Eduardo Hoornaert.

 

A viagem do Papa Francisco à Colômbia é uma ocasião para se rever a posição do evangelho de Jesus de Nazaré diante da espinhosa questão da violência. Efetivamente, durante sua estadia no país, o Papa, antes de se apresentar como líder da Igreja católica, se revela como pacificador de uma nação tragicamente dividida entre vítimas e vitimários. Suas tomadas de posição excedem as de um representante religioso para alcançar a posição de alguém que lembra ao mundo uma filosofia que, de um ou outro modo, interessa a religiosos e não religiosos, crentes e descrentes, ricos e pobres, fiéis e ateus. Sim, trata-se de uma filosofia no sentido próprio do termo, ou seja, da construção de princípios a orientar a compreensão do mundo, da história, da vida.

 

Desenvolvo minhas considerações em três pontos.

1. O princípio violência.

Seis séculos antes de Cristo, o filósofo grego Heráclito erige a violência como princípio fundante da sociedade humana. Baseado no pressuposto de que ‘tudo flui e nada fica’ (o famoso dito grego ‘panta rhei’), ele afirma que o ‘fluxo’ entre opostos faz a história, pois cria uma harmonia sempre provisória e passageira, que há de ser periodicamente restabelecida por um novo confronto entre opostos. Daí a necessidade da guerra. Heráclito escreve:  ‘A guerra é mãe de tudo’ (a expressão soa bem mais forte em grego: ‘polemos patèr pantôn’). O filósofo martela essa ideia sinistra na mente de seus discípulos ao afirmar que não há como escapar da dura realidade: a guerra é a rainha soberana do mundo. Ela ‘faz com que uns se tornem livres e outros escravos’. Uns constroem e outros desconstroem. O processo histórico é feito de oposições. O que aparece como estável é na realidade uma ilusória e provisória harmonia entre opostos. Na realidade, a luta faz história, ela produz a justiça, ou seja, o que as pessoas consideram como sendo justo.

 

A filosofia sombria de Heráclito encontra ampla confirmação na história. Quem estuda história sabe que - pelo menos desde a revolução neolítica - a espiral guerreira nunca foi interrompida. A história política que aprendemos na escola é uma concatenação de relatos sobre guerras, dinastias, estados e impérios construídos por meio de violência. A recente história da Colômbia confirma plenamente a análise de Heráclito. Para resolver os ‘cem anos de solidão’ (Garcia Marques), ou seja, de impossibilidade de comunicação entre liberais e progressistas, alguns progressistas resolvem criar as Forças Armadas Revolucionárias da Cobômbia (FARC) em 1948. Essas Forças até hoje controlam entre 15 e 20 % do território nacional. O atual presidente se esforça para resolver esse problema, que cinde a nação, mas um recente referendo nacional (2016) mostrou que a maioria da população (50,24 %) não está em condições de abandonar sentimentos de ódio, amargura, aversão e rejeição, criados por longos anos de sofrimento, e prefere manter uma divisão da nação que já dura mais de 50 anos.  A maioria deseja a paz, mas ao mesmo tempo não rejeita a violência (mesmo se ela só se expresse em sentimentos). Eles seguem, no fundo, o tradicional ditado latino: ‘si vis pacem, para bellum’ (se quiser a paz, prepare a guerra). No mundo inteiro, os governos, com pouquíssimas exceções, gastam muito dinheiro para manter forças armadas, prontas para entrar em ação, o que constitui a mais clara confirmação da lógica de Heráclito: a história sempre foi e sempre será uma sucessão de procedimentos guerreiros, nas mais diversas circunstâncias e das mais diversas formas. Há de se desviar o olhar das lágrimas das mulheres, do choro das crianças, do desespero de quem perdeu tudo na guerra, igualmente da pobreza que afeta a maioria da humanidade, para fixar o olhar em Sua Eminência a Guerra, a mandona do mundo.  Toda e qualquer civilização tem sua origem na guerra, no ferro e no fogo: as cidades, os países, as famílias, as propriedades, os ‘negócios’, as corporações, a vida social enfim. A guerra cria as civilizações. É verdade, diz Heráclito, que as pessoas sofrem sob a lei da guerra, mas elas têm que se conformar com a lei cósmica, que visa, muitas vezes além de nossa compreensão, criar um equilíbrio que só se alcança por meio da guerra. O ferro governa o mundo, a guerra é um mal necessário. O melhor que se possa fazer é fazer a guerra boa, a ‘guerra justa’.  Mas o filósofo deixa no meio o que entende por ‘guerra justa’.

