanos se encontraram e foram evangelizados pelos bispos da opção pelos pobres. O CELAM, com a aprovação de Paulo VI, convocou a assembléia de Medellín que mudou os rumos da Igreja porque tirou conclusões práticas do Concílio. Decidiu a opção pelos pobres e o compromisso com uma transformação social radical, legitimou as comunidades eclesiais de base e a formação de leigos pela Bíblia e pela ação política. As CEBs significaram uma nova estrutura na qual os leigos tinham a possibilidade de uma real iniciativa e um real poder embora limitado. Nas varias regiões, Medellín não foi aceito ou não foi aplicada. Porém houve lugares importantes nos quais Medellín mudou a face da Igreja e foi a aplicação do Vaticano II.

Todo esse movimento foi atacado sistematicamente em Roma com argumentos oferecidos pelos setores reacionários da América latina. Desde 1972 a campanha contra Medellín foi dirigida por Alfonso López Trujillo. Apesar dessa campanha, na conferencia de Puebla em 1979, Medellín ainda se salvou. Porém, no pontificado de João Paulo II a pressão aumentou. As advertências romanas, as nomeações episcopais, as expressões de repressão contra os bispos mais comprometidos com Medellín tiveram efeito. A condenação da teologia da Libertação em 1984 queria dar o golpe final. A carta do Papa à CNBB no ano seguinte limitou o alcance da condenação, porém a Teologia da Libertação permanecia como algo suspeito.

 

 

4. O que resta do Vaticano II

 

Atualmente, as reformas alcançadas pelo Vaticano II nos parecem muito tímidas e inadequadas pela sua insuficiência. Era preciso ter avançado muito mais, pois o mundo mudou mais nos últimos 50 anos que nos dois mil anos anteriores.

Do Vaticano II destacamos o seguinte que deve permanecer como uma base para as reformas futuras:

- O retorno à Bíblia como referencia permanente da vida eclesial acima de todas as elaborações doutrinais posterior, acima dos dogmas e das teologias.

- A afirmação do povo de Deus como participante ativo na vida da Igreja, tanto no testemunho da fé como na organização da comunidade, com uma definição jurídica de direitos e com recursos nos casos de opressão por parte das autoridades.

- A afirmação da Igreja dos pobres.

- A afirmação da Igreja como serviço ao mundo e sem busca de poder.

- A afirmação de um ecumenismo de participação mais próxima entre as Igrejas cristãs.

- A afirmação do encontro entre todas as religiões ou pensamentos não religiosos.

- Uma reforma litúrgica que utilize símbolos e palavras compreensíveis aos homens e mulheres contemporâneos. As comissões formadas após o Vaticano II deixaram muitas palavras e símbolos totalmente sem significado para os cristãos de hoje e um obstáculo para a missão.

 

5. As condições da humanidade atual em situação de radical transformação

 

a) Como entender a fé?

 

Desde a modernidade muitos cristãos perderam a fé ou pensaram que a haviam perdido, porque tinham uma idéia equivocada da fé. Atualmente esse fenômeno se multiplica porque a formação intelectual se desenvolveu e muitos permaneceram com uma consciência religiosa infantil ou primitiva que rejeitam ou perdem quando chegam à adolescência.

Os povos primitivos de cultura oral e as crianças acreditam na presença do divino em objetos e fenômenos de vida cotidiana como se fossem realidades religiosas. Por isso é fácil chegar a pensar que a fé é algo sensível como a experiência imediata. Quando se dão conta que já não podem acreditar nas práticas religiosas dessa forma, pelo desenvolvimento do espírito crítico, pensam que perdem a fé porque a confundem com sua consciência religiosa infantil. É necessário que recebam uma revelação de uma vida religiosa que vai além dessa experiência sensível.

A fé é distinta da experiência imediata, do conhecimento científico ou do conhecimento filosófico. A razão da fé é Jesus Cristo, a vida de Jesus Cristo. E aderir a essa vida é adotá-la como norma de vida, pois tem um valor absoluto porque essa vida é a verdade. É assim que devemos ser homem e mulher no mundo atual. Não é uma evidencia que não permite dúvidas. Ela é uma percepção da verdade, que nunca suprime uma ponta de dúvida, porque sempre é um ato voluntário e porque não se vê essa verdade. O crente não se sente obrigado a acreditar. É um ato livre de entrega da sua vida, a escolha de um caminho. Não há evidencia de que Jesus vive e está entre nós, porem o reconhecemos porque experimentamos uma presença que é um chamado repetido apesar de todas as dúvidas.

