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Eduardo Hoornaert

Estamos acostumados a ver Helder Câmara isoladamente ‘no topo da montanha’, seguro de si, pronunciando palavras contundentes, sem ninguém ao seu lado. Ao mesmo tempo em que pouco se fala na sua escalada da montanha, nas dificuldades da subida, nos caminhos equivocados, na penosa, longa, extenuante e perigosa caminhada, particularmente entre 1931 e 1943, tampouco se comenta pouco que, após a morte do Cardeal Leme (uma libertação), ele se engaja uma ‘equipe de vida’ com mulheres da sociedade carioca e que isso constitui uma novidade absoluta em termos de comportamento episcopal.

Conto a história em pormenores.

 

Um círculo de leitores e leitoras?

 

A partir de 1943, Helder se torna um leitor assíduo. É por meio de leituras que ele toma conhecimento dos pensamentos que agitam a época. Isso já vem de antes, mas em 1936, chegando à Capital da República, o padre cearense mergulha num ambiente em que as palpitações políticas e culturais são bem mais acentuadas que em Fortaleza.

Em seu livro pioneiro ‘O Dom da Leitura. Helder Câmara e suas bibliotecas’ (São Paulo, Paulinas, 2018), a historiadora pernambucana Lucy Pina Neta revela um Helder leitor apaixonado e intelectual autêntico. Num estudo pioneiro, Pina Neta revela aspectos da personalidade de Helder que não aparecem na maioria das biografias, quase exclusivamente concentradas em torno do tema da ‘profecia’. Ora, durante largos períodos de sua vida, principalmente a partir do início dos anos 1940, Helder é um leitor ‘contagiante’, um intelectual.

Nesses anos, Helder, sempre interessado em fazer circular ideias novas, pensa num ‘círculo de leitores’, mas o sucesso é muito limitado. Se comunica com Alceu Amoroso Lima, do ‘Círculo Dom Vital’. Mas, pelo que nos revela Lucy Pina Neta, o Padre Helder só encontra uma ressonância intelectual mais estável na pessoa de Virgínia Côrtes de Lacerda (Lucy, pp. 33-37 e 113), que ele encontra diariamente por ocasião da missa no Hospital Ana Nery e com a qual troca livros para leitura. Virgínia observa com curiosidade as numerosas anotações que aparecem nas margens de livros que Helder lhe entrega. Por conta própria, ele datilografa e manda encadernar essas anotações. Depois, quando Helder já é Bispo auxiliar no Rio de Janeiro, ela passa os textos reunidos para Cecília Monteiro, a secretária particular do bispo e, desse modo, o acervo fica preservado até hoje. Virgínia é a primeira que descobre o valor desses textos, muitos deles redigidos em forma de poemas de valor literário. Hoje se contam aproximadamente sete mil poemas da autoria de Helder Câmara, muitos nunca editados.

 

Finalmente um círculo feminino.

 

Já escrevi que, nos primeiros anos no Rio de Janeiro, Helder se vê metido num emaranhado de influências, opiniões, pros e contras, avanços e retrocessos, democracia ou autoridade, desenvolvimento ou atraso. Ele não sabe por onde se virar. Mas inesperadamente, sem planejamento anterior, simplesmente na sucessão dos dias, ele mesmo passa por uma real experiência democrática. Com isso firma pé no chão.

Como é costume na pastoral católico, um grupo de jovens mulheres da sociedade carioca passa a auxiliá-lo, já a partir de 1943, quando ele ainda é ‘padre raso’, e continua com ele depois de sua nomeação como Bispo Auxiliar em 1952. Sacerdotes ou bispos assessorados por mulheres é algo comum na igreja católica. Pouco se fala dos aspectos negativos desse tipo de colaboração. Muitas dessas mulheres costumam anular suas personalidades para conseguir alguma coisa num universo dominado por homens ciosos de seu poder. Muitas vezes inteligentes e competentes, elas abdicam frequentemente de seu modo de ver as coisas e de reagir, por ‘amor a Deus e à igreja’. Historicamente, são elas que mantêm a igreja em pé e constroem pacientemente as bases do poder clerical junto ao povo. Mas têm de suportar que, frequentemente, o clero as trate de forma infantil ou paternal (duas modalidades do mesmo comportamento). Enquanto entregam o melhor de si para a igreja, não costumam falar de humilhações ocultas e quase invisíveis. De seu lado, o clero cultiva o hábito perverso de humilhar mulheres que não se dobram ao seu poder e não se deixam clericalizar.