 

A filosofia de Heráclito penetra fundo no cristianismo. Os teólogos medievais seguem a doutrina da ‘guerra justa’ ao justificar o projeto das Cruzadas contra o Islã. Nos tempos modernos, a filosofia do antigo fikósofo grego se seculariza, como se pode verificar no escrito ‘De Iure Belli et Pacis’ (‘sobre o Direito de Guerra e Paz), de Hugo Grotius (1625). Através de Tomás Hobbes e John Locke, ela desemboca nas terríveis ideologias do século XX como o nazismo, o estalinismo, o franquismo, o salazarismo, etc., cujos germes, neste início do século XXI, continuam vivas. Os gritos ‘guerra nunca mais’ são abafados pelo pragmatismo político reinante. O princípio violência é mais atual que nunca.

 

2. O princípio esperança.

 

Em 1949, o filósofo marxista Ernst Bloch escreve o livro ‘Das Prinzip Hoffnung’ (O Princípio Esperança) que, pensando bem, constitui uma resposta ao antigo filósofo Heráclito, pois contesta o ‘princípio violência’. Do mais profundo da alma humana, para além dos gemidos de desespero diante da ‘guerra necessária’, emana a esperança de um mundo sem guerra.

 

Bloch não está só. Há como passar em revista uma impressionante enxurrada de imagens as mais diversas, produzidas ao longo da história da literatura, da filosofia e da teologia, que demonstram um persistente apelo à esperança ‘contra todas as esperanças’. O tema é tão vasto que aqui só dá para mencionar algumas imagens e metáforas, de passagem: o Paraíso dos primeiros capítulos do Livro Gênesis, a Atlântida de Platão, a República do mesmo filósofo, o Reino da Justiça de Aristóteles, a Cidade de Deus de Agostinho, a Hierarquia Celeste de Dionísio o Areopagita, o Regime dos Príncipes do século XVI, a Sociedade Perfeita no Decreto de Graciano (século XIV), o Mosteiro na ideia dos Cistercienses, a Paz universal de Raimundo Lullo (1235-1316), a Cidade das Damas de Christine de Pisan (1405), as Beguinas, os Goliardos, o Decameron de Boccacio (1450-1475), o País de Cocanha, a Ilha Utopia de Tomás Morus (1516), o Novo Mundo na mente dos ‘descobridores’, a América ‘anterior ao pecado’, a Terra incógnita, a Cidade do Sol de Campanella (1602), a Nova Atlântida de Francis Bacon (1627), a Renovatio Mundi, a Reforma, a Revolução, o Socialismo, a Comuna de Paris, a Revolução soviética, a Idade de Ouro, o Tempo da Inocência, o Olimpo, a Árvore do Paraíso, o Éden, o Evangelho, a Jerusalém Celeste, as Ilhas Afortunadas, o Reino do Preste João, a Terra Prometida dos Livros de Josué, o Lugar Santo, o Santuário, a Ilha de São Brandão, a Eneida, as Árvores do Sol e da Lua, a Profecia de Ezequiel, a Apocalipse, os Mil Anos de Felicidade, as Chaves do Reino, o Trono de Deus,  o Reino do Espírito (Joaquim de Fiore), o Santo Padre, o Tabor. A lista é interminável, sendo apenas uma amostra do fluxo interminável de imagens que expressam esperança, tempos melhores e felicidade de difícil alcance. E observe que só apresento aqui relatos escritos da cultura ocidental e nem entro na cultura popular, nas culturas antigas da América (a Terra Sem Males da cultura tupi-guarani, etc.), nem nas riquezas do imaginário asiático.

