Sebastião Armando

 

 

Pode a Igreja voltar a ser “comunidade” e voltar-se para os pobres de Deus e o Deus dos pobres? (Impasse de um papado como o do Papa Francisco?)

 

INTRODUÇÃO: A Crise Atual da Igreja Cristã

Não é novidade para ninguém que a sociedade vive mergulhada em profunda crise, uma crise de civilização. Sente-se em toda parte intenso mal estar e, dizem analistas, um “sofrimento difuso”, como se a dor  se espalhasse por todo o corpo e até fora dele sem se saber exatamente onde dói em ameaça constante. No Brasil, por exemplo, passamos em apenas cinquenta anos de país rural a urbano, processo que a Europa teve chance de percorrer ao longo de vários séculos para ir se acostumando. Nossa experiência em vez tem sido rápida, brutal e traumática. A maioria pobre e até miserável e propositalmente excluída é a maior testemunha disso  porque o vive em sua carne dilacerada.

Com a urbanização, as condições de vida (Economia) e de convivência social (Relações sociais baseadas no processo de produção) se transformam radicalmente e se agravam ainda mais no contexto de um país como o nosso, onde as instâncias de poder (Política) são herdeiras de uma oligarquia escravagista, profundamente individualista (individualismo de classe dominante), “proprietário das terras, do gado e das pessoas”, violenta em sua própria raiz. A crise política que estamos a atravessar, por exemplo, é reveladora dessa estrutura mais profunda, situação conjuntural a deixar ver uma estrutura que já perdura por séculos, absurda e vergonhosamente.No momento estão expostas as vísceras do Estado “patrimonialista” (como lhe  chamam os entendidos): a Presidência da República vergonhosa e reiteradamente investigada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público; o Parlamento, o desastre que já bem conhecemos, “balcão de negócios”: bancada do boi, bancada da bala, bancada da Bíblia, com a onipresença dos interesses do agronegócio e de poderosas empreiteiras; o Judiciário, dizem que é o mais caro do mundo, omisso ou mostrando-se claramente estar do lado da restrita oligarquia dominante; os meios de comunicação, em mãos de muito pouca gente, a impor sua versão a um povo ainda pouco informado e até de poucas letras.

Em articulação com essas grandes transformações, se dá uma avassaladora “revolução cultural”, mudança profunda de valores e orientações de vida. Não podemos nem avaliar adequadamente a profundidade emocional, psíquica, cultural e espiritual do mal estar experimentado pelas pessoas e pelo conjunto do povo em seu dia a dia. É para sentir-se “sem chão”, pois o que antes valia e guiava a vida, agora já não vale mais, o que servia para viver na roça agora já não serve mais: o que é ser homem, ser mulher, ser pai ou mãe, filho ou filha; em que acreditar, como se comportar, o que almejar na vida, o que dignifica mesmo o ser humano, crer ou não crer… profundo é o sentimento de orfandade, de abandono, de ausência de rumos e referências. Admira que estejamos mergulhados(as) em situação caótica, que a bandidagem seja o caminho viável  para tanta gente e que sejamos um dos países mais violentos da terra, ultrapassando até a estatística de mortandade de países em guerra declarada?

                    Não só passamos fisicamente da roça para a cidade, mas, com esse passo, rompemos com o monolitismo e vamos na direção do pluralismo cultural, cada pessoa podendo sentir, imaginar, pensar e fazer o que bem quiser; passamos do Catolicismo ao pluralismo religioso; de um jeito de viver que oferecia segurança a uma situação e incerteza e insegurança, e até de difuso medo. O Capitalismo, sorrateiramente, vai se impondo como a religião desejável, em torno do dinheiro que é o seu deus (cf. Mt 6,19-21); fala-se hoje de “religião de mercado”, a idolatria destes novos tempos, revelada pela maneira até de as pessoas rezarem: o que se pede aos “céus” são “bênçãos” quantificáveis, tipicamente materiais: pede-se saúde para trabalhar e, assim, obter bom salário; pede-se casa decente, celular e automóvel… torna-se comum ler por aí: “foi Deus quem me deu”, “presente de Deus”, “propriedade de Jesus”…

Nessa situação, a Igreja cristã também se acha em grave crise, cada vez mais dividida e marcada por disputas que estão muito longe dos conflitos desencadeados pelo Evangelho: disputas em torno do número de fiéis, investimento em pessoas e recursos com o objetivo de proselitismo com fim em si mesmo, preocupação com aumento de caixa mediante o marketing da comunicação. O Catolicismo romano vem perdendo a hegemonia, tanto que a Conferência continental do episcopado, realizada há poucos anos em Aparecida, fez grande esforço por relançar a mentalidade e a atividade missionária, algo próprio de uma instituição que já se percebe sem o monopólio dos fiéis. Depois do período dos anos 70 e 80 do século passado, de significativo movimento popular e claro compromisso social com a população pobre e oprimida do Continente, tendo como ponto de referência a “opção pelos pobres”, hoje o que se vê e ouve nos meios de comunicação é uma linguagem prevalentemente devocional, que apela a imagens religiosas pré-moderna e que não levam a refletir sobre a realidade na qual Deus nos chama a viver e transformar, imita o que há de mais primário na linguagem evangélica popular, como se a intenção fosse “correr atrás do prejuízo” na disputa do mercado dos pobres e da baixa classe média: “cura e libertação” (tem até missa com esse “apelido”), bênção de copo d’água a distância (“tele bênção”, pode-se dizer), cura de enfermidades pela TV, “exorcismos” que responsabilizam o Diabo pelas mazelas no campo da saúde  ou de males psicossociais. Naturalmente, tudo isso só serve para estimular “crendices” como se fossem espiritualidade cristã e não ajudam, nem sequer um milímetro as pessoas a crescer e amadurecer na fé e na consciência de sua própria realidade e capacidades, além de inculcar  confusão permanente entre “religiosidade” (e até superstição) e fé.

