José Comblin – publicado na revista Convergência, novembro 1988.

 

O tema da reconciliação é central na Bíblia. Deus reconcilia-se com o seu povo: este é o evangelho. O evangelho é o anuncio desta reconciliação. No entanto há um problema. No vocabulário ordinário, a reconciliação usa-se em outros sentidos. Há muitos usos da palavra. O mais popular é naturalmente o que se refere às brigas entre famílias ou indivíduos.

 

 

Nas santas missões, os missionários preconizam o dia da reconciliação Nesse dia os inimigos de sempre fazem as pazes. Os que nunca conversavam, rompem as barreiras. As famílias esquecem os seus ressentimentos tradicionais. A reconciliação é um grande ato de conversão. Certamente esta reconciliação entre indivíduos e famílias é uma das mediações pelas quais Deus se reconcilia com o seu povo.

 

A reconciliação, porém, pertence também ao linguajar da politica. Ora, na política a palavra reconciliação está sempre ligada a um contexto específico. A reconciliação pertence ao mesmo discurso que a paz. A paz é uma das grandes metas da política. Todos querem a paz. Mas a paz como tema pertence, sobretudo à ideologia da dominação e dos impérios. A pax romana foi um paradigma. Cada império, porem, defende a sua causa invocando a paz de uma ou outra maneira. A paz está ligada à ordem, grande lema do império bizantino. Os impérios do presente não pregam menos a paz do que os anteriores. 

Ora, a paz romana, como já dizia Santo Agostinho, é apenas a máscara que esconde uma imensa operação de banditismo: uma cidade conquistadora explora e domina o mundo inteiro. Quem mais oprime, mais fala em paz e reconciliação.

Quando as classes dominantes de uma sociedade sentem que o seu poder é contestado, apelam para a paz e a reconciliação. Quanto mais opressores, mais entusiasmados pela paz e pela reconciliação. A paz e a reconciliação servem como legitimação da injustiça estrutural. Os dominadores praticam a chantagem da desordem. Pregam que se o seu domínio ficar abalado, haverá desordem, anarquia, confusão: se nos tiram os nossos privilégios, o país será ingovernável, como dizia um presidente.

Nessa reconciliação as vitimas tem que se resignar. A reconciliação consiste nisto, que os oprimidos deixem de exigir os seus direitos, que as vitimas deixem de se queixar. O preço da reconciliação é pago pelos fracos e pelos dominados. 

O apelo à reconciliação vem sempre das burguesias e das aristocracias privilegiadas. Quando as Igrejas pregam a reconciliação, elas se tornam consciente ou inconscientemente porta-vozes das classes dominantes. Pois o tema da reconciliação é eminentemente ideológico. Pregar a reconciliação é tomar partido pela ideologia dos privilegiados que nada querem ceder dos seus privilégios. 

Os dominadores apelam para a reconciliação também porque sabem que essa palavra tem profundas ressonâncias religiosas. Querem enganar os simples, como se a resignação dos dominados fosse a condição de realização do plano de salvação de Deus. É um caso típico de utilização ideológica do cristianismo. 

 

A reconciliação bíblica é uma realidade escatológica: trata-se de um processo que somente será consumado no outro mundo, na nova Jerusalém. Trata-se de uma longa caminhada. Nesta terra nunca haverá reconciliação total, nunca serão superados os conflitos. Viveremos sempre no meio de conflitos. Querer suprimir os conflitos é praticar uma ideologia. Sempre é algo suspeito de ideologia. Quem quer suprimir os conflitos são os privilegiados, os dominadores, os que exploram e querem abafar a voz dos explorados.

A reconciliação bíblica entra na história humana mediante mediações que precisam ser levadas em conta em toda a sua complexidade e de acordo com a marcha dos tempos, seguindo os sinais dos tempos. 

 

Não se estabelece a reconciliação negando os conflitos, mas resolvendo-os. Ora a superação dos conflitos é uma caminhada árdua e complexa que não depende apenas da boa vontade ou das intenções das pessoas situadas nos polos opostos. O relacionamento entre os homens obedece a leis e forças, a dinamismos e estruturas complexas que são próprios de cada tipo de conflito. A cada tipo de relacionamento convém uma metodologia diferente. 

(...)

Os métodos que servem para reconciliar os sexos não servem para reconciliar as raças humanas. Os antagonismos entre brancos e negros, entre brancos e amarelos, etc., como na América Latina os conflitos entre brancos e índios, obedecem a dinâmicas diferentes das dinâmicas sexuais. Não se resolve um problema de luta racial como se resolve um problema de luta social. Cada tipo de conflito tem a sua dinâmica e exige uma metodologia diferente baseada no conhecimento das leis científicas que regulam esse aspecto da realidade.

