Pe. Waldemir Santana
Estamos vivendo um tempo de intensa experiência religiosa. Essa religiosidade pode ser considerada difusa e confusa, pois não apresenta Jesus Cristo de acordo com a tradição bíblica. Nessa perspectiva, o Jesus histórico vai ficando cada vez mais distante do cotidiano das pessoas, e a tendência mais visível é reduzi-lo a determinadas práticas devocionais, às vezes sem sentido.
Com isso, abre-se espaço para uma subjetivação da fé, que leva, muitas vezes, a pessoa a construir seu próprio mundo religioso a partir de gostos, concepções e preferências subjetivas. Por esse caminho, a religião tende a se reduzir a uma convicção interior, com forte insistência nas dimensões emocional e terapêutica, por meio da busca de curas e de soluções para problemas individuais.
Os movimentos religiosos dentro da Igreja Católica constituem um fenômeno que precisa ser avaliado também em sua dimensão sociológica. Esse fenômeno deve ser entendido a partir daquilo que a modernidade propunha. Sabemos que a modernidade, como processo de racionalização, interpreta as dimensões histórica e utópica. A hipótese fundamental era a de que esse processo histórico levaria à superação da dimensão religiosa.
A tensão existente se estabelece entre dois polos: o mundo cotidiano e o mundo das significações, ou seja, a realidade vivida e a dimensão utópica. É dentro do quadro da modernidade que se tematizam as questões da finalidade e da salvação da vida humana. Nesse enquadramento, a religião emerge como um conjunto de significações ideais, por meio das quais se procura resolver a contradição entre a vida concreta e a esfera dos valores e dos fins.
A religião é um reservatório de significações utópicas. Os novos movimentos religiosos no interior da Igreja Católica e de outras igrejas alimentam-se das contradições internas da própria modernidade. Dentro do processo de secularização, a própria religião procura se rearticular para, assim, poder satisfazer as expectativas das pessoas diante de suas carências.
A finalidade desses movimentos de cunho pentecostal no interior da Igreja Católica é orientar sua mensagem para este mundo moderno, não para transformá-lo substancialmente, mas com o intuito de se ajustar às demandas de determinada parcela social interessada na solução de seus problemas cotidianos e na satisfação de seus desejos.
Nessa perspectiva, oferecem-se aos fiéis bens de fácil acesso, como orações de cura, devoções e mortificações destinadas a sanar infortúnios familiares, afetivos e financeiros e, principalmente, a protegê-los das forças do inimigo, como é chamado o mal.
Esses movimentos expressam com muita clareza aspectos da cultura moderna. Há, nos referidos movimentos religiosos, um individualismo exacerbado, um consumismo doentio de bens simbólicos e um hedonismo sem limites. Todos esses elementos marcam a sociedade contemporânea.
Os movimentos pentecostais no interior da Igreja adquirem certa robustez devido à sua capacidade de ajustamento à mentalidade vigente e à pretensa facilidade com que oferecem soluções para problemas complexos. Esse tipo de postura religiosa funciona mais como um placebo do que como uma proposta séria de seguimento de Jesus.
Diante desse quadro, inquieta-nos saber qual é o papel relevante da teologia nesse contexto de religiosidade confusa. A teologia, enquanto ciência que procura explicitar o conteúdo da revelação para o hoje da história, fica de lado para dar espaço ao pensamento mágico e mítico que se faz presente nesses encontros de efervescência emocional e devocional.
Não é exagero afirmar que a força motriz desse pentecostalismo não está no anúncio do Reino de Deus e de sua justiça, mas na prática das devoções, das mortificações e de cultos, às vezes estéreis. O que é mais chocante nesses movimentos é atribuir ao demônio a fonte de inteligibilidade dos problemas sociais e individuais, como se houvesse uma guerra entre duas forças que estão constantemente se digladiando: a divina e a demoníaca.
Há pregações que podem ser vistas nas redes digitais nas quais se afirma que existem dois reinos: o reino espiritual e o reino material. A guerra espiritual seria necessária porque a presença do demônio estaria em todos os lugares, sendo ele e suas forças os responsáveis por todos os males que afligem a humanidade.
Nessa perspectiva, a responsabilidade pessoal deixa de existir, pois as pessoas passam a ser vistas como vítimas das forças diabólicas. Destarte, nesses movimentos, faz-se necessário combater e vencer o inimigo e seus congêneres para, dessa forma, atestar o próprio poderio espiritual.
No fundo, o que ocorre é uma prática de catarse das pessoas, reatualizando pensamentos e visões duvidosas acerca das forças psíquicas e espirituais. Os grandes problemas sociais estão ausentes desses movimentos pentecostais, mas, por trás dessa alienação social, há uma ideologia religiosa que procura dar sustentação à extrema direita preconizada pelo bolsonarismo.
O que esses movimentos propõem não responde aos anseios específicos da modernidade em sua expressão democrática. Não há anseio de participação democrática nesses grupos, pois as decisões, muitas vezes, são tomadas por um guru que mantém o monopólio do referido movimento.
Os movimentos pentecostais, ainda que a nomenclatura exija algumas mudanças para assegurar sua identidade católica, acentuam alguns traços: a devoção a Nossa Senhora, os sacramentos e o caráter apologético de seu discurso. No imaginário desses movimentos, a Igreja Católica é a única Igreja verdadeira diante das outras religiões.
Destarte, os movimentos neopentecostais católicos oferecem às pessoas fragilizadas em sua identidade comunidades emocionais marcadas por experiências de cura física, êxtase religioso, orações de louvor, manifestações festivas da fé, concentrações de massa etc.
Como se dá a participação política dos referidos movimentos? Muitos procuram ocupar cargos políticos com a intenção clara de legislar em nome do movimento, da Igreja e de Deus, na perspectiva de uma ética individualista em que a conversão individual é condição para a atuação no campo social e político.
Um membro da comunidade Canção Nova legisla em torno de causas obscuras. Seu nome é citado em situações pouco republicanas. A política, na concepção desses movimentos, é considerada uma luta unicamente moral, sem que se tenham em conta os elementos sistêmicos da própria política que marcam as relações entre as pessoas na sociedade.
Diante do que foi exposto, podemos dizer que essa religiosidade, dentro do quadro cultural vigente, é uma religiosidade sem Deus, pois tudo se dilui no imanente. A religião transforma-se em uma terapia diante de um processo histórico injusto e violento.
O padre João Batista Libânio já nos alertava: “A religião pode transformar-se numa ilha da fantasia, pois as pessoas podem encontrar conforto nas longas orações coletivas em busca de terapia e cura corporal e espiritual, o que o sistema não oferece, sem precisar combatê-lo”.
A religião transformou-se em um meio de resolução de problemas, e não em uma relação com Deus. Precisamos retornar ao Jesus histórico.
Pe. Waldemir Santana
Arquidiocese da Paraíba