Hoje em dia o Papa condena como relativismo os fenômenos próprios da pessoa humana, que já não pode entender a maneira tradicional de conhecer os objetos da religião. Estes não fazem parte da experiência de vida. A fé é o conhecimento da vida de Jesus de uma maneira totalmente especial sem comparação com as certezas que vai adquirindo na vida cotidiana. Esta condição do ser humano atual supõe uma profunda revisão da teologia da Fé. Esta revisão da teologia já está sendo realizada, porém não se divulga; o que permite que milhões de adolescentes percam a fé mais do que nunca, porque não se lhes explica o que é a fé.

 

b) A religião.

 

Nossos contemporâneos deixam os atos litúrgicos oficiais da Igreja, porque os consideram tediosos. A missa habitual é aborrecida, exceto em circunstâncias especiais nas quais aparecem milhares de pessoas e a liturgia é mais atraente. A repetição do mesmo aborrece. A repetição dos “domingos do ano” durante tantas semanas é algo tedioso. A linguagem litúrgica é mais ainda, porque se faz em estilo popular. Quando a liturgia era em latim, era melhor porque não se entendia. Uma vez que se entende, percebe-se que o estilo é insuportável. Utiliza-se uma linguagem pomposa, formalista, linguagem de corte: “humildemente pedimos...” ninguém fala assim. “Associamos nossa voz à voz dos anjos”. Fórmula convencional que não responde a nada na vida real. Há centenas de fórmulas semelhantes. Os carismáticos salvam a situação, porém sua liturgia está longe de ser uma introdução ao mistério de Jesus.

 

c) A moral

 

Nossos contemporâneos não aceitam códigos de moral impostos ou proibições de condutas que constam no código. Querem entender o valor dos preceitos ou das proibições. Ou seja, estão descobrindo a consciência moral que faz descobrir o valor dos atos. Não aceitam a voz de uma consciência que não é nada mais do que a vos do “superego”. Antes a base da moral cristã era a obediência à autoridade. Era preciso fazê-lo ou não fazê-lo porque a Igreja o mandava ou o proibia. Por isso, tantas vezes os leigos perguntavam: isto se pode fazer? Se o sacerdote dizia que sim, o problema moral estava resolvido. Isso, porém, pertence ao passado.

 

d) A Comunidade

 

O cristianismo é comunitário. Porém as formas tradicionais de comunidade tentem a enfraquecer-se. A mesma família perdeu muito de sua importância porque seus membros quase não se encontram. A paróquia atual perdeu o sentido de comunidade. Estão aparecendo muitas formas novas de pequenas comunidades baseadas na livre escolha. Essas comunidades terão a capacidade de celebrar a eucaristia, o que supõe uma pessoa apta para presidir a eucaristia em cada grupo de umas 50 pessoas. Não há nenhuma dificuldade doutrinal, porque nos primeiros séculos a situação era essa e não houve problema. Isto é fundamental porque uma comunidade que não se une na eucaristia, não é realmente comunidade cristã. Os sacerdotes dedicados em tempo integral estarão em torno do bispo de cada cidade importante para evangelizar todos os setores da sociedade urbana.

Claro está que não sabemos quando e como se chegará a isso. É pouco provável que um Concílio que reúna unicamente bispos possa descobrir as respostas aos desafios do tempo atual. As respostas não virão da hierarquia, nem do clero, e sim de leigos que vivem o evangelho em meio ao mundo que entendem. Por isso temos que estimular a formação de grupos de leigos comprometidos ao mesmo tempo com o evangelho e com a sociedade humana na qual trabalham.

Vaticano II ficará na história como uma tentativa de reformar a Igreja ao final de uma época histórica de 15 séculos. Seu único defeito foi que veio demasiadamente tarde. Três anos após o seu encerramento começava a maior revolução cultural do Ocidente. Os seus difamadores acusaram o Concílio de todos os problemas causados por essa revolução cultural e com isso o anularam. Porem o Vaticano II permanece como um sinal profético. Em meio a uma Igreja prisioneira de um passado que não consegue superar, é uma voz evangélica. Não logrou reformar a Igreja como queria, porém foi um apelo a não perder de vista o futuro. Ainda existem movimentos poderosos que pregam a volta ao passado. Temos que protestar. Quando há pessoas que nada entendem da evolução do mundo contemporâneo e se refugiam no passado sem abrir-se ao futuro, temos que denunciar. Para nós Vaticano II é Medellín. Também quiseram matar Medellín. Medellín permanece como um farol que nos mostra o caminho.

Uma última reflexão: o futuro da Igreja católica está nascendo na Ásia e na África. Será bem diferente. Aos jovens é preciso dizer-lhes: aprendam o chinês!

1Publicado em A Cincuenta años del Concilio Vaticano II: verdaderas luces y urgentes desafíos, revista Alternativas - Revista de análisis y reflexión teológica, año 18, no 41, 2011, Editorial Lascasiana, Managua, Nicaragua, pp. 11-24