A corrente protestante ainda carrega em grande parte a cultura individualista que herdou do começo da modernidade, época da Reforma, quando no Ocidente se tomava consciência do “individuo”, que passava a não ser apenas membro de um grupo corporativo, mas adquiria autonomia e iniciativa, possibilitando a mobilidade social. O lema luterano da “libertas christiani” foi depois traduzido nas revoluções sociais americana francesa por “liberdade do cidadão”, sempre no sentido do individuo.       

As Igrejas protestantes históricas têm encolhido em membresia, prevalecem em ambientes de classe média, com frequência muito voltadas para dentro de si mesmas, fechadas no mundo da “religião”, sem incidência nas questões da sociedade e nos problemas da vida do povo, além de certo formalismo que soa a antiquado.  O que cresce de fato são Igrejas de corte pentecostal, algumas delas até de respeitável seriedade, mas frequentemente distantes do que seria a “atitude bíblica” frente à sociedade de opressão, injustiça e violência.

O fenômeno realmente explosivo, porém, é o surgimento de e crescimento de Igreja pós-pentecostais, “igrejas de mercado”, lideradas por personalidades autocráticas. com grande competência em propaganda e negócios, que têm tido  Sabedoria de juntar Bíblia  (lida só Deus sabe como e com grande ênfase em instituições e imaginário do Primeiro Testamento) com a cultura religiosa de massa, em interesse em formar realmente comunidades cristãs, e o interesse em responder a necessidades psicossociais imediatas e quotidianas (problemas de saúde, de emprego, de dinheiro, de cura emocional…) e para isso fazem apelo ao substrato religioso brasileiro que se formou desde o Catolicismo popular até o universo afro-brasileiro, passando pelo que nos tem vindo da herança de crenças e costumes aborígenes.  

Se nos voltamos para o Oriente, vemos que as Igrejas cristãs estão sendo intencionalmente devastadas: na Terra Santa, pela política agressiva do Estado de Israel; nos demais países pela pressão e perseguição de correntes islâmicas fundamentalistas e que carregam consigo ressentimentos e equívocos multisseculares. Às vezes, tem-se a impressão de estarmos a viver atmosfera semelhante àquela vivida nos idos do século XIV, de transição entre o Medievo e a Modernidade: guerras, pestes, grosseiras superstições, Cruzadas, fanatismo. Inquisição, heresias e bruxaria… clima que favoreceu o que veio depois com a pregação/vende de indulgências para assegurar a salvação em meio a tanta incerteza.

O Catolicismo permanece preso à estrutura e aos valores feudais que se estruturaram e consolidaram durante a Idade Média de dez séculos. Na verdade, não se sente muito a vontade com as novidades do Capitalismo. Isso lhe dá o sentimento ilusório de continuar a ter poder sobre as massas que, no imaginário clerical, ainda são julgadas como sendo católicas. Persiste apegado a seu arcabouço litúrgico arcaico e clerical, inferiorizando o povo leigo a funcional como plateia, sem autêntica participação ativa na ação litúrgica. Baste pensar na estruturação do próprio espaço litúrgico, com o ressalte que se dá ao clero e aos bispos, sem falar das vestes litúrgicas que lembram cerimônias de antigas cortes imperiais. O autoritarismo clerical persiste quase intocado, longe do dia a dia do povo, acentuado ainda pela marcada ruptura imposta pelo modo de vida impresso pelo celibato obrigatório e a exclusão das mulheres do ministério ordenado. Onde os métodos de evangelização das periferias, iniciados com tanto ardor pelo movimento das Comunidades Eclesiais de Base e de Leitura Popular de Bíblia, hoje em desprestígio? Onde a real aliança com o mundo camponês e operário? Onde frades e freiras realmente inseridos em ambientes populares? Onde bispos e arcebispos a se comportarem quais tribunos do povo, a chamá-lo a organizar-se e a defendê-lo de seus algozes e perseguidores, usando com maestria a “linguagem religiosa” e litúrgica para convocar o povo ao exercício da prática da fé, e a expressar a fé, capaz de ser caminho efetivo de libertação histórica, no seguimento de Jesus?

O querido Padre José dizia da Assembleia de Aparecida que só, talvez, daqui a 200 anos vai ter condições de chegar à prática, justamente quando o tempo já tiver passado. É que suas perspectivas e propostas não contam com gente para levá-las à prática. E, ainda, com afirmação mais grave, que repetia em seus últimos anos: “A Igreja Católica no Brasil se está suicidando”, quer dizer, matando-se a si própria e com suas próprias mãos. Depois do “inverso eclesial” dos dois últimos papados por mais de trinta anos, cujo efeito ainda de pode sentir muito vivo no quotidiano da Igreja, parece não ter energia suficiente para se retomar, como foi possível no período após Medellín e Puebla, nos anos 70 e 80, Não tem sido fácil, nem mesmo com a arrancada liderada por Papa Francisco, o qual, muitas vezes, assemelha a uma “voz que clama no deserto”.