 

Bloch, ao longo das pesquisas que deram origem ao seu livro, descobre que só a Bíblia, entre todos os escritos da literatura mundial, mantém, de forma consistente e persistente, a esperança como tema central. Nesse sentido, ele realça um dito do Apóstolo Paulo: quando virá o que é perfeito, o que é relativo será desativado (1Cor 13, 10). Relativa é a filosofia de Heráclito, assim como a imagem do Deus no Trono Celeste, que ordena a guerra, do Deus Tseav’ot (Deus dos exércitos) dos nacionalistas e do Deus ‘ofendido’ (segundo a teoria sacrificial de Anselmo de Cantuária, teólogo do século XI). Relativa é a liturgia que insiste no sacrificialismo e carrega consigo resíduos ocultamente guerreiros, relativos a sentimentos de culpabilidade difusa diante de um Deus vingativo, que ameaça vingar-se da ofensa sofrida pelo pecado do homem por meio de calamidades, doenças e infortúnios. Um Deus que, em última análise, retribui a violência do pecado pela violência do castigo. Felizmente, hoje surgem liturgias que substituem o ‘céu do trono divino’, ofendido pelo pecado, pela ´terra prometida’.

 

É por meio da leitura de Ernst Bloch que o teólogo protestante Jürgen Moltmann descobre, em 1951, que a esperança não é apenas um aspecto da mensagem cristã, mas constitui seu cerne. Esse tema não está em contradição com o tema do sofrimento, como Moltmann demonstrou em seu livro ‘Deus crucificado’ (1972). Ali ele trata de um Deus que efetivamente entra na história da humanidade, assume o sofrimento que decorre da opção pela esperança. Não é mais o Deus salvador da antiga teologia, mas o Deus vítima da violência. A imagem de Jesus na cruz é a imagem da esperança para além das forças da violência. 

 

3. O princípio ‘não-violência ativa’.

 