Os conflitos sociais foram amplamente observados, estudados, interpretados durante os últimos duzentos anos. Foram, sobretudo, os conflitos ligados à sociedade industrial com a sua clara divisão entre proletários e donos dos bens de produção. Os conflitos na sociedade rural são diferentes. Os conflitos na sociedade pós-industrial, em que o Estado desempenha um papel predominante, e as funções terciárias superam de longe as funções primárias ou secundárias, são também diferentes. Os métodos usados numa sociedade industrial clássica não se adaptam a uma sociedade pós-industrial. Nunca a boa vontade ou os bons sentimentos bastam. Geralmente não servem para nada ou quase nada. É necessário conhecer bem os processos sociais, as técnicas que permitem agir sobre eles e ser capaz de manipular as forças sociais em jogo. Frequentemente os cristãos foram ineficazes no campo social porque entraram na área dos conflitos com total ignorância da realidade e perfeita inocência ou ingenuidade. Os sentimentos morais tem pouca influencia nos conflitos humanos e podem provocar o resultado exatamente contrário ao que se desejava. 

 

Na América Latina, se queremos contribuir com a superação dos conflitos e para uma reconciliação da sociedade, precisamos primeiro alcançar uma percepção exata dos conflitos que existem. Quais são as divisões existentes? Qual é a sua importância, a sua profundidade? Qual é o tipo de conflitos que se apresenta? Quais são as analogias históricas que nos permitem compreender melhor os conflitos que estão presentes?

Em segundo lugar, precisaremos conhecer as metodologias, os processos adaptados a cada tipo de conflito. O sentimento moral ajuda pouco. É preciso saber usar s ciências politicas ou sociais, usar a experiência, levar em conta as limitações históricas. Em muitos casos, os conflitos não são solúveis, mas é possível melhorar a condição de tal sorte que seja mais suportável.

Quais são os conflitos na América Latina? Medellín, Puebla, centenas de documentos eclesiais reconheceram o que também dizem centenas de estudos sociais: a situação inicial da América Latina ainda não foi superada. América Latina ainda é um continente dividido entre conquistadores e conquistados. Uma pequena minoria dispõe de todo o excedente da produção, de todo o poder político, de todas as vantagens de uma cultura superior. Esta pequena minoria está associada ao capitalismo multinacional o que lhe garante segurança e privilégios. Este é o conflito fundamental. Até que essa divisão radical seja superada, até que sejam destruídos os privilégios da minoria dominante, pouca coisa poderá ser feita no sentido de uma reconciliação. A concentração da riqueza e do poder impede qualquer justiça social e qualquer ascensão das massas. 

 

Na atualidade, a minoria dominante sente os seus privilégios ameaçados e multiplica os apelos à paz e à reconciliação. Invoca uma ideologia de reconciliação para impedir uma conscientização das massas. Pede a ajuda da Igreja para persuadir as massas e conseguir que continuem tendo paciência como sempre. Promete resolver todos os problemas e afirma precisar apenas de um tempo breve para trazer as soluções.

Outras sociedades já conheceram situações análogas e conseguiram sair delas. Algumas fizeram-no por meio de revoluções violentas, outras por meios mais pacíficos. Poucas vezes os povos podem escolher e a história escolhe para eles. No entanto, alguma forma de interferência voluntária sempre é possível. Os dominadores são cegos e quase nunca agem em virtude de sábias previsões. Precipitam-se no cataclismo com cegueira total. Os dominados pode ser mais ou menos sábios, mais ou menos voluntaristas, mais ou menos pacientes e perseverantes. Mas não se pode falar em reconciliação enquanto não se modifica o quadro geral em que se movem as nações latino-americanas e enquanto não se modifica o relacionamento entre essas nações e o centro dominante do capitalismo ocidental. A condição previa de qualquer reconciliação é a transformação radical da estrutura da sociedade. Nisto concordam plenamente Populorum Progressio, Medellín, Puebla. Laborem exercens, Sllicitudo socialis. Não há reconciliação sem inversão radical da estrutura implantada á 500 anos e sempre consolidada desde então.

Os planos de reconciliação propostos pelos governos procuram prescindir do conflito fundamental, fazendo de conta que somente existem conflitos menores, mais facilmente solúveis. A solução dos problemas menores não será possível sem a mutação global prévia a todas as mudanças menores.