Aqui se mostra o real valor de pessoas como Helder Câmara. Imbuído de ideias democráticas recentemente adquiridas por leituras e contatos, ele passa a trocar opiniões com suas colaboradoras, discute com elas como agir, reserva momentos de espiritualidade (uma manhã de domingo a cada mês) e até assiste com uma ou outra entre elas a uma peça de teatro ou um filme que está em cartaz. Eventualmente comenta com a ‘Família’ o referido filme ou peça teatral. Enfim, ele forma uma ‘equipe de vida’ com mulheres, algo realmente novo na igreja católica, sobretudo em se tratar de um bispo. Como ele não se comporta como quem manda, suas colaboradoras não se sentem meras ‘executivas’.

Como escrevi acima, tudo nasce da intenção de se formar um ‘círculo de leitores’, mas, como realça Lucy Pina Neta, só uma das moças, Virgínia Côrtes de Lacerda, se mostra disposta a engajar-se num intercâmbio de tipo intelectual. Finalmente, é em torno de temas pastorais que se forma um grupo democrático que resiste ao tempo e recebe, ao correr do tempo, diversos nomes: Grupo Confiança, Família São Joaquim, Apostolado Oculto, Família Messejanense. A ‘Família’ o acompanha, com simpatia e num espírito comunitário, ao longo dos anos, mesmo depois de sua transferência para o Recife. Alguns nomes, como Cecília Monteiro, Marina Bandeira e Aglaia Peixoto, fazem definitivamente parte da biografia do Bispo.

A ‘Família Messejanense’, da qual os primeiros traços começam a aparecer no ano 1943, significa para Helder a superação do universo teórico de leituras e discussões em torno dos grandes problemas da humanidade, e a entrada na vida real. Pois ele se encontra com mulheres que dizem o que pensam e, inteligentes, sabem aproveitar do espaço que o ‘padrezinho’ lhes oferece para mexer profundamente, por vezes decisivamente, em assuntos de igreja. Isso é totalmente novo e constitui uma das iniciativas talvez mais importantes e menos conhecidas, tomadas por Helder Câmara durante sua vida.

 

Mulheres instaladas no Palácio Arquiepiscopal.

 

O círculo feminino demonstra sua potencialidade plena em 1947, quando Helder é solicitado para reorganizar, em nível nacional, o movimento da Ação Católica. Diante de seus colegas bispos, ele põe como condição que sua ‘Família’ possa colaborar na elaboração do projeto. Assim, uma equipe feminina se instala no sacrossanto Palácio São Joaquim, uma das fortalezas do domínio masculino sobre a igreja e Centro Pastoral da Arquidiocese de Rio de Janeiro. Unida e competente, ao tomar conta do Palácio, ela imprime seriedade e eficiência aos trabalhos.

Por causa do empenho inteligente e competente dessas mulheres, as providências no sentido de reorganizar a pastoral católica começam a correr bem e se sucedem num ritmo rápido: primeiramente a reorganização nacional da Ação Católica, depois as articulações preparativas à criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e, alguns anos depois, a criação do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM). Tudo num lapso de quinze anos.