 

 

“CARISMA e INSTITUIÇÃO”

Aparente contradição que só se resolve se a pensamos na chave de relação dialética. Lembremo-nos de Max Weber ao chamar a atenção para essa dualidade como algo fundamental na dinâmica da sociedade. Na verdade, trata-se de um princípio que nos vem da própria Natureza e da Antropologia: a vida é sempre organismo, o dinamismo vital deixado a si mesmo é autodestrutivo, necessariamente se exaure (pensemos nas perversões que podem provocar a vontade de poder e o desejo insaciável de riqueza, no prazer da velocidade, no prazer sexual, etc). Não cabe ingenuidade, é preciso viver, constantemente e de maneira humanamente produtiva, a dialética “carisma” e “instituição”, mesmo que isso implique em paciente e não fácil diálogo conosco e com as demais pessoas, e até frequentemente em conflito. A experiência mostra-o muito bem: todo carisma tende a se institucionalizar e, consequentemente, se desgastar a ponto de conspirar contra suas próprias fontes; e toda instituição, que o operacionaliza, necessita de ser renovada, periodicamente, por novo sopro do carisma. A história é farta de exemplos: O Movimento de Jesus; o monaquismo, o franciscanismo; o protestantismo; o socialismo, etc… Não podemos fugir da realidade: o rio não corre sem os limites de suas margens; o ser humano só se aperfeiçoa no confronto com os limites; a liberdade pessoal só cresce em coletividade, no embate constante das relações, em diálogo e conflito, a saber, tomando em conta as diferenças (carismas) e as “barreiras” (instituições).

Segundo a Bíblia, o dinamismo do Espírito deve fecundar e renovar a organização histórica do povo. O desafio será sempre achar a maneira mais adequada de combinar liberdade e organização. Liberdade é sempre sopro virtualmente sem limites; organização é sempre prática concreta, limitada às possibilidades da realidade e às capacidades subjetivas de agentes históricos. Em toda a Bíblia, vemos sempre o conflito entre profetismo e sacerdócio, ou seja, liberdade da Palavra e fixação da divindade no Templo (religião organizada); profetismo e Estado: criação popular e imposição do poder; crítica, até radical, e legitimação ideológica; camponeses e pastores e interesses estabelecidos pela classe dominante no sistema tributário; o ideal contido na memória tribal e o peso do Estado e o domínio dos impérios; em resumo, liberdade do povo e estruturas econômicas e sociopolíticas de dominação… Não há “paraíso” à vista, enfrentar o desafio é a tarefa de cada geração, como insistia o Padre José:

 

  1. Na Igreja, o Evangelho, carregado pelo sopro do Espírito, deve garantir a continuidade da Tradição de Jesus. Na verdade, porém, o Evangelho se choca continuamente com o peso e poder da instituição que pretende legitimar-se com a suposta aprovação de Jesus e dos Apóstolos, chegando inclusive a ignorar ou negar a “historicidade”, como se Jesus tivesse “instituído” e “pensado” a Igreja do jeito como a temos conhecido. Lembro-me de um episódio bem significativo. Dom José Cardoso, de triste memória, uma vez eleito Presidente (já era para todos e todas nós motivo de escândalo que os bispos o tivessem elegido), começou a realizar a operação desmonte no Regional Nordeste II, da CNBB. Nosso sentimento era de evidente revolta e protesto, era como se houvesse, e havia realmente, um propósito de desautorizar e destruir aquilo que tinha a ver com a obra e a influência de Dom Helder. Dom Francisco Austregésilo, um bispo corajoso, defensor dos pobres e muito admirado por nós, veio ter conosco e procurou nos acalmar: “Não tenho culpa, disse, Jesus fundou a Igreja como hierarquia. E manda quem pode e obedece quem tem juízo”. Em vez de “fundação de Jesus”, temos aí um raciocínio eivado de “mundanismo”. Cito o episódio, não para desmerecer a admirável figura de Dom Austregésilo, mas para mostrar a força dos condicionamentos ideológicos sobre as pessoas.   Quão dramática tem sido a situação de homens corajosos e ilustres como Dom Helder Camara, Dom Evaristo Arns, Dom Aluísio Lorscheider, Dom Oscar Romero, Dom Samuel Ruiz, Dom Pedro Casaldáliga… e tantos outros, todos perseguidos e limitados pelo Vaticano, para citar só estes. O pior é que as crenças religiosas têm o poder de prender a consciência por dentro, mesmo de homens provadamente livres e corajosos, dispostos até a morrer sob a sanha de poderes políticos ditatoriais, mas na Igreja se sentiam constrangidos a “obedecer” em nome de Jesus, quando na verdade, para além de suas intenções, se estavam dobrando a “poderes mundanos”, “julgando prestar serviço a Deus”… Temos de trabalhar para que tais situações se deem cada vez menos e pareçam, sempre mais, realmente estranhas, em vez de serem sentidas como normais e, afinal de contas, atribuídas à vontade de Jesus na “fundação” (sic?) da Igreja. É preciso não esquecer a palavra do Apóstolo São Paulo: “É para a liberdade que Cristo nos libertou; permanecei firmes, portanto, e não vos deixeis prender de novo ao jugo da escravidão!” (Gl 5, 1). 