Dentro da divisão fundamental, há também certas divisões especificas, que diversificam o panorama global, mas não lhe tiram a validade, pelo contrário, confirmam a validade do esquema global.

A questão negra é sistematicamente negada pelas elites. Para os brancos não existe a questão racial e não há racismo na América Latina. Essa negação permaneceu a regra no Brasil até a campanha da fraternidade de 1988. É bem sabido que a própria campanha da fraternidade não foi bem acolhida em todas as regiões do Brasil. Em certos lugares a campanha foi marcada por expressões típicas de racismo que provocaram um protesto explicito de um arcebispo negro na assembleia de Itaici de 1988. Em nome da existência do problema racial, muitos brancos queriam impedir que os negros se expressassem. Não queriam que os negros se reunissem, afirmassem a sua identidade, a sua cultura, a sua religião. Os negros deveriam sempre apagar-se no anonimato de expectadores da sociedade branca.

 No Brasil e na América Latina, a questão negra sofre uma repressão consciente e, mais ainda, inconsciente. O conflito é reprimido, mas permanece como uma exigência apesar da repressão. Não se chega á reconciliação racial negando o conflito. Neste caso particular, a primeira condição da reconciliação será permitir que o conflito se manifestasse explicita e publicamente. A pura repressão nada resolve. 

A questão indígena é tão grave como a questão negra. Os indígenas são também negados. Os latino-americanos acham-se todos descendentes dos índios. A indianidade teria sido absorvida totalmente numa população mestiça. Desse modo o índio teria desaparecido. Existiria apenas perdido no homem mestiço. A partir desse postulado os índios são negados nos seus direitos: não se lhes reconhece o direito à terra, à língua, à cultura, nem sequer o direito à sua religião, porque se supõe que todos são simplesmente católicos e devem contentar-se com aquilo que a Igreja Católica lhes oferece.

 No haverá reconciliação com o índio apenas na contemplação na natureza mestiça do latino-americano e na suposta cultura mestiça do latino-americano. A reconciliação supõe que os índios possam explicitar o conflito latente que os mantem numa situação de não-ser, de não-cidadãos.

Os maiores conflitos da América Latina ainda não foram explicitados. Ainda não se manifestaram. Os privilegiados, conquistadores e brancos, queriam abafar os conflitos antes que se manifestassem. Queriam falar em reconciliação antes que os oprimidos tivessem sequer a possibilidade de mostrar a sua existência. Queriam uma reconciliação fundada na negação dos problemas. Em tal situação, falar em reconciliação é pura armadilha. Antes que se possa falar em reconciliação é preciso que se manifestem as divisões que são tão profundas que ainda não chegara ao nível da consciência. 

Como falar em reconciliação entre brancos e negros se a maioria dos negros ainda não chegou à consciência da profunda rejeição de que são vítimas? Como falar em reconciliação quando a maioria dos camponeses e operários explorados ainda não chegou à consciência do sistema que os explora? Como falar em reconciliação quando as imensas massas de desempregados, biscateiros, favelados ainda não sabem porque foram rejeitados fora da sociedade? Somente pode haver reconciliação na base do reconhecimento da verdade. A América Latina ainda deve passar por uma longa fase de conscientização antes que se possa falar validamente de uma reconciliação a nível político e social. 

 

A Igreja poderia antecipar alguns sinais de reconciliação. A Igreja não é capaz de substituir a história ou de reconstruir outra história. Está subordinada aos tempos e aos momentos. Mas ela pode em si mesma anunciar a reconciliação futura dando alguns sinais. 

Por exemplo, a Igreja poderia abrir-se para os pobres. Poderia começar a ser algo de Igreja dos pobres. Poderia abrir espaço para os pobres para que estes se sentissem mais à vontade no recinto eclesial. Isto acontece em algumas comunidades de base, raramente acontece nas paróquias, não acontece nos colégios e universidades católicas. Até agora o clero constitui uma classe privilegiada que não traz a marca dos pobres. Para poder presidir a eucaristia é preciso ter passado da classe dos pobres para uma classe privilegiada. Uma transformação social e econômica é a condição prévia para ser ordenado. Terá que ser sempre assim? Da mesma maneira as congregações religiosas tem um modo de ser e de viver que responde aos cânones da classe média, inclusive muitas vezes de uma classe média alta. Tem que ser assim necessariamente? Enquanto for assim faltarão os sinais de uma futura reconciliação. 