Os trabalhos com a centralização da Ação Católica vão de 1947 a 1962. Neles, se Helder aparece como hábil articulador, são as mulheres que lhe dão uma assessoria indispensável. Se ele consegue integrar, num nível nacional, as atividades muitas vezes desarticuladas de militantes espalhadas pelo país e, ao criar um Secretariado Nacional, libertar esses militantes da tutela exclusiva de bispos locais, é porque tem atrás de si o trabalho de sua equipe que apresenta sugestões concretas. Não é pouca coisa, pois, superando isolamento e particularização num país imenso como o Brasil, a centralização da Ação Católica se torna um modelo em termos de organização do corpo católico como um todo, inclusive internacionalmente. Nomeado Bispo em 1952, Helder repete a experiência da Ação Católica e consegue com os bispos uma igual centralização de projetos pastorais, por meio da criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), no mesmo ano. No ano anterior, ainda ‘simples padre’, ele viajara a Roma para articular juridicamente esse novo modelo de ‘pastoral de conjunto’ com o então Secretário de Estado do Papa Pio XII, Monsenhor Montini, o futuro papa Paulo VI. Em 1952, então, e por unanimidade, ele é aclamado primeiro Secretário Geral da CNBB. Três anos depois, em 1955, é a vez do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), criado dentro do clima de euforia criado pelo sucesso do XXXVI Congresso Eucarístico Internacional, uma façanha que revelou o Brasil católico aos olhos do mundo, reconhecidamente por causa do talento organizatório do Bispo Helder Câmara. Por causa de realizações de tamanha importância em tão pouco tempo, ele Câmara se projeta como líder de estatura nacional e mesmo internacional, além de alcançar uma liderança fora do comum dentro da própria Arquidiocese do Rio de Janeiro. Quem aparece sempre é Helder Câmara, mas quem confere solidez ao que ele faz, são as mulheres da ‘Família’.

Não se pense, contudo, que novas estruturas episcopais como a CNBB e o CELAM venham com propósitos revolucionários. Como reza o primeiro artigo dos Estatutos da CNBB: ‘o objetivo da entidade consiste em estudar e discutir problemas da competência do episcopado e de interesse comum’ (veja a biografia de Piletti, p. 197). Uma proposta vaga, até ‘insossa’. Aqui se revela um Helder diplomata. Primeiro organizar, unificar. Só depois, eventualmente, direcionar. Enfim, a recém-criada organização episcopal unificadora está diante de um catolicismo que por mais de 90 % consiste na repetição de ritos (batizados, casamentos, páscoas, devoções, procissões, romarias, promessas, terços, meses de Maria, missões). Um catolicismo de massas, de pouca articulação em grupos, que apregoa as virtudes de subserviência, obediência, conformidade, paciência, fé em Deus e respeito pelas autoridades. Mais tarde, ao se referir a esse tipo de catolicismo, Helder falará em paz dos cemitérios.

Enfim, nos primeiros anos, A CNBB e o CELAM nada mais fazem que seguir o ditame: a união faz a força. Não se explicita um direcionamento. Uma indefinição que revela, afinal, o ‘modus operandi’ típico do articulador Helder Câmara, que, como todo bom político, costuma se mostrar prudente na formulação de objetivos e não explicita de vez a virtual carga política de um projeto, principalmente em se tratar de um projeto que mexe com o episcopado católico. Em suas falas, Helder exalta o princípio do consenso e da unificação. Não costuma explicitar para que finalidade esse consenso eventualmente sirva. Só por volta do ano 1975, nos tempos sofridos da perseguição política, ele mostra a insuficiência do princípio do consenso e aponta ações minoritárias. Mas isso é conversa para outro texto.

 

As Cartas Circulares.

 

Para terminar este comentário acerca da importância do círculo feminino no percurso de vida de Helder Câmara, não posso deixar de lembrar aqui que é basicamente em função desse círculo que ele passa a produzir uma volumosa literatura epistolar. Uma literatura que ainda será lida ‘daqui a mil anos’, como falou José Comblin. Efetivamente, marcada por um caráter a-temporal (e isso a aproxima da grande literatura imortal), e girando em torno de temas que afetam a humanidade como um todo, para além dos locais concretos e das circunstâncias passageiras, essa literatura veio para ficar.