Numa tarde, no final da década de 1960 (não me lembro mais a data exata), o Bispo Helder Câmara nos chamou ao Palácio das Mangueiras em Recife. Ele desejava nos fazer uma ‘declaração importante’ e quis saber nossa opinião. Éramos uns trinta, entre sacerdotes, leigas e leigos. Aí ele começou dizendo que a Índia tinha a figura de Gandhi e os Estados Unidos a figura de Martin Luther King, ambas configurando movimentos importantes de não-violência ativa, mas que o mundo católico carecia de um amplo movimento profético na mesma linha. Declarou então que pensava em lançar a ‘Pressão Moral Libertadora’, um movimento civil de resistência e esperança. Estávamos em pleno regime militar. Tive a impressão que eu não era o único a pensar que nosso bispo estava avaliando mal a importância de seu papel na sociedade brasileira e a achar que comparar-se com Gandhi e Martin Luther King era um exagero. Mas quando, em 1969, o jovem sacerdote Henrique Pereira Neto, colaborador do bispo, foi assassinado pelo regime militar e sobretudo quando, após uma conferência em Paris, (1971), na qual ele denunciava abertamente o regime de torturas e mortes vigente no Brasil, Hélder Câmara foi totalmente silenciado pelo regime (‘não se fale mais dele, nem contra nem a favor!’), eu me convenci que ele tem realmente a estatura de um profeta de nossos tempos e merece figurar ao lado de Gandhi, Martin Luther King e (mais tarde) Mandela. Pois ele tem um ponto em que ultrapassa essas tres figuras paradigmáticas: desenvolve a teoria do ‘espiral da violência’. É verdade: Gandhi contestou o colonialismo, Martin Luther King a discriminação dos negros e Mandela o ‘apartheid’, mas Helder Câmara traça um desenho mais profundo ao analisar a dinâmica mortal do princípio violência. No livro que lançou na França em 1970, intitulado ‘Spirale de la Violence’ (Desclée de Brouwer, Paris), ele mostrou a razão pela qual o princípio violência nos introduz num labirinto do qual não se consegue mais sair. É que a violência procede em três fases, ou seja, se apresenta como a imbricação de três movimentos distintos. A violência número se origina na situação de injustiça, pobreza e marginalização, em que grande parte da humanidade vive. É a violência institucionalizada. Ela gera a violência número dois, que consiste na revolta contra essa situação desumana. É a violência revoltosa. Essa, por sua vez, desemboca na violência número três, a da repressão da revolta em nome da ‘ordem’. É a violência repressiva. A imbricação dessas três fases da violência cria uma espiral sem fim, sem perspectiva além de uma paz precária e temporária a ser seguida por um novo ciclo violento, exatamente na linha da interpretação do filósofo grego Heráclito. Ao descrever essas três fases, Helder Câmara contesta a comum compreensão de termos como ‘ordem’ e ‘paz’. Desde os teólogos escolásticos, a Igreja ensina que a paz consiste na ‘tranquilidade da ordem’ (tranquilitas ordinis). Nisso, ela repete a seu modo a definição que os administradores do Império Romano davam à famosa ‘Paz Romana’, que consistia na afirmação seguinte: as províncias conquistadas pelas legiões romanas estão ‘em paz’. O intento fundamental dessas legiões consiste em estabelecer a paz no mundo inteiro, enquanto a tarefa principal do Imperador consiste em defender a paz. Ele é o principal defensor da paz (defensor pacis). Não é difícil perceber que tanto a Pax Romana como a Pax Clericalis têm seu fundamento no silêncio das massas populares. A ‘tranquilidade da ordem’ é uma expressão enganosa. Helder Câmara conhecia suficientemente a situação da população pobre do Nordeste brasileiro para poder dizer, em repetidas ocasiões, que a paz reinante é a ‘paz dos túmulos’. Não há lugar mais pacificado que um túmulo. Ali ninguém fala, tudo ‘repousa em paz’.  A paz é uma desordem instituída e mantida por palavras enganosas.

 

É aqui que se insere o princípio não-violência ativa que, em primeiro lugar, rechaça incondicionalmente o princípio violência e, em segundo lugar, segue não menos incondicionalmente o princípio esperança, que ativa e concretiza.

 

Não é outra a postura de Jesus de Nazaré ao rejeitar incondicionalmente o princípio violência em nome do compromisso com as vítimas. A leitura de seu evangelho leva a uma conclusão inusitada: a guerra não tem sentido. Nunca, nem antes nem depois de Jesus, uma proposta como aquela foi contemplada com a seriedade que merece. Jesus aponta uma meta que muitos consideram impossível de ser alcançada. Muitos pretendem que a proposta da não-violência ativa seja ingênua, um ‘pio desejo’ capaz de comover as pessoas, mas que não leva a nada. Eles não percebem que o contrário é verdade: é a guerra que não resolve nada, apenas gera inúmeros sofrimentos e acaba recolocando os poderosos no comando. O ser humano não é como Heráclito o apresenta. Mas acontece que o princípio violência é tão onipresente nas nossas culturas que as pessoas acabam aceitando seus ditames, já que ele se instalou desde muito no íntimo de nosso ser subconsciente.

 

Eis a encruzilhada em que o povo colombiano se encontra. As FARCs, responsáveis por 12 % das mortalidades violentas, provocam o surgimento dos paramilitares, que por sua vez são responsáveis por 80 % dessas mortes. E assim se desenrola a espiral da violência sem fim. É dentro desse contexto que o Papa Francisco reúne vítimas e vitimários, numa tentativa de ativar nelas (e em todos nós) o princípio evangélico da não-violência ativa. Será que ele conseguirá convencer um contingente suficiente de pessoas para que finalmente um referendo nacional acerca da rejeição da violência institucionalizada seja bem-sucedido na Colômbia?
 
fonte: http://eduardohoornaert.blogspot.com.br/2017/09/o-papa-francisco-na-colombia.html