A Igreja poderia dar o sinal de uma reconciliação entre brancos negros. Poderia permitir que os negros tivessem as suas reuniões, as suas expressões culturais, a sua liturgia, a sua organização. Poderia então haver diálogo, intercambio, troca. Não há dialogo quando o outro não pode expressar-se. A Igreja poderia abrir-se para cultura negra. Poderia abri espaço para as expressões religiosas do patrimônio negro. Poderia abrir-se para as riquezas das religiões afro americanas. A Igreja poderia ter mais bispos negros, mais sacerdotes negros, mais religiosos e religiosos negros. Poderia adaptar as condições de admissão à situação cultural dos negros em lugar de impor a todos um modelo branco. A Igreja poderia formar comunidades mistas em que negros e brancos compartilhasse sem que um tivesse que ceder sempre ante os valores do outro. 

 

Na caminhada escatológica a Igreja está chamada não a seguir o ritmo da história, mas a mostrar o caminho.  Durante a época colonial e ainda pós-colonial, a Igreja permaneceu prisioneira do mundo dos colonizadores. Permaneceu latina e não chegou a ser americana. Poderia ser menos latina e mais americana. Poderia reivindicar mais autonomia e mais especificidade no conjunto da Igreja universal. Em lugar de ser cópia fiel das igrejas européias, as igrejas americanas poderiam ser mais criativas e dar espaço aos índios e aos negros. Se não fizerem assim, em lugar de ser uma força de reconciliação, servirão para ocultar as divisões e servir à causa dos dominadores, como tantas vezes elas fizeram no passado. No passado a Igreja foi forçada pelos reis, pela força das potencias colonizadores. Dentro de uma América que procura a sua independência, ela poderia ter a audácia da liberdade e emancipar-se da dominação de uma cultura latina que os dominadores lhe impõem para esconder o verdadeiro rosto do povo latino americano, esse rosto que Puebla descobria num texto que ficou famoso. 

A reconciliação é uma longa caminhada. Jesus diz que não veio trazer a paz, mas a espada. Ele não promete paz e tranquilidade. Haverá muitas lutas e muitas divisões não porque homens maldosos as estão criando artificialmente, mas porque estão inscritas no passado são a herança do passado. Carregamos o peso do pecado e não adianta querer negar esse pecado. A reconciliação consiste em assumir as lutas necessárias em vista de uma humanidade que consiga superar e não escamotear os seus problemas. 

Os povos latino americanos sabem disto. A sua evangelização parte desse mundo e dessa história. Se o evangelho está no clamor dos oprimidos, ele se situa no coração das lutas e das divisões. Proclama a sua confiança numa reconciliação final, mas não tem ilusões quanto aos prazos. Os discursos apocalípticos de Jesus também não deixam ilusões. Haverá muitas guerras e muitas lutas. São os falsos profetas que dizem:  Paz! Paz! Paz!  Os verdadeiros sabem de que tecido é feita a história humana. Sabem os povos qual foi a vida que viveram os seus antepassados.

 

A Igreja, porém, é a luz que mantem a esperança no meio das trevas. Ele é a luz que mostra o caminho no meio da angustia da história. Ela traz os sinais que fortalecem os ânimos e alimentam a vida. O futuro imediato da América Latina será como o seu presente: feito de sangue, de lagrimas, de fome, de choro, de clamor. Bem aventurados os que choram, porque hão de rir.

A reconciliação é a nossa tarefa: Não há mais diferenças entre judeu e grego, entre escravo e homem livre, entre homem e mulher. (Gl 3,28). Aqui na América Latina, não há mais diferença entre dono de terra e boia fria, entre imobiliárias e favelados, entre branco e negro, entre branco e índio, entre civil e militar, entre patrão e empregado, entre homem e mulher. Não que as diferenças existentes sejam negadas  ou esquecidas, mas o que vai acontecer é que elas vão desaparecer. Haverá transformações tais que tudo isso vai desaparecer. Bem sabemos que muitas lutas serão necessárias antes de se chegar a isso. Porque os donos da terra não vão dar a terra sem lutas, porque os patrões não darão participação aos empregados sem lutas, porque os brancos não darão espaço aos negros sem lutas, porque as imobiliárias não darão terra aos favelados sem lutas, porque os civis não submeterão os militares sem lutas, porque os homens não reconhecerão a dignidade da mulher sem lutas. 

A Igreja dará sinais. Por causa dos sinais será acusada de incentivar as lutas em lugar de pregar a reconciliação. Mas ela não se deixará intimidar. A lembrança dos mártires impedirá que se torne covarde diante dos poderosos. Saberá romper com os que querem ser os seus donos. Saberá libertar-se para poder trabalhar pela libertação de todos.