 

  1. O Padre José, ao repropor o Jesus dos evangelhos, o Espírito, a liberdade e a tradição viva de Jesus, guardada pelos movimentos proféticos através da história, chama a atenção para esse conflito e para nossa responsabilidade de nos manter em continuidade com aquela tradição, como diz de maneira expressiva e enfática Dom Pedro Casaldáliga, “em rebelde fidelidade”. Temos de ter consciência de quão urgente é o desafio de levar adiante o que ele nos propõe. Vale a pena lembrar que, em sua obra sobre a “Teologia da Revolução”, afirma que só no Ocidente se deram revoluções, e isto só foi possível por causa da herança da Bíblia, particularmente da corrente profética, pois abre a história dos povos à possibilidade de futuro radicalmente novo. Em outras palavras, se nos baseamos na liberdade de iniciativa, ou seja, no carisma, mudanças e até transformações são possíveis. A propósito, vale a pena lembrar uma observação do teólogo indiano Raimundo Pannikar, que fala mais ou menos assim: “O Marxismo, que no Ocidente representa apostasia em relação ao Cristianismo, no Oriente não passa de uma heresia cristã, pois foi por seu intermédio, e não pelas missões eclesiásticas, que grandes intuições bíblicas chegaram ao Oriente: o princípio da igualdade, da condenação do sistema de castas, da historicidade, da importância da livre decisão e da ação humana para criar o futuro, da solidariedade comunitária na luta, da negação do “destino” inexorável, são todas ideias bíblicas, enquanto as missões estavam intimamente vinculadas, embora nem sempre com plena consciência, aos interesses das potências coloniais do Ocidente

 

  1. Com tristeza, devemos recordar que, desde muito cedo, a instituição da Igreja começou sua trajetória de desvio em relação ao carisma originário de Jesus. De fato, Jesus está sempre mais adiante da Igreja, Sua presença será sempre incômoda e desestabilizadora. Dostoiewsky o expressa muito bem na famosa conversa entre o grande Inquisidor e Jesus no cárcere (em “Os Irmãos Karamazov”). Daí, a validade perene da proclamação de Lutero há quinhentos anos; “Ecclesia reformata, semper reformanda”, lembrada ultimamente pelo Papa Francisco: “A Igreja que se reforma, permanentemente deve ser reformada”.

 

  1. Ainda nos séculos I e II dC, na segunda e terceira gerações das comunidades, percebe-se a progressiva volta a modelos de organização que Jesus havia desafiado em seu tempo: p, ex., o patriarcalismo, com a posição secundária da mulher, a ênfase na institucionalização, com a centralização de liderança, como no caso do “episcopado monárquico”, a preocupação com a ortodoxia, até por força das circunstâncias concretas em que se achava o Judaísmo em seu conflito com o império romano e com as próprias divisões internas. Isto vemos facilmente nos documentos mais recentes do Novo Testamento, de modo particular nos textos pós-paulinos;

 

  1. A partir do século II, o diálogo com o Judaísmo e sobretudo com a sociedade greco-romana leva a assumir modelos religiosos institucionais e estabelecimento de hierarquia, além de ir adotando categorias filosóficas helenistas (Neoplatonismo) e categorias morais do Estoicismo, e o Direito Romano. Esse processo de institucionalização se manifesta, por exemplo, no surgimento do episcopado, no fechamento do Canon bíblico; em nova visão da pessoa de Jesus que vai passando sempre mais de profeta e revelador de Deus a objeto de culto, e a Igreja vai adquirindo função de “religião” e “moral”  da sociedade;

 

  1. No século IV deu-se a aliança com o poder imperial e a exclusão dos infiéis e dos acusados de heresia (Nestório foi realmente nestoriano?, é a pergunta que se faz ainda hoje); “filioque”, por si mesmo, teria a força de separar Oriente e Ocidente, se não fossem as questões bem humanas de poder e precedências?, e a formação da teocracia e da verdade única proclamada em dogmas e não mais em “imagens” e parábolas? Ora, a “verdade única” chega sempre à pretensão de matar. Em seguida, será criada a Inquisição e serão convocadas as Cruzadas. Poderíamos representar isto num esquema: no centro do triângulo, a RIQUEZA; no vértice, a TEOCRACIA, sustentada na base do triângulo pelo PODER MILITAR e legitimada pela IDEOLOGIA DOGMÁTICA. Tirando o poder militar ostensivo, o essencial desse esquema se mantém até hoje…

 

  1. No século X, Anselmo de Cantuária, grande teólogo, tido como fundador da Escolástica, teólogo e místico (lindas são suas orações), e com um admirável método de ensino e estudo que hoje chamaríamos de “construtivista”, conseguiu corrigir Santo Agostinho na doutrina do Pecado Original, ao reabilitar a matéria, o corpo e o sexo, pondo na “alma” a sede do pecado, a saber, o orgulho. O que era um imenso passo adiante, depois de seis séculos de pessimismo e repressão agostiniana. Mas na doutrina da Encarnação, no tratado “Cur Deus Homo?” (“Por que Deus se fez Homem?”) não percebeu que raciocinava dentro da prisão do “sistema da honra” do Feudalismo e da Teocracia: a gravidade da ofensa não  deriva da condição do ofensor, mas da honra que se deve à qualidade da pessoa ofendida, no caso, o próprio Deus Onipotente; se a ofensa tem Deus como alvo, o pecado tem peso infinito e só pode ser reparado por alguém que tenha essa mesma condição, só a “satisfação” proporcional à culpa pode redimir a humanidade; para perdoar, Deus necessita de sentir sua honra completamente reparada, então, só o sacrifício de Deus Filho pode reparar a honra de Deus Pai…(sic?). O pior é que essa doutrina, mesmo que atenuada, continua a ser ensinada até hoje nas Igrejas cristãs e a povoar o imaginário das pessoas crentes.   Onde fica a misericórdia das parábolas de Jesus, que interrompe esse círculo da “ira e vingança de Deus”? A Igreja continua a mostrar-se com a dificuldade de romper seus vínculos com as categorias do sistema da sociedade medieval, sem capacidade de confrontá-las com o Evangelho.