A ideia das Cartas Circulares lhe veio em 1962, quando ele, na qualidade de Bispo Auxiliar no Rio de Janeiro, viaja a Roma para participar do Concílio Vaticano Segundo e se sente desligado de sua Família. Desde o início daquele Concílio, ele envia diariamente uma ‘Carta Circular’ a essa Família no Brasil. Hoje, do total de 2.122 Cartas Circulares, 13 Tomos (1964-1969) já foram impressos e editados pela Editora Oficial do Estado de Pernambuco, enquanto outros (1970-1975), digitados, aguardam impressão em papel. As cartas, em forma manuscrita, passam de mão em mão, não só no Rio, mas depois de 1964 igualmente em Recife. Com o tempo, o grupo de leitoras (e, inclusive, leitores) se alarga. Pois, com o desenrolar do Concílio em Roma, o interesse cresce. Muitos mostram-se interessados em acompanhar as peripécias e as reflexões, sempre profundas e originais, de Helder Câmara. A partir do que leu numa Carta Conciliar da terceira Sessão do Concílio, Luiz Carlos Marques, o editor dos primeiros três Tomos das referidas Cartas, lembra que a razão principal das Circulares consiste ‘no cuidado com a família’. Numa ocasião, questionado se o fato de escrever e enviar essas Cartas com tanta assiduidade não lhe estaria roubando um tempo que poderia dedicar a tarefas ‘mais importantes’, Helder reponde resolutamente: Confesso que não tenho nem sombra de remorso. Creio na comunhão dos santos. Se a família caminhar na caridade, unir-se sempre mais a Cristo, louvando o Pai e ajudando os homens, então, cuidar da família é cuidar da FAMÍLIA, isto é, é cuidar de todos os homens de todos os lugares e de todos os tempos (Circular de 17/18 de outubro de 1964).

Na véspera de uma audiência privada com Papa Paulo VI, ele escreve, na mesma linha:Peço a José (seu anjo de guarda) que me acompanhe. Peço a nosso Irmão Jesus Cristo, um pouco como recompensa da fidelidade absoluta destes dias tensos, que mais do que nunca sejamos um. Que Ele não me deixe dizer ao Papa nenhuma palavra meramente minha, nenhuma palavra que não seja nossa, ou, mais precisamente, d’Ele através dos meus lábios humanos... E me sentirei acompanhado daí por vocês.

A certeza de, estando em Roma, ser acompanhado por José e por gente no Brasil, traz ânimo e conforto ao Bispo. A Família está presente, lhe dá segurança, reza por ele. Uma companhia em todos os momentos, principalmente nos momentos tensos. As mulheres da Família Messejanense são os anjos de guarda de Helder Câmara.

 

Um testemunho.

 

Termino com o testemunho de Marina Bandeira, feito em 1955, por ocasião do Congresso Eucarístico Internacional. Participante da Família Messejanense e colaboradora na Comissão Nacional de Justiça e Paz, órgão da CNBB, Marina conhece Helder Câmara de perto. Daí a importância de suas palavras.

‘Por intermédio de Dom José Vicente Távora conheci Dom Helder em 1954, ambos Bispos Auxiliares do Rio de Janeiro. Dom Helder era responsável pela organização do Congresso Eucarístico Internacional, a realizar-se no Rio de Janeiro, em julho de 1955. Aceitei secretariar Dom Távora nos contatos com os meios de comunicação, numa sala ao lado da de Dom Helder, sempre de portas abertas. Só a profunda fé, a radical confiança na Divina Providência, explicam a energia, a capacidade de trabalho daquela figura franzina, quase doentia, que permitiu o êxito da monumental empreitada.

Eu soube que em 1952, o então Padre Helder, assistente da Ação Católica Brasileira, com a ajuda desse laicato, idealizara a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB, oficializada naquela data pela Santa Sé e aprovada. Soube também que a iniciativa se multiplicou em todos os continentes.

A força espiritual, moral e até física de Dom Helder era alimentada pela Missa diária, às seis da manhã, e com meditações de madrugada. Mensalmente, aos domingos pela manhã, pregava um pequeno retiro para sua equipe, da qual eu já fazia parte.

Dom Helder era não-violento por natureza, incapaz de rancor. Na década de 1960, anos da paranoia anticomunista: ‘ou se é comunista ou anticomunista’, independente, continuou a falar pelos ‘sem voz e sem vez’. Foi presença forte no Concílio Vaticano II ao encaminhar e ver aprovadas na Basílica de São Pedro, propostas arejadas que debatera em grupos de trabalho formais e informais. A voz de Dom Helder repercutiu em todos os continentes, sua presença era exigida por muitos, tanto no Brasil, quanto no exterior’.

 

Eis uma das surpresas que a leitura da biografia de Helder Câmara nos reserva: a surpresa feminina.