 

  1. No século XI, o clero dá o golpe de misericórdia. Por motivo da intensa intromissão dos príncipes nos assuntos da Igreja (investiduras, simonia, controle de bispados, conventos e mosteiros…). Com a reforma do Papa Gregório VII o poder leigo perde muito de sua posição enquanto afirma-se o poder clerical, do alto clero, papa, bispos e abades, a Igreja consolida-se como teocracia clerical, inclusive com pretensão de que os príncipes e o próprio imperador lhe obedeçam. Sem considerar que o alto clero eram também príncipes “seculares”, senhores de principados e feudos. A Igreja do Ocidente se separa da do Oriente e a eclesiologia patrística da Igreja local, da comunidade, do Espírito Santo e a tetrarquia dos patriarcados cai em desprestígio em favor do regime de centralização do papado. O papa Gregório VII quando dizia “Santa Ecclesia magistra et domina”, pensava em si mesmo e em seu “poder das chaves”, pretensamente confiado por Jesus;

 

  1. No século XII, com o ressurgimento das cidades, maior liberdade de mobilidade social e o surgimento da burguesia em contraste com o Feudalismo, desponta um forte movimento popular, até com traços apocalípticos, a reivindicar mudança na sociedade e na Igreja. Baste pensar no glorioso movimento dos Valdenses, que sobrevive até hoje em dia na forma de uma Igreja cristã. Francisco de Assis é representante desse novo momento. Por sua genialidade, revela inclusive que o problema vai bem além do nível sociopolítico, chega àquele estrato mais profundo que chamamos de “antropológico”. Põe a Pobreza no centro, enquanto capacidade de total e despojada abertura às relações com a Natureza e as pessoas, e ressalta os “menores”, socialmente, como protagonistas, e desafia a Cristandade com a possibilidade da paz em tempos de entranhada violência. É célebre seu encontro com o Sultão, ao entrar clandestina e arriscadamente no Egito. Vale a pena recordar seu diálogo com o bispo Guido, de Assis, que o trata com bondade: “A vossa vida me parece dura e áspera. Pois não possuís nada neste mundo”. Respondeu o Santo: “Meu Senhor, se tivéssemos bens, deveríamos dispor também de armas para defender-nos. É da riqueza que provêm disputas e lutas, e assim vem impedido, de muitas maneiras, tanto o amor de Deus quanto o amor do próximo. Por isso, não queremos possuir nenhum bem material neste mundo”. O “Cântico das Criaturas” mostra que já não precisa de possuir porque tudo já é a própria casa em completa irmandade… A rigidez das estruturas teocráticas e da ideologia correspondente se mostra, com evidência, quando vemos homens como Inocêncio III e Honório III, ascetas e generosos para com os pobres, convocarem Cruzadas contra o Islam e contribuírem decisivamente para mudar os rumos da Ordem Franciscana, a ponto de Francisco decidir renunciar a sua função de líder maior e, no Capítulo, declarar aos frades: “A partir deste momento eu estou morto para vós”. Seis anos depois morre, tendo recebido os estigmas, na verdade, a forma de se identificar com o “fracasso” do Crucificado. São Bernardo de Claraval, abade, místico e teólogo, amigo da Virgem Maria, chamado de “doctor melifluus”(“doce como mel”), foi, paradoxalmente, convicto e ardoroso pregador de Cruzada contra os infiéis e chegou a fazer a seguinte e sutil distinção, ao comentar a “vocação” da ordem monástica dos Templários, ordem de cavaleiros militares para combater infiéis: “Quando o cavaleiro de Cristo mata os malfeitores, seu gesto não é homicida, mas, se assim posso dizer, “malicida”; ele é em tudo e por tudo o agente da vingança de Cristo sobre quem comete o mal”. Tal o grau de identificação  entre a Igreja e o sistema do mundo, afinal “a Cristandade” era o mundo de então.  

 

  1. No final do século XIII, que tinha sido o século supremo da Cristandade, presidida pelo papa Inocêncio III, um novo papa, Bonifácio VIII, no conflito com príncipes, lançou a famosa e autoritária bula “Unam Sanctam”. Nela chega a afirmar sua identificação com Cristo como Cabeça da Igreja, detentor de todo poder, e chega mesmo à pretensão de fazer depender a salvação eterna das pessoas de sua relação com o romano pontífice (sic?), isto em pleno desenvolvimento do movimento dos “espirituais”, época do papa eremita Pedro Celestino, seu antecessor, que só aguentara poucos meses de “reinado”. Sobre esta excepcional figura e o significado de sua presença no papado, há um lindo romance de um autor italiano, Ignazio Silone, cujo significativo título é  “Avventura di um Povero Cristiano”;

 

  1. No final do século XV, temos o escândalo de Papa Alexandre VI, o papa que condenou à fogueira Savanarola, depois de ter querido comprá-lo com o chapéu cardinalício, e que chegava a usar seu poder papal para domínio secular e garantia de suas paixões sexuais Foi ele o papa árbitro no tratado de Tordesilhas, pelo qual a Igreja alcançava novas populações na “América” e, ao mesmo tempo, julgava normal que os habitantes fossem tratados como infiéis a combater, os papas se consideravam senhores do mundo por mandato de Cristo. Na Península Ibérica, sob os reis católicos, já não havia mais liberdade para conviverem muçulmanos, católicos e judeus, como tinha sido sob o domínio islâmico ao longo de séculos (como se admirar das queixas profundas do Islamismo contra nós?) e o Concílio de Trento, apesar da tentativa de reforma, cristaliza o modelo da centralização clerical, na contramão do que reivindicava o movimento popular desde o século XII (valdenses, franciscanismo, “espirituais” – Joaquim di Fiore, culminando na Reforma Protestante);

 

  1. Já no século XIX, Gregório XVI proibiu o trem e a luz elétrica nos Estados Pontifícios, porque traziam consigo as novidades do mundo moderno. Pio IX , com o “Index Librorum Prohibitorum”, pretendeu tirar das pessoas o direito de ler livros considerados “perigosos”. No Concílio Vaticano I, na crise do papado destituído dos “Estados Pontifícios”, em meio a fortes pressões sobre cardeais e bispos, o papa Pio IX chega a dizer a um dos líderes da corrente anti-infalibilista que “a Igreja sou eu, a Tradição sou eu”. A fórmula do “dogma” chega ao absurdo de colocar o papa acima da Igreja, com a capacidade de proclamar a verdade da fé garantida “ex sese, non ex consensu Ecclesiae” (“por si mesmo e não a partir do consenso da Igreja”) e o papa com autoridade de primado sobre todas e cada uma das Igrejas locais e sobre cada um dos fieis católicos (“autoridade direta e imediata”), tudo isso tido como doutrina garantida por Jesus ao “instituir” a Igreja. Já no século XX, Pio X, depois proclamado santo, se sente à vontade para condenar a liberdade e igualdade de todas as pessoas, porque isso destruiria “a ordem estabelecida pelo Criador, que previu uns acima e outros abaixo para a harmonia do conjunto”. Empreendeu acirrada batalha contra o “Modernismo”, sem tentar nenhum diálogo. Atrasou e muito os estudos bíblicos na Igreja, e promoveu particularmente o Código de Direito Canônico e o Catecismo, com suas fórmulas simplistas. Deixou-nos uma verdadeira “joia” do atraso: “A multidão não tem outro dever (quem sabe, pensava ele também em “direito”), senão deixar-se guiar e seguir docilmente as diretrizes dos pastores”. E quantas vezes não se insinuou, entre o povo católico, que a existência dos ricos tinha sido prevista para que se salvassem mediante a caridade para com os pobres… João XXIII gerou surpresa pela nova linguagem na “Mater et Magistra” e na “Pacem in Terris”, acusadas de documentos eivados de Marxismo

 

  1. O Concílio Vaticano II foi um momento particular, quem sabe, a primeira vez em que o Catolicismo romano dialogou explicita e publicamente com a Reforma: Igreja Povo de Deus, importância da Igreja local como célula da Igreja Católica (totalmente Igreja, embora não seja a Igreja toda), sacerdócio comum do povo crente, nova compreensão da centralidade da Bíblia na vida da Igreja, relação entre Bíblia e Tradição (e Magistério), relação entre Palavra e Sacramento, reconhecimento da “eclesialidade” de comunidades não católicas… Foi momento de desfazimento de equívocos que já duravam séculos e possibilitou passos como o que foi dado com o acordo católico-luterano sobre a doutrina da Justificação depois de tanto tempo, tivemos de aguardar por mais de 500 anos… Revelava-se que Catolicismo e Protestantismo não são necessariamente contraditórios, antes, são complementares; no dizer de Paul Tillich, a Igreja cristã tem de ter “substância católica e princípio protestante”, outra maneira de dizer “tradição e reforma”, “instituição e carisma”. Para percebermos a gravidade da questão que nos ocupa, lembremo-nos da intensa batalha no Concílio Vaticano II para aprovar o documento sobre a “Liberdade Religiosa”, a pretexto de que “o erro não tem direitos”. A experiência que temos tido de desmonte do Concílio Vaticano II, nos dois recentes pontificados, mostra bem o quanto a instituição resiste a se submeter ao Evangelho, tanto que tem tentado anular os efeitos e negar as consequências das próprias afirmações conciliares, como acusava o famoso teólogo uruguaio, já falecido, Juan Luís Segundo. Como se a instituição se arrependesse do que ela mesma tinha afirmado e julgasse que o Espírito Santo tivesse ido longe demais. Na verdade, uma determinada teologia (pré-conciliar) e a opinião de um papa, que votava contra a maioria do Concílio, tinham chegado ao poder e estavam, de fato, a desautorizar qualquer corrente que lhes fosse contrária. O “pré-conciliar” que se escandaliza com o “conciliar” e combate pelo “retorno à grande disciplina” (João Batista Libânio), mostra-se por isso mesmo “anticonciliar”. Esse não é o papel de discernimento do Magistério, mesmo dentro dos quadros de uma sadia doutrina católica. Constatar isto é perceber como, na verdade, nos achamos diante de uma montanha ferrosa, resultado de muitos séculos de história e muito difícil de remover;

 

  1. Ora, a aplicação da Sociologia da Cultura e das Instituições, de que Yves Congar, teólogo dominicano francês, já falecido, foi um dos pioneiros, tem mostrado claramente o quanto sólidas instituições na Igreja nada têm a ver com Jesus nem com o Novo Testamento. Os estudos exegéticos e históricos têm demonstrado que Jesus não “fundou” a Igreja e nem mesmo podia pensar em tal hipótese, sob pena de se sentir em ruptura com a Aliança de Deus, pois Seu povo já era o povo da Aliança. Seu projeto era desencadear um “movimento” de renovação e de abertura de Israel ao Reino de Deus, inclusive com a acolhida dos gentios, lembremo-nos de Isaías, a “leitura de cabeceira” de Jesus. É o que expressou Loisy, teólogo e padre francês, em sua famosa e condenada frase: “Jesus anunciou o Reino e o que veio foi a Igreja”. Jesus não “ordenou” nem bispos nem padres, o que teve a Seu redor foi um grupo de discípulos e discípulas a quem encarregou de prosseguir com a missão de anunciar e ensaiar o Reino. Para o Padre José, santa e intocável na Igreja é só a missão continuadora de Jesus e garantida pelo Espírito Santo. Ao longo dos séculos é que se foi montando a teocracia, fundada na riqueza e na força militar, e legitimada pela ideologia dogmática do “direito divino”. A verdade histórica, porém, é outra: as origens cristãs revelam grande diversidade de organização e de correntes de pensamento, ou seja, a Igreja vai surgindo da história, tendo sempre Jesus como seu “fundamento” (o que não é o mesmo que “fundador”), uma vez que pretende continuar Sua missão;

 

  1. Esse quadro nos assombra e quase paralisa. De qualquer forma, o Padre José nos dizia que o Cristianismo não deve ser tido como um fracasso, na realidade é que ainda quase não foi praticado, de modo que “é preciso começar tudo de novo”. Hoje, encontramo-nos diante de fortes sinais de insatisfação, tanto quanto à organizaçãocomo às relações e aos valores e ideias veiculados pela linguagem habitual daIgreja, com clara indicação de busca de autonomia. O Cristianismo está cada vez mais dividido em correntes e “igrejas”, particularmente na arena chamada de protestante, ou melhor, “evangélica”. Já não temos blocos, como antes (Ortodoxia, Catolicismo Romano, Anglicanismo, Protestantismo Luterano e Reformado). Agora temos comunidades ou “empresas religiosas” de múltiplas cores”, algumas até já muito longe dos marcos da Reforma e, mais ainda, do Novo Testamento. No Catolicismo romano, têm surgido “movimentos de espiritualidade” ou “comunidades novas” que, na verdade, provocam fissuras no sólido autoritarismo do edifício clerical, mas têm sido tolerados e até prestigiados, por causa de suas afinidades ideológicas e por não trazerem novidades essenciais, por serem radicalmente conservadores, enquanto as chamadas Comunidades Eclesiais de Base, que se movimentavam até há pouco com bastante liberdade vão progressivamente perdendo “territórios” no espaço “sócio-eclesiástico” que lhe era consentido. Por aí afora, inclusive na própria Roma, é possível encontrar pequenas, mas significativas experiências de autonomia em relação às estruturas vigentes. No tecido da Igreja cristã, vai tomando corpo um movimento pela autonomia, que tem uma dimensão de caráter sociopolítico e de caráter cultural-ideológico, além de eclesial;

 

  1. Cada vez mais se sente um forte mal estar quanto à estrutura organizacional, às relações e à linguagem de comunicação na Igreja, de comunicação interna e com a sociedade, e é grande a preocupação quando se prevê que o eixo do Cristianismo se desloca para a África e a Afroameríndia. Caminhamos, quem sabe, para uma forma de Cristianismo ainda mais conservadora?

 

  1. Papa Francisco: um milagre no contexto da Igreja de hoje? Novos gestos e nova linguagem pessoais, mas sem reformas estruturais? Expectativa de voltar ao de antes, dada sua idade já avançada? “Cercado de espiões” e de uma Cúria que ele mesmo, talvez por vir “do fim do mundo”, não conhece o bastante, sob o fogo cerrado inclusive de cardeais que o confrontam publicamente?

 

  1. Parece urgente viver Igreja para além da religião; distinguir claramente entre religião e  e entre religião e espiritualidade. Religião é dimensão e construção espontânea dos povos para expressar nossa relação com o Mistério da vida; à medida que adquire papel social de integração, coesão e legitimação (lembremo-nos de Durkheim, de Max Weber e de Carlos Marx) vai-se tornando ideologia de legitimação do sistema estabelecido. Fé, por sua vez, é resposta e decisão à Voz que nos chama (“vocação”) a partir da vida, para vivermos a firmeza (“fides”), a confiança (“fiducia”) e a fidelidade (“fidelitas”) no Caminho (cf. At 9, 2; Jo 14, 6)…

 

  1. E, na espiritualidade, é preciso chegar a formular claramente o que é caminho de fidelidade à voz de Deus e o que é realmente idolatria, do ponto de vista bíblico. Precisamos refletir com lucidez sobre a centralidade da dimensão do PODER e da LIBERDADE na vida humana e quais as vias para a vivência humana (humanizante) da “potência” (poder), mediante o amor concretizado no serviço e na partilha, como Jesus nos ensina claramente em Sua última viagem a Jerusalém ao pôr no centro o dom da própria vida como caminho de salvação, até mesmo do ponto de vista psicológico e antropológico (cf. Mc 8,22-10,52).

 

  1. Outro aspecto importante, em decorrência do anterior, é o das relações ecumênicas. É importante resgatar o sentido originário do termo “Ecumenismo” e enfatizar a íntima relação entre Ecu-menismo (poder de permanecer na Casa), Eco-nomia (lei da Casa) e Eco-logia (lógica da Casa) não fazendo depender a relação ecumênica privilegiadamente da proximidade religiosa. Sem minimizar a importância do Ecumenismo institucional, é importante privilegiar o aspecto das relações: relações interpessoais; do recíproco interesse de comunicação, informação e intercessão; da oração em comum; da cooperação sociopolítica; e, finalmente, do diálogo teológico com humor. Além disso, o critério das relações e ações ecumênicas não deverá ser a religião ou as afinidades teológicas ou doutrinais, mas o Reino de Deus, visando concretamente à justiça e à paz, ou seja, ao XALÔM ou Bem-Viver… “Macroecumenismo”, Ecumenismo sem fronteiras, como o indica Dom Pedro Casaldáliga da altura de seus gloriosos noventa anos de vida. Quem sabe, falar de “Diálogo Interreligioso” é ainda situar as relações privilegiadamente no eixo da “religião”, quando o que nos une com vínculos “teologais” é a própria Vida.  Ecumenismo é assumir a atitude sem fronteiras do coração de Deus, e se refere às questões do Reino de Deus, que tem as dimensões do Universo. Dom Helder Camara o definiu muito bem: “Quando nós resolvermos mesmo assumir as preocupações de Deus, que são as questões da vida de Seu povo, então teremos vergonha de nossas divisões, pois nos parecerão coisa tão pequenina”. O antigo bispo anglicano que me ordenou costumava dizer: “Continuamos divididos por razões de mortos, enquanto o povo vivo de hoje nos dá todas as razões para nos unirmos”. Eu mesmo costumo dizer: “As necessidades do povo não nos perguntam por confissões de fé, mas por soluções de fé”.

 

  1. A Comunhão Anglicana pode oferecer a sua já clássica formulação das cinco “Marcas da Missão”, como contribuição específica e, ao mesmo tempo, com possibilidade de amplo consenso na Cristandade, “marcas” enfeixadas em dois horizontes, o da diaconia de amor fraterno (“diakonía de agapé”) e o da diaconia de testemunho (“martyría”). A primeira marca é que tudo começa com o anúncio da Boa-Nova do Evangelho, o “kérygma”, para suscitar radical mudança de vida, anúncio e conversão; desse o início, começa a constituir-se a comunidade cristã como novo estilo de vida, eis a segunda marcacomunhão fraterna (“koinonía”), serviço recíproco (“diakonía”), aprofundamento da Palavra mediante as Escrituras (“didaskalía”) e iniciação ao mistério de Cristo (leitourgía/mystagogía) ou aprofundamento da vida comunitária como sacramento de Cristo no mundo. Constituída a comunidade, é o momento de perguntar-se para quê: a terceira marca é o transbordamento da vida fraterna para fora, na sociedade, no exercício de gestos e serviços de solidariedade a quem necessita; a prática da diaconia de solidariedade, porém, leva naturalmente a perceber que as raízes das necessidades são bem mais profundas, é preciso lutar para a transformar as estruturas injustas de sociedade, confrontar a violência e garantir a paz; finalmente, o horizonte aparece como ainda muito mais amplo: cuidar da Criação, preservar e renovar os recursos da terra. Eis o que significa “evangelizar”, sempre mediante o anúncio e o testemunho, para que seja possível experimentar o Xalôm de Deus, em outras palavras, o Bem-viver e o Bem-conviver, mediante a diaconia do amor fraterno (na comunidade) e a diaconia do testemunho (“martyría”) na sociedade. Eis o que para nós é o conteúdo da utopia do Reino de Deus: um povo fraterno dedicado à solidariedade, à causa da justiça e do cuidado, em vista do Xalôm (felicidade, paz em plenitude).

 

  1. Quem sabe, vamos almejar e trabalhar para isto: dentro de algum tempo, a realização de um novo Concílio Ecumênico que chegue a alcançar o conjunto da Igreja Cristã e não se restrinja à participação do episcopado, antes leve em conta o conjunto da Igreja, o que significa, incluir o laicato, particularmente as mulheres e a juventude, e seja um marco de diálogo com as diferentes correntes do Cristianismo. Que ponha a Igreja em “estado de diálogo” universal. Hoje já temos meios de comunicação que podem facilitar em muito esse processo de consulta e debate universal e amplamente ecumênico, indo inclusive muito além da religião para recuperar os caminhos da Fé…

 

Referência bibliográfica:

Vale a pena ler o belo livro do jornalista Luigi Sandri sobre a história dos Concílios e o estudo do teólogo Ernesto Balducci sobre São Francisco de Assis. Infelizmente ambos ainda só em italiano.